A trégua de Natal de 1914 aconteceu e encheu os jornais britânicos em janeiro. O jogo de futebol contra os alemães é a parte que as cartas não conseguem provar
Os diários de guerra confirmam soldados britânicos e alemães conversando e enterrando mortos entre as trincheiras. Quando o assunto é futebol, as cartas publicadas em janeiro de 1915 dão placares diferentes, jogos cancelados e partidas que ninguém viu.

Em 30 segundos
- Na trégua de Natal de 1914, soldados britânicos e alemães saíram das trincheiras para conversar, trocar presentes e enterrar mortos; a Gazette, publicação oficial britânica, estima cerca de 100 mil homens envolvidos.
- Ao longo de janeiro de 1915, jornais locais e nacionais britânicos publicaram carta atrás de carta de soldados contando o que viram.
- Um levantamento nos diários de todos os batalhões de infantaria britânicos na França em 25 de dezembro de 1914 não achou nenhuma menção a futebol com o inimigo.
- O relato mais famoso do jogo, o do oficial saxão Johannes Niemann, com vitória alemã por 3 a 2, foi dado à BBC em 1968, 54 anos depois.
No Natal de 1914, em vários trechos da Frente Ocidental, soldados britânicos e alemães saíram das trincheiras, apertaram as mãos e enterraram os mortos que estavam entre as linhas. Um mês depois, as cartas deles enchiam os jornais britânicos.
Isso está documentado. A partida de futebol entre os dois exércitos, a imagem que virou sinônimo da trégua, é outra história: aparece em cartas, mas com placares que não batem, jogos que foram cancelados e testemunhas que só falaram décadas depois.
O que os documentos confirmam
A trégua não foi um acordo único. Foi uma série de cessar-fogos não oficiais, combinados trecho a trecho, como resume o National Army Museum, de Londres. Alguns começaram na véspera, outros no dia 25. Em certos pontos, os soldados só pararam de atirar. Em outros, se encontraram na terra de ninguém. Em muitos lugares, a luta continuou.
A Gazette, publicação oficial britânica ligada ao Arquivo Nacional, estima cerca de 100 mil soldados britânicos e alemães envolvidos, em pelo menos metade da frente britânica. O historiador Iain Adams, da Universidade de Central Lancashire, fala em algum grau de confraternização em cerca de dois terços do setor britânico. As estimativas divergem.
Os diários da época registram a cena. O então sargento-intendente George Beck, do Regimento Real de Warwickshire, anotou no dia 24 que os alemães gritavam pedindo para não atirar e chamando os britânicos para jogar futebol. No dia 25: "Nem um tiro foi disparado. Soldados ingleses e alemães se misturaram e trocaram lembranças" (tradução nossa). O diário está no Dorset History Centre.
O diário oficial do 2º Batalhão dos Argyll and Sutherland Highlanders, citado por Adams, é seco: dia "muito tranquilo", alemães saindo desarmados à tarde e um pedido para enterrar 10 mortos, que foi atendido.
Não foi um dia sem guerra. Segundo Adams, 81 soldados britânicos morreram no dia de Natal e outros 62 no dia 26, alguns deles de ferimentos anteriores.

As cartas que chegaram aos jornais
O motivo de sabermos tanto é que, em janeiro de 1915, a trégua virou notícia. A Gazette registra que ao longo de todo aquele mês jornais locais e nacionais britânicos publicaram "carta atrás de carta" de soldados que participaram, com títulos como "Extraordinário armistício não oficial" (tradução nossa).
Era costume as famílias passarem as cartas para o jornal da cidade, explica Adams. A censura da correspondência ainda estava se formando, e as autoridades britânicas e alemãs deixaram a imprensa tratar do assunto. Só o governo francês censurou os relatos.
No Royal Leamington Spa Courier, de 8 de janeiro de 1915, saiu um relato detalhado da trégua escrito pelo capitão R. J. Armes, segundo o catálogo de jornais da Primeira Guerra do Conselho do Condado de Warwickshire. Na mesma edição, outro soldado da cidade contava ter recusado um convite para visitar as trincheiras alemãs.
As cartas atravessaram o Atlântico. Em 17 de janeiro, o New-York Tribune comentava que os relatos "agora aparecem nos jornais de Londres" e citava um major que falava em cantoria e futebol com os saxões em frente.
Onde entra o futebol
É aqui que as cartas começam a se contradizer.
Em 1º de janeiro de 1915, o The Times publicou a carta de um major do corpo médico do Exército: "O regimento ----- chegou a jogar uma partida de futebol com os saxões, que os venceram por 3 a 2!!!" (tradução nossa, a partir da citação de Adams). O nome do regimento saiu em branco.
No dia seguinte, o Glasgow News trouxe duas cartas. Na primeira, um oficial de um regimento escocês dizia que o jogo tinha sido combinado para o dia 26, das 14h às 16h, mas foi proibido pelos superiores. Na segunda, um sargento que guardava as trincheiras de comunicação contava ter ouvido dizer que os Argylls jogaram.
Em 8 de janeiro, a Illustrated London News noticiou que, "ao que se diz", alguns britânicos visitaram as trincheiras alemãs "e uma partida de futebol anglo-saxã chegou a ser disputada" (tradução nossa).
Outras cartas falam de jogos que não aconteceram ou de futebol sem alemães. Um relato publicado em jornais americanos em meados de janeiro diz que os britânicos levaram uma bola para a frente da trincheira e convidaram os alemães, mas "o tempo, ou os oficiais deles", impediram a partida. O sargento George Parr, do 4º Batalhão dos King's Royal Rifles, escreveu a um cunhado nos Estados Unidos que os britânicos jogaram entre as trincheiras enquanto os alemães assistiam e aplaudiam: os oficiais alemães não deixaram seus homens entrar.
O jogo, segundo quem estava lá
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Houve uma partida entre os dois exércitos.
- Nenhum diário de batalhão de infantaria britânico menciona futebol com o inimigo, segundo levantamento de Iain Adams.
- Os alemães venceram por 3 a 2.
- O 3 a 2 alemão aparece numa carta sem nome de regimento e num relato dado em 1968. A história dos Lancashire Fusiliers registra outro 3 a 2, num jogo com uma lata no lugar da bola.
- Foi um jogo com bola e gol.
- Os relatos falam em lata, saco de areia, bola de papel com barbante e, num caso, uma bolinha de borracha.
- O jogo foi espontâneo e livre.
- Vários jogos combinados para o dia 26 foram cancelados por ordem superior ou por bombardeio.
O problema de acreditar nas cartas
Adams lembra que carta de soldado não é registro neutro. Algumas exageravam para impressionar os parentes, sabendo que podiam sair no jornal.
Ele cita o caso contado pelo motorista voluntário Frederick Coleman: um ferrador que nunca chegava perto da frente escrevia à mãe histórias de quase morte, e as cartas saíam num jornal local. O oficial que censurava a correspondência deixava passar, com o apoio dos colegas.
Com o futebol, há casos parecidos. Um soldado do 2º Batalhão de Suffolk escreveu que seu regimento não jogou contra os alemães, embora alguns conterrâneos tivessem escrito para casa dizendo que sim. Um soldado do 4º Batalhão dos Seaforth Highlanders contou ter vencido os saxões por 6 a 2. Outro, do mesmo batalhão, escreveu no Football Times de 9 de janeiro que no Natal tinham marchado cerca de dez milhas, uns 16 quilômetros, para longe das linhas. O diário do batalhão confirma a marcha.
Os diários oficiais tampouco resolvem a dúvida. Adams leu os de todos os batalhões de infantaria britânicos que estavam na França em 25 de dezembro. Nenhum menciona futebol com o inimigo. Mas os oficiais que escreviam esses diários conheciam a proibição de confraternizar, e o do 1º Batalhão dos Buffs não tem as páginas de 21 a 29 de dezembro.
O relato mais famoso veio 54 anos depois
A versão mais citada do jogo é a de Johannes Niemann, oficial do 133º Regimento Saxão. Num documentário da BBC de 1968, ele contou que um escocês apareceu com uma bola, que os gols foram marcados com quepes e que a partida durou uma hora no chão congelado. O placar: 3 a 2 para os alemães. Ele repetiu a história no livro sobre o regimento, de 1969.
Niemann achava que enfrentava os Seaforth Highlanders; segundo Adams, eram os Argylls. Nenhum oficial britânico do batalhão descreveu essa partida, mas todos registraram que os alemães queriam marcar um jogo de verdade para o dia 26. O capitão Jack, dos Cameronians, vizinhos de trincheira, anotou que o jogo foi combinado e que um bombardeio impediu a partida.
Do lado britânico, o soldado Collier, dos Argylls, lembrou em 1965 que homens do pelotão vizinho fizeram uma bola de papel, trapos e barbante e chutaram por uns vinte minutos, até ela se desmanchar.
Da trincheira ao jornal
- 11 de dezembro de 1914Homens do 2º Batalhão de Essex se encontram com saxões entre as trincheiras, segundo o diário do batalhão.
- 24 de dezembroEm trechos da frente, alemães cantam e põem árvores de Natal com velas nas trincheiras. George Beck anota que eles chamam os britânicos para jogar futebol.
- 25 de dezembroTréguas em vários trechos da frente; enterro de mortos entre as linhas. 81 britânicos morrem nesse dia.
- 26 de dezembroJogos combinados entre os Argylls e os saxões e em outros setores não acontecem.
- 1º de janeiro de 1915O Times publica a carta do major que fala em vitória saxã por 3 a 2.
- Janeiro de 1915Jornais britânicos publicam carta atrás de carta sobre a trégua.
- 1968Johannes Niemann conta à BBC a partida contra os escoceses.
Então teve futebol ou não?
Provavelmente teve, só que não do jeito que se conta. A conclusão de Adams é que houve chutes improvisados entre as linhas, com o que estivesse à mão, e "certamente não" a partida formal da imaginação popular (tradução nossa).
O diário de um segundo-tenente dos Cheshires, citado por ele, mostra como isso podia acontecer: "Alguém apareceu com uma bolinha de borracha, então é claro que começou um jogo de futebol" (tradução nossa). O Rifleman William Eve, cujo diário está no National Army Museum, escreveu no próprio dia 25 que os soldados "jogaram futebol" entre conversas e trocas de lembranças.
A trégua não se repetiu na mesma escala. O general Horace Smith-Dorrien deu "as ordens mais rigorosas" contra qualquer contato, segundo a Gazette. Do lado alemão, um despacho de Berlim publicado em 8 de janeiro de 1915 anunciava uma ordem geral proibindo confraternizar com o inimigo. O mesmo despacho acrescentava que, num lugar onde alemães e britânicos jogaram futebol no Natal, as duas partes combinaram suspender as hostilidades por mais dois dias.
Não é a primeira vez que um episódio real ganha uma cena que os documentos não sustentam: aconteceu com o pânico da Guerra dos Mundos em 1938, aumentado pelos jornais, e com as 38 testemunhas do caso Kitty Genovese.
Fontes
- A Game for Christmas? The Argylls, Saxons and Football on the Western Front, December 1914 (2015), Iain Adams, The International Journal of the History of Sport 32(11-12) — repositório da Universidade de Central Lancashire
- World War 1: the Christmas truce of December 1914, The Gazette (TSO, sob supervisão do HMSO / The National Archives)
- The Christmas Truce, National Army Museum, Londres
- Christmas Truce recorded in WW1 diary, Dorset History Centre (diário de George Beck, ref. D/1820)
- Newark Evening Star, 20 de janeiro de 1915, p. 2, Library of Congress, Chronicling America — jornal da época digitalizado
- The Elkins Inter-Mountain, 16 de janeiro de 1915, p. 5, Library of Congress, Chronicling America — jornal da época digitalizado
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Perguntas frequentes
- O que foi a trégua de Natal de 1914?
- Uma série de cessar-fogos não oficiais na Frente Ocidental entre 24 e 26 de dezembro de 1914, sem coordenação central. Em vários trechos, soldados britânicos e alemães cantaram, saíram das trincheiras, trocaram cigarros e comida e enterraram os mortos entre as linhas. A Gazette, publicação oficial britânica, estima cerca de 100 mil homens envolvidos. Em outros trechos, a luta continuou.
- Houve mesmo um jogo de futebol entre ingleses e alemães?
- Não há prova de uma partida organizada. Há diários e cartas que falam em chutar bola, lata ou trapos entre as linhas, e o historiador Iain Adams conclui que esses chutes improvisados provavelmente aconteceram. Mas nenhum diário de batalhão de infantaria britânico menciona futebol com o inimigo, vários jogos combinados foram cancelados, e os placares publicados não batem entre si.
- De onde vem o placar de 3 a 2 para os alemães?
- De duas fontes diferentes. Em 1º de janeiro de 1915, o The Times publicou a carta de um major do corpo médico britânico dizendo que os saxões tinham vencido um regimento cujo nome foi omitido por 3 a 2. Em 1968, o oficial saxão Johannes Niemann contou à BBC uma partida contra escoceses com o mesmo placar. Outro 3 a 2 aparece na história dos Lancashire Fusiliers, num jogo disputado com uma lata no lugar da bola.
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