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A avestruz não enterra a cabeça na areia. O romano apontado como pai do mito escreveu "arbusto", e um grego já tinha defendido a ave antes dele

O que a avestruz faz de fato com a cabeça no ninho e diante do perigo, e o que Plínio, o Velho, e Diodoro da Sicília escreveram sobre ela. Nenhum dos dois fala em areia.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Avestruz macho de plumagem preta e penas da cauda claras, com o pescoço curvado e a cabeça perto do chão, num campo de vegetação rasteira.
Jorge Coromina, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • A avestruz não enterra a cabeça: no ninho, ela a abaixa até perto do chão para virar os ovos, segundo o Zoológico Nacional do Smithsonian.
  • Quando não consegue fugir, ela se deita imóvel com a cabeça e o pescoço esticados rente ao solo; de longe, parece que a cabeça sumiu.
  • Plínio, o Velho, chamou a ave de estúpida por esconder o pescoço num arbusto. A palavra areia não aparece no texto.
  • Antes dele, o grego Diodoro da Sicília já contestava a ideia: a ave protegeria a cabeça por ser a parte mais frágil do corpo.

No livro 10 da História Natural, o romano Plínio, o Velho, chamou a avestruz de estúpida. O motivo: ela se julgaria escondida depois de enfiar o pescoço num arbusto, com o resto do corpo enorme à vista.

Não há areia nessa frase. E a ave também não enterra a cabeça, nem na areia nem em lugar nenhum.

"Ao contrário do mito popular, as avestruzes não enterram a cabeça na areia", afirma o Zoológico de San Diego (tradução nossa). O que existe são dois comportamentos que, vistos de longe, se parecem com isso: a ave com a cabeça baixa sobre o ninho, virando os ovos, e a ave deitada no chão com o pescoço esticado rente à terra.

O ninho é um buraco raso no chão

O ninho da avestruz fica no chão. Segundo o Zoológico de San Diego, ele é pouco mais que uma depressão rasa raspada na terra pelo macho.

E é um ninho coletivo. Num artigo publicado na revista Nature em 1979, Brian Bertram descreveu que, na África Oriental, de 2 a 7 fêmeas põem até 13 ovos cada uma no mesmo buraco. Só uma delas, a fêmea dominante, guarda o ninho e depois choca os ovos, com a ajuda do macho.

O Zoológico de San Diego acrescenta uma divisão de turnos: a fêmea dominante, de plumagem parda, costuma chocar de dia, e o macho, de plumagem preta, assume à noite. O Zoológico Nacional do Smithsonian diz apenas que um macho e uma fêmea se revezam na incubação.

A cabeça baixa sobre os ovos

É nesse buraco que está a primeira explicação. O Zoológico Nacional do Smithsonian descreve que, enquanto cuidam do ninho, as avestruzes abaixam a cabeça até perto do chão para virar os ovos. Esse comportamento, segundo o zoológico, pode explicar o mito.

Mexer nos ovos é rotina. Um estudo de 2010 publicado na revista Ostrich, de Flora Magige, Bård Stokke e Eivin Røskaft, registra que os ovos são virados e deslocados com frequência a partir do início da incubação.

Há também uma triagem. Segundo Bertram, um ninho completo pode ter de 30 a 40 ovos, mas uma fêmea consegue chocar cerca de 20. As sobras são empurradas para 1 ou 2 metros de distância, onde não são incubadas e morrem. O achado central do artigo é que a fêmea dominante evita empurrar para fora os próprios ovos: ela reconhece os seus.

As contagens variam conforme a fonte. Bertram fala em ninhos completos de até 30 a 40 ovos na África Oriental; o Smithsonian, em até 50, já que cada fêmea põe de 7 a 10 ovos por vez.

Deitada, com o pescoço rente ao chão

A segunda explicação aparece quando há perigo. A primeira reação da avestruz é correr: segundo o Zoológico de San Diego, ela chega a 70 km/h em arrancadas curtas e mantém 50 km/h.

Quando não consegue fugir, ela se joga no chão e fica imóvel, com a cabeça e o pescoço esticados à frente, rentes ao solo. Como cabeça e pescoço são de cor clara, se confundem com a terra. "De longe, parece que a avestruz enterrou a cabeça na areia, porque só o corpo fica visível", descreve o zoológico (tradução nossa).

E, se for atacada, ela não se esconde. Revida com o pé, que tem garra, num chute que o zoológico descreve como forte o bastante para matar um leão.

Avestruz e cabeça enterrada: o mito e as fontes

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

A avestruz enterra a cabeça na areia quando se assusta.
Não enterra. Em perigo, corre; sem saída, deita e estica a cabeça e o pescoço rente ao chão (Zoológico de San Diego).
A cabeça perto do chão é sinal de medo.
No ninho, a ave abaixa a cabeça para virar os ovos (Zoológico Nacional do Smithsonian).
Plínio escreveu que ela enfia a cabeça na areia.
Plínio escreveu que ela esconde o pescoço num arbusto. A palavra areia não aparece no trecho.
A crença nasceu com Plínio.
Diodoro da Sicília, que Plínio cita no prefácio, já registrava a cena e contestava a leitura de estupidez.

O que Plínio escreveu, palavra por palavra

A frase está logo no começo do livro 10 da História Natural, dedicado às aves. Plínio abre o livro pela avestruz, "da África ou da Etiópia", que, segundo ele, supera em altura e em velocidade um homem montado a cavalo.

No mesmo parágrafo, afirma que a ave tem cascos fendidos, parecidos com os do veado, que usa para lutar e para pegar pedras e arremessá-las contra quem a persegue. E que digere qualquer coisa que engole.

Então vem o trecho famoso. Em latim, Plínio diz que não é menor a estupidez da ave, que, apesar da altura do resto do corpo, se julga escondida "cum colla frutice occultaverint", ou seja, quando esconde o pescoço num arbusto. Colla quer dizer pescoço; frutex, arbusto.

A tradução inglesa de John Bostock e H. T. Riley, publicada em Londres em 1855, foi um pouco além do original: verteu a passagem como se a ave enfiasse "a cabeça e o pescoço" no arbusto.

Em nenhuma das duas versões aparece areia.

Gravura em preto e branco de uma avestruz correndo em primeiro plano, perseguida por cães; ao fundo, um cavaleiro e outra avestruz em fuga numa paisagem com colinas.
Ilustração. Avestruzes fugindo de cães e de um caçador a cavalo, em gravura de Stefano della Bella. A perseguição por caçadores a cavalo é a cena que Diodoro descreve. Imagem: Stefano della Bella, via Wellcome Collection · Domínio público

O grego que defendeu a avestruz antes

Plínio costuma ser apontado como a origem do mito. Mas a cena já tinha sido descrita antes dele, e com uma explicação oposta.

O historiador grego Diodoro da Sicília, que trabalhava na sua Biblioteca Histórica pelo menos desde 56 a.C., segundo a introdução da edição da Loeb Classical Library, descreve a avestruz no livro 2, ao tratar dos animais da Arábia. Perseguida por caçadores a cavalo, a ave arremessa pedras com os pés. Quando é alcançada e cercada, esconde a cabeça num arbusto ou num abrigo parecido.

E Diodoro contesta a leitura que Plínio adotaria. Ela faz isso, escreve, "não, como alguns supõem, por tolice e estupidez de espírito, como se pensasse que, por não ver os outros, também não seria vista por eles, mas porque a cabeça é a parte mais frágil do corpo e ela procura um abrigo para ela, a fim de salvar a vida" (tradução nossa, a partir da versão inglesa da Loeb, de 1935).

O "como alguns supõem" mostra que a ideia da ave tola já circulava quando Diodoro escreveu.

Plínio conhecia Diodoro. No prefácio da História Natural, elogia o título direto que o grego deu à obra: Biblioteca. E os tradutores de 1855 registraram a contradição numa nota ao trecho da avestruz: segundo Diodoro, longe de ser estupidez, o gesto seria uma precaução sensata, porque a cabeça é a parte mais fraca e indefesa do animal.

Diodoro, como Plínio, falava em arbusto. Não em areia.

Xilogravura com o busto de um homem barbado e calvo dentro de um medalhão circular, com a inscrição C. Plinius Secundus ao redor e versos em latim abaixo.
Ilustração. Plínio, o Velho, num retrato em xilogravura do acervo da Wellcome Collection. O catálogo não informa autor nem data. Imagem: Wellcome Collection · Domínio público

Onde entra a areia

Nenhum dos dois textos antigos consultados fala em areia, e não encontramos fonte primária que marque quando a palavra entrou na expressão. O que os textos permitem dizer é mais modesto: a acusação de estupidez já circulava antes de Plínio, e já havia quem a contestasse.

O que os zoológicos descrevem hoje é outra coisa. A cabeça perto do chão existe, mas não é fuga da realidade: é a ave virando ovos num buraco raso, ou deitada para não ser vista quando não pode correr.

Se mitos sobre bichos que sobrevivem a qualquer desmentido te interessam, vale ver o que há por trás da fama de suicidas dos lemingues. E, para outro caso em que o texto de origem não diz o que a frase popular atribui a ele, a história de como os 10% do cérebro ficaram famosos.

Fontes

  1. Ostrich (Struthio camelus), San Diego Zoo Wildlife Alliance
  2. Ostrich, Smithsonian's National Zoo and Conservation Biology Institute
  3. Ostriches recognise their own eggs and discard others (1979), Brian C. R. Bertram, Nature 279, 233
  4. Do Ostriches Struthio camelus reject parasitic eggs by making use of colour as a cue? (2010), Magige, Stokke e Røskaft, Ostrich: Journal of African Ornithology — repositório da Universidade de Dar es Salaam
  5. Naturalis Historia, livro 10, capítulo 1 (texto latino e tradução de Bostock e Riley, 1855), Plínio, o Velho — Perseus Digital Library, Tufts University
  6. Biblioteca Histórica, livro 2, capítulos 35 a 60 (tradução da Loeb Classical Library, 1935), Diodoro da Sicília — LacusCurtius, Universidade de Chicago

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Perguntas frequentes

A avestruz enterra mesmo a cabeça na areia?
Não. O Zoológico de San Diego afirma que, ao contrário do mito popular, as avestruzes não enterram a cabeça na areia. Dois comportamentos reais podem dar essa impressão de longe: a ave baixa a cabeça até perto do chão para virar os ovos no ninho, que é um buraco raso na terra, e, quando não consegue fugir de um perigo, deita-se imóvel com a cabeça e o pescoço esticados rente ao solo.
De onde veio a ideia de que a avestruz enterra a cabeça?
O registro mais citado é o do romano Plínio, o Velho, que no livro 10 da História Natural chamou a avestruz de estúpida por achar que estava escondida depois de enfiar o pescoço num arbusto. Antes dele, o grego Diodoro da Sicília já descrevia a ave escondendo a cabeça num arbusto quando cercada por caçadores, e contestava quem via nisso estupidez: para ele, a ave protegia a cabeça por ser a parte mais frágil do corpo. Nenhum dos dois fala em areia.
O que a avestruz faz quando se sente ameaçada?
Primeiro, corre: segundo o Zoológico de San Diego, ela chega a 70 km/h em arrancadas curtas e mantém 50 km/h. Se não consegue fugir, deita-se e fica imóvel com a cabeça e o pescoço no chão, e a cor clara dessas partes se confunde com a terra. Se é atacada, reage com um chute de pé com garra que o zoológico descreve como forte o bastante para matar um leão.
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