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O pânico da Guerra dos Mundos de 1938 quase não existiu. Quem inventou foram os jornais

A história diz que milhões de americanos fugiram de casa achando que marcianos tinham invadido. As audiências da época contam outra coisa.

Redação Fatos e RelatosAtualizada em 7 min de leitura
Orson Welles, de terno claro, cercado por repórteres que anotam em blocos, em 31 de outubro de 1938, explicando a transmissão da véspera.
Acme News Photos, 31 de outubro de 1938, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Na noite de 30 de outubro de 1938, a CBS transmitiu A Guerra dos Mundos em formato de boletins de notícias, numa adaptação dirigida e narrada por Orson Welles, de 23 anos.
  • Uma pesquisa telefônica do serviço C.E. Hooper feita naquela noite em 5.000 casas encontrou só 2% de ouvintes do programa, e nenhum deles o descreveu como noticiário.
  • Houve ligações assustadas para jornais e rádios, mas pesquisadores de Princeton não acharam registro de atendimentos causados pela transmissão em seis hospitais de Nova York.
  • O número de cerca de 1 milhão de assustados vem de um livro de 1940 que usou uma pesquisa feita seis semanas depois, já sob o efeito das manchetes.

Na noite de domingo, 30 de outubro de 1938, a rede CBS transmitiu uma adaptação de A Guerra dos Mundos contada como uma sequência de boletins de notícias e relatos de testemunhas. Orson Welles, então com 23 anos, dirigia e narrava. O roteiro, de Howard Koch, punha os marcianos pousando em Grovers Mill, um vilarejo de Nova Jersey.

No dia seguinte, os jornais americanos estamparam manchetes sobre uma onda de terror que teria varrido o país. A história virou o exemplo clássico do poder da mídia sobre as massas, repetido em livro didático, aula de comunicação e documentário até hoje.

Ela não se sustenta. Os dados coletados naquela mesma noite mostram que quase ninguém estava ouvindo, e que quem ouvia sabia que era teatro.

O que os números da audiência mostram

O Mercury Theatre on the Air tinha acabado de trocar a segunda-feira pelo domingo à noite. Nesse horário, enfrentava o Chase and Sanborn Hour, da NBC, com o ventríloquo Edgar Bergen, um dos programas mais populares do país.

Naquela noite, o serviço de medição de audiência C.E. Hooper fez sua checagem nacional de rotina: telefonou para 5.000 casas e perguntou a que programa as pessoas estavam ouvindo.

Só 2% estavam no programa da CBS. A revista Broadcasting, do setor de rádio, publicou o resultado em 15 de novembro de 1938: todos os que estavam sintonizados responderam "peça", "programa do Orson Welles" ou algo parecido, e ninguém disse "noticiário" ou "notícias da guerra".

O dado pesa por um motivo simples: não depende de memória nem de depoimento posterior. Foi colhido enquanto a transmissão acontecia.

E a audiência possível era ainda menor do que a rede inteira. Algumas afiliadas importantes da CBS, como a WEEI de Boston, trocaram o programa por atrações locais naquela noite.

O que de fato aconteceu naquela noite

Houve susto, e ele deixou rastro. A mesma reportagem da Broadcasting listou as ligações: a NBC recebeu cerca de 600 durante a noite, a maioria antes das 21h30, quando o colunista Walter Winchell leu uma mensagem tranquilizadora no ar. A rede Mutual tinha recebido umas 300 até as 20h30. O New York Times contou perto de mil.

É um registro real de gente confusa ou preocupada. Não é um registro de fuga em massa.

Os relatos mais dramáticos não resistiram à checagem. Pesquisadores do Escritório de Pesquisa em Rádio de Princeton foram atrás do boato de que várias pessoas tinham sido tratadas por choque num hospital de Newark, e o boato era falso. Seis semanas depois, consultaram seis hospitais de Nova York: nenhum tinha registro de casos atendidos por causa da transmissão. Nenhum jornal noticiou um suicídio verificado ligado ao programa.

Quatro dias depois da cobertura inicial, o Washington Post publicou a carta de um leitor que tinha caminhado pela F Street durante a transmissão. Ele viu rádios ligados nas lojas e "nada que se aproximasse de histeria em massa" (tradução nossa).

O que a CBS e Welles disseram

No dia seguinte, a CBS lamentou que "alguns ouvintes" tivessem confundido fantasia com fato. Lembrou que o programa foi anunciado como dramatização antes, depois e duas vezes durante a hora. E prometeu não usar mais boletins simulados em dramatizações que pudessem causar alarme.

Welles enumerou quatro razões pelas quais, segundo ele, a ficção deveria ter ficado clara. A invasão era datada de 1939, ou seja, no futuro. O programa estava no horário de sempre, anunciado nos jornais. Os ouvintes foram avisados no início e duas vezes no meio que se tratava de uma peça. E marcianos já eram assunto de quadrinhos.

O presidente da Comissão Federal de Comunicações, Frank McNinch, disse que uma transmissão que causasse "pânico tão generalizado como esta, segundo se noticia", era lamentável. Repare na ressalva: segundo se noticia. As redes se comprometeram informalmente a não usar falsos "plantões" na ficção, mas nem a CBS nem Welles sofreram sanção.

De onde veio a história do pânico

O salto entre as ligações daquela noite e "a nação em pânico" foi dado pela imprensa escrita. Os pesquisadores Jefferson Pooley e Michael Socolow apontam um motivo concreto.

Durante a Depressão, o rádio vinha tirando receita publicitária dos jornais. Um veículo novo, gratuito, que entrava na sala de estar e disputava o mesmo anunciante. Mostrar que esse concorrente era irresponsável servia diretamente a quem imprimia as manchetes. O New York Times publicou um editorial chamado "Terror pelo Rádio".

A própria Broadcasting registrou o tom em 1938: ao noticiar o episódio, os jornais "lançaram mão de todas as armas dramáticas à sua disposição e superaram com folga a técnica de Orson Welles" (tradução nossa).

E a cobertura foi intensa, mas curta. O professor W. Joseph Campbell, da American University, analisou os jornais da época e concluiu que o assunto saiu das primeiras páginas, na maioria dos casos, depois de um ou dois dias. Um pânico de verdade teria rendido semanas de reportagens sobre as consequências.

A lenda e o registro

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes da época mostram.

Milhões de americanos ouviram e acreditaram
2% das casas consultadas ouviam, e ninguém disse que era noticiário
Multidões fugiram para as ruas
Houve ligações a jornais e rádios; um leitor do Washington Post não viu nada parecido com histeria
Hospitais lotados e mortes
Seis hospitais de Nova York sem registro de atendimentos; nenhum suicídio verificado
Welles foi punido
Nem a CBS nem Welles sofreram sanção oficial

O estudo que consolidou o mito

Em 1940, o psicólogo Hadley Cantril, de Princeton, publicou The Invasion from Mars, o primeiro estudo acadêmico do episódio. O livro estimou que cerca de 1 milhão de pessoas ficaram "assustadas".

O número virou referência. O problema é de onde ele saiu. Cantril se apoiou sobretudo numa pesquisa do American Institute of Public Opinion feita seis semanas depois da transmissão, quando os entrevistados já tinham lido nos jornais que houvera um pânico nacional. O próprio Cantril reconheceu que essa pesquisa dava ao programa uma audiência mais de 100% maior que qualquer outra medição conhecida.

Há ainda um salto de categoria. Ficar "assustado", "perturbado" ou "excitado" com um drama de suspense era comum no rádio dos anos 1930. Isso não é o mesmo que entrar em pânico.

Segundo Pooley e Socolow, Cantril continua sendo a única fonte com legitimidade acadêmica a afirmar que houve um pânico de grandes proporções.

O detalhe que amarra tudo

Existe uma ironia difícil de ignorar nessa história.

O episódio é ensinado como prova de que um veículo de comunicação pode convencer uma população inteira de algo que não aconteceu. E ele é exatamente isso. Só que o veículo não foi o rádio, e a população convencida não é a de 1938. Somos nós, quase nove décadas depois, repetindo que houve um pânico que as medições daquela noite não registram.

Não é o único caso em que a versão de jornal virou fato histórico. As 38 testemunhas do assassinato de Kitty Genovese são outro exemplo de manchete que a checagem posterior não confirmou. E o caminho se repete com estudos científicos: o efeito Mozart saiu de um experimento pequeno e virou política pública depois de passar pelas manchetes.

Rádio de mesa com caixa de madeira escura, grade dourada iluminada por dentro e dois botões giratórios, sobre um móvel com toalhinha de crochê.
Rádio de válvulas de mesa, de modelo posterior a 1938. Imagem ilustrativa: não é um aparelho ligado ao episódio. Imagem: Maximilian Hofer, via Unsplash · Licença Unsplash

A fotografia do alto da página é de 31 de outubro de 1938. É Welles diante dos repórteres, no dia seguinte, lamentando o mal-entendido. A cena do desmentido é do mesmo dia das manchetes.

Fontes

  1. The Myth of the War of the Worlds Panic (2013), Jefferson Pooley e Michael Socolow, Slate
  2. Divided Reaction to Mars Broadcast (Broadcasting, 15 de novembro de 1938), Revista Broadcasting, 1938 — edição digitalizada
  3. Page from the Past: War of the Worlds (2016), Library of Congress
  4. The Invasion from Mars: A Study in the Psychology of Panic (1940), Hadley Cantril, Princeton University Press
  5. The Infamous War of the Worlds Radio Broadcast Was a Magnificent Fluke, A. Brad Schwartz, Smithsonian Magazine

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

A transmissão da Guerra dos Mundos causou pânico em massa?
Não na escala que se conta. Uma pesquisa telefônica do serviço C.E. Hooper feita na noite da transmissão, em 5.000 casas, encontrou só 2% de ouvintes do programa, e todos o descreveram como peça ou "programa do Orson Welles". Houve ligações preocupadas para jornais e emissoras e casos isolados de susto, mas não houve fuga em massa nem histeria nacional.
Quando foi a transmissão?
Na noite de domingo, 30 de outubro de 1938, véspera do Halloween, pela rede CBS, no programa Mercury Theatre on the Air, dirigido e narrado por Orson Welles. O roteiro foi adaptado por Howard Koch a partir do romance de H.G. Wells.
Por que essa história pegou, então?
Os jornais tinham interesse em mostrar o rádio como um veículo irresponsável, porque a publicidade vinha migrando do impresso para o rádio desde a Depressão. A cobertura do dia seguinte exagerou o episódio, e em 1940 um livro de Princeton deu verniz acadêmico ao número de cerca de 1 milhão de assustados.
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