Num só dia de outubro de 1918, a gripe espanhola matou 930 pessoas no Rio. A morte mais famosa atribuída a ela é a mais contestada
A epidemia parou a capital, derrubou o diretor da Saúde Pública e virou arma política. E o presidente eleito Rodrigues Alves, lembrado como a vítima mais ilustre da gripe, tinha diagnóstico de anemia perniciosa havia anos.

Em 30 segundos
- Em 22 de outubro de 1918, o Rio de Janeiro registrou 930 mortes por gripe num único dia, de um total de 1.073 óbitos.
- A estimativa citada por historiadores é de cerca de 15 mil mortos e 600 mil doentes numa cidade de 910.710 habitantes.
- O diretor da Saúde Pública, Carlos Seidl, deixou o cargo em 18 de outubro; Carlos Chagas organizou hospitais provisórios quando a epidemia já entrava em declínio.
- Rodrigues Alves morreu em 16 de janeiro de 1919 sem tomar posse. Historiadoras apontam que a causa noticiada foi anemia perniciosa, e não a gripe.
Em 22 de outubro de 1918, o Rio de Janeiro registrou 930 mortes por gripe num único dia, num total de 1.073 óbitos. Em setembro, a cidade de 910.710 habitantes tinha registrado apenas 48 mortes pela doença.
Os números vêm de J. P. Fontenelle, autor de um comentário médico-higiênico sobre a epidemia publicado em 1919, e de boletins oficiais, e estão reunidos no estudo que a historiadora Adriana da Costa Goulart publicou em 2005 na revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos, da Fiocruz.
Para o Brasil inteiro, não há número confiável da gripe espanhola: uma reportagem do Jornal do Senado resume o problema dizendo que faltam estatísticas. Para a capital federal, a estimativa citada por Goulart é de cerca de 15 mil mortos e 600 mil doentes, perto de dois terços da população. E a vítima mais famosa da epidemia, o presidente eleito Rodrigues Alves, é justamente a mais contestada.
Uma doença que chegou como piada
A gripe já circulava pela Europa desde maio. No Rio, as primeiras notícias de agosto e setembro foram tratadas com descaso. A revista A Careta de 5 de outubro publicou, em tom de piada, que a moléstia era uma criação alemã espalhada em garrafas por submarinos.
O povo a chamava de "limpa-velhos", porque a gripe comum matava sobretudo idosos. A de 1918, registra Goulart, atingia principalmente quem tinha entre 20 e 40 anos.
A chegada da doença costuma ser atribuída ao navio inglês Demerara. Segundo o Jornal do Senado, ele desembarcou passageiros infectados em Recife, Salvador e no Rio em setembro de 1918. Goulart anota que as fontes divergem: o navio teria chegado à capital no início de outubro, e outros vapores anteriores já traziam gripados.
O primeiro alarme veio do mar. A Missão Médica Brasileira, a caminho de Dakar no navio La Plata, teve 156 mortos. O chefe da missão mandou a notícia por cabograma em 22 de setembro.
Outubro: a cidade parou
Os serviços de assistência domiciliar só começaram em 30 de setembro. Em 3 de outubro, o diretor da Saúde Pública, Carlos Seidl, adotou nos portos o que chamou de "profilaxia indeterminada", porque ninguém sabia ao certo o que era a doença.
Em 10 de outubro, na Academia Nacional de Medicina, Seidl afirmou que o isolamento era irrealizável na gripe epidêmica, a menos que se interrompessem todas as relações sociais. Um dia antes, a Gazeta de Notícias acusara Seidl e o ministro do Interior de recusarem medidas excepcionais "por se tratar de uma forma benigna".
A cidade não acompanhou o otimismo. Faltavam alimentos, remédios, médicos e hospitais para os doentes graves. Faltavam coveiros e caixões. Segundo o Jornal do Senado, a polícia saía às ruas capturando homens para obrigá-los a abrir covas, e corpos eram enterrados em valas coletivas. A gripe ganhou um apelido: "mal de Seidl".
O diretor caiu e o cientista foi chamado
Em 16 de outubro, Seidl pediu, sem sucesso, a censura dos jornais. No dia 17, na Câmara, muitos deputados consideraram inadmissível que o governo sugerisse que o micróbio andava pelo ar e que "as poeiras de Dakar viriam até aqui".
No mesmo dia 17, o secretário da Presidência Elmano Cardim levou a Carlos Chagas, diretor do Instituto Oswaldo Cruz, o convite para assumir o combate à epidemia. Chagas recusou, por amizade a Seidl.
Em 18 de outubro, o país soube da saída de Seidl, substituído por Theophilo Torres. As fontes descrevem a saída de formas diferentes: Goulart fala em pedido de demissão sob forte pressão do presidente Wenceslau Braz; o dicionário biográfico da Casa de Oswaldo Cruz diz que Braz o demitiu.
Braz insistiu e pediu a Chagas que organizasse hospitais de emergência. Em 23 de outubro, o jornal O Paiz noticiou que os hospitais provisórios criados por Chagas tinham sido instalados na véspera, na Escola Deodoro, no Centro Escolar da praça Onze de Junho, no Engenho de Dentro e em Ramos. Goulart registra que esse trabalho começou com Theophilo Torres e foi ampliado com Chagas.
Em 24 de outubro, Chagas convocou pela imprensa médicos e estudantes para 27 postos de consulta e 15 postos escolares.
As escolas, aliás, mudaram de função. Um estudo publicado na Revista Brasileira de História em 2021, feito a partir do Correio da Manhã, mostra que várias foram fechadas no início e que instituições escolares de diversos tipos viraram postos de socorro, com professores à frente do atendimento.
Há um detalhe que a imagem de Chagas como salvador da cidade costuma omitir. Segundo Goulart, quando ele assumiu o comando dos socorros, a epidemia entrava no seu período de declínio. Em novembro, a intensidade já tinha diminuído.
O Rio na gripe espanhola
- 22 de setembro de 1918Chega por cabograma a notícia de mortes na Missão Médica Brasileira, a caminho de Dakar.
- 30 de setembroComeçam os serviços de assistência domiciliar e de socorros públicos no Rio.
- 3 de outubroCarlos Seidl determina nos portos uma "profilaxia indeterminada".
- 18 de outubroSeidl deixa a Diretoria Geral de Saúde Pública; Theophilo Torres assume.
- 22 de outubroPior dia registrado: 930 mortes por gripe na cidade.
- 23 de outubroO Paiz noticia hospitais provisórios criados por Chagas, instalados na véspera.
- 24 de outubroChagas convoca médicos e estudantes para 27 postos de consulta e 15 postos escolares.
- 15 de novembroRodrigues Alves não toma posse; o vice Delfim Moreira assume interinamente.
- 16 de janeiro de 1919Morre Rodrigues Alves, sem ter assumido o segundo mandato.
Uma eleição sem eleitores
A epidemia chegou ao Congresso. Segundo o Jornal do Senado, o Senado e a Câmara ficaram vários dias fechados, sem funcionários.
Na eleição para o Senado realizada no Rio em novembro de 1918, a capital tinha 36 mil eleitores, mas só 5 mil votaram. Na eleição presidencial de março, 22 mil tinham votado. "A eleição de senador foi uma eleição sem eleitorado", protestou o senador Francisco Sá, que tentou, sem sucesso, anular a votação.
Em dezembro, o presidente interino Delfim Moreira baixou um decreto que livrou os estudantes de repetir o ano letivo.
A vítima mais ilustre, ou a mais mal contada
Rodrigues Alves tinha governado o país de 1902 a 1906, no período das campanhas sanitárias de Oswaldo Cruz e da Revolta da Vacina. Em março de 1918, foi eleito de novo, o primeiro presidente brasileiro eleito para um segundo mandato.
A saúde dele já era assunto antes da gripe. Em 29 de setembro de 1918, o jornal O Imparcial atacou a candidatura de um velho "cujos riscos da precariedade da saúde" levariam o país a "um governo de inválidos", segundo o levantamento de Goulart.
Com a epidemia, jornais lembravam que o saneamento do Rio tinha sido o ponto capital do primeiro governo dele. Goulart descreve o uso da gripe pelos partidários do conselheiro como um "mecanismo de engenharia política".
Ele não tomou posse em 15 de novembro, como previa a Constituição de 1891. O vice Delfim Moreira assumiu interinamente. Rodrigues Alves morreu em 16 de janeiro de 1919, e uma eleição fora de época foi convocada.

A versão mais repetida diz que ele morreu de gripe. É a que aparece no Jornal do Senado, segundo o qual ele caiu de cama "espanholado".
As historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling contestam essa versão no último capítulo do livro A bailarina da morte (2020), intitulado "Quem matou Rodrigues Alves?". Pelo resumo feito por duas pesquisadoras da Fiocruz na Revista NUPEM e por uma resenha na revista Locus, da UFJF, o argumento é este:
- Rodrigues Alves sofria havia anos de anemia perniciosa, doença causada pela incapacidade do organismo de absorver vitamina B12.
- A doença o obrigou a se afastar da presidência de São Paulo entre outubro de 1913 e janeiro de 1915.
- A imprensa da época noticiou como causa da morte "assistolia aguda no curso de uma anemia perniciosa".
- O boato da gripe ganhou força depois. Segundo a resenha, ele evitava que a "descoberta" da gravidade da doença de um presidente eleito, que chegara a ser aconselhado a renunciar, desestabilizasse as forças políticas regionais.
A morte de Rodrigues Alves
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Morreu vítima da gripe espanhola de 1918.
- Segundo Schwarcz e Starling, a causa noticiada foi assistolia aguda no curso de uma anemia perniciosa.
- Caiu de cama espanholado e por isso não tomou posse.
- Ele tinha anemia perniciosa havia anos e se afastou do governo paulista entre 1913 e 1915; a saúde dele já era atacada na imprensa em setembro de 1918.
- Nem o presidente da República foi poupado pela gripe.
- A associação com a gripe se repetiu na imprensa sobretudo em épocas de epidemia, como em 2009 e em 2020.
Esta reportagem não teve acesso ao atestado de óbito nem às edições de janeiro de 1919 citadas pelas historiadoras. O que dá para afirmar é que a frase "a gripe matou o presidente" não é um fato estabelecido: é uma versão disputada.
Por que a versão da gripe pegou
As pesquisadoras da Fiocruz que analisaram como O Globo e a Folha de S. Paulo lembraram a epidemia entre 1941 e 2020 encontraram um padrão. A morte de Rodrigues Alves voltava às páginas justamente quando havia uma nova epidemia, da gripe suína em 2009 à covid-19 em 2020. A pandemia de 1918 servia de medida do pior cenário, e o presidente morto era o exemplo mais forte.
A história do Rio de outubro de 1918 não precisa desse reforço. Os registros mostram uma capital que contou 930 mortos num dia, enterrou gente em vala comum, fez uma eleição com cerca de um sétimo dos eleitores e trocou o chefe da saúde às vésperas do pior dia.

O caso de Chagas lembra outro herói de epidemia que entrou em cena com a curva já em queda: John Snow e a manivela da bomba da Broad Street. E o primeiro governo de Rodrigues Alves tem a sua própria história mal resumida, a de uma revolta que não foi só contra a vacina.
Fontes
- Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro, Adriana da Costa Goulart, História, Ciências, Saúde – Manguinhos v. 12, n. 1 (2005), Fiocruz
- Escolas como postos de socorros: instituições escolares na epidemia de gripe espanhola no Rio de Janeiro (1918), Ademir Valdir Santos, Revista Brasileira de História v. 42, n. 87 (2021)
- Chagas, Carlos Ribeiro Justiniano (verbete), Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil, Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
- Arquivo S: Há 100 anos, gripe espanhola devastou país e matou presidente, Jornal do Senado, Senado Federal (3 set. 2018)
- “A gripe espanhola como lição”: a pandemia de 1918-1919 nos jornais “O Globo” e “Folha de S. Paulo” (1941-2020), Lorenna Ribeiro Zem El-Dine e Vanessa Pereira da Silva e Mello (Fiocruz), Revista NUPEM v. 13, n. 29 (2021)
- Uma tragédia esquecida: a gripe espanhola no Brasil (resenha de A bailarina da morte), Gabriel Soares Predebon, Locus: Revista de História v. 27, n. 1 (2021), UFJF
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Perguntas frequentes
- Quantas pessoas morreram de gripe espanhola no Rio de Janeiro em 1918?
- A estimativa citada pela historiadora Adriana da Costa Goulart, com base no boletim de estatística da época, é de cerca de 15 mil mortos e 600 mil doentes numa cidade que tinha 910.710 habitantes em setembro de 1918. O pior dia registrado foi 22 de outubro, com 930 mortes por gripe num total de 1.073 óbitos. Para o Brasil inteiro, o Senado observa que faltam estatísticas confiáveis.
- Rodrigues Alves morreu de gripe espanhola?
- É a versão mais repetida, inclusive em material do próprio Senado. Mas as historiadoras Lilia Schwarcz e Heloisa Starling, no livro A bailarina da morte (2020), apontam que ele sofria havia anos de anemia perniciosa, doença que o afastou do governo de São Paulo entre 1913 e 1915, e que a causa noticiada na época foi "assistolia aguda no curso de uma anemia perniciosa". Segundo elas, a ligação com a gripe nasceu como boato.
- O que Carlos Chagas fez durante a gripe espanhola?
- Depois da saída de Carlos Seidl da Diretoria Geral de Saúde Pública, o presidente Wenceslau Braz pediu a Chagas que organizasse hospitais de emergência. Foram instalados hospitais provisórios na Escola Deodoro, no Centro Escolar da praça Onze de Junho, no Engenho de Dentro e em Ramos, e ele convocou médicos e estudantes para 27 postos de consulta e 15 postos escolares. Quando ele assumiu, a epidemia já entrava em declínio.
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