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Hiroo Onoda passou 29 anos na selva de Lubang à espera de uma ordem. Depois de se render, foi criar gado em Mato Grosso do Sul

O tenente japonês só largou o fuzil em 1974, quando o antigo comandante voltou à ilha para revogar a ordem. Os telegramas americanos da época, os obituários de 2014 e a imprensa de Campo Grande contam o que a lenda costuma deixar de fora: as mortes na ilha e a fazenda em Terenos.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Barco de pesca branco com flutuadores laterais parado em água rasa e transparente, sob árvores de manguezal, com a linha da costa ao fundo.
Elmer B. Domingo, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Em 30 segundos

  • Hiroo Onoda chegou à ilha filipina de Lubang em dezembro de 1944 e só se rendeu em março de 1974, quando o antigo comandante revogou pessoalmente a ordem de continuar lutando.
  • Nesses anos, até 30 moradores da ilha foram mortos por Onoda e seus companheiros, segundo obituários de 2014. O presidente Ferdinand Marcos o perdoou.
  • Em 1975 ele se mudou para o Brasil e se instalou na Colônia Jamic, em Terenos (MS), onde criou gado e se casou em 1976.
  • Onoda morreu em Tóquio em 16 de janeiro de 2014, aos 91 anos. Um mês antes, tinha ido a Mato Grosso do Sul pela última vez.

Em março de 1974, o tenente Hiroo Onoda saiu da selva da ilha filipina de Lubang com o uniforme do Exército Imperial remendado, a espada e um fuzil que ainda funcionava. Estava ali desde dezembro de 1944, e se rendeu 29 anos depois do fim da Segunda Guerra.

Ele só aceitou porque o antigo comandante, que àquela altura vendia livros, foi até a ilha revogar pessoalmente a ordem de 1945. No ano seguinte, Onoda estava em Mato Grosso do Sul, criando gado.

A versão que circula costuma parar na lealdade do soldado esquecido na selva. Os telegramas da embaixada americana em Tóquio, os obituários de 2014 e a imprensa de Campo Grande mostram uma história maior: houve mortos na ilha, houve perdão presidencial e houve uma fazenda em Terenos que ele administrou por décadas.

A ordem que ele não largou

Onoda nasceu em 19 de março de 1922, na província de Wakayama. Formou-se na Escola Nakano, o centro de treinamento do Exército japonês para inteligência, e foi mandado a Lubang, cerca de 145 a 150 km a sudoeste de Manila, em dezembro de 1944.

A ordem tinha uma cláusula que ele mesmo descreveu. "Todo soldado japonês estava preparado para a morte, mas, como oficial de inteligência, recebi ordem de fazer guerra de guerrilha e não morrer", disse ele à emissora australiana ABC, numa entrevista citada pela CNN (tradução nossa).

Quando as tropas americanas desembarcaram em Lubang, em fevereiro de 1945, a maioria dos soldados japoneses se rendeu. Onoda foi para as montanhas com três subordinados: o soldado Yuichi Akatsu, o cabo Shoichi Shimada e o soldado de primeira classe Kinshichi Kozuka.

Retrato em preto e branco de um jovem militar japonês de quepe com estrela, uniforme claro e correia de couro atravessada no peito.
Hiroo Onoda como jovem oficial do Exército Imperial, em retrato feito entre 1944 e 1945. Imagem: Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Por que ele não acreditou que a guerra tinha acabado

O Japão se rendeu em agosto de 1945. Em Lubang, caíram panfletos e, mais tarde, fotos das famílias. "Os panfletos que eles jogavam estavam cheios de erros, então concluí que era uma armação dos americanos", contou Onoda à ABC (tradução nossa).

Akatsu se entregou em 1949, segundo o obituário do jornal britânico The Telegraph; o New York Times, citado pela revista HistoryNet, dá 1950. Shimada foi morto em 1954. Kozuka, o último companheiro, morreu num tiroteio com uma patrulha filipina em 1972. Onoda ficou sozinho.

Houve buscas. A Associated Press contou pelo menos quatro, com familiares falando por alto-falantes. Um telegrama da embaixada americana de março de 1974 fala em cinco buscas do governo japonês desde 1954. Pelo caminho, o Japão o declarou morto: em 1959, segundo o Telegraph.

Há quem duvide de que ele não soubesse. A historiadora Beatrice Trefalt, da Universidade Monash, lembrou à rede australiana SBS que Onoda tinha acesso a jornais e carregava um rádio transistor.

Até 30 mortos na ilha

É a parte que a lenda esquece. Para comer, Onoda roubava arroz e bananas dos moradores e matava as vacas deles para fazer carne seca, o que provocava confrontos, segundo a AP. O Guardian escreveu que ele matou até 30 pessoas que tomava por soldados inimigos.

Uma delas, segundo a família, foi Emilio Viaña, que morreu em 8 de março de 1951, quase seis anos depois da rendição do Japão, depois de ser baleado na perna enquanto almoçava. A sobrinha-neta dele, Mia Stewart, contou o caso à SBS em 2022.

O presidente Ferdinand Marcos perdoou Onoda. Em fevereiro de 1975, segundo um resumo de imprensa do Departamento de Estado americano, ele disse no clube de correspondentes estrangeiros de Tóquio que queria voltar à ilha para pedir desculpas pelas mortes, mas pôs a responsabilidade no governo japonês, que o mandara lutar. Quando voltou a Lubang, em 1996, parentes das vítimas se reuniram para cobrar indenização, relatou a CNN.

Como foi o fim, segundo os telegramas de 1974

Em 20 de fevereiro de 1974, um jovem viajante japonês, Norio Suzuki, achou Onoda na selva. Onoda se recusou a sair sem ordem de um superior. O governo localizou o major Yoshimi Taniguchi e o levou a Lubang.

Os telegramas da embaixada americana em Tóquio, guardados no National Archives dos Estados Unidos, registram o que veio a seguir. Segundo o de 11 de março, Onoda conversou com Taniguchi por onze horas na selva antes de aceitar a ordem, "redigida no velho estilo do Exército" (tradução nossa).

De Lubang a Terenos

  1. Dezembro de 1944Onoda chega a Lubang, nas Filipinas.
  2. Fevereiro de 1945Tropas americanas desembarcam; ele se esconde nas montanhas com três subordinados.
  3. 1972Kozuka, o último companheiro, morre num tiroteio. Onoda fica sozinho.
  4. 20 de fevereiro de 1974O viajante Norio Suzuki encontra Onoda na selva.
  5. 9 e 10 de março de 1974O major Taniguchi revoga a ordem e Onoda aceita se render.
  6. 11 de março de 1974Entrega a espada a Ferdinand Marcos, em Manila, e recebe o perdão.
  7. 12 de março de 1974Desembarca em Tóquio, com transmissão ao vivo da NHK.
  8. 1975Muda-se para o Brasil e se instala na Colônia Jamic, em Terenos (MS).
  9. 2 de maio de 1976Casa-se com Machie Onuki numa igreja em São Paulo.
  10. 1984Volta ao Japão para abrir o Onoda Shizenjuku, escola de natureza para jovens.
  11. 16 de janeiro de 2014Morre em Tóquio, aos 91 anos.

Em 11 de março, Onoda entregou a espada a Marcos em Manila; o presidente lhe concedeu o perdão e devolveu a arma, segundo o Telegraph. No dia 12, chegou a Tóquio num voo fretado da JAL. O desembarque e o reencontro com os pais idosos foram transmitidos ao vivo pela NHK, conta o telegrama do dia 13.

A embaixada também anotou o desconforto. No resumo do telegrama de 11 de março, o gesto de Onoda era "visto em grande parte como anacrônico pela geração mais jovem" (tradução nossa).

Por que o Brasil

Em novembro de 1974, um resumo de imprensa do Departamento de Estado registrou que Onoda tinha decidido ir morar com o irmão no Brasil. A imprensa japonesa o citava dizendo que estava "cansado de ser tratado como um panda no zoológico" (tradução nossa).

Ele explicou à ABC: "A filosofia e as ideias do Japão mudaram drasticamente depois da Segunda Guerra. Essa filosofia se chocava com a minha, então fui viver no Brasil" (tradução nossa). A mudança foi em 1975.

A fazenda de Terenos

O destino foi a Colônia Jamic, em Terenos, que reunia famílias de imigrantes japoneses e onde o irmão já vivia. Onoda chegou sem falar uma palavra de português, segundo o Campo Grande News.

O jornalista Montezuma Cruz, que o entrevistou para o Correio do Estado, descreveu uma propriedade de 520 hectares a 53 km de Campo Grande, perto da BR-262, com casa de peroba de oito cômodos. As primeiras palavras de Onoda ao jornal foram: "O Japão pensou que eu havia morrido".

O Telegraph e a HistoryNet situam a mudança "numa colônia japonesa em São Paulo". As reportagens de Mato Grosso do Sul, cujos jornalistas estiveram na fazenda, a situam em Terenos. São Paulo aparece na história por outro motivo: foi lá, em 2 de maio de 1976, que Onoda se casou na igreja com Machie Onuki, professora de cerimônia do chá, então com 38 anos. A união civil foi em Campo Grande.

Antes, ele foi batizado na igreja Nossa Senhora de Fátima, em Campo Grande. "Fui padrinho de batismo dele, depois de casamento", contou ao Campo Grande News o amigo Acelino Nakasato.

Vaca de pelagem branca e orelhas grandes olhando para a câmera, em pé no capim alto, com outras do rebanho atrás e mata ao fundo.
Gado no pasto. Foto ilustrativa: não mostra a fazenda de Onoda. Imagem: Juliana e Mariana Amorim, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 1984, Onoda voltou ao Japão para criar o Onoda Shizenjuku, uma escola que ensina a jovens técnicas de sobrevivência e acampamento. A fazenda continuou com ele. O Campo Grande News escreveu que ele a administrou por 40 anos e que esteve em Mato Grosso do Sul pela última vez em dezembro de 2013, para acertar as contas com os dois últimos funcionários. "Foi uma despedida, ele disse que não voltaria mais", contou Nakasato.

Morte, e o título que não é bem dele

Onoda morreu em 16 de janeiro de 2014, num hospital de Tóquio, aos 91 anos. A CNN informou que a causa foi pneumonia; a agência Kyodo falou em insuficiência cardíaca.

Ele costuma ser chamado de último soldado japonês a se render. O arquivista David Langbart, do National Archives americano, registra outro nome: Teruo Nakamura, que se rendeu na ilha de Morotai, na Indonésia, em 18 de dezembro de 1974. O próprio obituário do Campo Grande News chamou Onoda de penúltimo.

Hiroo Onoda: a lenda e os documentos

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Foi o último soldado japonês a se render.
Teruo Nakamura se rendeu em dezembro de 1974, meses depois dele.
Nunca soube que a guerra tinha acabado.
Viu panfletos e fotos das famílias e os julgou falsos; segundo a historiadora Beatrice Trefalt, tinha jornais e um rádio.
Era só um soldado leal escondido na selva.
Os obituários de 2014 falam em até 30 moradores mortos. Marcos o perdoou.
Foi morar numa colônia em São Paulo.
A fazenda ficava em Terenos (MS). Em São Paulo, ele se casou.

A placa da fazenda continua na estrada de Terenos, contou em 2015 ao Campo Grande News Lenilde Ramos, que conheceu Onoda em 1986, quando trabalhava na TV Morena. Nela está escrito Chuusei, que quer dizer lealdade.

Se histórias de espera longa demais te interessam, vale conhecer o que se sabe de fato sobre Hachiko, o cachorro que voltava à estação de Shibuya. E, do outro lado da mesma guerra, a do homem que sobreviveu a Hiroshima e, três dias depois, a Nagasaki.

Fontes

  1. Onoda of the Jungle (telegramas do Departamento de Estado, 1974-1976), David Langbart, National Archives dos Estados Unidos (The Text Message)
  2. Japan's last WWII straggler dies at 91, Associated Press, 17 de janeiro de 2014 (reproduzido pelo Pittsburgh Tribune-Review)
  3. Hiroo Onoda: Japanese soldier who took three decades to surrender, dies, Justin McCurry, The Guardian, 17 de janeiro de 2014
  4. Hiroo Onoda, Japanese soldier who long refused to surrender, dies at 91, CNN, 17 de janeiro de 2014
  5. Um dos moradores mais ilustres de MS, herói japonês Onoda morre aos 91 anos, Ângela Kempfer, Campo Grande News, 17 de janeiro de 2014
  6. Herói japonês da 2ª Guerra foi descoberto pela reportagem do Correio, Correio do Estado, 2014 (com relato do jornalista Montezuma Cruz)

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Perguntas frequentes

Quem foi Hiroo Onoda?
Um tenente de inteligência do Exército Imperial japonês enviado à ilha de Lubang, nas Filipinas, em dezembro de 1944. Depois do desembarque americano, em fevereiro de 1945, ele se escondeu na selva com três subordinados e continuou agindo como se a guerra não tivesse acabado. Só se rendeu em março de 1974, quando o antigo comandante, o major Yoshimi Taniguchi, foi à ilha revogar a ordem.
Hiroo Onoda morou no Brasil?
Sim. Ele se mudou para o Brasil em 1975 e se instalou na Colônia Jamic, em Terenos (MS), onde o irmão já vivia e onde criou gado. Casou-se em 1976 com Machie Onuki, numa igreja em São Paulo. Em 1984 voltou ao Japão para abrir uma escola de natureza para jovens, mas manteve a fazenda: a última visita a Mato Grosso do Sul foi em dezembro de 2013.
Hiroo Onoda foi o último soldado japonês a se render?
Não exatamente. Ele é lembrado assim, mas meses depois dele, em 18 de dezembro de 1974, Teruo Nakamura se rendeu na ilha de Morotai, na Indonésia, segundo o arquivista David Langbart, do National Archives americano. O obituário do Campo Grande News chamou Onoda de penúltimo.
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