A avestruz não enterra a cabeça na areia. O romano apontado como pai do mito escreveu "arbusto", e um grego já tinha defendido a ave antes dele
O que a avestruz faz de fato com a cabeça no ninho e diante do perigo, e o que Plínio, o Velho, e Diodoro da Sicília escreveram sobre ela. Nenhum dos dois fala em areia.

Em 30 segundos
- A avestruz não enterra a cabeça: no ninho, ela a abaixa até perto do chão para virar os ovos, segundo o Zoológico Nacional do Smithsonian.
- Quando não consegue fugir, ela se deita imóvel com a cabeça e o pescoço esticados rente ao solo; de longe, parece que a cabeça sumiu.
- Plínio, o Velho, chamou a ave de estúpida por esconder o pescoço num arbusto. A palavra areia não aparece no texto.
- Antes dele, o grego Diodoro da Sicília já contestava a ideia: a ave protegeria a cabeça por ser a parte mais frágil do corpo.
No livro 10 da História Natural, o romano Plínio, o Velho, chamou a avestruz de estúpida. O motivo: ela se julgaria escondida depois de enfiar o pescoço num arbusto, com o resto do corpo enorme à vista.
Não há areia nessa frase. E a ave também não enterra a cabeça, nem na areia nem em lugar nenhum.
"Ao contrário do mito popular, as avestruzes não enterram a cabeça na areia", afirma o Zoológico de San Diego (tradução nossa). O que existe são dois comportamentos que, vistos de longe, se parecem com isso: a ave com a cabeça baixa sobre o ninho, virando os ovos, e a ave deitada no chão com o pescoço esticado rente à terra.
O ninho é um buraco raso no chão
O ninho da avestruz fica no chão. Segundo o Zoológico de San Diego, ele é pouco mais que uma depressão rasa raspada na terra pelo macho.
E é um ninho coletivo. Num artigo publicado na revista Nature em 1979, Brian Bertram descreveu que, na África Oriental, de 2 a 7 fêmeas põem até 13 ovos cada uma no mesmo buraco. Só uma delas, a fêmea dominante, guarda o ninho e depois choca os ovos, com a ajuda do macho.
O Zoológico de San Diego acrescenta uma divisão de turnos: a fêmea dominante, de plumagem parda, costuma chocar de dia, e o macho, de plumagem preta, assume à noite. O Zoológico Nacional do Smithsonian diz apenas que um macho e uma fêmea se revezam na incubação.
A cabeça baixa sobre os ovos
É nesse buraco que está a primeira explicação. O Zoológico Nacional do Smithsonian descreve que, enquanto cuidam do ninho, as avestruzes abaixam a cabeça até perto do chão para virar os ovos. Esse comportamento, segundo o zoológico, pode explicar o mito.
Mexer nos ovos é rotina. Um estudo de 2010 publicado na revista Ostrich, de Flora Magige, Bård Stokke e Eivin Røskaft, registra que os ovos são virados e deslocados com frequência a partir do início da incubação.
Há também uma triagem. Segundo Bertram, um ninho completo pode ter de 30 a 40 ovos, mas uma fêmea consegue chocar cerca de 20. As sobras são empurradas para 1 ou 2 metros de distância, onde não são incubadas e morrem. O achado central do artigo é que a fêmea dominante evita empurrar para fora os próprios ovos: ela reconhece os seus.
As contagens variam conforme a fonte. Bertram fala em ninhos completos de até 30 a 40 ovos na África Oriental; o Smithsonian, em até 50, já que cada fêmea põe de 7 a 10 ovos por vez.
Deitada, com o pescoço rente ao chão
A segunda explicação aparece quando há perigo. A primeira reação da avestruz é correr: segundo o Zoológico de San Diego, ela chega a 70 km/h em arrancadas curtas e mantém 50 km/h.
Quando não consegue fugir, ela se joga no chão e fica imóvel, com a cabeça e o pescoço esticados à frente, rentes ao solo. Como cabeça e pescoço são de cor clara, se confundem com a terra. "De longe, parece que a avestruz enterrou a cabeça na areia, porque só o corpo fica visível", descreve o zoológico (tradução nossa).
E, se for atacada, ela não se esconde. Revida com o pé, que tem garra, num chute que o zoológico descreve como forte o bastante para matar um leão.
Avestruz e cabeça enterrada: o mito e as fontes
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- A avestruz enterra a cabeça na areia quando se assusta.
- Não enterra. Em perigo, corre; sem saída, deita e estica a cabeça e o pescoço rente ao chão (Zoológico de San Diego).
- A cabeça perto do chão é sinal de medo.
- No ninho, a ave abaixa a cabeça para virar os ovos (Zoológico Nacional do Smithsonian).
- Plínio escreveu que ela enfia a cabeça na areia.
- Plínio escreveu que ela esconde o pescoço num arbusto. A palavra areia não aparece no trecho.
- A crença nasceu com Plínio.
- Diodoro da Sicília, que Plínio cita no prefácio, já registrava a cena e contestava a leitura de estupidez.
O que Plínio escreveu, palavra por palavra
A frase está logo no começo do livro 10 da História Natural, dedicado às aves. Plínio abre o livro pela avestruz, "da África ou da Etiópia", que, segundo ele, supera em altura e em velocidade um homem montado a cavalo.
No mesmo parágrafo, afirma que a ave tem cascos fendidos, parecidos com os do veado, que usa para lutar e para pegar pedras e arremessá-las contra quem a persegue. E que digere qualquer coisa que engole.
Então vem o trecho famoso. Em latim, Plínio diz que não é menor a estupidez da ave, que, apesar da altura do resto do corpo, se julga escondida "cum colla frutice occultaverint", ou seja, quando esconde o pescoço num arbusto. Colla quer dizer pescoço; frutex, arbusto.
A tradução inglesa de John Bostock e H. T. Riley, publicada em Londres em 1855, foi um pouco além do original: verteu a passagem como se a ave enfiasse "a cabeça e o pescoço" no arbusto.
Em nenhuma das duas versões aparece areia.

O grego que defendeu a avestruz antes
Plínio costuma ser apontado como a origem do mito. Mas a cena já tinha sido descrita antes dele, e com uma explicação oposta.
O historiador grego Diodoro da Sicília, que trabalhava na sua Biblioteca Histórica pelo menos desde 56 a.C., segundo a introdução da edição da Loeb Classical Library, descreve a avestruz no livro 2, ao tratar dos animais da Arábia. Perseguida por caçadores a cavalo, a ave arremessa pedras com os pés. Quando é alcançada e cercada, esconde a cabeça num arbusto ou num abrigo parecido.
E Diodoro contesta a leitura que Plínio adotaria. Ela faz isso, escreve, "não, como alguns supõem, por tolice e estupidez de espírito, como se pensasse que, por não ver os outros, também não seria vista por eles, mas porque a cabeça é a parte mais frágil do corpo e ela procura um abrigo para ela, a fim de salvar a vida" (tradução nossa, a partir da versão inglesa da Loeb, de 1935).
O "como alguns supõem" mostra que a ideia da ave tola já circulava quando Diodoro escreveu.
Plínio conhecia Diodoro. No prefácio da História Natural, elogia o título direto que o grego deu à obra: Biblioteca. E os tradutores de 1855 registraram a contradição numa nota ao trecho da avestruz: segundo Diodoro, longe de ser estupidez, o gesto seria uma precaução sensata, porque a cabeça é a parte mais fraca e indefesa do animal.
Diodoro, como Plínio, falava em arbusto. Não em areia.

Onde entra a areia
Nenhum dos dois textos antigos consultados fala em areia, e não encontramos fonte primária que marque quando a palavra entrou na expressão. O que os textos permitem dizer é mais modesto: a acusação de estupidez já circulava antes de Plínio, e já havia quem a contestasse.
O que os zoológicos descrevem hoje é outra coisa. A cabeça perto do chão existe, mas não é fuga da realidade: é a ave virando ovos num buraco raso, ou deitada para não ser vista quando não pode correr.
Se mitos sobre bichos que sobrevivem a qualquer desmentido te interessam, vale ver o que há por trás da fama de suicidas dos lemingues. E, para outro caso em que o texto de origem não diz o que a frase popular atribui a ele, a história de como os 10% do cérebro ficaram famosos.
Fontes
- Ostrich (Struthio camelus), San Diego Zoo Wildlife Alliance
- Ostrich, Smithsonian's National Zoo and Conservation Biology Institute
- Ostriches recognise their own eggs and discard others (1979), Brian C. R. Bertram, Nature 279, 233
- Do Ostriches Struthio camelus reject parasitic eggs by making use of colour as a cue? (2010), Magige, Stokke e Røskaft, Ostrich: Journal of African Ornithology — repositório da Universidade de Dar es Salaam
- Naturalis Historia, livro 10, capítulo 1 (texto latino e tradução de Bostock e Riley, 1855), Plínio, o Velho — Perseus Digital Library, Tufts University
- Biblioteca Histórica, livro 2, capítulos 35 a 60 (tradução da Loeb Classical Library, 1935), Diodoro da Sicília — LacusCurtius, Universidade de Chicago
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Perguntas frequentes
- A avestruz enterra mesmo a cabeça na areia?
- Não. O Zoológico de San Diego afirma que, ao contrário do mito popular, as avestruzes não enterram a cabeça na areia. Dois comportamentos reais podem dar essa impressão de longe: a ave baixa a cabeça até perto do chão para virar os ovos no ninho, que é um buraco raso na terra, e, quando não consegue fugir de um perigo, deita-se imóvel com a cabeça e o pescoço esticados rente ao solo.
- De onde veio a ideia de que a avestruz enterra a cabeça?
- O registro mais citado é o do romano Plínio, o Velho, que no livro 10 da História Natural chamou a avestruz de estúpida por achar que estava escondida depois de enfiar o pescoço num arbusto. Antes dele, o grego Diodoro da Sicília já descrevia a ave escondendo a cabeça num arbusto quando cercada por caçadores, e contestava quem via nisso estupidez: para ele, a ave protegia a cabeça por ser a parte mais frágil do corpo. Nenhum dos dois fala em areia.
- O que a avestruz faz quando se sente ameaçada?
- Primeiro, corre: segundo o Zoológico de San Diego, ela chega a 70 km/h em arrancadas curtas e mantém 50 km/h. Se não consegue fugir, deita-se e fica imóvel com a cabeça e o pescoço no chão, e a cor clara dessas partes se confunde com a terra. Se é atacada, reage com um chute de pé com garra que o zoológico descreve como forte o bastante para matar um leão.
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