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Os irmãos Wright voaram em 1903, numa praia, com cinco testemunhas. Santos-Dumont voou em 1906, em Paris, diante de uma comissão oficial. Quem foi o primeiro depende da regra

Os registros dos dois lados resistem a uma conferida. O que muda é o critério: trilho ou rodas, testemunhas locais ou comissão do Aéro-Club de France, voo escondido ou voo em público.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Fotografia em preto e branco de um biplano de madeira e tecido a pouca altura sobre a areia, com um homem de pé à direita olhando e um trilho de madeira no chão à esquerda.
John T. Daniels (1903), acervo NASA · Domínio público (NASA)

Em 30 segundos

  • Em 17 de dezembro de 1903, os irmãos Wright fizeram quatro voos na Carolina do Norte. O mais longo durou 59 segundos e cobriu 255,6 metros, segundo o Museu Nacional do Ar e do Espaço.
  • O Flyer de 1903 partiu de um trilho de madeira de 60 pés, contra vento de 22 a 27 milhas por hora, diante de cinco testemunhas e sem comissão oficial.
  • Em 12 de novembro de 1906, Santos-Dumont voou 220 metros com o 14-bis em Paris, decolando sobre rodas diante da comissão do Aéro-Club de France.
  • Uma lei brasileira de 1936 afirma a prioridade de Santos-Dumont. O Smithsonian chama os voos de 1903 de os primeiros bem-sucedidos.

Ao meio-dia de 17 de dezembro de 1903, numa praia da Carolina do Norte, Wilbur Wright ficou 59 segundos no ar e percorreu 255,6 metros. Era o quarto voo motorizado do dia. Cinco pessoas da região assistiram.

Quase três anos depois, em 12 de novembro de 1906, Alberto Santos-Dumont voou 220 metros com o 14-bis no campo de Bagatelle, em Paris, diante da comissão do Aéro-Club de France.

Pela data dos documentos, os Wright voaram primeiro. A versão brasileira, porém, não é lenda: Santos-Dumont foi o primeiro a voar sob as regras de uma comissão oficial, decolando sobre rodas e por meios próprios. A pergunta tem duas respostas porque há dois critérios em jogo.

O que os Wright anotaram na praia

O Museu Nacional do Ar e do Espaço, do Smithsonian, que guarda o avião original, descreve o dia assim: às 10h35, com Orville nos controles, o Flyer saiu do chão para um voo de 12 segundos e 36 metros. Seguiram-se mais três, com os irmãos se revezando. O segundo e o terceiro ficaram na casa dos 200 pés. O quarto, de Wilbur, foi o de 59 segundos.

O Serviço Nacional de Parques dos EUA acrescenta os detalhes que pesam na disputa. O avião correu sobre um trilho de madeira de 60 pés, cerca de 18 metros, montado "num trecho liso de terreno plano". Soprava um vento de 22 a 27 milhas por hora vindo do norte, algo entre 35 e 43 km/h.

As testemunhas foram John T. Daniels, Willie S. Dough e Adam D. Etheridge, da estação de salvamento de Kill Devil Hills, além de William C. Brinkley, de Manteo, e John T. Moore, um garoto de Nags Head. Foi Daniels quem fez a fotografia famosa da decolagem.

No fim do dia, o pai dos irmãos recebeu um telegrama em Dayton: "Sucesso quatro voos quinta-feira de manhã todos contra vento de vinte e uma milhas partida do plano só com força do motor" (tradução nossa). O telegrama deu 57 segundos ao voo mais longo, em vez de 59.

Não havia comissão oficial nem imprensa. Nas palavras do Serviço de Parques, "o mundo deu pouca atenção" ao feito (tradução nossa).

Dois anos voando longe do público

Em 1904, os Wright passaram a voar em Huffman Prairie, perto de Dayton, em Ohio. Em 7 de setembro de 1904, começaram a usar uma catapulta com 1.200 a 1.600 libras de peso em queda para lançar o avião. Fizeram o primeiro círculo no ar em 20 de setembro daquele ano.

Em 5 de outubro de 1905, Wilbur ficou no ar por 39 minutos e cobriu mais de 24 milhas, perto de 39 km, segundo o Serviço de Parques. Era um avião que inclinava, fazia curvas e figuras de oito.

Depois disso, sumiram. O museu The Henry Ford, que guarda os negativos dos voos de 1908, registra que os irmãos pararam de voar em público por quase três anos a partir do fim de 1905, com medo de que rivais copiassem um projeto ainda sem patente. A patente americana, depositada em março de 1903, só foi concedida em 22 de maio de 1906. Segundo o mesmo museu, "as pessoas começaram a duvidar que os Wright tivessem voado algum dia" (tradução nossa).

O que Santos-Dumont fez em Bagatelle

Santos-Dumont já era famoso em Paris. Em 19 de outubro de 1901, tinha ganhado o Grande Prêmio Deutsch de la Meurthe com o dirigível nº 6: sair de Saint-Cloud, contornar a Torre Eiffel e voltar em menos de 30 minutos.

Caricatura colorida de um homem de chapéu de palha e bigode, de pé dentro de um cesto de vime, segurando uma alavanca, com um dirigível em forma de charuto preso acima da cabeça e uma hélice e um motor nas costas.
Ilustração. Santos-Dumont caricaturado pela revista Vanity Fair em novembro de 1901, um mês depois do Prêmio Deutsch. O dirigível leva a inscrição Santos-Dumont nº 6. Imagem: Geo. Hum. (Vanity Fair, 1901), via Wellcome Collection · Domínio público

No fim de 1905, o Aéro-Club de France criou um prêmio de 1.500 francos para o primeiro avião que voasse 100 metros decolando por meios próprios, de terreno plano, com inclinação máxima de 10%. Ernest Archdeacon, presidente do clube, ofereceu 3.000 francos para quem voasse 25 metros. As regras estão descritas num artigo de 2006 dos engenheiros Paulo Celso Greco Júnior e Fernando Martini Catalano, da USP de São Carlos.

Em 13 de setembro de 1906, o 14-bis deu um primeiro salto, curto demais para o prêmio. As fontes divergem sobre a distância: 13 metros, segundo o artigo da USP; 7 metros, segundo uma página educativa do Smithsonian.

Em 23 de outubro, veio o voo de cerca de 60 metros, a uns 2 metros do chão, que deu a Santos-Dumont a Taça Archdeacon. A revista L'Illustration de 27 de outubro de 1906 escreveu que o interesse da experiência era "demonstrar que se pode, sem o auxílio de um suporte mais leve que o ar, realizar o voo" (tradução nossa).

Em 12 de novembro, o 14-bis fez quatro voos. No último, às 16h45, decolou contra o vento, subiu a cerca de 6 metros e pousou a 220 metros do ponto de partida. A distância foi marcada com placas jogadas de um carro que seguia o avião. Valeu o prêmio dos 100 metros. A duração varia conforme a fonte: 21,5 segundos para a FAI, a federação que homologa recordes aéreos; 22 segundos para os pesquisadores da USP.

A FAI descreve esse voo como "o primeiro voo oficialmente observado na Europa com mais de 25 metros" (tradução nossa).

A regra que decide

O que cada lado registrou

Em cada item, primeiro: irmãos wright, 1903 a 1905. Depois: santos-dumont, 1906.

Decolagem em 1903 sobre trilho de madeira de 18 metros, em terreno plano. De 1904 em diante, catapulta com peso em queda.
Decolagem sobre rodas, por meios próprios, como exigia o regulamento do Aéro-Club de France.
Vento contra de 22 a 27 milhas por hora no dia do primeiro voo.
No voo de 12 de novembro, decolagem também contra o vento, segundo os pesquisadores da USP.
Cinco testemunhas locais e uma fotografia. Nenhuma comissão oficial.
Comissão do Aéro-Club de France, público e imprensa de Paris.
Voo mais longo de 1903: 59 segundos. Em outubro de 1905: 39 minutos.
Voo mais longo de 1906: 220 metros, em cerca de 21 a 22 segundos.

O vento contra, portanto, não separa os dois casos. O que separa é o trilho, a catapulta e, sobretudo, a ausência de uma comissão nos voos americanos.

Esse foi o argumento do próprio Santos-Dumont. Em O que eu vi, o que nós veremos, de 1918, ele escreveu que os voos dos Wright foram "feitos às escondidas" e contrapôs as demonstrações dele, de Farman e de Blériot, feitas "diante de comissões científicas e em plena luz do sol". Na mesma página, ressalvou: "Eu não quero tirar em nada o mérito dos irmãos Wright, por quem tenho a maior admiração".

O livro, escrito 12 anos depois, também mostra o cuidado que a memória exige. Nele, Santos-Dumont diz que o voo de 23 de outubro teve 250 metros. Os registros de 1906, inclusive a reportagem de L'Illustration que ele mesmo reproduz, falam em 60.

Do lado americano, o telegrama de 1903 já respondia à objeção: "partida do plano só com força do motor". E a dúvida europeia acabou em 8 de agosto de 1908, quando Wilbur voou em público pela primeira vez na Europa, no hipódromo de Hunaudières, em Le Mans. Para o Smithsonian, aqueles voos "confirmaram sem dúvida" o que os Wright diziam (tradução nossa).

Os registros, em ordem

  1. 17 de dezembro de 1903Quatro voos dos Wright na Carolina do Norte, saindo de um trilho. O mais longo: 59 segundos.
  2. 7 de setembro de 1904Os Wright começam a usar catapulta com peso em queda, perto de Dayton.
  3. 5 de outubro de 1905Wilbur voa 39 minutos. Em seguida, os irmãos param de voar em público.
  4. 22 de maio de 1906Concessão da patente americana dos Wright.
  5. 23 de outubro de 1906Santos-Dumont voa cerca de 60 metros em Bagatelle e ganha a Taça Archdeacon.
  6. 12 de novembro de 1906220 metros diante da comissão do Aéro-Club de France.
  7. 8 de agosto de 1908Wilbur Wright faz a primeira demonstração pública na Europa, em Le Mans.
  8. 4 de julho de 1936Lei brasileira cria o Dia do Aviador em 23 de outubro.

O que dizem as instituições

Cada país registrou sua resposta em documento. No Brasil, a Lei nº 218, de 4 de julho de 1936, assinada por Getúlio Vargas, criou o Dia do Aviador em 23 de outubro, "accentuando-se a iniciativa do notavel brasileiro Santos Dumont, quanto á prioridade do vôo em apparelho mais pesado do que o ar".

Nos Estados Unidos, o Smithsonian descreve os voos de 1903 como "os primeiros voos bem-sucedidos do mundo de uma máquina voadora motorizada mais pesada que o ar" (tradução nossa).

Os críticos do museu costumam lembrar o contrato de 1948 com os herdeiros de Orville Wright, condição para o avião ir ao Smithsonian. Uma cláusula proíbe o museu de dizer que qualquer aeronave anterior a 1903 era capaz de levar um homem em voo controlado. O historiador Tom Crouch, do próprio museu, explica que o alvo era o Aerodrome de Samuel Langley, testado e acidentado em 1903. O 14-bis, de 1906, nunca esteve no alcance da cláusula.

Em 1909, Santos-Dumont, Wilbur e Orville Wright estavam na mesma lista: a das primeiras licenças de piloto emitidas pelo Aéro-Club de France.

No livro de 1918, Santos-Dumont comparou a própria situação à de Edison, Graham Bell e Marconi, perguntando o que eles diriam se outro inventor aparecesse com uma lâmpada melhor dizendo que a tinha feito antes. A comparação é melhor do que ele imaginava: Edison também não foi o primeiro a acender uma lâmpada, e a resposta ali também depende do que se exige do invento. E, para outro caso em que um registro feito no Brasil entrou para a história da ciência, vale ver o que as fotos do eclipse de Sobral mostraram em 1919.

Fontes

  1. 1903 Wright Flyer, Museu Nacional do Ar e do Espaço, Smithsonian Institution
  2. Wright Brothers National Memorial, Historical Handbook nº 34, Serviço Nacional de Parques dos EUA (reprodução em npshistory.com)
  3. 12 November 1906: The first flight by Santos-Dumont, Fédération Aéronautique Internationale (FAI)
  4. Analysis of geometric and flying characteristics of Santos-Dumont’s 14-Bis (2006), Paulo Celso Greco Júnior e Fernando Martini Catalano, EESC-USP, anais do ENCIT 2006 (ABCM)
  5. O que eu vi, o que nós veremos (1918), Alberto Santos-Dumont — obra digitalizada pela Universidade Estadual de Londrina
  6. Lei nº 218, de 4 de julho de 1936 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada

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Perguntas frequentes

Quem voou primeiro, Santos-Dumont ou os irmãos Wright?
Pela data dos registros, os irmãos Wright: em 17 de dezembro de 1903 eles fizeram quatro voos motorizados na Carolina do Norte, o mais longo com 59 segundos e 255,6 metros. Santos-Dumont voou em 1906, em Paris. A resposta muda se o critério exigir decolagem sobre rodas, por meios próprios, diante de uma comissão oficial: aí o primeiro é Santos-Dumont, com os voos de 23 de outubro e 12 de novembro de 1906 no campo de Bagatelle, feitos diante da comissão do Aéro-Club de France.
Por que no Brasil se diz que Santos-Dumont foi o pai da aviação?
Porque os voos dele foram feitos em público, diante da comissão do Aéro-Club de France, com o avião decolando sobre rodas. Os voos dos Wright em 1903 partiram de um trilho de madeira e tiveram cinco testemunhas locais; de 1904 em diante, usaram uma catapulta com peso em queda. O próprio Santos-Dumont escreveu em 1918 que os voos dos Wright foram feitos "às escondidas". Uma lei de 1936, que criou o Dia do Aviador em 23 de outubro, registra a "prioridade do vôo em apparelho mais pesado do que o ar" do brasileiro.
Os irmãos Wright usaram catapulta no primeiro voo?
Não em 1903. Naquele dia o Flyer correu sobre um trilho de madeira de 60 pés (cerca de 18 metros) montado em terreno plano, contra um vento de 22 a 27 milhas por hora, segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA. A catapulta, com 1.200 a 1.600 libras de peso em queda, só começou a ser usada em 7 de setembro de 1904, nos voos perto de Dayton, em Ohio.
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