Pular para o conteúdo

Pedro Américo pintou o grito do Ipiranga 66 anos depois, em Florença. E explicou por escrito o que mudou de propósito

O quadro Independência ou Morte ficou pronto em 1888. No mesmo ano, o pintor publicou um texto admitindo que deslocou o riacho e escondeu o mal-estar do príncipe. As testemunhas de 1822 descrevem ainda uma mula, roupa de viagem e outro terreno.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Pintura panorâmica: no alto de uma colina, um homem a cavalo ergue a espada cercado por cavaleiros que acenam com chapéus; à direita, soldados de uniforme branco e capacete com crina galopam erguendo sabres; à esquerda, um homem descalço de chapéu de palha conduz um carro de bois.
Pedro Américo, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Pedro Américo assinou o contrato do quadro em 14 de janeiro de 1886 e o terminou em Florença em 1888, 66 anos depois do episódio do Ipiranga.
  • Num texto publicado em 1888, o pintor escreveu que "a realidade inspira, e não escraviza o pintor" e admitiu ter deslocado o riacho e omitido o mal-estar de dom Pedro.
  • Das testemunhas que descreveram a montaria, duas falam em besta baia, sinônimo de mula; a terceira, em égua gateada, que estudiosos interpretam como mula.
  • A tela ficou encaixotada até 1895, quando foi exposta no salão para o qual tinha sido feita, no atual Museu do Ipiranga.

Pedro Américo terminou Independência ou Morte! em 1888, em Florença, na Itália. Fazia 66 anos que dom Pedro tinha passado pelo Ipiranga. O pintor, nascido em 1843, não presenciou a cena.

No mesmo ano, ele publicou um texto para explicar o quadro. Nele está a frase que o guia educativo do Museu do Ipiranga destaca hoje: "a realidade inspira, e não escraviza o pintor".

Ou seja: a imagem que gerações de brasileiros viram nos livros de história como se fosse o grito do Ipiranga é, por declaração do próprio autor, uma composição. O pintor pesquisou, mas escolheu o que mostrar e o que deixar de fora. O texto de 1888 e os relatos de quem estava com dom Pedro mostram o que mudou.

Uma encomenda para um prédio que ainda estava em obras

Em 1885 começou a construção de um edifício-monumento na colina do Ipiranga, em São Paulo. Em dezembro daquele ano, segundo a historiadora Michelli Scapol Monteiro, pós-doutora pelo Museu Paulista, Pedro Américo foi à cidade propor à comissão de obras uma pintura da proclamação da Independência.

A comissão recusou, por falta de dinheiro. Poucos dias depois, convencida por recomendações de conhecidos influentes do pintor, voltou atrás. Em 14 de janeiro de 1886, o pintor assinou o contrato: tela e moldura deveriam ser entregues em até três anos.

Ele pintou em Florença, onde preferia viver. O resultado mede 4,15 m por 7,60 m e foi pensado para o salão nobre do edifício, num nicho desenhado para recebê-lo.

O que o pintor admitiu por escrito

O texto de 1888 saiu numa brochura impressa em Florença, O Brado do Ypiranga ou a Proclamação da Independência do Brasil. Nele, Pedro Américo diz que foi guiado pelo que era "digno de ser oferecido à contemplação pública" e pela "ideia da impressão estética que deverá produzir no espectador".

Duas confissões se destacam.

A primeira é sobre o corpo do príncipe. O pintor escreve que sabia que "d. Pedro na tarde de 7 de setembro sofria de um incômodo gástrico" e que, "se tal ocorrência foi com efeito real", ela era "indigna da história, contrária à intenção moral da pintura". Por isso, não alterou "desfavoravelmente os traços do augusto moço".

A segunda é sobre o mapa. O riacho que aparece aos pés dos cavalos, no canto inferior direito, não estava ali. Nas palavras dele, o Ipiranga "na realidade passaria à distância de alguns metros atrás de quem observa o painel". Ele pintou "um simulacro de corrente" e pediu desculpas ao público pela "quase insignificante violência à topografia".

O texto, porém, também reivindica fidelidade. Fora dessas "circunstâncias acidentais", escreveu o pintor, "foi a pintura rigorosamente inspirada da realidade, tanto quanto se pode esta inferir do insuspeito testemunho de diversos presenciadores do fato".

O que contaram as testemunhas

Quatro pessoas que acompanharam dom Pedro naquele dia deixaram relatos escritos. O professor Jorge Pimentel Cintra, do Museu Paulista, comparou os quatro num estudo publicado em 2023. Pedro Américo, observa Cintra, só citou três deles: o do padre Belchior Pinheiro de Oliveira ficou conhecido por publicações de 1921.

Sobre a montaria, três deles falam. O coronel Antônio Leite Pereira da Gama Lobo escreve que dom Pedro montava "uma égua possante gateada", que o historiador Oberacker Júnior interpreta como mula; gateado, explica Cintra, é um tipo de pelagem de mulas. O coronel Manuel Marcondes de Oliveira e Melo responde que ele "montava uma besta baia gateada", e besta era sinônimo de mula. O padre Belchior termina seu relato com o príncipe que "esporeou a sua bela besta baia".

O cavalo veio depois. Segundo Cintra, ele aparece num relato glorioso escrito por Paulo Afonso Antônio do Vale em 1854, 32 anos após o episódio. Pedro Américo adotou essa versão. No texto de 1888, conforme o resumo de Cintra, o pintor afirma que os companheiros de dom Pedro falavam num cavalo zaino e que a besta era tradição popular de Pindamonhangaba. Para o pesquisador, é "exatamente o contrário".

Há um detalhe que complica a versão popular de que todos andavam de mula. A Pesquisa FAPESP afirma que a comitiva usava mulas. Cintra, porém, argumenta que a guarda de honra, cerca de trinta pessoas, era formada por filhos de fazendeiros com cavalos próprios, e que não há motivo para supor que os trocaram por mulas.

O padre Belchior também registra o mal-estar que o pintor preferiu esconder: dom Pedro vinha "agoniado por uma disenteria com dores que apanhara em Santos".

O quadro e os relatos de 1822

Em cada item, primeiro: o que o quadro mostra. Depois: o que as fontes dizem.

Dom Pedro num cavalo
Dois relatos falam em besta baia, sinônimo de mula; um terceiro, em égua gateada, que estudiosos interpretam como mula.
Príncipe em postura solene
O padre Belchior conta que ele sofria de disenteria; o pintor escreveu que omitiu o incômodo de propósito.
Riacho do Ipiranga aos pés dos cavalos
Pedro Américo admitiu que o riacho passaria atrás de quem olha o quadro.
Dom Pedro no alto de uma colina
Segundo Cintra, do lado onde a cena está pintada havia terreno plano.
Um carro de bois no caminho
Segundo Cintra, era caminho de tropas; a estrada para carros só começou a ser aberta em 1841.
Uniformes de gala
Os relatos dizem que dom Pedro usava a fardeta de viagem.

Um quadro feito de outros quadros

A composição também não nasceu só do Ipiranga. A historiadora Michelli Monteiro pesquisou arquivos em Florença e Paris e reconheceu em 1807, Friedland, do francês Ernest Meissonier, o modelo geral da composição. Ela encontrou gestos emprestados de pinturas de Horace Vernet e Henri Philippoteaux, e cenas de cavalaria parecidas com as de Giovanni Fattori e Vincenzo Giacomelli.

Na pintura acadêmica, esse tipo de citação era esperado, uma demonstração de erudição. Mesmo assim, rendeu ao pintor acusações de plágio. Em 1880, num discurso em Lyon, Pedro Américo defendeu que citar não era copiar.

Pintura de batalha: num campo de trigo, uma fileira de cavaleiros de uniformes coloridos galopa erguendo sabres em saudação a um oficial montado num cavalo branco, ao fundo, à esquerda.
1807, Friedland, de Ernest Meissonier, em que Napoleão é saudado pela cavalaria. A historiadora Michelli Monteiro vê no quadro o modelo geral da composição de Pedro Américo. Imagem: Jean-Louis-Ernest Meissonier, via Wikimedia Commons · CC0

Sete anos encaixotado

A estreia foi em Florença, em 8 de abril de 1888, na Accademia Reale di Belle Arti, com dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina na plateia. Nem todos se impressionaram. O pintor italiano Giovanni Fattori escreveu numa carta, na tradução de Monteiro, que "o Imperador do Brasil foi convidado a ver um grande quadro de certo Dom Pedro".

A tela chegou ao Brasil em 9 de julho de 1888. Como o prédio do Ipiranga não estava pronto, a comissão a recebeu, mandou encaixotá-la e guardou-a numa sala da Faculdade de Direito. Pedro Américo tentou levá-la à Exposição Universal de Paris de 1889, mas o envio não foi autorizado. Numa carta, resumiu: "em Paris representarei propriamente um pintor sem palheta, e em S. Paulo ainda represento um pintor de painéis invisíveis".

O público só viu o original em 1895, na abertura do museu. Meses antes, em fevereiro, um texto sem assinatura em O Estado de S. Paulo, sobre uma visita de autoridades ao prédio, foi duro. Dizia que "a composição é infeliz" e que, "entre a multidão de soldados que enche o primeiro plano da tela não há um único brasileiro".

Da encomenda ao museu

  1. 7 de setembro de 1822Dom Pedro passa pelo Ipiranga a caminho de São Paulo.
  2. 1854Relato de Paulo do Vale põe o príncipe sobre um cavalo zaino.
  3. 14 de janeiro de 1886Pedro Américo assina o contrato, com prazo de três anos.
  4. 8 de abril de 1888A tela é apresentada em Florença, diante de dom Pedro II.
  5. 9 de julho de 1888O quadro chega ao Brasil e fica guardado na Faculdade de Direito.
  6. 1893É exibido no pavilhão brasileiro da Exposição de Chicago.
  7. 1895Passa a ocupar o salão nobre do museu, aberto ao público naquele ano.

Como uma pintura virou fotografia do grito

A partir de 1896, a imagem começou a aparecer em livros didáticos. Uma pesquisa citada por Monteiro a encontrou em sete livros escolares publicados entre 1907 e 1916. No centenário da Independência, em 1922, ela se espalhou por leques, selos e medalhas. "Passou a ser visto como uma imagem 'real' do fato e não uma representação", disse à Pesquisa FAPESP a historiadora Maraliz de Castro Vieira Christo, da Universidade Federal de Juiz de Fora.

O guia educativo do Museu do Ipiranga trata disso de frente. Num livro escolar de 1919, mostra o guia, a pintura aparece sem a data em que foi feita, como uma "janela para o passado". Ao longo de quase todo o século 20, diz o museu, a tela foi reproduzida "como uma imagem exata de como teria sido o 'grito do Ipiranga'".

Pedro Américo nunca escondeu que não era. O que se perdeu no caminho foram a data e o texto que acompanhavam o quadro.

A história se repete com outros retratos que a memória coletiva fixou do jeito errado, como o de Napoleão, que não era baixo, e com imagens que milhares de pessoas juram lembrar com detalhes que nunca existiram, como mostra o caso do efeito Mandela.

Outro símbolo nacional com mais história do que parece é o céu da bandeira do Brasil, que reproduz o do Rio na manhã de 15 de novembro de 1889.

Fontes

  1. Uma história do Brasil (guia educativo da exposição), Museu do Ipiranga (Museu Paulista da USP)
  2. Entre reproduções e exposições: a circulação de Independência ou morte!, de Pedro Américo, Michelli Scapol Monteiro, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros n. 91 (2025), USP
  3. O Ipiranga na jornada da Independência, Jorge Pimentel Cintra, Anais do Museu Paulista vol. 31 (2023), USP
  4. As raízes do quadro Independência ou morte!, Danilo Albergaria, Revista Pesquisa FAPESP (agosto de 2022)
  5. Independência ou Morte (1888), de Pedro Américo: a pintura histórica e a elaboração de uma certidão visual para a nação, Consuelo Alcioni B. D. Schlichta, Anais do XXV Simpósio Nacional de História (ANPUH, 2009)

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Quando o quadro Independência ou Morte foi pintado?
Entre 1886 e 1888, em Florença, na Itália. Pedro Américo assinou o contrato com a comissão que erguia o monumento do Ipiranga em 14 de janeiro de 1886 e apresentou a tela pronta na Academia de Belas Artes de Florença em 8 de abril de 1888, diante de dom Pedro II. O quadro foi terminado 66 anos depois do episódio de 7 de setembro de 1822 e mede 4,15 m por 7,60 m.
A cena do quadro aconteceu como está pintada?
Não, e o próprio pintor avisou. No texto que publicou em 1888, Pedro Américo escreveu que "a realidade inspira, e não escraviza o pintor", admitiu ter pintado o riacho do Ipiranga num lugar onde ele não passava e disse que deixou de fora o "incômodo gástrico" do príncipe por considerá-lo indigno da história. Os relatos de quem acompanhou dom Pedro falam em uma besta, isto é, uma mula, e em roupa de viagem, e o terreno real era diferente do pintado.
Dom Pedro estava num cavalo ou numa mula?
Pelas testemunhas, numa mula. O coronel Gama Lobo cita uma "égua possante gateada", que o historiador Oberacker Júnior interpreta como mula; o coronel Marcondes escreveu que dom Pedro "montava uma besta baia gateada", e o padre Belchior, que ele "esporeou a sua bela besta baia". Segundo o professor Jorge Pimentel Cintra, do Museu Paulista, o cavalo entrou na história com um relato de 1854, e Pedro Américo o adotou.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também

Mais de História

Ver a seção