Hanói pagava por rabo de rato em 1902, e logo apareceram ratos sem rabo. A história das cobras de Delhi, que dá nome ao efeito cobra, não tem data nem documento
Um historiador achou num arquivo francês as planilhas da caça aos ratos de Hanói: num só dia, mais de 20 mil. Na Índia britânica houve, sim, recompensa por cobra morta, mas a suspeita de criação foi levada a naturalistas em 1887, e eles a descartaram.

Em 30 segundos
- Em 1902, a administração colonial francesa de Hanói pagou por rabo de rato entregue; as planilhas registram 20.114 ratos mortos em 12 de junho.
- Depois de cerca de três meses, apareceram ratos sem rabo fora da cidade e criações de ratos em vilarejos do entorno, segundo o historiador Michael Vann.
- A história das cobras de Delhi, que dá nome ao efeito, circula sem data, sem nome do governante e sem documento citado.
- Na Índia britânica houve recompensa por cobra morta; em 1887, a Sociedade de História Natural de Bombaim chamou a criação de cobras para lucro de "altamente improvável".
Entre abril e julho de 1902, a administração colonial francesa de Hanói registrou, em formulários diários, quantos ratos eram mortos na cidade. Em 12 de junho, segundo essas planilhas, foram 20.114.
Pagava-se por rabo entregue. Depois de cerca de três meses, começaram a aparecer, fora da cidade, ratos vivos e sem rabo.
Esse é o caso documentado do que hoje se chama efeito cobra: uma recompensa criada para resolver um problema que dá às pessoas motivo para mantê-lo vivo. O nome, porém, vem de outra história, sobre cobras em Delhi, que circula há anos sem data, sem nome e sem documento.
Ratos saindo pelo vaso sanitário
Quem achou os papéis foi o historiador Michael G. Vann, da Universidade Estadual de Sacramento. Em 1995, pesquisando a história urbana de Hanói no arquivo colonial francês de Aix-en-Provence, ele abriu uma pasta chamada "Destruição de Animais na Cidade" só por causa do título mórbido.
Dentro, havia cerca de cem formulários idênticos com o número de ratos mortos nos 1º e 2º distritos de Hanói. Nenhuma explicação. Vann publicou o primeiro artigo sobre o caso em 2003, na revista French Colonial History, e depois o ampliou num livro, metade em quadrinhos, lançado pela Oxford University Press em 2018.
O contexto que ele reconstruiu é este. Os franceses tomaram Hanói nos anos 1880 e a reconstruíram. Na década de 1890, instalaram esgotos modernos e água encanada — mas, segundo Vann, as casas francesas tinham vaso sanitário e água corrente, enquanto o Bairro Antigo — onde cerca de 90% da população, vietnamita e chinesa, se espremia em um terço da área da cidade — tinha basicamente valas.
Ao mesmo tempo, uma epidemia de peste bubônica saída de Yunnan, na China, corria o mundo. Em 1898, o francês Paul-Louis Simond identificou o papel dos ratos e de suas pulgas na propagação da doença. Em 1902, Alexandre Yersin — o descobridor do bacilo da peste — estava em Hanói, enviado para fundar uma escola de medicina.
Foi quando moradores do bairro francês relataram uma infestação. Ao que parece, ratos-marrons tinham chegado da China em navios e trens e descoberto nos esgotos novos um ambiente ideal. Houve relatos de ratos subindo pelos canos e saindo pelos vasos sanitários de casas francesas. Com o medo da peste, começou a caça.
O equivalente a um centavo por rabo
Os trabalhadores vietnamitas dos esgotos se recusaram a caçar ratos lá embaixo e entraram em greve, conta Vann. A prefeitura então ofereceu uma recompensa por rato morto.
Logo percebeu-se que receber milhares de ratos mortos na sede da administração não era boa ideia. Passou-se a exigir só o rabo. O valor aparece de forma diferente nas entrevistas do próprio Vann: numa, de 2018, ele diz que o pagamento equivalia a "um centavo" por rabo; noutra, de 2020, fala em "alguns centavos".
Os números subiram depressa. Segundo Vann, um mês depois do início, em 19 de maio, foram 7.442 ratos num dia. Era comum ver entre 7 mil e 14 mil por dia. O pico, nas planilhas, foi em junho.
Há pequenas divergências entre os relatos. Numa entrevista de 2018, Vann diz que as folhas iam "de março ou abril" a julho de 1902; na de 2020, de abril a julho. Sobre o recorde, ele cita o número exato, 20.114, no Freakonomics, e "mais de 20 mil" nas demais entrevistas.
Os ratos sem rabo
Depois de uns três meses, segundo Vann, as autoridades descobriram que, logo fora de Hanói, havia ratos correndo sem rabo. A investigação seguinte achou criações de ratos montadas por moradores em vilarejos do entorno: cortava-se o rabo, recebia-se a recompensa e soltava-se o animal para continuar procriando.
Havia ainda uma rede de contrabando trazendo ratos e outros roedores de todo o Tonkin, o norte do atual Vietnã, para cobrar em Hanói.
Na pasta do arquivo, os números caem para alguns milhares por dia, depois centenas, depois dezenas. A última página registra zero.

No fim, diz Vann, os franceses concluíram que medidas sanitárias intensas e invasivas funcionavam melhor: isolar doentes em lazaretos, queimar pertences e muitas vezes as casas dos doentes, recolher cadáveres. Medidas que, segundo ele, enfureceram a população local.
O historiador faz uma ressalva que vale para toda a história: nos arquivos coloniais, da população da cidade ao número de casos de peste e à contagem diária de ratos mortos, tudo era "na verdade um palpite", nas palavras dele (tradução nossa). O caso é documentado; os números exatos devem ser lidos com esse cuidado.
Onde entra a cobra
Vann conta que, quando publicou o artigo de 2003, imaginou que algumas dezenas de colegas o leriam. Em 2012, os produtores do programa Freakonomics ligaram pedindo uma entrevista, porque a pesquisa ilustrava o princípio dos "incentivos perversos" — um conceito, diz ele, "totalmente novo" para ele na época. Depois disso, o artigo passou a ser citado por economistas e jornalistas de negócios.
O episódio do Freakonomics, de outubro de 2012, se chamava justamente The Cobra Effect. E a história das cobras foi contada nele não por um historiador, mas por Vikas Mehrotra, professor de finanças da Universidade de Alberta, no Canadá: o governante britânico — "the British governor, or whoever", nas palavras dele, o governador "ou quem quer que fosse" — queria livrar Delhi das cobras e pôs um prêmio por cobra morta; parte da população passou a criá-las; sem mercado, "você simplesmente as solta" (tradução nossa).
Nenhum ano, nenhum nome, nenhum documento é citado.
A expressão já tinha virado título de livro antes disso. Em 2001, o economista alemão Horst Siebert, então presidente do Instituto Kiel de Economia Mundial e membro do Conselho Alemão de Especialistas Econômicos, publicou Der Kobra-Effekt ("O efeito cobra"), com o subtítulo "como evitar descaminhos da política econômica". Não conseguimos consultar o livro para saber se Siebert indica de onde tirou a história.
A recompensa por cobra existiu. A criação, não se provou
O curioso é que a parte mais difícil de acreditar — o governo pagando por cobra morta — é a que tem documento.
O médico Joseph Fayrer, autor de um livro sobre as serpentes venenosas da Índia, reuniu os números oficiais numa palestra na Society of Arts, em 1º de fevereiro de 1878. Segundo os registros que ele citou, só em 1875 foram destruídas 270.185 serpentes e 22.357 animais selvagens na Índia britânica, a um custo de 120.016 rúpias para o governo. Fayrer também reproduziu uma carta do governo da Índia, de 27 de novembro de 1874, que considerava "um fracasso" a oferta experimental de recompensas pela morte de serpentes.
E a suspeita de criação para lucro chegou, sim, aos ouvidos do governo. O governo de Bombaim perguntou à Sociedade de História Natural de Bombaim se havia verdade nos boatos de que, nos distritos de Satara e Ratnagiri, pessoas criavam serpentes em cativeiro para receber a recompensa.
A resposta, assinada pelo secretário honorário H. M. Phipson em 8 de junho de 1887, foi que aquilo era "altamente improvável". A naja, escreveu, "nunca foi vista se reproduzindo em cativeiro", até onde ele sabia (tradução nossa). O boato vinha provavelmente de outra prática: moradores da mata achavam ovos de cobra e os guardavam até eclodirem, para receber pelo filhote se fosse venenoso.
A revista da sociedade fechou a nota com uma frase que poderia servir a este texto: o assunto interessa "ao naturalista e ao economista", e "quanto antes a verdade for apurada, melhor".
Os dois exemplos clássicos do efeito cobra
Em cada item, primeiro: cobras de delhi. Depois: ratos de hanói.
- Sem ano, sem nome do governante nas versões que circulam
- Abril a julho de 1902, administração colonial francesa
- Nenhum documento citado para o pagamento em Delhi
- Cerca de cem formulários diários no arquivo de Aix-en-Provence
- Criação de cobras para lucro: boato levado a naturalistas em 1887, que o julgaram altamente improvável
- Ratos sem rabo e criações de ratos encontrados pelas próprias autoridades
- Contada por economistas, como anedota
- Reconstituída por um historiador, a partir de arquivos em Aix, Paris e Hanói
O efeito existe; o exemplo famoso é que não se sustenta
Nada disso desmente a ideia. Pagar por prova de um resultado, em vez de pelo resultado, abre espaço para quem fabrica a prova. Em Hanói, a prova era um rabo, e um rabo se separa do rato sem matá-lo.
O que não sobrevive à conferência é a história que deu nome ao fenômeno. A cobra de Delhi é uma parábola sem fonte. O caso com papel, número e data é o dos ratos — e até ele vem com o aviso do próprio historiador de que a contagem era um palpite.
Recompensa por animal abatido também não é fracasso garantido. Na Austrália, depois de o Exército perder para as aves na Guerra das Emas de 1932, foi justamente a recompensa por ema morta que acabou se mostrando o método mais eficaz. E se a ideia de uma história repetida por décadas sem que ninguém conferisse a fonte te interessa, vale ver como nasceram as 38 testemunhas que assistiram a um assassinato sem fazer nada.
Fontes
- The Great Hanoi Rat Hunt: A Conversation with Michael G. Vann (2020), Ivan Franceschini, Made in China Journal 5(2), ANU Press
- Interview with Michael G. Vann (2018), Marc Jason Gilbert, World History Connected 15(2), University of Illinois Press
- The Cobra Effect (episódio 96, 2012), Freakonomics Radio
- Snake-Breeding for the Government Reward (1887), Journal of the Bombay Natural History Society, vol. 2, p. 205–206 (Biodiversity Heritage Library)
- Destruction of Life by Wild Animals and Venomous Snakes in India (1878), Joseph Fayrer, Society of Arts, Londres — obra digitalizada
- Der Kobra-Effekt: wie man Irrwege der Wirtschaftspolitik vermeidet (2001) — registro catalográfico, Deutsche Nationalbibliothek
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- O que é o efeito cobra?
- É o nome dado a uma recompensa que, criada para resolver um problema, dá às pessoas motivo para piorá-lo. O exemplo que batizou a expressão é uma história sobre a Índia britânica: o governo pagaria por cobra morta, as pessoas passariam a criar cobras para receber, e, cancelado o pagamento, soltariam os animais. A expressão virou título de um livro do economista alemão Horst Siebert em 2001.
- A história das cobras de Delhi é verdadeira?
- Não há documento conhecido que a sustente. As versões que circulam não trazem ano, nome do governante nem fonte. O que os registros mostram é que a Índia britânica pagou recompensas por cobras mortas no século 19 e que boatos de criação de cobras chegaram ao governo de Bombaim; consultada em 1887, a Sociedade de História Natural de Bombaim respondeu que isso era "altamente improvável" e que a naja nunca tinha sido vista se reproduzir em cativeiro.
- O que aconteceu com os ratos de Hanói em 1902?
- Com medo da peste, a administração colonial francesa passou a pagar por rato morto e depois aceitou só o rabo como prova. As planilhas encontradas pelo historiador Michael Vann registram até 20.114 ratos num dia, em 12 de junho de 1902. Depois de cerca de três meses, as autoridades acharam ratos sem rabo fora da cidade, criações de ratos em vilarejos e uma rede que trazia ratos de todo o Tonkin para receber a recompensa.
Leia também

Curiosidades · 8 min
Nenhuma bruxa de Salem foi queimada. Dezenove pessoas foram enforcadas, e um homem morreu esmagado sob pedras

Curiosidades · 9 min
O primeiro astronauta chinês disse que não viu a Muralha do espaço. A primeira foto confirmada dela foi feita com teleobjetiva, e o fotógrafo também não a viu

Curiosidades · 8 min
Os irmãos Wright voaram em 1903, numa praia, com cinco testemunhas. Santos-Dumont voou em 1906, em Paris, diante de uma comissão oficial. Quem foi o primeiro depende da regra

Curiosidades · 8 min
O 30 de fevereiro existiu: a Suécia o imprimiu no almanaque de 1712, e um casal se casou nesse dia

Curiosidades · 8 min
Edison não inventou a lâmpada. A patente dele, de 1880, registra outra coisa: um fio de carbono que resistia à corrente

Curiosidades · 9 min
Napoleão media cinco pés e duas polegadas. O detalhe que desfaz o mito é que eram polegadas francesas
Mais de Curiosidades
Ver a seção
8 min
O machado levou o bico, os olhos e a cara de Mike, a "galinha sem cabeça". Segundo um especialista, até 80% do cérebro ficou, e ele viveu mais 18 meses

7 min
A avestruz não enterra a cabeça na areia. O romano apontado como pai do mito escreveu "arbusto", e um grego já tinha defendido a ave antes dele

8 min
Os lemingues suicidas do filme da Disney não pularam: foram jogados pela equipe de filmagem. O filme ganhou o Oscar de documentário
