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Anastasia Romanov não sobreviveu. O DNA encontrou os sete membros da família, e a mulher que dizia ser ela não tinha parentesco com nenhum deles

Por mais de 70 anos, a filha mais nova do último tsar foi a sobrevivente mais famosa da história. Os testes genéticos de 1994 e de 2009 fecharam a conta da família e desmontaram Anna Anderson. Só não dizem qual dos esqueletos é o dela.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Foto de estúdio em preto e branco de uma família: um homem de uniforme militar sentado no centro, uma mulher de tiara de pé atrás dele, quatro moças de vestido claro e um menino de roupa de marinheiro.
Harris & Ewing Collection, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • A família do tsar Nicolau II foi executada na madrugada de 17 de julho de 1918, em Ecaterimburgo; nove corpos foram para uma cova e dois filhos para outra.
  • Em 1994, o DNA confirmou que a primeira cova guardava o tsar, a tsarina e três filhas. No mesmo ano, o DNA de Anna Anderson não bateu com o de um parente da tsarina.
  • Em 2007, apareceram 44 fragmentos de ossos e dentes a cerca de 70 metros da primeira cova. Em 2009, a análise mostrou que eram Alexei e uma das irmãs.
  • O DNA não diz se a filha da segunda cova é Maria ou Anastasia. Mas as quatro filhas estão contadas entre os mortos.

No verão de 2007, um grupo de arqueólogos amadores encontrou alguns fragmentos de ossos em Ecaterimburgo, na Rússia, perto da antiga estrada de Koptiaki, a cerca de 70 metros da cova onde estavam os restos do último tsar. A escavação oficial que veio depois recolheu 44 fragmentos de ossos e dentes.

Dois anos depois, um laboratório militar americano e um instituto austríaco publicaram o resultado do DNA: eram o herdeiro Alexei e uma de suas irmãs. Com isso, os sete membros da família Romanov estavam contados.

Então, não: Anastasia Romanov não sobreviveu. O artigo de 2009 termina dizendo que nenhum membro da família escapou da execução. E a mulher mais famosa entre as que diziam ser ela, Anna Anderson, já tinha sido desmentida pelo DNA quinze anos antes.

A madrugada de 17 de julho de 1918

Nicolau II abdicou em 1917. Ele, a tsarina Alexandra e os cinco filhos — Olga, Tatiana, Maria, Anastasia e Alexei — acabaram mantidos em Ecaterimburgo sob a guarda do Soviete dos Urais, com quatro empregados: o médico Eugene Botkin, o camareiro Alexei Trupp, a criada Anna Demidova e o cozinheiro Ivan Kharitonov.

Segundo o artigo da PLoS ONE de 2009, o Soviete dos Urais temia que o Exército Branco tentasse resgatar a família e decidiu executá-la. Na madrugada de 17 de julho de 1918, todos foram levados ao porão da Casa Ipatiev e fuzilados.

Depois de uma tentativa fracassada de sumir com os corpos num poço de mina abandonado, eles foram levados a um campo a poucos quilômetros dali. Nove foram enterrados numa cova comum. Dois dos filhos, numa cova separada.

É desse detalhe que nasceu a lenda.

Foto antiga e desbotada de um casarão de dois andares com cerca de madeira na frente; pequenas figuras de pé na rua de terra e homens de uniforme à direita.
Diante da casa do governador em Tobolsk, em 1917 ou 1918. Segundo a legenda original da agência, quatro das figuras são as grã-duquesas, o menino no centro é o herdeiro, e o homem no extremo direito, o tsar. Imagem: Underwood & Underwood, copyright claimant, via Wikimedia Commons · Domínio público

Uma cova guardada em segredo

A cova maior foi localizada pelo geólogo Alexander Avdonin, que manteve o lugar em segredo com um punhado de amigos até a queda da União Soviética, em 1991. As fontes não batem quanto à data da descoberta: o artigo de 2009 fala no "fim dos anos 1970"; um texto de 2011 do mesmo autor principal, Michael Coble, fala em "meados dos anos 1970" e, mais adiante, em 1977.

Em julho de 1991, nove esqueletos foram encontrados numa cova rasa. As autoridades russas os atribuíram ao tsar, à tsarina, a três dos cinco filhos, ao médico e a três empregados.

Faltavam dois: Alexei e uma das irmãs. Qual delas virou disputa. Os antropólogos russos estavam convencidos de que a ausente era Maria; os americanos achavam que era Anastasia.

O que o DNA de 1994 mostrou

A análise genética da primeira cova foi feita por Peter Gill, do Forensic Science Service britânico, com o geneticista russo Pavel Ivanov, e saiu na Nature Genetics em fevereiro de 1994.

O teste confirmou o sexo dos esqueletos e mostrou que havia um grupo familiar na cova. O DNA mitocondrial, herdado pela linha materna, deu correspondência exata entre a suposta tsarina, as três filhas e um parente vivo: o príncipe Philip, duque de Edimburgo.

No suposto tsar havia uma esquisitice genética, uma mistura de duas versões do DNA numa mesma posição. Isso alimentou desconfiança por anos. Em 1996, o DNA do irmão dele, o grão-duque Jorge, morto em 1899, mostrou a mesma mistura.

Anna Anderson, desmentida pelo príncipe Philip

Anna Anderson foi a pretendente mais famosa. Segundo a enciclopédia Women in World History, ela foi resgatada de uma tentativa de suicídio num canal de Berlim dois anos depois da execução, levada a um hospital psiquiátrico e só então passou a se dizer a grã-duquesa sobrevivente.

De acordo com o catálogo da Wellcome Collection, a reivindicação correu por 30 anos nos tribunais alemães e terminou sem que ela fosse provada. Exames de caligrafia, de comparação facial e de padrão de fala foram inconclusivos enquanto ela viveu. Ela morreu em 1984, em Charlottesville, nos Estados Unidos.

Dez anos depois, o DNA mitocondrial de uma amostra de tecido do corpo dela foi comparado com o sangue cedido pelo príncipe Philip. Não bateu. Os testes apontaram para uma operária polonesa chamada Franziska Schanzkowska (a grafia do sobrenome varia entre as fontes).

Houve uma checagem cruzada. Na Universidade Estadual da Pensilvânia, a estudante de pós-graduação Terry Melton e o professor Mark Stoneking analisaram fios de cabelo atribuídos a Anderson e compararam o resultado com os testes feitos por outros pesquisadores num tecido intestinal que também seria dela. As amostras, segundo o relato da universidade, eram da mesma pessoa.

O resultado foi publicado na Nature Genetics em janeiro de 1995, com 11 autores: pesquisadores da Pensilvânia, do laboratório de DNA das Forças Armadas americanas e do Forensic Science Service britânico, além de um integrante da Peninsula Films, a produtora do documentário que o Channel 4 exibiu sobre o caso em 1994. O artigo de 2009 resume: com o DNA, Anna Anderson "foi exposta como impostora" (tradução nossa).

Retrato em preto e branco de uma menina de cabelo longo e escuro preso com laço, colar de pérolas e vestido claro rendado, sentada de lado e olhando para a câmera.
A grã-duquesa Anastasia num retrato sem data registrada, do acervo da agência Bain News Service. Imagem: Bain News Service, publisher, via Wikimedia Commons · Domínio público

2007: os dois que faltavam

Os ossos de 2007 eram poucos e muito fragmentados. Os antropólogos russos e americanos concluíram que havia pelo menos duas pessoas: uma moça de 15 a 19 anos e, provavelmente, um rapaz de 12 a 15. Três obturações de amálgama de prata em dois molares sugeriam alguém de família aristocrática.

O governo russo convidou cientistas para um teste independente. O DNA foi analisado por três equipes, duas no laboratório de DNA das Forças Armadas americanas e uma no Instituto de Medicina Legal de Innsbruck, na Áustria, sem trocar dados durante o trabalho.

O resultado veio por três caminhos:

  • Linha materna: as amostras novas tinham exatamente o DNA mitocondrial da tsarina Alexandra.
  • Linha paterna: o cromossomo Y do rapaz bateu nos 17 marcadores com o do tsar e com o de um primo distante vivo, o príncipe Andrew Andreevich Romanov.
  • Árvore da família: os perfis dos dois se encaixaram como filhos de Nicolau e Alexandra.

Os números são de outra escala. A evidência genética é 4,36 trilhões de vezes mais provável se a moça for filha do casal do que se for uma desconhecida, e mais de 80 trilhões de vezes mais provável no caso do rapaz.

Há ainda uma prova de antes da morte. Em 1891, Nicolau, então herdeiro, levou dois golpes de sabre num atentado em Otsu, no Japão. A camisa ensanguentada ficou guardada no Museu Hermitage. O DNA do sangue da camisa bateu com o de um dente do esqueleto do tsar.

Uma equipe liderada pelo geneticista russo Evgeny Rogaev publicou um estudo independente na PNAS em 2009 e chegou à mesma conclusão: os restos de Nicolau II e de todos os cinco filhos estavam identificados.

A pergunta que o DNA não responde

Sobra uma dúvida, e ela é justamente sobre Anastasia. O DNA não diz se a moça da segunda cova é ela ou Maria.

Os autores de 2009 explicam por quê: sem uma referência genética de cada irmã, só é possível identificar com certeza Alexei, o único filho homem. Todas as filhas herdaram da mãe o mesmo DNA mitocondrial.

Mas a dúvida não reabre a lenda. Três filhas estavam na primeira cova, e a quarta está na segunda. Seja qual for o nome em cada esqueleto, Anastasia está entre os mortos.

A identificação também não encerrou a resistência. Coble escreveu em 2011 que as dúvidas levantadas por um grupo pequeno de cientistas talvez tenham pesado na recusa da Igreja Ortodoxa Russa em aceitar a identificação, em 1998.

Da execução ao último teste

  1. 17 de julho de 1918A família do tsar e quatro empregados são executados no porão da Casa Ipatiev, em Ecaterimburgo.
  2. Anos 1970Alexander Avdonin localiza a cova maior e guarda segredo. As fontes divergem entre meados e fim da década.
  3. Julho de 1991Nove esqueletos são exumados. Faltam Alexei e uma das filhas.
  4. Fevereiro de 1994A Nature Genetics publica o DNA que liga os restos à família Romanov.
  5. 1994O DNA de amostras atribuídas a Anna Anderson não bate com o do príncipe Philip. A publicação sai em janeiro de 1995.
  6. Verão de 2007Arqueólogos amadores acham ossos a cerca de 70 metros da primeira cova. A escavação oficial recolhe 44 fragmentos de ossos e dentes.
  7. Março de 2009A PLoS ONE publica a identificação de Alexei e de uma irmã. Nenhum Romanov sobreviveu.

Por que a lenda durou tanto

Por quase 70 anos, o paradeiro dos corpos foi conhecido por um punhado de pessoas. Segundo o artigo de 2009, mais de 200 pessoas já disseram ser um dos cinco filhos do tsar desde 1918. A cova incompleta de 1991 manteve a porta aberta por mais 16 anos.

O que fechou a porta não foi um documento nem uma confissão. Foi um teste de parentesco feito com ossos, dentes, fios de cabelo e uma camisa guardada num museu.

Identidades decididas por um arquivo ou por uma amostra de laboratório aparecem em outras histórias do site, como a do bebê do experimento de medo de 1920, que até hoje ninguém sabe ao certo quem era. E a lenda que cresce sobre um detalhe que falta também está na história de Hachiko, o cão de Shibuya.

Fontes

  1. Mystery Solved: The Identification of the Two Missing Romanov Children Using DNA Analysis (2009), Coble et al., PLoS ONE 4(3): e4838
  2. Identification of the remains of the Romanov family by DNA analysis (1994), Gill et al., Nature Genetics 6(2): 130–135
  3. Genomic identification in the historical case of the Nicholas II royal family (2009), Rogaev et al., PNAS 106(13): 5258–5263
  4. The identification of the Romanovs: Can we (finally) put the controversies to rest? (2011), Michael D. Coble, Investigative Genetics 2: 20
  5. The mystery of Anastasia (Channel 4, 1994) — registro de catálogo, Wellcome Collection
  6. The Anastasia Story (1995), Penn State University

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Anastasia Romanov sobreviveu à execução da família?
Não. A família do tsar Nicolau II foi executada na madrugada de 17 de julho de 1918, em Ecaterimburgo. Os restos de nove pessoas foram achados numa cova aberta oficialmente em 1991, e os dois filhos que faltavam, Alexei e uma das irmãs, foram encontrados em 2007 a cerca de 70 metros dali. A análise de DNA publicada em 2009 concluiu que nenhum membro da família sobreviveu.
Anna Anderson era Anastasia?
Não. Em 1994, dez anos depois da morte dela, o DNA mitocondrial de uma amostra de tecido atribuída a Anderson foi comparado com o do príncipe Philip, parente pela linha materna da tsarina, e não bateu. Um estudo de cabelos atribuídos a ela, feito na Universidade Estadual da Pensilvânia, chegou à mesma conclusão. Os testes apontaram para uma operária polonesa, Franziska Schanzkowska. O resultado foi publicado na Nature Genetics em janeiro de 1995.
Já se sabe qual dos esqueletos é o de Anastasia?
Não com DNA. Antropólogos russos achavam que a filha ausente da primeira cova era Maria; os americanos, que era Anastasia. Os autores do estudo de 2009 escreveram que o DNA não resolve a dúvida, porque não há uma referência genética de cada irmã. O que o DNA mostra é que as quatro filhas estão entre os restos encontrados.
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