Ela caiu de 10 mil metros sem paraquedas em 1972 e sobreviveu
Vesna Vulović era comissária de bordo e nem deveria estar naquele voo. O recorde dela nunca foi superado, mas a versão oficial do acidente é contestada.

Em 30 segundos
- Em 26 de janeiro de 1972, o DC-9 do voo 367 da JAT se partiu no ar sobre a Tchecoslováquia. Das 28 pessoas a bordo, só a comissária Vesna Vulović, de 22 anos, sobreviveu.
- Ela estava presa por um carrinho de serviço na parte traseira da fuselagem, que caiu numa área de mata coberta de neve. O Guinness registra a queda como de 10.160 metros.
- Em 2009, jornalistas sustentaram que o avião foi derrubado a poucas centenas de metros do chão. O Guinness diz que os dados das caixas-pretas desmentem a tese.
Em 26 de janeiro de 1972, o DC-9 do voo 367 da JAT, a companhia aérea da Iugoslávia, se partiu no ar sobre a então Tchecoslováquia. Das 28 pessoas a bordo, 27 morreram.
A única sobrevivente foi uma comissária de 22 anos, Vesna Vulović. O Guinness World Records registra a queda dela como a maior já sobrevivida sem paraquedas: 10.160 metros.
O voo
O avião fazia a rota entre Estocolmo e Belgrado, com escalas em Copenhague e Zagreb. Segundo a reconstituição da Televisão Tcheca, decolou de Estocolmo às 14h30 e de Copenhague às 16h20, com chegada prevista a Belgrado às 18h.
Levava 23 passageiros, entre eles quatro crianças, e cinco tripulantes.
O voo correu normalmente até as 17h01, em nível de cruzeiro de cerca de 10 mil metros. Foi o último contato com a tripulação e o momento em que os gravadores de voo pararam.
A investigação concluiu que uma bomba explodiu no compartimento de bagagem dianteiro. A carga estava numa maleta marrom-avermelhada guardada dentro de uma mala preta maior. O avião se partiu na altura desse compartimento.
Um telefonema anônimo atribuiu o ataque a um grupo nacionalista croata. Segundo a Televisão Tcheca, oficialmente o atentado nunca foi ligado a esse grupo. A suspeita era de que a bomba tivesse embarcado na escala de Copenhague, mas ninguém foi preso.
Ela nem deveria estar ali
Vulović não estava escalada para aquele voo. Segundo o Guinness, a companhia a confundiu com outra comissária de mesmo primeiro nome. A tripulação que a incluía embarcou em Copenhague.
A queda
Quando o avião se desfez, Vulović estava na parte traseira da fuselagem, presa por um carrinho de serviço de bordo.
Foi essa combinação improvável que a salvou. Ela não caiu solta no ar: caiu dentro de um pedaço do avião, imobilizada. Segundo o Guinness, o trecho caiu numa área de mata fechada perto da vila de Srbská Kamenice e bateu na neve espessa num ângulo favorável. O obituário da Associated Press descreve o local como uma encosta íngreme e arborizada.
O Guinness acrescenta uma explicação dada pelos médicos dela: a pressão baixa teria feito Vulović desmaiar rapidamente quando a cabine despressurizou.
Ela foi achada dentro da parte maior da fuselagem. Um morador da região, Bruno Honke, ex-enfermeiro militar da Segunda Guerra, prestou os primeiros socorros até a chegada do resgate.
Os ferimentos
A lista do Guinness: fratura no crânio, as duas pernas quebradas, três vértebras fraturadas, a bacia fraturada, várias costelas quebradas e paralisia temporária da cintura para baixo. O cirurgião tcheco Miloslav Randa registrou uma fratura na base do crânio com inchaço cerebral grave.
Quanto ao coma, as fontes divergem. A página do recorde no Guinness fala em 27 dias. O obituário da Associated Press, em 10.
Ela passou uma semana no hospital da vizinha Česká Kamenice e 14 dias no hospital militar de Střešovice, em Praga, antes de ser levada de avião para Belgrado. O Guinness calcula cerca de 16 meses de internação no total.
A recuperação
Segundo o Guinness, ela voltou a andar dez meses depois da queda.
Continuou na JAT, mas num cargo de escritório, e nunca mais trabalhou a bordo. Foi demitida no início dos anos 1990, por participar de protestos contra o governo de Slobodan Milošević.
Um detalhe que ela repetiu sempre: não guardava nenhuma lembrança do acidente, nem do mês seguinte. Anos depois, segundo a Radio Free Europe, disse que continuava a gostar de viajar e não tinha medo de avião.
Em 1985, foi a Londres receber do Guinness o certificado do recorde, entregue por Paul McCartney. Ao The New York Times, resumiu: "Sou como um gato, tive nove vidas" (tradução nossa).
Foi encontrada morta por amigos em seu apartamento em Belgrado em dezembro de 2016, aos 66 anos. A causa não foi divulgada de imediato.

A disputa sobre a altitude
Existe uma disputa sobre esse recorde que raramente é contada.
Em 2009, o correspondente em Praga da rede alemã ARD, Peter Hornung-Andersen, e o jornalista tcheco Pavel Tajner apresentaram uma investigação baseada em arquivos secretos. Segundo eles, o avião não se partiu a 10 mil metros, mas a algumas centenas de metros do chão, e provavelmente foi derrubado por engano pela Força Aérea da Tchecoslováquia.
A versão da bomba e da queda recorde, nessa tese, teria sido montada pelo regime comunista para encobrir o incidente. À Radio Prague, Hornung-Andersen citou o tamanho da área dos destroços e o relato de um ex-investigador iugoslavo, e disse considerar a derrubada provável.
O Guinness manteve o registro. Diz que um dos próprios jornalistas admitiu que as provas eram circunstanciais e que a tese foi desmentida pelos dados das caixas-pretas, analisadas por especialistas da Iugoslávia, da Tchecoslováquia e da Holanda.
Não é o único episódio do antigo bloco soviético cuja explicação foi reaberta décadas depois. A morte de nove montanhistas no Passo Dyatlov, em 1959, só ganhou uma explicação com apoio científico mais de 60 anos depois.
Do voo 367 à disputa sobre a altitude
- 26 de janeiro de 1972, 16h20O DC-9 decola de Copenhague com 28 pessoas a bordo.
- 17h01Último contato com a tripulação. A bomba explode no compartimento de bagagem dianteiro.
- Fevereiro de 1972Depois de Česká Kamenice e Praga, Vulović é levada para Belgrado.
- 1985Recebe de Paul McCartney o certificado do Guinness.
- 2009Jornalistas da ARD e da Tchecoslováquia sustentam que o avião foi derrubado a baixa altitude.
- Dezembro de 2016Vulović é encontrada morta em Belgrado, aos 66 anos.
O que a disputa não toca
Repare no que nenhuma das versões questiona.
O avião se despedaçou em pleno voo. Morreram 27 pessoas. Vesna Vulović caiu junto com um pedaço da fuselagem e foi encontrada viva entre os destroços.
Ela é, nas duas versões, a única sobrevivente de uma queda que matou todos os outros a bordo. É o mesmo tipo de sorte improvável que marcou Tsutomu Yamaguchi, que sobreviveu a Hiroshima e a Nagasaki.
O recorde pode ser dos historiadores. A queda foi dela.
Fontes
- Highest fall survived without parachute, Guinness World Records
- How Vesna Vulović survived the highest fall ever with no parachute, Guinness World Records
- Výbuch zničil letadlo nad Srbskou Kamenicí. „České Lockerbie“ přežila před půlstoletím letuška, ČT24, Televisão Tcheca
- Jugoslávské letadlo možná v 70. letech omylem sestřelilo čs. letectvo, ČT24, Televisão Tcheca (2009)
- Record for surviving highest fall without parachute based on communist lies, says journalist, Radio Prague International (2009)
- Vesna Vulovic | Crash sole survivor, 66, Associated Press, via The Philadelphia Inquirer (2016)
- Serbian Stewardess Who Survived Plane Crash In 1972, Dies At 66, Radio Free Europe/Radio Liberty (2016)
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Perguntas frequentes
- De que altura Vesna Vulović caiu?
- Segundo o Guinness World Records, 10.160 metros. É o recorde de maior queda sobrevivida sem paraquedas, ocorrida em 26 de janeiro de 1972. Em 2009, jornalistas sustentaram que o avião se partiu a poucas centenas de metros do chão; o Guinness manteve o registro e diz que os dados das caixas-pretas desmentem essa tese.
- Como ela sobreviveu?
- Ela ficou presa por um carrinho de serviço na parte traseira da fuselagem. Esse trecho caiu numa área de mata fechada coberta de neve, num ângulo favorável, segundo o Guinness. Um morador da região, ex-enfermeiro militar da Segunda Guerra, prestou os primeiros socorros.
- Quanto tempo ela ficou em coma?
- As fontes divergem. O Guinness fala em 27 dias de coma; o obituário da Associated Press, em 10 dias. Ela fraturou o crânio, três vértebras, as duas pernas, a bacia e costelas, e ficou temporariamente paralisada da cintura para baixo.
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