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Um marinheiro levou 250 chibatadas e a marujada tomou os encouraçados em 1910. Veio a anistia e, em cinco meses, a Marinha excluiu 1.216 marinheiros

A Revolta da Chibata terminou com o fim do castigo e o perdão votado pelo Congresso. Três dias depois, um decreto liberou as expulsões, e o Natal de 1910 deixou 16 mortos numa cela da Ilha das Cobras.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Foto antiga em preto e branco de um grupo de marinheiros de uniforme branco e gorro, ao lado de homens de terno, em pé no convés de um navio; ao centro, um marinheiro alto com lenço no pescoço.
Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • O estopim da revolta foi o castigo de 250 chibatadas aplicado ao marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes no encouraçado Minas Gerais, em novembro de 1910.
  • Os marinheiros tomaram os navios em 22 de novembro e ganharam anistia pelo Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910.
  • Em 28 de novembro, o Decreto nº 8.400 autorizou a expulsão sumária de marinheiros; o ministro da Marinha contou 1.216 excluídos até abril de 1911.
  • João Cândido sobreviveu à cela da Ilha das Cobras, onde 16 presos morreram no Natal de 1910, e só recebeu anistia póstuma em 2008.

Em novembro de 1910, o marinheiro Marcelino Rodrigues Menezes recebeu 250 chibatadas diante da tripulação do encouraçado Minas Gerais. Desmaiou, e o castigo continuou, segundo o verbete do CPDOC, da Fundação Getulio Vargas.

Dias depois, a marujada tomou os navios de guerra e apontou os canhões para o Rio de Janeiro. Ganhou a anistia votada pelo Congresso. E então começou a parte da história que costuma ficar fora do resumo.

A revolta em cinco dias

A Revolta da Chibata foi uma rebelião de marinheiros entre 22 e 27 de novembro de 1910, contra os castigos físicos na Marinha. O líder foi João Cândido Felisberto, que a imprensa chamou de "Almirante Negro".

Na noite de 22, os marinheiros do Minas Gerais mataram seis oficiais, entre eles o comandante Batista das Neves, segundo o CPDOC. O motim se espalhou para o encouraçado São Paulo, o Deodoro, o cruzador Bahia e embarcações menores.

Numa das mensagens ao presidente Hermes da Fonseca, empossado havia uma semana, os rebeldes pediram que a Marinha fosse "uma Armada de cidadãos, e não uma fazenda de escravos que só têm dos seus senhores o direito de serem chicoteados", como reproduz o Arquivo S, do Senado. Tiros disparados dos navios mataram duas crianças no Morro do Castelo.

O Congresso aprovou a anistia por unanimidade. O Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910, perdoou os "insurrectos de posse dos navios" — desde que se submetessem às autoridades no prazo marcado pelo governo. Segundo o Senado, os 2.300 amotinados se entregaram em 26 de novembro; o CPDOC registra a devolução dos navios no dia 27.

A chibata já tinha sido abolida uma vez

O detalhe que dá o tamanho da revolta está na legislação. No dia seguinte à Proclamação da República, o Decreto nº 3, de 16 de novembro de 1889, dizia: "Fica abolido na armada o castigo corporal". Entre os que assinaram estava Ruy Barbosa.

Durou cinco meses. Segundo o historiador José Miguel Arias Neto, em tese de doutorado na USP, os castigos voltaram pelo Decreto nº 328, de 12 de abril de 1890, que criou a Companhia Correcional. Para as faltas graves dos marinheiros incluídos nela, o texto previa 25 chibatadas.

Em 1910, Ruy Barbosa, agora senador, comparou no plenário a chibata à escravidão. O homem "filho ou descendente de antigos escravos", discursou, "sente cair sobre as carnes a chibata aviltante".

Os 250 golpes: o que as fontes dizem e onde divergem

O número 250 aparece no verbete do CPDOC, num artigo da Fundação Cultural Palmares e no depoimento de João Cândido ao jornalista Edmar Morel, reproduzido na tese de Arias Neto: "o castigo de 250 chibatadas no Marcelino Rodrigues precipitou tudo". A revolta, segundo esse relato, estava combinada para dias depois.

Mas as fontes não concordam em tudo.

  • A data. O CPDOC situa o castigo em 16 de novembro. A Palmares, que cita jornais da época, fala em 21 de novembro.
  • O número. Uma reportagem da revista Pesquisa FAPESP, de 2009, conta 200 chibatadas, sem nomear o marinheiro.
  • O motivo. O CPDOC fala em levar cachaça a bordo e ferir um cabo a navalha. A FAPESP menciona só a agressão ao cabo.

E há um dado que quase nunca entra na história: Marcelino sobreviveu. Arias Neto registra uma entrevista dele ao jornal O Globo em 4 de outubro de 1952, 42 anos depois.

Para comparação, a FAPESP lembra que os códigos limitavam o castigo a 25 chibatadas, mas que era comum chegar a 100, 250 e até 500 num único dia.

Panorama em sépia de uma ilha baixa na baía, coberta por prédios longos de dois andares e um morro arborizado no centro; um barco a vapor passa em primeiro plano.
Vista geral do Batalhão Naval da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, numa fotografia datada de dezembro de 1910. Foi na ilha que a revolta de dezembro foi esmagada e que 16 presos morreram numa cela no Natal daquele ano. Imagem: Núcleo de digitalização / IMS, via Wikimedia Commons · Domínio público

Três dias depois do perdão, a porta de saída

Em 28 de novembro de 1910, o Decreto nº 8.400 autorizou "a baixa, por exclusão, das praças do Corpo de Marinheiros Nacionaes cuja permanencia no serviço fôr inconveniente á disciplina", dispensando a formalidade prevista no regulamento.

Nas palavras do Arquivo S, os marinheiros compreenderam "que a anistia fora de mentira".

O próprio governo deixou o número por escrito. No relatório de 1911, citado por Arias Neto, o ministro da Marinha informou que até 31 de dezembro de 1910 tinham sido excluídos 900 homens, número que chegou a 1.216 nos quatro primeiros meses de 1911.

Dezembro: a segunda revolta e o estado de sítio

Em 9 de dezembro, o Batalhão Naval da Ilha das Cobras se sublevou. A data é a do Senado e de Arias Neto; o verbete do CPDOC fala em 4 de dezembro. A ilha foi bombardeada mesmo depois da bandeira branca, e o governo obteve do Congresso o estado de sítio, com o voto contrário de Ruy Barbosa.

Arias Neto aponta que a ligação entre essa revolta e a de novembro se apoia em poucas provas. A única conexão comprovada, diz ele, é o conselho de investigação que levou 68 marinheiros a conselho de guerra. Só dez foram julgados, em 1912. Todos foram inocentados.

Fachada em sépia de um quartel de dois andares com ameias, com parte do topo desmoronada e entulho na frente; à esquerda, um grupo de homens de terno e uniforme.
O edifício do Batalhão Naval com o torreão parcialmente destruído, em foto da série Revolta Naval, de dezembro de 1910. Imagem: Núcleo de digitalização / IMS, via Wikimedia Commons · Domínio público

O Natal na cela e o navio Satélite

Em 24 de dezembro, 18 marinheiros da revolta de novembro, classificados como "perigosos", foram levados para uma única cela pequena na Ilha das Cobras. Na manhã do dia 25, 16 estavam mortos. Arias Neto atribui as mortes à asfixia causada pela cal posta na cela.

O atestado do médico da Armada registrou insolação. O comandante do batalhão, que tinha saído da ilha com a chave da cela, foi exonerado e depois absolvido em conselho de guerra. Arias Neto ressalva que os relatos do episódio são parciais e que não é possível provar premeditação. O que se pode provar, escreve, é a tentativa de esconder a causa.

Um dos dois sobreviventes foi João Cândido.

No mesmo 25 de dezembro, o navio mercante Satélite partiu para o Acre levando 105 ex-marinheiros, 50 soldados do Exército, 293 homens e 44 mulheres classificados como ladrões, vagabundos e prostitutas. Sob o pretexto de uma tentativa de revolta, nove ex-marinheiros teriam sido fuzilados em alto-mar. Os números vêm do relatório do comandante do navio, de março de 1911; Arias Neto avisa que outras fontes da época dão números maiores.

O que aconteceu com João Cândido

Ele tinha entrado na Marinha em 1895, aos 14 anos. Sua ficha, segundo o CPDOC, registrava nove castigos em 15 anos e dez elogios por bom comportamento, o último em agosto de 1910.

Depois da cela, foi internado como louco no Hospital dos Alienados em abril de 1911 e absolvido em 1912. Perdeu a farda: foi expulso da Marinha. Trabalhou como estivador e vendedor de peixe na Praça XV. Morreu em 1969, aos 89 anos.

Da abolição de 1889 à anistia de 2008

  1. 16 de novembro de 1889Decreto nº 3 abole o castigo corporal na Armada.
  2. 12 de abril de 1890Decreto nº 328 cria a Companhia Correcional e traz a chibata de volta.
  3. Novembro de 1910Marcelino Rodrigues Menezes recebe 250 chibatadas no Minas Gerais (dia 16, segundo o CPDOC; dia 21, segundo a Palmares).
  4. 22 de novembro de 1910Marinheiros tomam os navios na baía de Guanabara.
  5. 25 de novembro de 1910Decreto nº 2.280 concede a anistia.
  6. 28 de novembro de 1910Decreto nº 8.400 autoriza a expulsão sumária.
  7. 9 de dezembro de 1910Revolta do Batalhão Naval na Ilha das Cobras; estado de sítio.
  8. 25 de dezembro de 191016 presos mortos na cela; o Satélite parte para o Acre.
  9. 1912Os dez marinheiros julgados em conselho de guerra são absolvidos.
  10. 23 de julho de 2008Lei nº 11.756 concede anistia póstuma.

A anistia de 2008 e o parágrafo vetado

A Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008, concedeu anistia póstuma a João Cândido e aos demais participantes, "com o objetivo de restaurar o que lhes foi assegurado pelo Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910". A própria lei, portanto, fala em restaurar o que tinha sido assegurado em 1910.

O texto aprovado pelo Congresso tinha um parágrafo a mais. Ele estendia a anistia às promoções que os marinheiros teriam tido e à pensão por morte. Foi vetado pelo presidente Lula, por falta de estimativa do custo para a União.

O verbete do CPDOC resume o veto como recusa da reintegração à Marinha. A mensagem de veto fala em promoções e pensão.

Segundo a Pesquisa FAPESP, a Marinha declarou na época "não reconhecer heroísmo nas ações daquele movimento".

Por que o resumo costuma parar no dia 26

Porque a versão curta tem final feliz: o castigo acabou e os rebeldes foram perdoados. A versão inteira inclui um decreto de expulsão três dias depois, uma cela com cal e um navio de deportados.

O Satélite, aliás, repetia uma receita conhecida: em 1904, depois da Revolta da Vacina, presos das ruas do Rio também foram mandados para o Acre. E a memória de um episódio, como mostra a história do quadro Independência ou Morte, costuma ser montada bem depois dele.

Fontes

  1. Lei nº 11.756, de 23 de julho de 2008 — publicação original e mensagem de veto, Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  2. Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910 (anistia aos insurretos), Presidência da República, Casa Civil
  3. Decreto nº 8.400, de 28 de novembro de 1910 (baixa por exclusão), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  4. Há 110 anos, marujos denunciaram chibata na Marinha e racismo no Brasil pós-abolição, Agência Senado e Arquivo do Senado (Arquivo S), 2020
  5. Revolta da Chibata (verbete do Dicionário da Primeira República), Beatriz Coelho Silva, CPDOC/FGV
  6. Em busca da cidadania: praças da Armada Nacional 1867-1910 (tese de doutorado), José Miguel Arias Neto, FFLCH/USP, 2001

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Perguntas frequentes

O que foi a Revolta da Chibata, em resumo?
Foi uma rebelião de marinheiros da Marinha brasileira entre 22 e 27 de novembro de 1910, na baía de Guanabara, contra os castigos físicos. Liderados por João Cândido Felisberto, eles tomaram os encouraçados Minas Gerais e São Paulo e outros navios, mataram oficiais, entre eles o comandante do Minas Gerais, e ameaçaram bombardear o Rio. O Congresso aprovou a anistia, e o Decreto nº 2.280, de 25 de novembro de 1910, a concedeu aos que se submetessem às autoridades.
Quem foi João Cândido?
João Cândido Felisberto foi o marinheiro gaúcho que liderou a revolta e que a imprensa apelidou de Almirante Negro. Tinha entrado na Marinha em 1895, aos 14 anos. Depois da anistia, foi preso, sobreviveu a uma cela da Ilha das Cobras onde 16 companheiros morreram no Natal de 1910, foi internado como louco, absolvido em 1912 e expulso da Marinha. Viveu vendendo peixe e morreu em 1969, aos 89 anos. Recebeu anistia póstuma pela Lei nº 11.756, de 2008.
O que aconteceu com os marinheiros depois da anistia?
Três dias depois da anistia, o Decreto nº 8.400 autorizou a baixa por exclusão de marinheiros considerados inconvenientes à disciplina. Segundo o relatório do ministro da Marinha de 1911, 1.216 homens foram excluídos até abril daquele ano. Depois de uma nova revolta na Ilha das Cobras, em dezembro, centenas foram presos; 105 ex-marinheiros foram embarcados no navio Satélite rumo ao Acre, e nove deles teriam sido fuzilados no caminho, segundo números do relatório do comandante do navio citados pelo historiador José Miguel Arias Neto.
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