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Em 1666, um vilarejo inglês se trancou para não espalhar a peste. Uma mulher enterrou 7 parentes em 8 dias

Eyam virou símbolo de sacrifício coletivo. Um estudo de 2016 mediu como a peste se espalhou lá dentro — e o resultado muda o sentido do que aqueles moradores fizeram.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Vista do vilarejo de Eyam, em Derbyshire, na Inglaterra, com casas de pedra e colinas verdes do Peak District ao fundo.
Peter Mackenzie, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 2.0

Em 1665, um fardo de tecido vindo de Londres chegou ao vilarejo de Eyam, em Derbyshire, no interior da Inglaterra. Estava úmido e infestado de pulgas. O assistente do alfaiate o abriu para secar e morreu em poucos dias.

No ano seguinte, com a peste instalada, os moradores tomaram uma decisão que os tornaria famosos: fecharam o vilarejo por dentro, e ninguém saiu.

O fardo

Eyam era uma comunidade de mineração de chumbo no que hoje é o Parque Nacional do Peak District. O tecido tinha sido encomendado por Alexander Hadfield, o alfaiate local. Quem abriu o pacote foi seu assistente, George Viccars.

Ele morreu logo. Depois, mais gente da mesma casa. Depois, os vizinhos.

Londres vivia naquele ano a Grande Peste, e o fardo trouxe consigo o que a cidade tinha de pior.

A decisão

Conforme a doença avançava, os moradores se voltaram para duas lideranças religiosas que, em circunstâncias normais, estariam em lados opostos: o reitor anglicano William Mompesson e o ministro puritano Thomas Stanley, expulso do cargo pela restauração da monarquia.

A partir de maio de 1666, os dois introduziram um conjunto de medidas:

  • As famílias passaram a enterrar seus próprios mortos, em vez de usar o cemitério comunal.
  • Os cultos foram transferidos para Cucklett Delph, um anfiteatro natural ao ar livre, onde as pessoas podiam se manter afastadas umas das outras.
  • E a mais conhecida: o vilarejo inteiro entrou em quarentena voluntária, para impedir que a doença chegasse às comunidades vizinhas.

O abastecimento funcionava por um sistema que ainda hoje se pode ver. Comerciantes das aldeias ao redor deixavam mantimentos em pedras marcadas nos limites do vilarejo. Os moradores de Eyam abriam furos nessas pedras e os enchiam de vinagre, para desinfetar as moedas que deixavam como pagamento.

Ninguém encostava em ninguém. O dinheiro ficava de molho.

Quatorze meses

A peste correu por cerca de catorze meses.

O número de mortos foi por muito tempo objeto de disputa. O registro da igreja de Eyam lista 273 vítimas. A versão tradicional — pelo menos 260 mortos e só 83 sobreviventes numa população de 350 — implica uma letalidade brutal, acima de 70%.

Os dados não sustentam isso. O estudo de 2016 que reconstruiu os registros paroquiais contou 689 pessoas em risco, 257 mortas (37%) e 432 sobreviventes.

A diferença não é detalhe. Ela muda a história de "quase todos morreram" para "morreu pouco mais de um terço", o que ainda é catastrófico e é bem diferente.

O que chama atenção nos registros é como a sobrevivência parecia arbitrária. Elizabeth Hancock não foi infectada, apesar de ter enterrado seis filhos e o marido em oito dias — as sepulturas são conhecidas como Riley Graves, nome da fazenda onde a família vivia. Marshall Howe, o coveiro não oficial do vilarejo, manuseou dezenas de corpos infectados e sobreviveu.

O detalhe que amarra tudo

Por três séculos, ninguém sabia se aquele sacrifício tinha servido para alguma coisa. Ainda não sabe.

Havia quem dissesse que não. Charles Creighton, em sua History of Epidemics in Britain (1891), aceitou os fatos mas questionou a sabedoria da decisão: para ele, os moradores de Eyam foram "sacrificados a uma ideia, e a uma ideia que hoje podemos dizer que não era cientificamente sólida". No entender dele, deveriam ter fugido, desde que dispersos e sem levar objetos contaminados.

Em 2016, os pesquisadores Lilith Whittles e Xavier Didelot reconstruíram o surto a partir dos registros paroquiais de Eyam — que são excepcionalmente detalhados para a época — com modelagem epidemiológica moderna. Vale ser preciso sobre o que eles mediram e o que não mediram.

Eles não testaram se a quarentena funcionou. Partiram dela como premissa, tratando o vilarejo como população fechada, e registraram sem rodeios a leitura oposta que circula entre historiadores: a de que a quarentena "prolongou a epidemia e agravou o número de mortos".

O que mediram foi outra coisa, e é mais interessante. Três quartos das infecções foram de pessoa para pessoa; só um quarto veio de roedores. A imagem clássica da peste como doença de pulga de rato não explica Eyam. E a força de infecção era muito maior dentro de uma mesma casa do que entre casas — a peste corria pela família antes de correr pela rua. Pobreza aumentava o risco; ser adulto o diminuía.

Junte as duas coisas e o sacrifício muda de sentido. Os moradores de Eyam não se trancaram para se proteger do que vinha de fora: trancaram uma doença que passava de pessoa para pessoa dentro do vilarejo, e ficaram lá dentro com ela. Se o isolamento poupou as aldeias vizinhas, ninguém provou. O que os dados mostram é o que ele custou a quem ficou.

E há um detalhe adicional, mais especulativo: um estudo de 2000 liderado por Stephen O'Brien sugeriu que uma mutação genética humana, a CCR5-Δ32 — a mesma que confere resistência ao HIV —, pode ter ajudado os sobreviventes de Eyam. Descendentes da região apresentam uma frequência da mutação acima da média. Nas palavras do estudo, "a época é certa, os números são certos". Não é conclusão fechada, mas é uma hipótese séria sobre por que a sobrevivência ali parecia tão aleatória.

A ressalva que a matéria honesta precisa ter

Um estudo de 2005 sobre a história de Eyam como história faz uma objeção desconfortável: boa parte do relato seria uma construção literária, montada muito depois dos fatos.

O argumento tem base. Registro contemporâneo do episódio é raro e frequentemente enviesado por disputa política ou religiosa. A partir do início do século XIX, os relatos românticos e sentimentais sobre Eyam foram produzidos "em larga medida por poetas, escritores e historiadores locais — não por médicos". A comemoração do bicentenário, em 1866, repetida anualmente desde então, é apontada como o começo de uma "tradição inventada" que sustenta hoje uma indústria de turismo de peste num vilarejo cuja economia original desapareceu.

Isso não anula o surto, que está nos registros paroquiais, nem o resultado do estudo de 2016. Mas convém separar as duas camadas: houve uma peste, houve um isolamento, e o que ele evitou ninguém mediu — e, em cima disso, foi construída ao longo de dois séculos uma narrativa heroica cujos detalhes mais comoventes nem sempre têm lastro documental.

As duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo. Normalmente são.

Eyam decidiu de dentro o que quase sempre é imposto de fora. Para outro caso de comunidade inteira tomada por um fenômeno coletivo que ninguém conseguia explicar, há a epidemia de dança de Estrasburgo, em 1518 — e, para o momento em que a medicina finalmente entendeu que a transmissão passava pelas mãos de quem cuidava, a história de Ignaz Semmelweis.

Fontes

  1. Epidemiological analysis of the Eyam plague outbreak of 1665-1666 (2016), Whittles & Didelot, Proceedings of the Royal Society B 283(1830)
  2. Epidemiological analysis of the Eyam plague outbreak — texto integral, PubMed Central
  3. Eyam Museum, Museu de Eyam, Derbyshire

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Perguntas frequentes

Quantas pessoas morreram na peste de Eyam?
O estudo de 2016 que reanalisou os registros paroquiais contou 689 pessoas em risco, das quais 257 morreram (37%) e 432 sobreviveram. O registro da igreja lista 273 vítimas. A versão tradicional, de 260 mortos e apenas 83 sobreviventes numa população de 350, não se sustenta nos dados.
Como a peste chegou ao vilarejo?
Em 1665, um fardo de tecido infestado de pulgas chegou de Londres para Alexander Hadfield, o alfaiate local. O assistente dele, George Viccars, notou que o pano estava úmido e o abriu para secar. Morreu pouco depois, e as mortes seguiram na mesma casa.
O isolamento de Eyam funcionou?
Não há prova disso, e a análise de 2016 não testou essa pergunta: partiu da quarentena como premissa e mediu como a peste circulava dentro do vilarejo. O próprio artigo registra a hipótese, defendida por alguns historiadores, de que a quarentena prolongou a epidemia e aumentou o número de mortos. O que os dados mostram é que três quartos das infecções foram de pessoa para pessoa, concentradas dentro das casas.
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