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Peixe não tem memória de 3 segundos. Num experimento, eles aprenderam a escapar de uma rede e 11 meses depois ainda fugiam rápido

O número muda de país, mas é sempre curto. Os estudos com peixinhos-dourados, salmões, carpas e peixes de recife mostram memórias de semanas e meses, e o autor do teste mais citado faz uma ressalva que a internet esquece.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Peixinho-dourado alaranjado nadando de perfil num aquário com bolhas de ar, com outro peixe parcialmente visível na borda esquerda.
Will McCulloch, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • Em 2001, peixes-arco-íris aprenderam a escapar de uma rede de arrasto artificial em cinco tentativas e, 11 meses depois, ainda escapavam rápido.
  • Peixinhos-dourados aprenderam a apertar uma alavanca que só dava comida durante 1 hora a cada 24 e passaram a se antecipar ao horário.
  • Salmões e trutas treinados a associar um som à comida continuaram respondendo a ele por sete meses, sem receber comida nos testes.
  • Ninguém sabe de onde saiu a ideia dos 3 segundos: o pesquisador Culum Brown diz que, conforme o país, o número vira 2 ou 10 segundos, mas é sempre curto.

Em 2001, o biólogo Culum Brown publicou na revista Animal Cognition um experimento com peixes-arco-íris (Melanotaenia duboulayi). Em cinco tentativas, eles aprenderam a escapar de uma rede de arrasto artificial passada pelo tanque.

Brown repetiu o teste 11 meses depois. Os peixes continuavam escapando rápido.

A resposta curta: é mito

A memória de 3 segundos não sobrevive aos testes de laboratório. Peixes lembram por semanas, meses e, em alguns casos, perto de um ano.

Brown, especialista em cognição de peixes da Universidade Macquarie, na Austrália, contou em 2021 ao site Live Science que a crença tem uma curiosidade própria: "Em alguns lugares são 2 segundos, em outros são 10 — mas é sempre curto" (tradução nossa).

Sobre o peixinho-dourado, o alvo preferido da frase, ele foi direto: as memórias da espécie duram semanas, meses e até anos, e a ciência que mostra isso existe há mais de 60 anos. Em 1964, por exemplo, dois pesquisadores da Universidade de Michigan publicaram na revista Science um estudo que usava peixinhos-dourados treinados para evitar um choque. O assunto do artigo era justamente como a memória se fixa.

De onde veio a ideia, ninguém sabe. "Não faço ideia de onde isso começou", disse Brown numa entrevista de 2014 ao site Vox (tradução nossa).

A rede com um buraco

O experimento de 2001 é o mais citado quando o assunto é memória de peixe, e vale olhar o que ele de fato diz.

Na entrevista de 2014, Brown descreveu a montagem. Ele pegou peixes em riachos perto da universidade e passou pelo tanque uma rede de arrasto artificial, "basicamente uma rede com um buraco". Para não ficar presos, os peixes tinham de descobrir onde estava a saída. Em cinco tentativas de cerca de 15 minutos, aprenderam.

Numa entrevista ao programa Naturebang, da BBC Radio 4, reproduzida em 2024 pelo Daily Mail, ele acrescentou o detalhe visual: depois de quatro ou cinco tentativas, os peixes nadavam calmamente diante da rede e, no meio do aquário, davam meia-volta e passavam direto pelo buraco.

O resumo do artigo registra que, numa nova exposição 11 meses depois, o tempo de fuga "ainda era baixo". Na entrevista de 2014, Brown foi além e disse que os peixes continuaram melhorando. Ele também lembrou que, na natureza, esses peixes costumam viver cerca de um ano.

Agora a ressalva que costuma sumir. O próprio artigo diz que parte da melhora "certamente" veio de aprender onde ficava a rota de fuga, mas que provavelmente ela foi ajudada pela habituação ao tanque e ao procedimento. Num segundo experimento, peixes que passaram três semanas no tanque antes do teste escaparam mais rápido e mais vezes do que peixes que não conheciam o lugar.

Ou seja: os peixes lembravam. Mas o que eles lembravam era a rota e também o ambiente.

Há ainda uma divergência de espécie. A mesma reportagem do Daily Mail, republicada por jornais australianos, descreveu o experimento como feito com peixinhos-dourados. O artigo de 2001 trata de peixes-arco-íris. Até a notícia que desmente o mito trocou de peixe.

O peixinho-dourado que sabia a hora

Para o peixinho-dourado propriamente dito, há um estudo publicado em 1994 no Journal of the Experimental Analysis of Behavior.

Oito peixes foram treinados a apertar uma alavanca que liberava comida. Depois, os pesquisadores foram encurtando o período em que a alavanca funcionava até chegar a 1 hora a cada 24, sempre no mesmo horário. Esse regime durou quatro semanas.

Então a comida foi cortada por seis dias. O padrão das apertadas indicou que os peixes se antecipavam ao horário da refeição, e esse padrão persistiu por alguns dias mesmo sem comida. Num segundo experimento, o aprendizado do horário apareceu também com luz contínua, sem a pista de dia e noite.

Gravura colorida à mão com dois peixes de perfil sobre papel envelhecido: o de cima marrom-avermelhado com ventre branco, o de baixo com dorso azul e corpo alaranjado com escamas desenhadas.
Ilustração. Dois peixinhos-dourados numa água-forte colorida impressa em Londres para J. Hinton, com o título The Gold Fish from China. O catálogo da Wellcome Collection descreve a espécie como uma pequena carpa chinesa vermelho-dourada. Imagem: Wellcome Collection · Domínio público

Peixinhos-dourados também aprendem caminhos. Em 1994, pesquisadores da Universidade de Sevilha treinaram a espécie a buscar comida num labirinto de quatro braços. Depois de uma semana de treino, todos os grupos treinados acertavam com alta precisão. Um deles escolhia a trajetória certa até partindo de pontos novos, o que os autores interpretaram como capacidade de montar representações espaciais complexas do ambiente.

Pavlov no tanque

O tipo de aprendizado mais útil na prática é o de associar um som à comida. É a mesma lógica do reflexo condicionado estudado no laboratório de Ivan Pavlov, só que aplicada a peixes.

Pesquisadores ligados à Universidade de Rhode Island, nos Estados Unidos, testaram isso para resolver um problema da piscicultura: salmões que fogem das gaiolas no mar. Eles tocavam um tom de 250 hertz na hora de alimentar salmões-do-atlântico e trutas-arco-íris.

Os peixes aprenderam em quatro dias. No sétimo, 85% dos salmões e 96% das trutas respondiam ao som. Depois, os pesquisadores passaram a tocar o tom sem dar comida, a cada uma, duas ou quatro semanas. Os peixes continuaram respondendo por sete meses, sem queda significativa: 88% dos salmões e 97% das trutas.

O plano de recaptura não saiu perfeito. Num tanque de 3,7 metros, os peixes voltavam à gaiola ao ouvir o som, mas relutavam em entrar nela.

Com carpas, o mesmo princípio foi testado contra uma espécie invasora. A Universidade de Minnesota treinou carpas-comuns a nadar até um anel de alimentação ao ouvir um sinal sonoro. No laboratório, elas lembraram o comportamento por mais tempo quando a comida vinha só depois de alguns sinais, e não de todos.

No lago Minnetonka, o som sozinho não atraiu as carpas. Mas os pontos com som e isca atraíram 11% mais carpas do que os pontos só com isca, e elas responderam à isca 30% mais rápido.

Na natureza, uma lembrança de 11 meses

Os testes de laboratório deixam uma dúvida: e fora do aquário? Um estudo da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, trouxe um indício.

Em 2015, cerca de 60% dos bodiões-limpadores (Labroides dimidiatus) de um recife isolado foram capturados com uma rede de barreira, usados em experimentos de laboratório e devolvidos ao local. Onze meses depois, metade dos bodiões desse recife reagiu à colocação da rede se escondendo, um comportamento incomum. Em três recifes de controle, onde nenhum peixe tinha sido capturado nos dois anos anteriores, isso não aconteceu.

Os autores, Zegni Triki e Redouan Bshary, chamam o resultado de evidência correlativa, não de prova experimental. A interpretação deles é que um único evento muito aversivo bastou para os peixes guardarem a informação.

A frase popular e o que os estudos mostram

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Peixe esquece tudo em 3 segundos.
Peixes-arco-íris ainda escapavam rápido de uma rede 11 meses depois do treino, segundo Brown (2001).
Peixinho-dourado não aprende nada.
Em 1994, peixinhos-dourados aprenderam a antecipar uma janela de comida de 1 hora por dia e a resolver um labirinto em uma semana.
O número é sempre 3 segundos.
Segundo Brown, conforme o lugar o número vira 2 ou 10 segundos. A origem é desconhecida.
Os peixes do teste famoso lembraram a rota de fuga um ano depois.
O artigo diz que parte da melhora veio de aprender a rota e parte, provavelmente, da habituação ao tanque e ao procedimento.

Por que a frase não morre

Brown tem duas explicações, que ele apresentou à Live Science: desconhecimento sobre a inteligência dos peixes em geral e culpa, porque muita gente os mantém em aquários pequenos e sem estímulo.

"Suspeito que tem mais a ver com nos fazer sentir bem por colocá-los num aquário minúsculo", disse ele (tradução nossa). "Provavelmente diz mais sobre nós do que sobre o peixinho-dourado."

Gravura em preto e branco de um gato listrado apoiado na borda de um aquário redondo, olhando para cinco peixes que nadam dentro dele.
Ilustração. Unlawful Fishing (Pesca ilegal), litografia a partir de desenho de Robert Seymour, publicada em Londres por G. S. Tregear na série Sketches by Seymour. Imagem: Robert Seymour, via Wellcome Collection · Domínio público

Ele também faz uma ressalva honesta: é difícil fixar uma duração exata para a memória do peixinho-dourado, porque umas lembranças marcam mais que outras, como as de um susto.

Em 2003, uma revisão assinada por Kevin Laland, pelo próprio Brown e por Jens Krause na revista Fish and Fisheries já levava o mito no título: Learning in fishes: from three-second memory to culture ("Aprendizado em peixes: da memória de três segundos à cultura"). Em 2021, Brown dizia que a percepção do público está mudando, mas devagar, e dava o motivo: "os peixes têm um sério problema de relações públicas" (tradução nossa).

Se a memória te interessa, vale conhecer o caso oposto, o de um homem que viveu 55 anos sem conseguir formar uma lembrança nova. E, para outro animal aquático que desafia o que se espera dele, o polvo tem três corações e sangue azul.

Fontes

  1. Familiarity with the test environment improves escape responses in the crimson spotted rainbowfish, Melanotaenia duboulayi (2001), Culum Brown, Animal Cognition 4(2), 109–113 — página da Universidade Macquarie
  2. Temporal discrimination learning of operant feeding in goldfish (Carassius auratus) (1994), Gee, Stephenson e Wright, Journal of the Experimental Analysis of Behavior 62(1), 1–13
  3. Acoustic conditioning for recall/recapture of escaped Atlantic salmon and rainbow trout (2008), Tlusty, Andrew, Baldwin e Bradley, Aquaculture 274(1), 57–64
  4. Long-term memory retention in a wild fish species Labroides dimidiatus eleven months after an aversive event, Triki e Bshary, Ethology 126(3), 372–376 — repositório da Universidade de Neuchâtel
  5. Acoustic conditioning in common carp to accelerate removal and reduce cost (relatório final), Przemek Bajer, Universidade de Minnesota — Minnesota Aquatic Invasive Species Research Center
  6. Do goldfish really have a 3-second memory?, Harry Baker, Live Science (2021), entrevista com Culum Brown

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Perguntas frequentes

Peixe tem memória de 3 segundos?
Não. Experimentos mostram peixes lembrando o que aprenderam por semanas e meses. Peixes-arco-íris treinados a escapar de uma rede ainda escapavam rápido 11 meses depois; salmões e trutas condicionados a um som de alimentação continuaram respondendo a ele por sete meses; e peixinhos-dourados aprenderam a se antecipar a um horário de comida de 1 hora por dia.
Quanto tempo dura a memória de um peixinho-dourado?
Não há um número único. O pesquisador Culum Brown, da Universidade Macquarie, diz que as memórias dos peixinhos-dourados duram semanas, meses e até anos, e que é difícil fixar uma duração exata porque umas lembranças marcam mais que outras, como as de um susto. Ele afirma que a ciência sobre o assunto existe há mais de 60 anos.
De onde veio a ideia da memória de 3 segundos?
Ninguém sabe. Culum Brown disse numa entrevista que não faz ideia de onde ela começou, e notou que o número muda conforme o lugar: em alguns é 2 segundos, em outros 10, mas é sempre curto. Ele suspeita que a crença persiste por desconhecimento sobre a inteligência dos peixes e por culpa de quem os mantém em aquários pequenos.
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