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Ela caiu de 10 mil metros sem paraquedas em 1972 e sobreviveu

Vesna Vulović era comissária de bordo e nem deveria estar naquele voo. O recorde dela nunca foi superado, mas a versão oficial do acidente é contestada.

Redação Fatos e RelatosAtualizada em 6 min de leitura
Vesna Vulović sentada, conversando com um repórter, em 1973, cerca de um ano depois da queda.
UPI, 1973, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Em 26 de janeiro de 1972, o DC-9 do voo 367 da JAT se partiu no ar sobre a Tchecoslováquia. Das 28 pessoas a bordo, só a comissária Vesna Vulović, de 22 anos, sobreviveu.
  • Ela estava presa por um carrinho de serviço na parte traseira da fuselagem, que caiu numa área de mata coberta de neve. O Guinness registra a queda como de 10.160 metros.
  • Em 2009, jornalistas sustentaram que o avião foi derrubado a poucas centenas de metros do chão. O Guinness diz que os dados das caixas-pretas desmentem a tese.

Em 26 de janeiro de 1972, o DC-9 do voo 367 da JAT, a companhia aérea da Iugoslávia, se partiu no ar sobre a então Tchecoslováquia. Das 28 pessoas a bordo, 27 morreram.

A única sobrevivente foi uma comissária de 22 anos, Vesna Vulović. O Guinness World Records registra a queda dela como a maior já sobrevivida sem paraquedas: 10.160 metros.

O voo

O avião fazia a rota entre Estocolmo e Belgrado, com escalas em Copenhague e Zagreb. Segundo a reconstituição da Televisão Tcheca, decolou de Estocolmo às 14h30 e de Copenhague às 16h20, com chegada prevista a Belgrado às 18h.

Levava 23 passageiros, entre eles quatro crianças, e cinco tripulantes.

O voo correu normalmente até as 17h01, em nível de cruzeiro de cerca de 10 mil metros. Foi o último contato com a tripulação e o momento em que os gravadores de voo pararam.

A investigação concluiu que uma bomba explodiu no compartimento de bagagem dianteiro. A carga estava numa maleta marrom-avermelhada guardada dentro de uma mala preta maior. O avião se partiu na altura desse compartimento.

Um telefonema anônimo atribuiu o ataque a um grupo nacionalista croata. Segundo a Televisão Tcheca, oficialmente o atentado nunca foi ligado a esse grupo. A suspeita era de que a bomba tivesse embarcado na escala de Copenhague, mas ninguém foi preso.

Ela nem deveria estar ali

Vulović não estava escalada para aquele voo. Segundo o Guinness, a companhia a confundiu com outra comissária de mesmo primeiro nome. A tripulação que a incluía embarcou em Copenhague.

A queda

Quando o avião se desfez, Vulović estava na parte traseira da fuselagem, presa por um carrinho de serviço de bordo.

Foi essa combinação improvável que a salvou. Ela não caiu solta no ar: caiu dentro de um pedaço do avião, imobilizada. Segundo o Guinness, o trecho caiu numa área de mata fechada perto da vila de Srbská Kamenice e bateu na neve espessa num ângulo favorável. O obituário da Associated Press descreve o local como uma encosta íngreme e arborizada.

O Guinness acrescenta uma explicação dada pelos médicos dela: a pressão baixa teria feito Vulović desmaiar rapidamente quando a cabine despressurizou.

Ela foi achada dentro da parte maior da fuselagem. Um morador da região, Bruno Honke, ex-enfermeiro militar da Segunda Guerra, prestou os primeiros socorros até a chegada do resgate.

Os ferimentos

A lista do Guinness: fratura no crânio, as duas pernas quebradas, três vértebras fraturadas, a bacia fraturada, várias costelas quebradas e paralisia temporária da cintura para baixo. O cirurgião tcheco Miloslav Randa registrou uma fratura na base do crânio com inchaço cerebral grave.

Quanto ao coma, as fontes divergem. A página do recorde no Guinness fala em 27 dias. O obituário da Associated Press, em 10.

Ela passou uma semana no hospital da vizinha Česká Kamenice e 14 dias no hospital militar de Střešovice, em Praga, antes de ser levada de avião para Belgrado. O Guinness calcula cerca de 16 meses de internação no total.

A recuperação

Segundo o Guinness, ela voltou a andar dez meses depois da queda.

Continuou na JAT, mas num cargo de escritório, e nunca mais trabalhou a bordo. Foi demitida no início dos anos 1990, por participar de protestos contra o governo de Slobodan Milošević.

Um detalhe que ela repetiu sempre: não guardava nenhuma lembrança do acidente, nem do mês seguinte. Anos depois, segundo a Radio Free Europe, disse que continuava a gostar de viajar e não tinha medo de avião.

Em 1985, foi a Londres receber do Guinness o certificado do recorde, entregue por Paul McCartney. Ao The New York Times, resumiu: "Sou como um gato, tive nove vidas" (tradução nossa).

Foi encontrada morta por amigos em seu apartamento em Belgrado em dezembro de 2016, aos 66 anos. A causa não foi divulgada de imediato.

Jato bimotor branco com faixa azul e logotipo da NASA na cauda, taxiando numa pista cercada de mato ao amanhecer.
Um C-9, versão do McDonnell Douglas DC-9, usado pela NASA, em 2012. O voo 367 da JAT era um DC-9; esta foto mostra o modelo, não o avião do acidente. Imagem: NASA/KSC · Domínio público (NASA)

A disputa sobre a altitude

Existe uma disputa sobre esse recorde que raramente é contada.

Em 2009, o correspondente em Praga da rede alemã ARD, Peter Hornung-Andersen, e o jornalista tcheco Pavel Tajner apresentaram uma investigação baseada em arquivos secretos. Segundo eles, o avião não se partiu a 10 mil metros, mas a algumas centenas de metros do chão, e provavelmente foi derrubado por engano pela Força Aérea da Tchecoslováquia.

A versão da bomba e da queda recorde, nessa tese, teria sido montada pelo regime comunista para encobrir o incidente. À Radio Prague, Hornung-Andersen citou o tamanho da área dos destroços e o relato de um ex-investigador iugoslavo, e disse considerar a derrubada provável.

O Guinness manteve o registro. Diz que um dos próprios jornalistas admitiu que as provas eram circunstanciais e que a tese foi desmentida pelos dados das caixas-pretas, analisadas por especialistas da Iugoslávia, da Tchecoslováquia e da Holanda.

Não é o único episódio do antigo bloco soviético cuja explicação foi reaberta décadas depois. A morte de nove montanhistas no Passo Dyatlov, em 1959, só ganhou uma explicação com apoio científico mais de 60 anos depois.

Do voo 367 à disputa sobre a altitude

  1. 26 de janeiro de 1972, 16h20O DC-9 decola de Copenhague com 28 pessoas a bordo.
  2. 17h01Último contato com a tripulação. A bomba explode no compartimento de bagagem dianteiro.
  3. Fevereiro de 1972Depois de Česká Kamenice e Praga, Vulović é levada para Belgrado.
  4. 1985Recebe de Paul McCartney o certificado do Guinness.
  5. 2009Jornalistas da ARD e da Tchecoslováquia sustentam que o avião foi derrubado a baixa altitude.
  6. Dezembro de 2016Vulović é encontrada morta em Belgrado, aos 66 anos.

O que a disputa não toca

Repare no que nenhuma das versões questiona.

O avião se despedaçou em pleno voo. Morreram 27 pessoas. Vesna Vulović caiu junto com um pedaço da fuselagem e foi encontrada viva entre os destroços.

Ela é, nas duas versões, a única sobrevivente de uma queda que matou todos os outros a bordo. É o mesmo tipo de sorte improvável que marcou Tsutomu Yamaguchi, que sobreviveu a Hiroshima e a Nagasaki.

O recorde pode ser dos historiadores. A queda foi dela.

Fontes

  1. Highest fall survived without parachute, Guinness World Records
  2. How Vesna Vulović survived the highest fall ever with no parachute, Guinness World Records
  3. Výbuch zničil letadlo nad Srbskou Kamenicí. „České Lockerbie“ přežila před půlstoletím letuška, ČT24, Televisão Tcheca
  4. Jugoslávské letadlo možná v 70. letech omylem sestřelilo čs. letectvo, ČT24, Televisão Tcheca (2009)
  5. Record for surviving highest fall without parachute based on communist lies, says journalist, Radio Prague International (2009)
  6. Vesna Vulovic | Crash sole survivor, 66, Associated Press, via The Philadelphia Inquirer (2016)
  7. Serbian Stewardess Who Survived Plane Crash In 1972, Dies At 66, Radio Free Europe/Radio Liberty (2016)

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Perguntas frequentes

De que altura Vesna Vulović caiu?
Segundo o Guinness World Records, 10.160 metros. É o recorde de maior queda sobrevivida sem paraquedas, ocorrida em 26 de janeiro de 1972. Em 2009, jornalistas sustentaram que o avião se partiu a poucas centenas de metros do chão; o Guinness manteve o registro e diz que os dados das caixas-pretas desmentem essa tese.
Como ela sobreviveu?
Ela ficou presa por um carrinho de serviço na parte traseira da fuselagem. Esse trecho caiu numa área de mata fechada coberta de neve, num ângulo favorável, segundo o Guinness. Um morador da região, ex-enfermeiro militar da Segunda Guerra, prestou os primeiros socorros.
Quanto tempo ela ficou em coma?
As fontes divergem. O Guinness fala em 27 dias de coma; o obituário da Associated Press, em 10 dias. Ela fraturou o crânio, três vértebras, as duas pernas, a bacia e costelas, e ficou temporariamente paralisada da cintura para baixo.
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