A maior explosão provocada pelo homem antes da bomba atômica aconteceu num porto do Canadá em 1917
Dois navios se chocaram em Halifax. Um deles carregava cerca de 2.500 toneladas de explosivos. Um telegrafista ficou para trás e mandou uma última mensagem.

Em 30 segundos
- Em 6 de dezembro de 1917, o cargueiro francês Mont-Blanc, carregado de explosivos, bateu no norueguês Imo no porto de Halifax, pegou fogo e explodiu cerca de 20 minutos depois.
- Os números de mortos variam conforme a fonte: mais de 1.600 na hora, segundo os Arquivos da Nova Escócia, e perto de 2.000 no total, segundo o governo canadense. Mais de 9.000 ficaram feridos.
- O despachante ferroviário Vincent Coleman ficou no posto para mandar parar os trens que chegavam à cidade e morreu na explosão.
Na manhã de 6 de dezembro de 1917, dois navios se chocaram no estreito que dá acesso ao porto de Halifax, na Nova Escócia, no Canadá.
O norueguês Imo levava suprimentos de socorro para a Bélgica. O francês Mont-Blanc ia se juntar a um comboio para a Europa em guerra, carregado de munição: segundo os Arquivos da Nova Escócia, cerca de 2.500 toneladas de explosivos, mais uma carga de derivado de benzeno em barris no convés.
O Mont-Blanc pegou fogo. Queimou por cerca de 20 minutos e, poucos segundos antes das 9h05, explodiu.
O governo do Canadá classifica o desastre como a maior explosão provocada pelo homem antes da bomba atômica.
O estreito
O trecho do porto onde os navios bateram se chama The Narrows. O povo Mi'kmaq, dono ancestral daquela terra, o chamava de Kepe'kek, "no estreito".
Halifax é o grande porto da América do Norte mais próximo da Europa. Durante a Primeira Guerra, centenas de milhares de militares embarcaram dali para os campos de batalha. Nas margens do estreito ficavam trilhos, píeres e fábricas, e os bairros de Richmond e Africville, cujos moradores dependiam da ferrovia, das fábricas e do cais.
Segundo o Museu Marítimo do Atlântico, foram os barris de produto petroquímico no convés que deflagraram a explosão. O navio virou, nas palavras do museu, uma bomba de três quilotons num porto movimentado.
O que aconteceu
O Mont-Blanc, um navio de 3.000 toneladas, se despedaçou. Os Arquivos da Nova Escócia calculam que a destruição cobriu 325 acres, cerca de 1,3 quilômetro quadrado. Pedaços do navio caíram num raio de oito quilômetros.
Uma nuvem de gás quente subiu sobre o porto. Combustível e produtos químicos vaporizados caíram como chuva, cobrindo pessoas e destroços de uma película oleosa. A explosão levantou também uma onda que invadiu a margem.
Escolas, igrejas, fábricas e casas foram varridas. Fornalhas e fogões virados incendiaram os escombros, e áreas inteiras viraram ruínas carbonizadas. O bairro de Richmond foi o mais atingido.
Segundo o Museu Marítimo do Atlântico, Richmond e a comunidade mi'kmaq de Turtle Grove receberam a força total da explosão. O ancião mi'kmaq Jerry Lonecloud, que lutava pelas terras dos moradores de Turtle Grove, perdeu dois filhos, Hannah e Rosie.
No dia seguinte, uma grande tempestade de neve caiu sobre a cidade e atrasou o resgate.
Quantos morreram
As fontes oficiais não dão o mesmo número.
Os Arquivos da Nova Escócia falam em mais de 1.600 mortos na hora e mais de 9.000 feridos, numa região metropolitana de 65 mil habitantes. O Museu Marítimo do Atlântico conta mais de 1.700 mortos pela explosão e suas consequências. O governo canadense e a Biblioteca e Arquivos do Canadá falam em cerca de 2.000.
Segundo os Arquivos, morreram na explosão mais moradores da Nova Escócia do que na Primeira Guerra inteira. O prejuízo passou de 35 milhões de dólares da época.
Os olhos
Muita gente estava olhando o incêndio pela janela. Segundo o governo do Canadá, a maior parte dos ferimentos nos olhos veio das vidraças que estilhaçaram.
Um estudo publicado em 2007 no British Journal of Ophthalmology, feito a partir dos arquivos, contou 592 pessoas com ferimentos oculares atendidas por doze oftalmologistas. Foram feitas 249 enucleações, a retirada cirúrgica do olho. Dezesseis pessoas perderam os dois.
O desastre levou a avanços no tratamento dos olhos e na cirurgia pediátrica, e contribuiu para a criação do Instituto Nacional Canadense para Cegos.

O telegrafista
Vincent Coleman era despachante de trens. Trabalhava numa pequena estação de madeira no pátio ferroviário de Richmond, a poucos metros do porto, controlando o tráfego de trens de carga e de soldados.
Pouco depois da colisão, um marinheiro entrou correndo na estação. Avisou que o navio em chamas estava cheio de munição e ia explodir. Ele tinha sido mandado à terra por um oficial da Marinha, um dos poucos que conheciam a carga.
Coleman começou a sair com o chefe, William Lovett. Depois voltou ao telégrafo.
Ele estava preocupado com o trem de passageiros número 10, que vinha de Saint John, em New Brunswick, com cerca de 300 pessoas, e devia chegar às 8h55. O trajeto passava bem em frente ao navio em chamas.
Os jornais da época registraram pequenas variações da mensagem. O Museu Marítimo do Atlântico dá esta versão como a de conteúdo consistente:
"Segurem o trem. Navio de munição pegando fogo no porto indo para o píer 6 e vai explodir. Acho que esta será minha última mensagem. Adeus, rapazes." (tradução nossa)
A estação ficava a cerca de 230 metros do centro da explosão e desapareceu. Coleman provavelmente morreu na hora, no aparelho. O corpo foi achado dias depois nos escombros do pátio.
A manhã de 6 de dezembro de 1917
- Cerca de 20 minutos antesO Imo e o Mont-Blanc se chocam no estreito. O Mont-Blanc pega fogo.
- Logo depoisUm marinheiro avisa a estação de Richmond sobre a carga. Vincent Coleman volta ao telégrafo.
- 8h55Horário previsto de chegada do trem número 10, com cerca de 300 passageiros.
- Pouco antes das 9h05O Mont-Blanc explode, depois de queimar por cerca de 20 minutos.
- Mesmo diaSeis trens de socorro partem de cidades da Nova Escócia e de New Brunswick.
- 7 de dezembroUma tempestade de neve atrasa o resgate.
O trem foi salvo?
A versão mais contada diz que a mensagem parou o trem a tempo. O Museu Marítimo do Atlântico, que guarda o relógio e a chave telegráfica de Coleman, é mais cauteloso: "o registro não é claro".
Segundo depoimentos de passageiros e tripulantes reunidos em 1917 pelo historiador Archibald MacMechan, o trem já tinha passado da última estação antes de Richmond e não poderia ser parado. Escapou porque estava atrasado e longe o bastante, com janelas quebradas e ferimentos leves.
Já o jornal Moncton Transcript de 7 de dezembro de 1917 publicou o relato do condutor, segundo o qual o trem foi retido 15 minutos pelo despachante em Rockingham, a cerca de seis quilômetros de Halifax.
Como no caso de John Snow e a manivela da bomba de Broad Street, a cena mais famosa é mais limpa do que o arquivo.
O que o museu considera certo é outra coisa. A mensagem correu a linha telegráfica de Halifax a Truro, e todos os trens que seguiam para a cidade pararam na estação seguinte. E avisou a ferrovia inteira de que algo grave tinha acontecido.
Naquele mesmo dia, seis trens de socorro partiram com bombeiros, médicos, enfermeiras e remédios. Os trens de socorro americanos chegaram dois dias depois.
A reconstrução
Poucas horas depois da explosão, voluntários formaram o Comitê de Socorro de Halifax. De Massachusetts veio ajuda organizada por um comitê próprio, o Massachusetts-Halifax Relief Committee.
Em 22 de janeiro de 1918, o governo federal criou a Comissão de Socorro de Halifax para administrar quase 21 milhões de dólares em doações. Até 1º de março, tinham sido construídos 832 apartamentos para os desabrigados. O urbanista Thomas Adams desenhou o novo traçado do bairro de Richmond.
A investigação oficial sobre a colisão também deixou marcas. O piloto do porto Francis Mackey foi, segundo o Museu Marítimo do Atlântico, uma das pessoas culpadas injustamente pelo desastre.
Halifax continuou sendo a maior explosão provocada pelo homem por quase três décadas. Até agosto de 1945, quando as bombas de Hiroshima e Nagasaki mudaram a escala.
Halifax foi um desastre da Primeira Guerra longe da frente. Na própria frente, três anos antes, houve a trégua de Natal de 1914.
Cinco anos antes da explosão, Halifax já tinha sido o porto que recebeu os mortos do Titanic, e um dos túmulos de lá virou ponto de visita: o que é real e o que é do filme.
Fontes
- A Vision of Regeneration: Halifax Explosion, Nova Scotia Archives
- Vincent Coleman and the Halifax Explosion, Maritime Museum of the Atlantic
- Explosion in the Narrows: The 1917 Halifax Harbour Explosion, Maritime Museum of the Atlantic
- Halifax Explosion National Historic Event, Parks Canada
- The Halifax Explosion: Records at Library and Archives Canada, Library and Archives Canada
- The Halifax disaster (1917): eye injuries and their care, McAlister, Murray, Lakosha e Maxner, British Journal of Ophthalmology (2007)
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Perguntas frequentes
- O que causou a explosão de Halifax?
- A colisão entre o navio norueguês Imo, que levava suprimentos de socorro para a Bélgica, e o cargueiro francês Mont-Blanc, carregado de munição, em 6 de dezembro de 1917, no estreito do porto de Halifax. O Mont-Blanc pegou fogo e, depois de queimar por cerca de 20 minutos, explodiu.
- Quantas pessoas morreram?
- Os números variam conforme a fonte. Os Arquivos da Nova Escócia falam em mais de 1.600 mortos na hora; o Museu Marítimo do Atlântico, em mais de 1.700 pela explosão e suas consequências; o governo canadense, em cerca de 2.000. Mais de 9.000 pessoas ficaram feridas.
- Foi mesmo a maior explosão antes da bomba atômica?
- É assim que o governo do Canadá a classifica: a maior explosão provocada pelo homem antes da bomba atômica. O Museu Marítimo do Atlântico compara o navio a uma bomba de três quilotons.
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