O Lago Nyos soltou uma nuvem de gás carbônico numa noite de 1986 e matou pelo menos 1.700 pessoas. Os cientistas pediram canos em 1987; o primeiro só funcionou em 2001
Não houve erupção de lava nem gás venenoso de vulcão: o lago de Camarões guardava gás carbônico no fundo e o liberou de uma vez. O relatório americano de 1987 já propunha cinco canos para esvaziá-lo. O que se fez, e quando, conta outra história.

Em 30 segundos
- Na noite de 21 de agosto de 1986, o Lago Nyos, em Camarões, liberou de uma vez o gás carbônico acumulado no fundo; a nuvem alcançou até 10 km e matou pelo menos 1.700 pessoas e cerca de 3.000 cabeças de gado.
- A equipe científica americana concluiu que não houve atividade vulcânica direta: o gás era quase todo CO₂ de origem magmática, guardado nas camadas profundas do lago, e as vítimas morreram asfixiadas.
- O relatório de 1987 já propunha cinco canos para trazer a água do fundo à superfície. O primeiro começou a operar em 2001, e mais dois foram instalados em 2011.
Na noite de 21 de agosto de 1986, o Lago Nyos, no noroeste de Camarões, soltou de uma vez o gás carbônico que guardava no fundo. A nuvem desceu pelos vales e matou pelo menos 1.700 pessoas e cerca de 3.000 cabeças de gado num raio de até 10 quilômetros.
Não houve lava nem atividade vulcânica direta. As vítimas morreram asfixiadas.
E a solução que os cientistas propuseram já no relatório oficial de 1987 — canos para trazer a água do fundo à superfície — só começou a funcionar em 2001.
O que aconteceu naquela noite
O relato está no relatório final da equipe científica americana enviada a Camarões, publicado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) em 1987, e no artigo que o mesmo grupo publicou na revista Science em abril daquele ano.
O começo da noite teve chuva forte e trovoadas. Por volta das 21h30, o tempo estava calmo. Então veio uma série de estrondos, que durou talvez 15 a 20 segundos. Muita gente perto do lago saiu de casa, sentiu um calor repentino, um cheiro de ovo podre ou de pólvora, e perdeu a consciência. Outros apagaram sem sintoma nenhum, ou não acordaram mais.
Um morador que estava num ponto alto ouviu um borbulhar, foi até um mirante e viu uma nuvem branca subir do lago, junto com uma grande onda.
Os sobreviventes acordaram de 6 a 36 horas depois, fracos e confusos. Muitos encontraram os lampiões apagados, ainda com óleo, e os animais e parentes mortos. Aves, insetos e pequenos mamíferos não foram vistos na área por pelo menos 48 horas. As plantas ficaram praticamente intactas.
O mundo de fora só soube na manhã de 24 de agosto, quando dois pilotos de helicóptero da Helimission, um serviço missionário suíço, sobrevoaram a área. Eles relataram que as vítimas pareciam ter "morrido onde estavam", sem sinais de luta (tradução nossa).

O lago que guardava gás
O Lago Nyos ocupa a cratera de uma explosão vulcânica que, pela aparência das cinzas nas encostas, pode ter só algumas centenas de anos. Tem 1.925 metros de comprimento, 1.180 de largura e chega a 208 metros de profundidade.
Debaixo dele, um conduto vulcânico deixa subir, devagar, gás carbônico vindo de magma profundo. O gás se dissolve na água subterrânea, que entra no fundo do lago por nascentes. Como as camadas de água do Nyos quase não se misturam, o CO₂ foi se acumulando lá embaixo — como numa garrafa de refrigerante fechada.
A equipe estimou que cada litro da água profunda continha de 1 a 5 litros de gás dissolvido, e que 98% a 99% desse gás era CO₂. Se o lago estava saturado antes do desastre, ele pode ter liberado cerca de 1,2 quilômetro cúbico de gás carbônico. Isso explicaria a queda de cerca de um metro no nível da água, notada depois.
O CO₂ é mais denso que o ar. A nuvem encheu a cratera até uns 100 metros acima da borda e transbordou para as partes baixas, mantendo-se coesa. Concentrações acima de 10% de CO₂ são letais para seres humanos, lembram os autores.
Não foi um vulcão em erupção
O artigo da Science testou a hipótese de que um vulcão tivesse injetado lava ou gás quente no lago, e a descartou.
Uma injeção de lava ou de gás vulcânico teria aquecido a água, e a água do fundo não estava mais quente que a de outros lagos tropicais semelhantes. Teria deixado enxofre e cloro, e eles não apareceram nem na água nem no sedimento. As sondagens do fundo não encontraram cratera recente. A datação por carbono-14 e a análise do hélio indicaram gás de origem magmática, e não de decomposição de matéria orgânica.
A conclusão: o gás era magmático, mas acumulado aos poucos — e não houve "atividade vulcânica direta significativa", nas palavras dos autores (tradução nossa).
O cheiro de ovo podre também enganava. Em concentração alta, o próprio CO₂ irrita as mucosas e provoca uma sensação que lembra pólvora ou enxofre, mesmo sem enxofre no ar. As lesões de pele nos sobreviventes foram atribuídas a pressão, por passarem horas imóveis, e em poucos casos a contato com fontes de calor. Não havia sinal de queimadura química.
As hipóteses que o estudo de 1987 testou
Em cada item, primeiro: hipótese. Depois: o que a equipe encontrou.
- Um vulcão injetou lava ou gás quente no lago.
- Água do fundo sem aquecimento, sem enxofre e sem cloro extras e sem cratera nova: nenhuma atividade vulcânica direta significativa.
- O gás era de vulcão, rico em compostos tóxicos.
- 98% a 99% do gás era CO₂, com pouquíssimo monóxido de carbono, hidrogênio e compostos de enxofre. As vítimas morreram asfixiadas.
- O cheiro de ovo podre indica enxofre no ar.
- O CO₂ em alta concentração produz essa sensação, chamada de alucinação olfativa.
- Um terremoto disparou a liberação.
- A estação de Kumba não registrou atividade sísmica significativa. O gatilho ficou indeterminado.
O que disparou a liberação continua sem resposta. A estação sismológica de Kumba, a 220 quilômetros, não registrou atividade sísmica significativa, e pedras equilibradas no alto dos morros continuavam no lugar. Havia uma cicatriz de deslizamento recente num paredão, mas sem data. O relatório final chama o gatilho de "mecanismo indeterminado" (tradução nossa).
Quantos morreram
O número mais citado hoje é 1.746 mortos. Ele aparece, por exemplo, no artigo de 2021 de Bertram Boehrer e colegas na revista Frontiers in Earth Science. A equipe americana que esteve no local em 1986 escreveu "pelo menos 1.700" e "cerca de 1.700". Nenhuma das fontes consultadas explica como a conta de 1.746 foi feita.
Dois anos antes, em 15 de agosto de 1984, o Lago Monoun, a cerca de 95 quilômetros dali, tinha matado 37 pessoas do mesmo jeito.
Os canos que demoraram 14 anos
O relatório de 1987 avisava que, enquanto o gás continuasse no fundo, o lago não podia "ser considerado completamente seguro" (tradução nossa). E propunha a solução: um cano do fundo à superfície. Quando a água sobe, o gás se expande e empurra a coluna para cima, sem energia externa além da partida e da manutenção. Os autores calcularam que cinco canos de 24 polegadas tratariam todo o volume do lago em menos de três anos, sem contar o gás novo que continuaria chegando.
O primeiro cano começou a funcionar em março de 2001 no Nyos. Em Monoun, em fevereiro de 2003.
O cano do Nyos puxa água de 203 metros de profundidade. Segundo Kling e colegas, depois que o fluxo é iniciado mecanicamente, a subida da água cheia de bolhas fornece o impulso, e o processo se torna "espontâneo e autossustentado" (tradução nossa). Na superfície, o gás escapa para a atmosfera em baixa concentração.
Do desastre aos canos
- 15 de agosto de 1984O Lago Monoun libera gás e mata 37 pessoas.
- 21 de agosto de 1986Por volta das 21h30, o Lago Nyos libera a nuvem de CO₂.
- 24 de agosto de 1986Pilotos da Helimission sobrevoam a área, e o mundo fica sabendo.
- 1987O relatório da equipe americana propõe cinco canos de desgaseificação.
- Março de 2001O primeiro cano começa a operar no Nyos.
- 2005Estudo na PNAS conclui que um só cano é lento demais e recomenda cinco.
- 2011Mais dois canos são instalados no Nyos.
Um cano só era pouco. Em 2005, George Kling e colegas mostraram na revista PNAS que o lago vinha recebendo gás de novo desde 1986 e que a desgaseificação tinha reduzido o gás nos dois lagos em apenas 12% a 14%. No ritmo de um cano, cerca de 25% do gás restante sairia até 2015 — o que, segundo eles, prolongava o risco. Recomendaram cinco canos no Nyos.
Os autores lembraram ainda que os sobreviventes que viviam perto do lago tinham sido retirados depois do desastre e já eram refugiados havia uma geração.
Em 2008, outro grupo calculou que o Nyos ainda guardava 80% do gás do pico de janeiro de 2001. Os dois canos adicionais chegaram em 2011.
E agora
Em 2020, Michel Halbwachs e colegas escreveram que os dois objetivos do programa — liberar a maior parte do gás e ajustar um cano para compensar a recarga — foram cumpridos em menos de 30 anos por uma equipe francesa. Segundo eles, um único cano em operação contínua, o instalado em 2001 e reformado em 2011, pode igualar o ritmo em que o gás chega ao fundo.
O gás, porém, não para de chegar. Boehrer e colegas, em 2021, escreveram que o lago "continua sendo abastecido de CO₂" e que é preciso um monitoramento regular para garantir condições seguras (tradução nossa).
O relatório de 1987 também apontou um segundo perigo: a barreira natural de cinzas vulcânicas que segura o lago ao norte é frágil. Se ela cedesse, uma enchente desceria pelos vales e a queda brusca do nível da água poderia disparar nova liberação de gás. A situação atual dessa barreira não é tratada nos estudos usados nesta matéria.
No Nyos, o resto do mundo levou quase três dias para saber do desastre. Em Goiânia, a fonte de césio-137 circulou 16 dias antes que alguém medisse a radiação. E, quando a explicação demora ainda mais, vale ver como se chegou à resposta para as nove pessoas que saíram da barraca no Passo Dyatlov, em 1959.
Fontes
- The 21 August 1986 Lake Nyos Gas Disaster, Cameroon — Final Report of the United States Scientific Team (Open-File Report 87-97), Tuttle e outros, U.S. Geological Survey, 1987
- The 1986 Lake Nyos Gas Disaster in Cameroon, West Africa, Kling e outros, Science 236 (4798), 169–175, 1987
- Degassing Lakes Nyos and Monoun: Defusing certain disaster, Kling e outros, PNAS 102 (40), 14185–14190, 2005
- Evolution of CO2 in Lakes Monoun and Nyos, Cameroon, before and during controlled degassing, Kusakabe e outros, Geochemical Journal 42, 93–118, 2008
- Carbon Dioxide in Lake Nyos, Cameroon, Estimated Quantitatively From Sound Speed Measurements, Boehrer e outros, Frontiers in Earth Science, 2021
- Final step of the 32-year Lake Nyos degassing adventure: Natural CO2 recharge is to be balanced by discharge through the degassing pipes, Halbwachs, Sabroux e Kayser, Journal of African Earth Sciences 167, 2020
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Perguntas frequentes
- O que aconteceu no Lago Nyos em 1986?
- Na noite de 21 de agosto de 1986, por volta das 21h30, o Lago Nyos, no noroeste de Camarões, liberou de repente uma grande quantidade de gás carbônico que estava dissolvido nas suas águas profundas. Mais pesado que o ar, o gás desceu pelos vales e alcançou até 10 km do lago. A equipe científica americana registrou pelo menos 1.700 mortos e cerca de 3.000 cabeças de gado; estudos posteriores citam 1.746 mortos.
- Foi uma erupção vulcânica?
- Não no sentido comum. O estudo publicado na Science em 1987 concluiu que o gás era quase todo CO₂ de origem magmática, acumulado aos poucos no fundo do lago por água subterrânea, e que não houve atividade vulcânica direta: a água não estava aquecida e não havia enxofre e cloro, típicos de gás de vulcão. O que disparou a liberação nunca foi determinado.
- O Lago Nyos ainda é perigoso?
- O lago continua recebendo gás carbônico do subsolo. Desde 2001, canos trazem a água do fundo à superfície, onde o gás escapa em pequenas doses; em 2011 foram instalados mais dois. Um estudo de 2020 afirma que um único cano em operação contínua basta para compensar a recarga natural, e pesquisadores defendem que o lago continue sob monitoramento regular.
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