O homem que sobreviveu a Hiroshima e, três dias depois, a Nagasaki
Tsutomu Yamaguchi estava a menos de três quilômetros do ponto zero nas duas explosões. O Japão levou 64 anos para reconhecer oficialmente o caso.

Em 30 segundos
- Em 6 de agosto de 1945, o engenheiro Tsutomu Yamaguchi, de 29 anos, estava em Hiroshima a trabalho; teve os tímpanos rompidos e queimaduras graves, e no dia seguinte voltou para casa, em Nagasaki.
- Em 9 de agosto, contava ao chefe o que tinha visto quando a segunda bomba explodiu, a cerca de 3 km do escritório.
- Calcula-se que cerca de 165 pessoas tenham passado pelas duas bombas, mas só ele foi reconhecido oficialmente, em março de 2009.
- Morreu em 4 de janeiro de 2010, aos 93 anos, de câncer no estômago.
Em 6 de agosto de 1945, Tsutomu Yamaguchi estava em Hiroshima a trabalho. Engenheiro da Mitsubishi Heavy Industries, tinha 29 anos e passara três meses na cidade trabalhando no projeto de um navio petroleiro. Era o último dia da viagem.
Três dias depois, em casa, em Nagasaki, ele estaria de novo sob uma bomba atômica. E sobreviveria de novo.
Hiroshima
Às 8h15 daquela manhã, segundo o relato reconstituído pelo canal History a partir de entrevistas dele, Yamaguchi caminhava para o estaleiro quando viu um bombardeiro B-29 sobre a cidade e um pequeno objeto descendo de paraquedas. Em seguida veio o clarão. Ele teve tempo de se jogar numa vala.
A distância exata varia conforme a fonte. Ele próprio disse estar a menos de duas milhas, pouco mais de três quilômetros, do ponto zero, segundo o New York Times. A reportagem distribuída pela rede irlandesa RTÉ fala em cerca de 2 quilômetros.
A explosão rompeu seus dois tímpanos e queimou gravemente a parte de cima do corpo. "Quando abri os olhos, estava tudo escuro, e eu não conseguia ver muito", contou mais tarde ao jornal britânico The Times (tradução nossa). A rede ABC registra que ele ficou temporariamente cego e surdo.
Ele passou a noite num abrigo antiaéreo da cidade. A bomba de Hiroshima matou cerca de 80 mil pessoas, segundo o New York Times; outras estimativas, citadas pela Associated Press e pela RTÉ, chegam a 140 mil.
Nagasaki
No dia seguinte, ferido, Yamaguchi pegou um trem para Nagasaki, sua cidade natal, onde moravam a mulher, Hisako, e o filho bebê.
Em 9 de agosto, apesar dos ferimentos, foi trabalhar no escritório da Mitsubishi. Um diretor da empresa pediu um relato completo do que tinha acontecido em Hiroshima. Segundo o History, o superior não acreditou: como uma única bomba poderia destruir uma cidade inteira?
Yamaguchi ainda estava explicando quando, nas palavras dele ao jornal The Independent, "de repente a mesma luz branca encheu a sala". A segunda bomba explodiu a cerca de 3 quilômetros do escritório.
"Achei que a nuvem de cogumelo tinha me seguido desde Hiroshima", disse ele (tradução nossa).
A bomba de Nagasaki matou cerca de 70 mil pessoas, segundo o New York Times; a reportagem da RTÉ fala em 74 mil. O Japão se rendeu seis dias depois.

Os três dias de Tsutomu Yamaguchi
- 6 de agosto de 1945Último dia da viagem a Hiroshima. Às 8h15, a bomba explode a menos de três quilômetros dele.
- Noite de 6 de agostoDorme num abrigo antiaéreo em Hiroshima.
- 7 de agostoPega um trem de volta para Nagasaki.
- 9 de agostoVai trabalhar e, enquanto relata o que viu ao chefe, a segunda bomba explode a cerca de 3 km.
- 15 de agostoO Japão anuncia a rendição.
- Março de 2009É reconhecido oficialmente como sobrevivente das duas bombas.
- 4 de janeiro de 2010Morre aos 93 anos, de câncer no estômago.
A família
Yamaguchi encontrou parte de sua casa em ruínas. A mulher e o filho tinham sofrido só ferimentos leves. Segundo o History, ela tinha saído para procurar pomada para as queimaduras do marido, e os dois se abrigaram num túnel quando veio a explosão.
O preço viria depois. A filha, Toshiko Yamasaki, nascida em 1948, contou ao New York Times que a mãe foi "encharcada pela chuva negra" da precipitação radioativa de Nagasaki. Hisako morreu em 2008, aos 88 anos, de câncer nos rins e no fígado.
"Achamos que ela passou o veneno para nós", disse a filha. Um irmão dela morreu de câncer aos 59 anos. A RTÉ registra que Yamaguchi perdeu em 2005, para o câncer, o filho que sobrevivera ao bombardeio de Nagasaki ainda bebê.
Décadas de silêncio
Yamaguchi se recuperou. Logo depois da guerra, trabalhou como tradutor para as forças americanas em Nagasaki, foi professor numa escola de ensino fundamental e, mais tarde, voltou à Mitsubishi, segundo a Associated Press e o New York Times.
Durante a maior parte da vida, teve boa saúde, segundo a filha, e por isso evitava participar dos protestos antinucleares. "Ele era tão saudável que achava injusto com as pessoas que estavam realmente doentes", disse ela ao Independent.
Segundo a RTÉ, ele só começou a falar publicamente sobre as bombas em 2005, quando perdeu o filho. Em 2006, participou de um documentário sobre os sobreviventes dos dois ataques, Niju Hibaku, ao lado de outras sete pessoas. O filme foi exibido na sede da ONU, em Nova York, e ele discursou pela abolição das armas nucleares.
"Tendo passado por dois bombardeios atômicos e sobrevivido, é meu destino falar sobre isso", disse no discurso, segundo o History (tradução nossa).
Sessenta e quatro anos de espera
Yamaguchi já era reconhecido pelo governo japonês como hibakusha, sobrevivente da bomba. Em março de 2009, quase 64 anos depois dos bombardeios, o governo certificou que ele tinha sido atingido duas vezes. Ele se tornou o único reconhecido oficialmente como nijū hibakusha, duplamente atingido.
"Minha dupla exposição à radiação agora é um registro oficial do governo", disse ele ao jornal Mainichi. "Isso pode contar à geração mais jovem a história horrível dos bombardeios atômicos mesmo depois que eu morrer" (tradução nossa).
Calcula-se que cerca de 165 pessoas tenham passado pelos dois bombardeios. Entre elas, segundo o History, estavam dois colegas de Yamaguchi na viagem a Hiroshima, Akira Iwanaga e Kuniyoshi Sato. Autoridades das duas cidades disseram ao New York Times que só Yamaguchi foi oficialmente reconhecido.
O reconhecimento tem efeito prático. No Japão, a certificação dá direito a mensalidade, exames médicos gratuitos e custeio do funeral, segundo a Associated Press.
O fim
Yamaguchi não escapou das doenças da bomba. Segundo o Mainichi, citado pela ABC, as explosões o deixaram sem audição no ouvido esquerdo. A ABC registra ainda que, nos anos seguintes, ele teve leucemia aguda e catarata. O câncer no estômago foi diagnosticado em 2006, segundo a RTÉ.
Em junho de 2009, numa palestra em Nagasaki, disse que tinha escrito ao presidente Barack Obama sobre o banimento das armas nucleares. "Acho que esta será minha última palestra. Espero que o bastão passe a outras pessoas", afirmou, segundo a RTÉ.
Em 22 de dezembro, recebeu a visita do diretor James Cameron, que discutia um filme sobre as bombas. Morreu em 4 de janeiro de 2010, aos 93 anos, num hospital de Nagasaki. Deixou um filho, duas filhas e cinco netos.
"Eu poderia ter morrido em qualquer um daqueles dias", tinha dito ao Mainichi meses antes. "Tudo o que veio depois é bônus" (tradução nossa).

O que fica
Histórias de sobrevivência improvável, como a de Vesna Vulović, que caiu de 10 mil metros em 1972, costumam ser contadas como sorte. A de Yamaguchi tem um custo registrado: ele viveu 64 anos depois das explosões, mas a bomba seguiu presente na família, no corpo e nos registros oficiais.
E a ameaça que ele passou a combater não terminou em 1945. Menos de quatro décadas depois, o mundo esteve perto de uma guerra nuclear por causa de um alarme falso, que um oficial soviético decidiu não levar adiante.
Do outro lado da guerra, um tenente japonês só largou o fuzil em 1974: a história de Hiroo Onoda, que depois foi criar gado em Mato Grosso do Sul.
Fontes
- Survivor of 2 Atomic Bombs Dies at 93 (2010), The New York Times (trecho reproduzido em https://www.historynewsnetwork.org/article/121904)
- Double atomic bomb survivor dies in Japan (2010), The Associated Press, via NBC News
- Man Who Survived Hiroshima and Nagasaki Atomic Bombs Dies (2010), ABC News
- Japan's double atomic bomb survivor dies (2010), RTÉ News
- Survivor Of Two Atom Bombings Dies (2010), NPR
- The Man Who Survived Two Atomic Bombs, Evan Andrews, History (A&E Networks)
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Perguntas frequentes
- Quantas pessoas sobreviveram às duas bombas atômicas?
- Calcula-se que cerca de 165 pessoas tenham passado pelos dois bombardeios, segundo autoridades citadas pelo New York Times. Tsutomu Yamaguchi é o único cujo caso duplo foi reconhecido oficialmente, em março de 2009.
- Yamaguchi morreu por causa da radiação?
- Ele morreu em 4 de janeiro de 2010, aos 93 anos, de câncer no estômago, diagnosticado em 2006. Segundo a ABC News, ao longo da vida teve também leucemia aguda e catarata, e as explosões o deixaram sem audição no ouvido esquerdo.
- Como Yamaguchi sobreviveu às duas bombas?
- Em Hiroshima, estava a menos de três quilômetros do ponto zero e se jogou numa vala antes do impacto. Em Nagasaki, estava num escritório a cerca de 3 km da explosão; segundo relato baseado nas entrevistas dele, o terreno montanhoso e uma escada de concreto reforçado amorteceram o impacto ali dentro.
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