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O pânico da Guerra dos Mundos de 1938 quase não existiu. Quem inventou foram os jornais

A história diz que milhões de americanos fugiram de casa achando que marcianos tinham invadido. As audiências da época contam outra coisa.

Por Redação Fatos e Relatos3 min de leitura
Orson Welles, de terno claro, cercado por repórteres que anotam em blocos, em 31 de outubro de 1938, explicando a transmissão da véspera.
Acme News Photos, 31 de outubro de 1938, via Wikimedia Commons · Domínio público

Na noite de 30 de outubro de 1938, a CBS transmitiu uma adaptação de A Guerra dos Mundos em formato de boletim jornalístico. Orson Welles, então com 23 anos, dirigia e narrava.

No dia seguinte, os jornais americanos estamparam manchetes sobre uma onda de terror que teria varrido o país. A história virou o exemplo clássico do poder da mídia sobre as massas, repetido em livro didático, aula de comunicação e documentário até hoje.

Ela não se sustenta.

O que os números da audiência mostram

O programa da CBS competia naquele horário com o Chase and Sanborn Hour, da NBC, o maior sucesso do rádio americano na época.

O instituto de medição de audiência da época, o C.E. Hooper, ligou para milhares de casas americanas naquela mesma noite e fez uma pergunta simples: a que programa você está ouvindo agora?

Aproximadamente 2% responderam que estavam no programa da CBS. E boa parte desses o descreveu como uma peça de teatro, não como noticiário.

O dado é decisivo por um motivo: ele não depende de memória nem de depoimento posterior. Foi coletado enquanto a transmissão acontecia.

De onde veio a história do pânico

Os jornais do dia seguinte publicaram relatos de gente apavorada. Houve, de fato, ligações para redações e delegacias, algumas pessoas realmente assustadas, e casos pontuais de quem saiu de casa.

O salto entre isso e "a nação em pânico" foi dado pela imprensa escrita, e os pesquisadores Jefferson Pooley e Michael Socolow apontam um motivo concreto e nada misterioso.

Em 1938, o rádio vinha comendo a receita publicitária dos jornais. Um veículo novo, gratuito, que entrava na sala de estar e disputava o mesmo anunciante. Mostrar que esse veículo era irresponsável e perigoso servia diretamente aos interesses de quem imprimia as manchetes.

A cobertura foi grande no primeiro dia e sumiu depois. Mas o estrago já estava feito: a versão exagerada era boa demais para morrer.

O estudo que consolidou o mito

Dois anos depois, o psicólogo Hadley Cantril, de Princeton, publicou The Invasion from Mars, o primeiro estudo acadêmico do episódio. O livro estimou que cerca de um milhão de pessoas teriam ficado assustadas.

O número virou referência e circula até hoje. O problema é como ele foi obtido: em boa medida a partir dos próprios recortes de jornal, e de entrevistas feitas semanas depois, quando os entrevistados já tinham lido nos jornais que havia ocorrido um pânico nacional.

A pesquisa acabou medindo, em parte, o efeito da cobertura sobre a lembrança das pessoas.

O detalhe que amarra tudo

Existe uma ironia difícil de ignorar nessa história.

O episódio é ensinado como prova de que um veículo de comunicação pode convencer uma população inteira de algo que não aconteceu.

E ele é exatamente isso. Só que o veículo não foi o rádio, e a população convencida não é a de 1938. Somos nós, oitenta e sete anos depois, ainda repetindo que houve um pânico que as medições daquela noite não registram.

A fotografia acima é de 31 de outubro de 1938. É Orson Welles diante dos repórteres, explicando que ninguém envolvido na transmissão pretendia assustar quem quer que fosse. A cena do desmentido é do mesmo dia da manchete.

Fontes

  1. The Myth of the War of the Worlds Panic (2013), Jefferson Pooley e Michael Socolow, Slate
  2. The Invasion from Mars: A Study in the Psychology of Panic (1940), Hadley Cantril, Princeton University Press
  3. The Infamous War of the Worlds Radio Broadcast Was a Magnificent Fluke, Smithsonian Magazine

Perguntas frequentes

A transmissão da Guerra dos Mundos causou pânico em massa?
Não na escala que se conta. A audiência do programa era pequena, e as pesquisas de opinião feitas na noite da transmissão mostram que quase ninguém estava ouvindo. Houve ligações preocupadas e casos isolados de susto, mas não houve fuga em massa nem histeria nacional.
Quando foi a transmissão?
Na noite de 30 de outubro de 1938, véspera do Halloween, pela rede CBS, no programa Mercury Theatre on the Air, dirigido e narrado por Orson Welles.
Por que essa história pegou, então?
Os jornais tinham interesse em mostrar o rádio como um veículo irresponsável, porque a publicidade estava migrando do impresso para o rádio. A cobertura do dia seguinte exagerou o episódio, e o exagero virou fato repetido por décadas.
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