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As 38 testemunhas que assistiram a um assassinato sem fazer nada nunca existiram

A manchete do New York Times de 1964 criou o caso mais citado da psicologia social. Em 2016, o próprio jornal admitiu que a reportagem era falha — e uma vizinha correu para socorrer Kitty Genovese.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
Passagem estreita entre a estação de trem de Kew Gardens e a Lefferts Boulevard, no Queens, onde Kitty Genovese foi atacada em 1964.
Union Turnpike, via Wikimedia Commons · CC BY 2.0

Em 13 de março de 1964, Kitty Genovese foi assassinada na porta de casa, no Queens, em Nova York. Duas semanas depois, o New York Times publicou que 37 vizinhos viram ou ouviram o ataque e nenhum fez nada. A reportagem virou a base do "efeito espectador" e entrou nos livros de psicologia por quatro décadas.

O número não se sustenta. E pelo menos três pessoas agiram.

O que aconteceu naquela madrugada

Catherine Susan Genovese, de 28 anos, gerenciava um bar em Hollis, no Queens. Saiu do trabalho por volta das 2h30 e dirigiu para casa no seu Fiat vermelho. Enquanto esperava um sinal, foi vista por Winston Moseley, de 29 anos, parado no carro dele.

Ela chegou em casa por volta das 3h15 e estacionou no pátio da estação de trem de Kew Gardens, a uns 30 metros da porta do prédio, na Austin Street. Moseley a seguiu, desceu do carro com uma faca de caça e a alcançou.

Kitty gritou: "Meu Deus, ele me esfaqueou! Me ajuda!"

Vários vizinhos ouviram. Poucos entenderam aquilo como pedido de socorro — um detalhe que a lenda apaga, mas que qualquer pessoa que já ouviu barulho de rua de madrugada reconhece. Um deles, Robert Mozer, gritou da janela: "Deixa essa moça em paz!"

Moseley fugiu.

E aqui está o fato que desmonta a versão popular: o ataque teve duas partes. Ferida, Kitty se arrastou para os fundos do prédio, para fora do campo de visão da rua. Moseley voltou ao carro, dirigiu, e retornou cerca de dez minutos depois. De chapéu de aba larga, vasculhou o estacionamento, a estação e o conjunto de apartamentos até encontrá-la num corredor dos fundos, onde uma porta trancada a impedira de entrar.

O segundo ataque, o fatal, aconteceu onde ninguém da rua podia ver.

De onde saiu o número 38

Duas semanas depois, o Times publicou a reportagem que fixaria o caso na cultura. A manchete falava em 37 pessoas que viram o crime sem chamar a polícia. O número virou 38 na repetição, e a história virou parábola.

O problema é que ela foi construída sobre uma pergunta mal feita. Somar todo mundo que ouviu alguma coisa ao longo de meia hora, em dois ataques separados e em locais diferentes, e depois apresentar essa soma como "testemunhas que assistiram ao assassinato", é um erro de reportagem — não uma descoberta sobre a natureza humana.

Ainda em 1964, jornalistas de um veículo concorrente perceberam que a matéria não batia com os fatos. Não publicaram: não estavam dispostos a peitar Abe Rosenthal, o editor do Times.

Em 2007, um artigo na American Psychologist, assinado por Rachel Manning, Mark Levine e Alan Collins, foi ao material de arquivo e concluiu, com todas as letras, que não há evidência da presença de 38 testemunhas, nem de que tenham observado o assassinato, nem de que tenham permanecido inertes.

Em 2016, ao noticiar a morte de Moseley na prisão, o próprio New York Times chamou a cobertura original de "falha" e admitiu que ela exagerou grosseiramente o número de testemunhas e o que elas teriam percebido.

O contexto que ninguém menciona

Duas informações mudam completamente a leitura do caso, e as duas costumam sumir.

A primeira: os registros das primeiras ligações para a polícia são confusos, e as chamadas não receberam prioridade alta. Uma testemunha disse que o pai ligou depois do primeiro ataque e relatou que uma mulher tinha "apanhado, mas se levantou e estava cambaleando" — que é, honestamente, o que aquele primeiro momento parecia de longe.

A segunda: o sistema 9-1-1 não existia em Nova York em 1964. Só foi implantado quatro anos depois. Não havia um número único e óbvio para emergência. Outra testemunha, Karl Ross, ligou para amigos pedindo conselho sobre o que fazer antes de ligar para a polícia — comportamento que soa absurdo hoje e era comum quando não havia procedimento estabelecido.

O detalhe que amarra tudo

Kitty Genovese não morreu sozinha num corredor enquanto o mundo olhava pela janela.

Sophia Farrar, vizinha e amiga próxima, desceu, atravessou o prédio, achou Kitty ainda viva no corredor dos fundos e a segurou nos braços, sussurrando que a ajuda estava a caminho, até a ambulância chegar.

Farrar não tinha como saber se o agressor ainda estava ali. Desceu assim mesmo.

Essa mulher foi apagada da história mais citada sobre apatia humana da psicologia social. A parábola precisava de trinta e oito omissos, então a pessoa que correu para o corredor escuro não cabia no roteiro.

Kitty foi recolhida pela ambulância às 4h15 e morreu a caminho do hospital. Moseley foi preso seis dias depois, em 19 de março, durante um roubo — flagrado por um vizinho, Raoul Cleary, que estranhou o movimento e chamou a polícia, enquanto outro morador, Jack Brown, sabotava o carro dele para impedir a fuga. Moseley confessou. Morreu na prisão em 28 de março de 2016, aos 81 anos, depois de 52 anos preso.

O que sobra de verdade

Nada disso significa que o efeito espectador seja invenção. A difusão de responsabilidade em grupo é um fenômeno real, replicado em laboratório muitas vezes desde os experimentos de John Darley e Bibb Latané, no fim dos anos 1960 — que, aliás, nasceram como reação a esta reportagem. Uma pesquisa pode chegar a uma conclusão sólida partindo de uma premissa jornalística furada.

O que caiu foi o caso fundador, não o conceito. E vale distinguir uma coisa da outra, porque a versão popular ensina algo falso: que as pessoas, em geral, não ajudam. Estudos recentes com filmagens reais de conflito em espaço público apontam o contrário — na esmagadora maioria das vezes, alguém intervém.

É o mesmo tipo de correção que a matéria sobre o pânico que nunca houve na transmissão de A Guerra dos Mundos faz com outro clássico do "a multidão enlouqueceu": a manchete sobreviveu melhor que o fato. E, como no caso da epidemia de dança de Estrasburgo em 1518, a história real é mais estranha e mais humana do que o resumo que se repete.

Fontes

  1. The Kitty Genovese murder and the social psychology of helping: the parable of the 38 witnesses (2007), Manning, Levine & Collins, American Psychologist 62(6), 555–562
  2. The Kitty Genovese Murder and the Social Psychology of Helping — texto integral (PDF), Manning, Levine & Collins (2007)
  3. Fact Check: Did 38 Witnesses Do Nothing While Kitty Genovese Was Killed in 1964?, Newsweek
  4. The bystander effect — revisão do campo, American Psychological Association, Monitor on Psychology

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas realmente viram o assassinato de Kitty Genovese?
Nenhum estudo conseguiu confirmar 38 testemunhas. A análise de 2007 publicada na American Psychologist, feita a partir de material de arquivo, concluiu que não há evidência da presença de 38 testemunhas, nem de que tenham assistido ao crime, nem de que tenham permanecido inertes. O ataque ocorreu em dois momentos, e o segundo foi num corredor nos fundos do prédio, fora da vista da rua.
Alguém tentou ajudar?
Sim. Um vizinho, Robert Mozer, gritou da janela e fez o agressor fugir. Pelo menos duas pessoas ligaram para a polícia. E Sophia Farrar, vizinha e amiga, desceu, encontrou Kitty ainda viva no corredor e a segurou nos braços até a ambulância chegar.
O New York Times corrigiu a reportagem?
Sim, em 2016, ao noticiar a morte do assassino na prisão, o jornal classificou a própria cobertura de 1964 como "falha" e reconheceu que ela exagerou muito o número de testemunhas e o que elas teriam percebido.
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