Pular para o conteúdo

A fonte de césio-137 passou 16 dias circulando por Goiânia antes que alguém medisse a radiação

O relatório da AIEA reconstitui o caminho da cápsula entre 13 e 29 de setembro de 1987: diagnósticos de alergia, um pó azul distribuído como curiosidade e uma mulher que levou os restos de ônibus até a Vigilância Sanitária. O saldo oficial: 249 contaminados e quatro mortos.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Prédios residenciais altos de Goiânia vistos do alto ao entardecer, recortados contra um céu alaranjado com nuvens.
Natã Alves Motta, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • A peça com o césio-137 foi retirada de uma clínica abandonada em 13 de setembro de 1987; a radiação só foi medida em 29 de setembro, 16 dias depois.
  • Nesse intervalo, pelo menos dois doentes foram diagnosticados com alergia a comida, e fragmentos do pó azul foram distribuídos a várias famílias.
  • Cerca de 112 mil pessoas foram monitoradas: 249 estavam contaminadas, 129 delas também por dentro do corpo, e quatro morreram em outubro de 1987.

Na manhã de 29 de setembro de 1987, um físico pegou emprestado um medidor de radiação no escritório da Nuclebrás em Goiânia e seguiu para a Vigilância Sanitária, onde alguém tinha deixado um saco suspeito. Ainda longe do prédio, ligou o aparelho. O ponteiro foi ao fim da escala, para qualquer lado que ele apontasse.

Ele achou que o medidor estava com defeito e voltou para buscar outro. Não estava.

Fazia 16 dias que a peça com a fonte de césio-137 de um aparelho de radioterapia abandonado tinha sido retirada das ruínas de uma clínica. Nesse intervalo, o material foi aberto, vendido a ferros-velhos e distribuído como curiosidade. O relatório que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) publicou em 1988 classifica o caso como "um dos mais graves acidentes radiológicos já ocorridos" (tradução nossa). O saldo oficial: cerca de 112 mil pessoas monitoradas, 249 contaminadas e quatro mortas.

Um aparelho que ninguém foi buscar

No fim de 1985, o Instituto Goiano de Radioterapia mudou de endereço. Levou a unidade de cobalto-60 e deixou para trás a de césio-137. A licença exigia avisar a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) de qualquer mudança desse tipo. Segundo a AIEA, a CNEN não recebeu a notificação.

O livro publicado pelo governo de Goiás em 2024, nos 37 anos do acidente, registra as duas versões: a Secretaria da Saúde e a CNEN disseram que não foram avisadas; o instituto, na defesa judicial, alegou ter notificado a comissão.

A maior parte da clínica foi demolida. As salas de tratamento ficaram em ruínas, "aparentemente usadas por moradores de rua", diz o relatório (tradução nossa).

Dentro do cabeçote do aparelho havia 93 gramas de cloreto de césio, um sal muito solúvel, com atividade de 50,9 terabecquerels (1.375 curies). A um metro de distância, a fonte sem blindagem emitia 4,56 grays por hora.

Os 16 dias, segundo a AIEA

O relatório reconstitui a sequência a partir de entrevistas e identifica as pessoas só pelas iniciais. Os nomes abaixo vêm do livro do governo de Goiás.

De 13 a 29 de setembro de 1987

  1. 13 de setembroRoberto Santos Alves e Wagner Mota Pereira retiram o conjunto giratório que guardava a fonte e o levam de carrinho de mão para a casa de Roberto, a meio quilômetro. Os dois vomitam e atribuem o mal a algo que comeram.
  2. 15 de setembroWagner procura atendimento médico. O diagnóstico é reação alérgica a comida estragada.
  3. Entre 13 e 18 de setembroNo quintal de casa, Roberto fura com uma chave de fenda a janela de 1 milímetro da cápsula e tenta acender o pó, achando que fosse pólvora.
  4. 18 de setembroRoberto consegue retirar a roda que guardava a fonte. As peças são vendidas ao ferro-velho de Devair Alves Ferreira. À noite, Devair vê o brilho azul e leva a cápsula para dentro de casa.
  5. 21 de setembroUm amigo de Devair tira da cápsula fragmentos do tamanho de grãos de arroz. Pedaços são distribuídos a parentes; há quem passe o pó na pele como purpurina de carnaval.
  6. 24 de setembroIvo Alves Ferreira, irmão de Devair, leva fragmentos para casa. A filha dele, Leide das Neves, de 6 anos, os manipula enquanto come com as mãos.
  7. 28 de setembroMaria Gabriela Ferreira, mulher de Devair, desconfia do pó, põe os restos da peça num saco e o leva de ônibus até a Vigilância Sanitária.
  8. 29 de setembroO físico Walter Mendes Ferreira mede a radiação, esvazia o prédio e o ferro-velho e avisa as autoridades. À noite, o estádio olímpico vira área de triagem.

Há um detalhe em que as fontes oficiais não batem. O livro do governo de Goiás diz que, já em 13 de setembro, os dois rapazes "removem o lacre da cápsula". A AIEA chega a outra conclusão: como não se encontrou contaminação na clínica, a fonte provavelmente ainda estava intacta quando saiu de lá. Ela foi rompida no quintal de Roberto, onde ficou sob uma mangueira até 18 de setembro.

Medida em 2 de outubro, a contaminação que restou sob a mangueira ainda dava 1,1 gray por hora a um metro. A casa inteira teve de ser demolida.

Diagnósticos de alergia e um saco no ônibus

Os sintomas apareceram cedo e foram lidos errado várias vezes. Wagner ouviu que tinha uma alergia alimentar. Maria Gabriela, que vomitou e teve diarreia entre 21 e 23 de setembro, recebeu no Hospital São Lucas o mesmo diagnóstico e foi mandada para casa descansar.

Internado em 23 de setembro, Wagner teve as lesões de pele tratadas como sintoma de alguma doença e foi transferido, em 27 de setembro, para o Hospital de Doenças Tropicais. No dia seguinte, num posto de saúde, Maria Gabriela ouviu que tinha contraído uma doença tropical.

Foi ela quem ligou o pó às doenças. Em 28 de setembro, foi com um funcionário do marido ao ferro-velho para onde as peças tinham sido revendidas, recolheu os restos num saco e o levou de ônibus até a Vigilância Sanitária. Lá, disse ao diretor da unidade que aquilo estava "matando sua família" (tradução nossa). O funcionário que carregou o saco ficou com uma queimadura de radiação no ombro.

No Hospital de Doenças Tropicais, um médico já desconfiava de que as lesões de pele dos pacientes vinham de radiação. A sequência de telefonemas chegou ao físico na manhã seguinte. Ele chegou à Vigilância Sanitária a tempo de demover os bombeiros, chamados pelo diretor, da intenção inicial deles: pegar a fonte e jogá-la num rio.

Por que o pó azul fez tanto estrago

O relatório da AIEA aponta dois fatores. O primeiro foi o interesse provocado pelo brilho azul, que "afetou significativamente o curso do acidente" (tradução nossa): Devair achou o pó bonito, talvez valioso, e passou três dias recebendo vizinhos e parentes para vê-lo. O segundo foi a química: o cloreto de césio se dissolve com facilidade e se espalha em pessoas, casas e objetos.

Sem isso, diz a agência, o caso poderia ter seguido o de Ciudad Juárez, no México, em 1983, com uma fonte de cobalto-60, que deixou pouca contaminação e nenhuma morte. A origem do brilho ainda estava em estudo em 1988; a hipótese era fluorescência ou radiação Cherenkov ligada à umidade absorvida pela fonte.

Avenida de Goiânia com carros, postes cheios de fios e prédios de escritórios e apartamentos dos dois lados, sob céu nublado.
Goiânia em foto recente. Em 1987, a contaminação se concentrou em sete focos principais, entre ferros-velhos e casas, numa área de cerca de 1 quilômetro quadrado, segundo a AIEA. A foto ilustra a cidade e não mostra os locais do acidente. Imagem: Júlia Borges, via Unsplash · Licença Unsplash

Os números oficiais

Desde a noite de 29 de setembro, quem podia ter sido exposto foi mandado ao estádio olímpico. Até 3 de outubro, a equipe de monitoração tinha encontrado 249 pessoas com contaminação detectável; 129 tinham também contaminação interna.

O governo de Goiás usa outro total de monitorados, 112.800, e detalha os 249: em 120, a contaminação estava só em roupas e calçados. Dos 129 restantes, 20 foram levados ao Hospital Geral de Goiânia e 14 deles, em estado grave, transferidos para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. Um paciente teve o antebraço amputado.

Os quatro mortos estavam entre eles. Leide das Neves e a tia, Maria Gabriela, morreram em 23 de outubro. Israel Baptista dos Santos, de 22 anos, e Admilson Alves de Souza, de 18, funcionários do ferro-velho que extraíram o chumbo da peça, morreram em 27 e 28 de outubro.

As idades nem sempre coincidem: o relatório da AIEA dá 38 anos a Maria Gabriela; o livro do governo de Goiás, 37. As doses estimadas dos quatro foram de 4,5 a mais de 6 grays. Dois pacientes com doses parecidas sobreviveram.

No enterro de Leide, no Cemitério Parque, mais de duas mil pessoas tentaram bloquear a rua com pedras e tijolos, com medo de que o corpo contaminasse a área, segundo o livro do governo goiano. Os caixões, revestidos de chumbo, pesavam cerca de 700 quilos cada.

O que ficou em Abadia de Goiás

A descontaminação foi até março de 1988. Sete casas foram demolidas, e camadas de solo foram removidas. A AIEA e o governo de Goiás falam em 3.500 metros cúbicos de rejeitos; a CNEN, em cerca de 6 mil toneladas, numa unidade diferente.

O depósito definitivo foi inaugurado em Abadia de Goiás em 5 de junho de 1997, dentro do Parque Estadual Telma Ortegal. A distância até Goiânia varia conforme a fonte: 20 quilômetros para a AIEA (que descreve o depósito provisório), 23 para o governo de Goiás, 25 para a CNEN. Os depósitos foram projetados para reter o material por 300 anos ou mais. O césio-137 tem meia-vida de 30 anos.

O acidente não terminou com a limpeza. O centro estadual que acompanha os radioacidentados e seus descendentes tinha 1.360 pessoas cadastradas, segundo o livro de 2024. Pelo mesmo livro, 648 recebiam pensão estadual, 323 pensão federal e 197 as duas, e ainda havia pedidos de pensão em análise três décadas depois.

Quando um material radioativo parece inofensivo, ou até bonito, o estrago vem antes do alerta. Foi assim com as operárias americanas que pintavam mostradores de relógio e afinavam com a boca o pincel molhado em rádio. E vale ler a história de Tsutomu Yamaguchi, o homem que sobreviveu a Hiroshima e, três dias depois, a Nagasaki.

E, para outra emergência de saúde pública que pegou uma cidade brasileira despreparada, há a gripe espanhola no Rio de Janeiro, em 1918.

Fontes

  1. The Radiological Accident in Goiânia (1988), Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Viena — STI/PUB/815
  2. História do Césio 137 em Goiânia, Secretaria de Estado da Saúde de Goiás
  3. Césio 137: a história do acidente radioativo em Goiânia — 37 anos (2024), Secretaria de Estado da Saúde de Goiás / Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA)
  4. 1987 — Goiânia: uma tragédia que transformou a cultura de radioproteção, Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)
  5. Perguntas frequentes (itens 36 a 45, sobre Goiânia e os depósitos de Abadia de Goiás), Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN)

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Quantas pessoas morreram no acidente do césio-137 em Goiânia?
Quatro pessoas morreram por causa da exposição aguda, todas no Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro: Leide das Neves Ferreira, de 6 anos, e Maria Gabriela Ferreira, em 23 de outubro de 1987; Israel Baptista dos Santos, de 22 anos, em 27 de outubro; e Admilson Alves de Souza, de 18 anos, em 28 de outubro. As autópsias mostraram complicações hemorrágicas e infecciosas da síndrome aguda da radiação.
Quantas pessoas foram contaminadas pelo césio-137?
Segundo o relatório da AIEA, cerca de 112 mil pessoas foram monitoradas no estádio olímpico de Goiânia e 249 tinham contaminação; 129 delas tinham também contaminação interna. O governo de Goiás registra 112.800 monitorados e detalha que, entre os 249, 120 tinham contaminação só em roupas e calçados. Vinte pessoas precisaram de internação, e 28 tiveram queimaduras de radiação.
Onde está o lixo radioativo do acidente de Goiânia?
Em dois depósitos de concreto em Abadia de Goiás, na região metropolitana, inaugurados como depósito definitivo em 5 de junho de 1997 e controlados pela CNEN. O volume foi de 3.500 metros cúbicos, segundo a AIEA e o governo de Goiás; a CNEN fala em cerca de 6 mil toneladas. Os depósitos foram projetados para reter o material por 300 anos ou mais.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também

Mais de História

Ver a seção