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Henry Ford ergueu uma cidade americana na Amazônia para plantar seringueiras. Perdeu para um fungo que só ataca folhas novas

Fordlândia teve hospital, vila de bangalôs e cardápio do Meio-Oeste às margens do Tapajós. Quem decidiu o seu destino foi um velho morador da floresta: o fungo do mal-das-folhas, que explica por que a seringueira, nativa dali, nunca virou monocultura na Amazônia.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Galpão industrial comprido, de vidraças quebradas e telhado escuro, ao lado de uma estrada de terra que leva a um cais de madeira sobre um rio largo, sob céu azul.
Méduse, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Em 30 segundos

  • Em 1927, a Ford recebeu uma concessão de terra às margens do rio Tapajós, no Pará, para plantar seringueiras. Em 1945, entregou as plantações ao governo brasileiro.
  • O inimigo decisivo foi o mal-das-folhas, um fungo nativo da Amazônia que só ataca folhas novas e se multiplica quando as árvores ficam próximas umas das outras.
  • Na floresta, a seringueira cresce espalhada, a cerca de duas árvores por hectare. Na Ásia, as plantações prosperaram porque o fungo nunca chegou lá.
  • Em maio de 2026, a Justiça Federal condenou a União, o Iphan, o Pará e o município de Aveiro a recuperar o que restou da cidade.

Em 21 de julho de 1927, Henry Ford recebeu uma concessão gratuita de terras às margens do rio Tapajós, no Pará, para fazer borracha. A ideia era plantar seringueiras em fileiras, como os britânicos e os holandeses faziam na Ásia, e tirar delas o látex dos pneus da Ford.

Dezoito anos e cerca de 20 milhões de dólares depois, a empresa entregou as plantações ao governo brasileiro.

A cidade enfrentou revoltas, pragas e chuva que lavava o solo. Mas o adversário que pesquisadores da Embrapa e a literatura científica apontam como decisivo é um fungo nativo da própria Amazônia, o causador do mal-das-folhas. É ele que explica por que a árvore da borracha, nascida ali, nunca virou monocultura na sua terra de origem.

Pneus para 2 milhões de carros

Em 1922, o Plano Stevenson britânico tentou fixar o preço da borracha bem acima do custo de produção. Segundo o arquivo do museu The Henry Ford, três quartos da borracha importada pelos Estados Unidos iam para a indústria automobilística.

A concessão de 1927 tinha 1 milhão de hectares, pelas contas do museu. A Embrapa fala em 1,2 milhão. A estimativa era produzir, com tudo plantado, borracha para os pneus de 2 milhões de automóveis por ano.

Em agosto de 1928, dois navios partiram com tratores, prédios pré-fabricados e uma serraria. O comandante, o capitão dinamarquês Einard Oxholm, virou o primeiro gerente da plantação sem ter experiência agrícola. O povoado de Boa Vista foi rebatizado de Fordlândia.

Fordlândia, da concessão à sentença

  1. 21 de julho de 1927Ford recebe a concessão de terras no rio Tapajós.
  2. Agosto de 1928Dois navios partem para a Amazônia com o material da futura cidade.
  3. 1933A plantação de Fordlândia é destruída pelo fungo do mal-das-folhas. A Ford contrata o fitopatologista James Weir.
  4. 1934Os primeiros seringais de Belterra, a segunda plantação, também são atacados.
  5. 1942Primeira sangria comercial: 750 toneladas de látex.
  6. 1945A Ford entrega Fordlândia e Belterra ao governo brasileiro.
  7. Maio de 2024O Conselho Consultivo do Iphan nega o tombamento federal de Fordlândia.
  8. Maio de 2026O MPF divulga a sentença que condena o poder público a recuperar o conjunto histórico.

Uma cidade de Michigan no meio da floresta

A Ford pagava 35 centavos de dólar por dia, contra os 20 centavos típicos no Extremo Oriente, e dava comida, moradia e atendimento médico. Havia hospital, piscina, alfaiates e lojas.

O pacote vinha com regras. O historiador Greg Grandin, autor de Fordlandia (2009), contou à rádio americana NPR que Ford tentou impor arroz integral, pão de trigo integral, pêssego em lata e aveia.

A revolta mais séria começou quando souberam que a comida passaria a ser servida em fila de autoatendimento, e não mais à mesa. Destruíram o refeitório enquanto os funcionários norte-americanos esperavam nos barcos. "Quando me perguntam como era Fordlândia, digo para pensarem mais em Deadwood do que em Our Town", disse Grandin à NPR (tradução nossa).

Em janeiro de 1931, um artigo do India Rubber Journal, guardado no acervo do museu, já dava o veredito: o custo de pôr a área para produzir seria "tão fantasticamente enorme que todo o esquema, do ponto de vista comercial, está fadado ao fracasso" (tradução nossa).

O inimigo já morava ali

Na mata nativa, a seringueira é rara. Na floresta primária, há cerca de duas árvores por hectare, segundo revisão do botânico Reinhard Lieberei publicada em 2007 na revista Annals of Botany.

O fungo do mal-das-folhas foi registrado pela primeira vez em seringueiras silvestres a partir de amostras colhidas perto do rio Juruá em 1900 e 1901. Ele só infecta folhas jovens, ainda em desenvolvimento. Os esporos germinam sobre a folha molhada e ficam colados a ela, sem que a chuva os lave. A Embrapa especifica que o fungo só ataca os folíolos até os 12 dias de idade.

A seringueira jovem solta novos tufos de folhas ao longo do ano inteiro. Lieberei descreve surtos graves em plantios densos por toda a América do Sul e Central, e em todos eles as plantações foram destruídas quando as árvores chegavam aos 6 ou 7 anos.

"As pragas, os fungos e a praga das folhas que se alimentam da seringueira são nativos da Amazônia. Quando você põe árvores próximas umas das outras na Amazônia, o que você faz, na prática, é criar uma incubadora — mas Ford insistiu", resumiu Grandin à NPR (tradução nossa).

E não era novidade. Segundo o pesquisador Eurico Pinheiro, da Embrapa Amazônia Oriental, os técnicos da Ford já sabiam que o fungo tinha dizimado grandes plantações no Suriname e em Caiena, e preferiram ignorar o problema na expectativa de controlá-lo. No Suriname, 40 mil árvores plantadas em 1911 estavam destruídas em 1918, segundo Lieberei. A Embrapa acrescenta que a topografia e o clima de Fordlândia favoreceram a doença.

A Ford planejava um seringal de 30 mil hectares, segundo a Embrapa. A tabela de Lieberei registra 3.200 hectares e 200 mil árvores plantados em Fordlândia e a plantação destruída pelo fungo em 1933.

Mapa em preto e branco intitulado Fordlandia Estate Map, com o rio Tapajós embaixo, o povoado de Boa Vista junto ao cais e áreas hachuradas com anos de 1928 a 1934.
Mapa da propriedade de Fordlândia publicado por J. A. Russell na revista Economic Geography em 1942. Os anos marcam quando cada área foi desmatada, de 1928 a 1934; a legenda separa as áreas condenadas e as terras ruins para seringueira. Imagem: J. A. Russell, via Wikimedia Commons · Domínio público

Por que na Ásia deu certo

As seringueiras da Ásia descendem das sementes que o inglês Henry Wickham levou para o Jardim Botânico de Kew, na Inglaterra, em 1876. Segundo a Embrapa, foram 70 mil sementes colhidas em Boim, no próprio Tapajós. Lieberei fala em mais de 80 mil sementes amazônicas.

Toda a produção de borracha fora do Brasil, escreve Lieberei, saiu de umas poucas centenas de genótipos dessa coleção. E o fungo nunca foi introduzido no Velho Mundo, algo que ele classifica como notável, dado o modo como as sementes circularam.

Nos viveiros de Fordlândia, conta Pinheiro, surgiram plantas resistentes ao fungo entre as mudas vindas de algumas regiões. Entre as de Boim, nenhuma. Para ele, isso ajuda a entender por que nenhum clone oriental era resistente. As plantas resistentes de Fordlândia foram clonadas, e ali começou o melhoramento genético da seringueira no Brasil.

Estrada de terra vermelha entre fileiras retas e densas de troncos finos de seringueiras, com as copas se fechando no alto e uma caminhonete ao fundo.
Seringal em Mondulkiri, no Camboja. Plantações em fileiras cerradas, como a que a Ford tentou formar no Tapajós, prosperam no Sudeste Asiático, onde o fungo do mal-das-folhas nunca chegou. Foto ilustrativa atual, sem relação com Fordlândia. Imagem: Monineath Horn, via Unsplash · Licença Unsplash

Belterra, a segunda tentativa

Em 1933, a Ford contratou o fitopatologista James Weir. Ele indicou um novo terreno a 80 milhas, cerca de 130 quilômetros, rio abaixo: Belterra, perto de Santarém, num platô a 180 metros de altitude. Segundo Pinheiro, Weir imaginou estar livre do parasita. Os primeiros seringais, de 1934, foram atacados pelo mal-das-folhas.

Weir trouxe do Oriente 2.046 enxertos de árvores muito produtivas. A primeira sangria comercial, em 1942, rendeu 750 toneladas de látex, segundo o museu. A Ford precisava de 38 mil toneladas por ano.

As fontes divergem sobre o desfecho de Belterra. O museu diz que a enxertia funcionou contra a epidemia, mas que o fungo e problemas trabalhistas continuaram dificultando um fornecimento confiável. A tabela de Lieberei registra os 6.478 hectares de Belterra, plantados a partir de 1936, destruídos pelo fungo em 1943.

O fim, por uma fração do custo

Durante a Segunda Guerra, com a borracha asiática fora de alcance, as plantações seguiram produzindo. Quando a guerra acabou, a Ford não viu mais razão para mantê-las. Em 1945, entregou Fordlândia e Belterra ao governo brasileiro, que as pôs sob o Instituto Agronômico do Norte.

O preço também diverge. O museu fala em 250 mil dólares. Marc Becker, da Truman State University, em resenha do livro de Grandin, escreve que a venda saiu pelo valor das indenizações trabalhistas dos empregados.

A reportagem da NPR sobre o livro de Grandin afirma que nenhuma gota de látex de Fordlândia chegou a um carro Ford. As 750 toneladas de 1942 citadas pelo museu aparecem no trecho dedicado a Belterra.

O que restou

Fordlândia é hoje um distrito do município de Aveiro, no Pará. Em 2009, a NPR descreveu, a partir do relato de Grandin, a vila onde moravam os americanos: abandonada, com mato sobre os bangalôs, morcegos nos caibros e hidrantes vermelhos cobertos de trepadeiras.

Depois de um processo aberto em 1990, o Conselho Consultivo do Iphan negou o tombamento federal em maio de 2024.

Em sentença divulgada pelo Ministério Público Federal em 29 de maio de 2026, a Justiça Federal atendeu a uma ação do MPF e condenou a União, o Iphan, o estado do Pará e o município de Aveiro a recuperar e conservar o conjunto, que está em avançado estado de degradação. A sentença cita o antigo hospital, já em ruínas, os galpões industriais, as casas da Vila Americana, a escola Henry Ford, as vilas operárias e o Cine Patinha, cuja cobertura desabou recentemente. A sentença acolheu a tese de que o dever de preservar não depende do tombamento.

Onde a seringueira dá certo no Brasil

A resposta veio longe da floresta úmida. Seringais se formaram no Planalto Paulista, livres do mal-das-folhas e com produção econômica, segundo a Embrapa. A pesquisa também identificou as chamadas áreas de escape na Amazônia, em regiões com estiagem de quatro a cinco meses, como o norte de Mato Grosso, o sudeste do Maranhão e o sul do Pará.

O truque é o calendário. A seringueira adulta troca as folhas no meio do período mais seco, e as folhas novas passam pela idade vulnerável sem a umidade de que o fungo precisa: segundo Lieberei, os esporos germinam sobre a folha molhada.

Fora das áreas de escape, a conta nunca fechou: segundo Lieberei, as plantações das Américas nunca chegaram à produção plena. Os programas Probor, do governo brasileiro, foram interrompidos em 1986 com cerca de 100 mil dos 150 mil hectares plantados já devastados.

Fordlândia entra para a lista das histórias em que um plano grandioso perde para um detalhe da natureza, como na vez em que o Exército australiano foi às metralhadoras contra 20 mil emas. E o refeitório destruído por causa de uma regra imposta de cima lembra outra revolta, a de 1904 no Rio, que não foi só contra a vacina.

Fontes

  1. Ford Rubber Plantations in Brazil, The Henry Ford (Benson Ford Research Center)
  2. Retrospectiva e avanços no controle do Microcyclus ulei na seringueira (Fitopatologia Brasileira, v. 25, supl., 2000), Eurico Pinheiro, Embrapa Amazônia Oriental
  3. South American Leaf Blight of the Rubber Tree (Hevea spp.): New Steps in Plant Domestication using Physiological Features and Molecular Markers (2007), Reinhard Lieberei, Annals of Botany 100(6), 1125–1142
  4. Fordlandia: The Failure Of Ford's Jungle Utopia (entrevista com Greg Grandin, 2009), NPR
  5. Resenha de Greg Grandin, Fordlandia: The Rise and Fall of Henry Ford's Forgotten Jungle City (2010), Marc Becker, A Contracorriente 7(3), 530–535
  6. Justiça Federal atende a pedido do MPF e condena poder público a recuperar o complexo histórico de Fordlândia (PA), Ministério Público Federal, Procuradoria da República no Pará (29/05/2026)

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Perguntas frequentes

O que foi Fordlândia?
Foi a cidade e a plantação de seringueiras que a Ford Motor Company montou às margens do rio Tapajós, no Pará, a partir de 1928, depois de receber uma concessão de terra em 1927. O objetivo era produzir borracha própria para os pneus dos carros Ford. A cidade teve hospital, vila de casas no estilo americano, piscina e escola. A plantação foi arrasada pelo mal-das-folhas, e em 1945 a empresa entregou Fordlândia e a segunda plantação, Belterra, ao governo brasileiro.
Por que Fordlândia fracassou?
Houve conflitos com os trabalhadores, pragas e solo lavado pelas chuvas, mas o fator que pesquisadores da Embrapa e a literatura científica apontam como decisivo foi o mal-das-folhas, doença causada por um fungo nativo da Amazônia. Ele ataca só as folhas jovens da seringueira e se espalha rápido quando as árvores são plantadas próximas. Na floresta, a seringueira cresce isolada, a cerca de duas árvores por hectare. Segundo a Embrapa, os técnicos da Ford já sabiam que o fungo tinha dizimado plantações no Suriname e em Caiena.
O que restou de Fordlândia hoje?
Fordlândia é hoje um distrito do município de Aveiro, no Pará. Restam o antigo hospital, já em ruínas, galpões industriais, o armazém do porto, as casas da Vila Americana, a escola Henry Ford, o Cine Patinha e as vilas operárias. O Iphan negou o tombamento federal em maio de 2024, mas em maio de 2026 a Justiça Federal condenou a União, o Iphan, o estado do Pará e o município a recuperar e conservar o conjunto.
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