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Zumbi morreu em 20 de novembro de 1695 e sua cabeça foi exposta no Recife. Quase tudo o que se sabe dele vem de documentos escritos por inimigos, e não há retrato

Os registros coloniais citam Zumbi em poucos documentos, e nenhum traz o rosto ou a voz dele. Sobre a pergunta mais digitada, se tinha escravos, historiadores dão respostas diferentes. Aqui, quem diz o quê.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Dezenas de pessoas vestidas de branco, muitas de turbante, reunidas à beira de um riacho em meio à mata, com flores e cestos no chão e o reflexo delas na água.
Ministério da Cultura, via Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Em 30 segundos

  • Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, e a data virou o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra (Lei 12.519, de 2011), feriado nacional desde a Lei 14.759, de 2023.
  • Não há retrato dele feito em vida, e os registros que restam foram produzidos por autoridades coloniais, não por quilombolas.
  • Segundo a historiadora Silvia Hunold Lara, Zumbi aparece na documentação como liderança importante a partir de 1680-1682; o acordo de paz de 1678 foi feito com Gana Zumba.
  • Sobre ele ter escravos, Lara diz que não há registros documentais e que a pergunta não é de sim ou não; Leandro Narloch e Marco Antonio Villa afirmam que havia escravidão em Palmares.

Zumbi foi morto em 20 de novembro de 1695, e é por isso que 20 de novembro é o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, feriado nacional desde 2023. Sobre o homem em si, porém, os documentos dizem pouco: não há retrato dele feito em vida, e praticamente tudo o que sobrou foi escrito por autoridades coloniais.

Dois pontos, portanto, convém separar desde já: o que está documentado e o que a memória acrescentou depois.

O que os documentos coloniais registram

Palmares não foi um lugar único. Segundo Silvia Hunold Lara, historiadora da Unicamp, o que se chama de Quilombo dos Palmares eram vários agrupamentos que, no século 17, se chamavam mocambos. Os registros vão de 1603 e 1610 até 1714. A palavra “quilombo”, diz ela, só aparece referida a Palmares numa certidão de 1680.

Os documentos mostram a liderança de Gana Zumba na década de 1670. Em 1678, ele firmou um acordo de paz com o governador de Pernambuco. A parte de Palmares que o aceitou mudou-se para Cucaú. Em menos de dois anos, Gana Zumba foi assassinado, e Cucaú, destruída. Os dissidentes, liderados por Zumbi, refugiaram-se na Serra da Barriga.

Zumbi, segundo Lara, aparece na documentação como liderança política e militar importante a partir de 1680-1682. A cerca da Barriga foi destruída em fevereiro de 1694, e em novembro de 1695 ele foi morto.

Palmares nos registros

  1. 1603 e 1610Primeiros registros de mocambos, segundo Lara.
  2. 1678Acordo de paz entre o governador de Pernambuco e Gana Zumba.
  3. 1680-1682Zumbi começa a aparecer como liderança, segundo Lara.
  4. Fevereiro de 1694Destruída a cerca da Serra da Barriga.
  5. 20 de novembro de 1695Zumbi é morto; a cabeça é exposta no Recife.
  6. 1714Últimos registros de mocambos.

O nome, aliás, varia. Segundo Lara e o filólogo Phablo Fachin, o correto seria Gana Zumba, e não “Ganga Zumba”: o copista do século 19 que transcreveu o manuscrito de 1678 não teria entendido a grafia da época.

A morte e a cabeça exposta no Recife

Segundo a Pesquisa FAPESP, Zumbi foi assassinado em 1695 por uma tropa comandada por André Furtado de Mendonça. A exposição exibida pela Câmara dos Deputados atribui a morte a bandeirantes e diz que a cabeça foi exposta numa praça central do Recife.

Segundo a Gazeta do Povo, a cabeça foi exposta em público para marcar a vitória das autoridades coloniais e intimidar novos focos de rebeldia.

Houve outras versões. Até o início dos anos 1960, diz o historiador Flávio Gomes, a historiografia afirmava que Zumbi e outros se atiraram dos penhascos da Serra da Barriga em 1694. “Na verdade, o Zumbi escapa”, diz Lara. “Mas muita gente despenca tentando fugir.”

Sem retrato e sem voz própria

O curador Audálio Dantas diz que os europeus que vieram ao Brasil não fizeram registros de Zumbi: “O que vemos em livros são figuras atribuídas a ele”. O quadro mais conhecido, de Antônio Parreiras, é de 1927: uma representação posterior, como o Independência ou Morte, que Pedro Américo pintou 66 anos depois do episódio.

Pintura de um homem negro de pé em meio à mata, de camisa rosa, calção vermelho e lenço amarelo na cabeça, apoiado num bastão, ao lado de uma pedra clara.
Ilustração. Zumbi, óleo de Antônio Parreiras, de 1927. É uma imaginação de artista, feita mais de dois séculos depois, e não um retrato. Imagem: Antônio Parreiras, via Wikimedia Commons · Domínio público

Na Gazeta do Povo, o jornalista Laurentino Gomes afirma que não existe um único testemunho dos quilombolas. Os historiadores Jean Marcel Carvalho França e Ricardo Alexandre Ferreira, da Unesp, dizem no livro Três Vezes Zumbi que não se pode escrever uma biografia completa dele. Narloch fala em cinco ou seis documentos da época que citam Zumbi, sem traços de personalidade.

“Zumbi tinha escravos?”: o que cada historiador diz

É uma das buscas que o Google sugere junto ao nome dele, e a resposta honesta é que os documentos não decidem. As posições, uma a uma:

Quem diz o quê sobre escravidão em Palmares

Em cada item, primeiro: historiador. Depois: o que afirma.

Silvia Hunold Lara (Unicamp)
“Não há registros documentais”, mas é possível que formas africanas de escravização tenham sido revividas nos mocambos. A pergunta, diz, não é de sim ou não e não pode ser ideologizada. Diz também que havia uma elite com privilégios em torno dos líderes.
Leandro Narloch (jornalista)
“Na falta de dados, o mais seguro é acreditar que Zumbi, como quase todo líder de origem africana da época, tinha escravos.” Cita relatos de capitães holandeses.
Marco Antonio Villa (historiador)
“Um quilombo era uma forma de governo monárquica e onde havia escravidão.”
Jahi Cezar da Silva (UFRJ)
As duas visões em disputa, a do símbolo da liberdade e a do escravista, estão “muito carregadas de disputas políticas recentes”.

Lara acrescenta que a escravidão dos europeus nas Américas era comercial e perpétua, e que na África Central havia graus de dependência. Os fugitivos de Palmares, diz, buscavam sobreviver, não produzir riqueza. Narloch conclui que ter possuído escravos não faz de Zumbi um vilão, “apenas um personagem de sua época”. Os dois lados admitem a falta de documentos; a divergência é sobre o que concluir a partir dela.

Os números de Palmares também divergem. O IPHAN fala em cerca de 30 mil pessoas; a Agência FAPESP, em nove mocambos que chegaram a abrigar cerca de 11 mil habitantes, “de acordo com algumas fontes”.

O nome “Francisco” e a história que ninguém achou

O jornalista Décio Freitas afirmou que Zumbi fora criado até os 15 anos por um padre de Porto Calvo, que lhe ensinou latim e o batizou Francisco, segundo o Sesc. Para França e Ferreira, a história é “pura fantasia”, baseada em cartas que nunca foram vistas. Mesmo assim, a Lei nº 9.315, de 1996, inscreve no Livro dos Heróis da Pátria o nome “Zumbi dos Palmares (Francisco)”.

Detalhe de mapa antigo em tons de bege, com a costa à direita, nomes de vilas em letra manuscrita e, à esquerda, a inscrição Os Palmares entre serras desenhadas.
Detalhe da carta topográfica de José Gonçalves da Fonseca, de 1766, em que aparece “Os Palmares”. Segundo Lara, é a única exceção que ela conhece à ausência de Palmares nos mapas dos séculos 17 e 18. Imagem: José Gonçalves da Fonseca, via Wikimedia Commons · Domínio público

Palmares, aliás, ficou fora dos mapas da época. Lara escreve que os mocambos não aparecem nos mapas holandeses do século 17 nem nos poucos feitos pela administração portuguesa.

Como 20 de novembro virou feriado

Foi o movimento negro que escolheu a data. Segundo a Pesquisa FAPESP, o Grupo Palmares, fundado em 1971 em Porto Alegre, propôs o 20 de novembro como Dia do Negro, em oposição ao 13 de maio. Em 1978, o Movimento Negro Unificado o rebatizou como Dia Nacional da Consciência Negra.

A Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, instituiu o dia, “data do falecimento do líder negro Zumbi dos Palmares”. A Lei nº 14.759, de 21 de dezembro de 2023, declarou o 20 de novembro feriado nacional. Na Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), a data é celebrada todos os anos. O IPHAN inscreveu o sítio nos Livros do Tombo em 1986. Lara registra que o pedido foi homologado em 20 de novembro de 1985 e que a Serra virou Monumento Nacional três anos depois: as fontes divergem em um ano.

Morro coberto de mata verde com palmeiras no alto, atrás de um pasto com cerca de madeira, sob céu cinzento.
A Serra da Barriga, em União dos Palmares (AL), em foto de 2017. O IPHAN registra ali o sítio arqueológico do Quilombo dos Palmares. Imagem: Mirla Dâmaso, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Outro episódio brasileiro de revolta contra o castigo físico, já no século 20, é a Revolta da Chibata.

Fontes

  1. Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  2. Lei nº 14.759, de 21 de dezembro de 2023 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  3. Lei nº 9.315, de 20 de novembro de 1996 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  4. O território dos Palmares: cartografia, história e política (2021), Silvia Hunold Lara, Afro-Ásia n. 64 (UFBA)
  5. Documentos originais revelam novos aspectos da história de Palmares (2022), Pesquisa FAPESP, edição 323
  6. História de Palmares ganha nova cronologia com análise de fontes originais (2013), Frances Jones, Agência FAPESP
  7. Existiu escravidão em Palmares? Historiadora explica equívocos sobre tema (2023), Brasil de Fato, entrevista com Silvia Hunold Lara
  8. O que sabemos sobre Zumbi dos Palmares (2025), Omar Godoy, Gazeta do Povo
  9. Herói sem rosto (2015), Sesc São Paulo
  10. Sítio Arqueológico Quilombo dos Palmares, Serra da Barriga, IPHAN, Superintendência em Alagoas
  11. Zumbi e a Consciência Negra (exposição, 2018), Centro Cultural Câmara dos Deputados

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Perguntas frequentes

Zumbi dos Palmares tinha escravos?
Os historiadores divergem. Silvia Hunold Lara, da Unicamp, diz que não há registros documentais, que é possível que formas de escravização africana tenham sido revividas nos mocambos e que a questão não se resolve com sim ou não. Leandro Narloch afirma que o mais seguro é acreditar que ele tinha escravos, e Marco Antonio Villa diz que um quilombo era uma forma de governo monárquica em que havia escravidão.
Quando e como Zumbi morreu?
Em 20 de novembro de 1695, assassinado por uma tropa comandada por André Furtado de Mendonça, segundo Silvia Hunold Lara; a Câmara dos Deputados fala em bandeirantes. A cabeça foi exposta em praça pública no Recife, para marcar a vitória das autoridades coloniais, segundo a Gazeta do Povo.
Existe retrato de Zumbi?
Não há imagem de Zumbi feita em vida. O curador Audálio Dantas afirma que os artistas europeus da época não fizeram registros dele e que o que se vê em livros são figuras atribuídas a ele. O quadro mais conhecido, de Antônio Parreiras, é de 1927.
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