A jararaca-ilhoa só existe na Ilha da Queimada Grande. Pelas contagens, há uma cobra a cada 90 a 150 metros quadrados, não uma por metro
A ilha do litoral paulista abriga a única população do mundo dessa serpente, e a melhor estimativa fala em cerca de 2.900 animais. A fama de lugar com mais cobras do planeta começou numa frase de 1921 que não vinha com contagem nenhuma.

Em 30 segundos
- A jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) só existe na Ilha da Queimada Grande, uma área de 43 hectares a cerca de 33 km do litoral sul de São Paulo.
- O estudo mais recente, de 2021, estimou 2.899 cobras na mata da ilha, com margem entre 1.903 e 4.416. Uma cobra por metro quadrado daria 430 mil.
- A fama de lugar com mais cobras do planeta aparece em 1921, no texto que descreveu a espécie, numa frase sem estimativa de população.
- O alerta de 2008 de que a população tinha caído pela metade se baseava numa impressão; uma análise de marcação e recaptura de 2014 não conseguiu confirmar o declínio.
A jararaca-ilhoa (Bothrops insularis) vive em um único lugar do mundo: a Ilha da Queimada Grande, a cerca de 33 quilômetros do litoral sul de São Paulo. A estimativa mais recente, publicada em 2021, calcula 2.899 cobras na mata da ilha.
A versão que circula diz outra coisa. Haveria uma cobra por metro quadrado. Numa ilha de 43 hectares, isso daria 430 mil serpentes.
As contagens não chegam perto disso. Dividindo as 2.899 cobras pela área da ilha, dá uma a cada 150 metros quadrados, mais ou menos. A conta é nossa, mas os números são dos estudos. Mesmo que se considere só a mata, onde a espécie vive e que cobre cerca de 60% da ilha, a média fica perto de uma cobra a cada 90 metros quadrados, pela mesma conta.
A frase de 1921
A fama começou com o homem que descreveu a espécie.
Em 28 de setembro de 1919, o pesquisador Afrânio do Amaral recebeu no Instituto de Butantan um lote de cobras da Queimada Grande. Em cinco delas, encontrou penas no estômago e nas fezes. Era uma surpresa: as jararacas brasileiras conhecidas comiam pequenos roedores.
Amaral foi à ilha duas vezes em 1920, oito dias em abril e dez em novembro. Coletou 42 cobras na primeira viagem e 24 na segunda. Em 1921, publicou a descrição da espécie nova, que batizou de Lachesis insularis.
No mesmo texto, escreveu a frase que viraria lenda. A ilha seria, "em relação à sua pequena superfície, o ponto do globo em que ha maior número de ofídios".
O texto não traz estimativa de população. O que Amaral registra é a facilidade de achar cobras e um número de outra natureza: até então, o Butantan já tinha recebido 463 exemplares vindos da ilha.
Uma cobra que come passarinho
O que Amaral viu na ilha explica por que a espécie é única. A jararaca-ilhoa sobe em árvores com frutos e espera os pássaros que vêm comê-los. Ele registrou atividade em plena luz do dia, sobretudo entre 9h e 11h e entre 15h e 17h.
Um século depois, a explicação continua de pé. Não há ratos na ilha, e eles são 80% do que a jararaca do continente caça, segundo a Agência FAPESP. Os adultos da ilhoa dependem de aves migratórias.
Um estudo publicado em 2014, citando um trabalho de 2012, resume a dieta: a cobra adulta se alimenta principalmente de duas das 41 espécies de aves migratórias que passam pela ilha. A mais comum no estômago das serpentes é a guaracava-de-crista-branca (Elaenia chilensis).
O veneno também chamou a atenção de Amaral. Em testes com pombos, ele registrou que a dose mínima mortal da ilhoa era bem menor que a da jararaca do continente. Estudos mais recentes, citados pela Agência FAPESP em 2022, mostram que os venenos das duas espécies são mais letais em aves, o que indica que a característica já estava na serpente ancestral.
O que as contagens mostram
A primeira estimativa feita em campo saiu em 2008, assinada por Marcio Martins, Ricardo Sawaya e Otavio Marques. A equipe distribuiu 26 parcelas ao longo de uma trilha que corta a ilha e as amostrou duas vezes em 2002. Cada parcela tinha 10 metros de lado, segundo Marques contou à Agência FAPESP.
Na primeira rodada, a média para as áreas de mata foi de 2.134 cobras, com precisão baixa. Na segunda, de 1.304. Os próprios autores escreveram que a melhor estimativa ficava no limite inferior dos palpites que circulavam na literatura, de 2 mil a 4 mil animais para a ilha inteira.
Para dar uma ideia de escala: se houvesse uma cobra por metro quadrado, cada parcela de 100 metros quadrados teria cerca de cem serpentes. A conta, de novo, é nossa.
O depoimento de quem foi lá vai na mesma direção. "Na ilha, em um dia, podíamos ver 15 ou 20 bichos tranqüilamente", disse Marques à Agência FAPESP em 2008. É muita cobra para os padrões da Mata Atlântica, onde ele diz ter visto meia dúzia em todo o doutorado. Não é um tapete de serpentes.
Em 2021, um grupo encabeçado no artigo por Carlos Roberto Abrahão usou outro método, a amostragem por distância, e chegou a 2.899 cobras na mata, com intervalo de confiança de 1.903 a 4.416.
A população caiu pela metade?
O artigo de 2008 trouxe um segundo alerta, que também ganhou o mundo. Com base em taxas de encontro obtidas "de forma não sistemática" nos 12 anos anteriores, os autores escreveram que tinham a impressão de que a densidade das cobras havia diminuído. Disseram ainda ter evidências de retirada ilegal de animais da ilha.
Em entrevista à Agência FAPESP, Marques explicou que a equipe comparou a estimativa de 2002 com planilhas de registros anteriores e percebeu que "o número de animais relatados havia se reduzido à metade". A reportagem saiu dizendo que a população "pode ter caído pela metade em dez anos". No mesmo texto, uma pesquisadora contou ter recebido oferta de R$ 50 mil por serpente.
O teste veio em 2014. Murilo Guimarães e colegas, entre eles Martins e Sawaya, marcaram 291 cobras adultas com microchips ao longo de dez viagens, entre 2002 e 2010, num transecto de 1.370 metros por 3 metros. Recapturaram 46.
O modelo apontou uma queda média de 7% ao ano, mas com margem de erro que incluía a estabilidade. A conclusão dos autores foi que não conseguiram confirmar o declínio e que a população esteve estável no período, com a ressalva de que a incerteza pedia cautela.
O mesmo estudo traz um dado que ajuda a entender os relatos de abundância: em cada viagem, o modelo estimou entre 80 e 218 adultos disponíveis para captura na área amostrada. E a chance de encontrar uma cobra que estava ali era baixa, perto de 10%. Cobra camuflada em mata fechada é difícil de ver, mesmo onde há muitas.

Os números que divergem
Até a área da ilha muda conforme a fonte. O estudo de 2014 e a Agência FAPESP falam em 43 hectares. O decreto federal 91.887, de 1985, que transformou a ilha em Área de Relevante Interesse Ecológico, registra 23 hectares. Com a área do decreto, a densidade média seria de uma cobra a cada 80 metros quadrados, ainda longe de uma por metro.
A distância também varia: 30 quilômetros da costa no artigo de 2014, 33 no de 2021.
A versão popular, de qualquer forma, não depende desses detalhes. Em 2014, a revista Smithsonian escreveu que, segundo algumas estimativas, haveria "uma cobra para cada metro quadrado em alguns pontos" (tradução nossa). Nenhum dos estudos populacionais que consultamos chega a uma média sequer parecida.
Um século contando jararacas-ilhoas
- 28 de setembro de 1919Afrânio do Amaral recebe cobras da ilha e encontra penas no estômago de cinco delas.
- 1920Duas excursões à ilha, em abril e novembro; 42 e 24 cobras coletadas.
- 1921Amaral descreve a espécie e chama a ilha de ponto do globo com maior número de ofídios.
- 1985Decreto federal 91.887 declara a ilha Área de Relevante Interesse Ecológico.
- 2002Parcelas amostradas na ilha resultam na estimativa de cerca de 2.100 cobras, publicada em 2008.
- 2014Estudo com 291 adultos marcados não confirma o declínio da população.
- 2021Amostragem por distância estima 2.899 cobras na mata.
O perigo real
Nada disso faz da ilha um lugar inofensivo. A espécie é classificada como criticamente em perigo na Lista Vermelha da IUCN, por ocorrer num único lugar e ter o hábitat degradado, segundo o artigo de 2014. O estudo de 2021 lista como ameaças a retirada ilegal, a introdução de espécies exóticas ou doenças e eventos catastróficos, como incêndios.
Na simulação desse estudo, a população se mostrou mais sensível à retirada de poucos indivíduos por ano do que a uma catástrofe que matasse mais de 95% dos animais, num período de cem anos.
Em 2022, o Butantan mantinha cerca de 50 jararacas-ilhoas em cativeiro, num projeto de Marques para repovoar a ilha se a população original for extinta.
A ilha é perigosa para quem desembarcar sem preparo. Mas a cobra que mora lá corre mais risco por causa das pessoas do que o contrário.
Se você gosta de ver como um número de efeito sobre animais se desmancha quando alguém vai contar, vale ler a história dos lemingues que nunca se jogaram do penhasco e por que a avestruz não enterra a cabeça na areia.
Fontes
- Contribuição para o conhecimento dos ophidios do Brasil (1921) — descrição de Lachesis insularis, Afrânio do Amaral, Anexos das Memórias do Instituto de Butantan, vol. 1, fasc. 1 — Internet Archive
- A First Estimate of the Population Size of the Critically Endangered Lancehead, Bothrops insularis (2008), Martins, Sawaya e Marques, South American Journal of Herpetology 3(2), 168–174
- Population Dynamics of the Critically Endangered Golden Lancehead Pitviper, Bothrops insularis: Stability or Decline? (2014), Guimarães, Munguía-Steyer, Doherty, Martins e Sawaya, PLoS ONE 9(4): e95203
- Extinction Risk Evaluation and Population Size Estimation of Bothrops insularis (2021), Abrahão, Amorim, Magalhães, Azevedo, Grisi-Filho e Dias, South American Journal of Herpetology 19(1)
- Sumiço de jararacas (2008), Fábio de Castro, Agência FAPESP
- Livro celebra cem anos da descrição da jararaca-ilhoa com alerta sobre conservação da serpente endêmica (2022), André Julião, Agência FAPESP
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Perguntas frequentes
- Quantas cobras há na Ilha da Queimada Grande?
- A estimativa mais recente, publicada em 2021 por Abrahão e colegas no South American Journal of Herpetology, calcula 2.899 jararacas-ilhoas na mata da ilha, com intervalo de confiança entre 1.903 e 4.416. Um estudo anterior, com parcelas amostradas em 2002 e publicado em 2008, chegou a cerca de 2.100. As duas contas ficam muito longe da ideia de uma cobra por metro quadrado, que numa ilha de 43 hectares daria 430 mil serpentes.
- Por que a jararaca-ilhoa só existe nessa ilha?
- Porque a população ficou isolada ali quando o mar subiu e separou a ilha do continente; a Agência FAPESP fala em isolamento há 11 mil anos. Sem ratos na ilha, que são 80% do que a jararaca do continente caça, a espécie passou a se alimentar de aves migratórias quando adulta, sobe em árvores e é ativa de dia. Afrânio do Amaral, do Instituto Butantan, a descreveu como espécie nova em 1921.
- É proibido visitar a Ilha da Queimada Grande?
- O acesso é restrito e o desembarque é permitido apenas a pesquisadores, segundo a Agência FAPESP. A ilha é uma Área de Relevante Interesse Ecológico desde o decreto federal 91.887, de 1985, que também reservou à Marinha o direito de manter ali equipamentos de auxílio à navegação. O estudo de 2014, por exemplo, trabalhou com licença do ICMBio, o órgão federal responsável pela ilha.
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