Oito dias antes da votação, a proposta oficial dava 12 planetas ao Sistema Solar. Em 24 de agosto de 2006, ficaram oito, e Plutão saiu da lista
Plutão orbita o Sol e é redondo, mas falha no terceiro critério da IAU: não domina a própria órbita. O empurrão veio de Éris, um objeto quase do tamanho de Plutão e mais pesado que ele.

Em 30 segundos
- Pela Resolução B5 da IAU, de 2006, um planeta precisa orbitar o Sol, ser massivo o bastante para ficar quase redondo e ter limpado a vizinhança da própria órbita. Plutão falha no terceiro critério.
- Em 16 de agosto de 2006, a proposta oficial da IAU daria 12 planetas ao Sistema Solar, com Plutão, Caronte, Ceres e 2003 UB313. A versão votada em 24 de agosto deixou oito.
- O objeto 2003 UB313, depois batizado Éris, tem cerca de 2.400 km de diâmetro, segundo a NASA, e 1,27 vez a massa de Plutão, segundo medição publicada em 2007.
- A resolução que fez de Plutão um planeta anão passou por 237 votos a 157, com 17 abstenções.
Em 16 de agosto de 2006, a União Astronômica Internacional (IAU) divulgou em Praga a proposta oficial para definir o que é um planeta. Se aprovada, o Sistema Solar passaria a ter 12 planetas, e Plutão continuaria sendo um deles.
Oito dias depois, em 24 de agosto, os astrônomos reunidos na Assembleia Geral aprovaram outro texto. O Sistema Solar ficou com oito planetas, e Plutão foi reclassificado como planeta anão.
A razão cabe numa linha. A definição aprovada exige três coisas de um planeta, e Plutão cumpre só duas: orbita o Sol e é quase redondo, mas não limpou a vizinhança da própria órbita.
Os três critérios da Resolução B5
O texto aprovado tem o nome de Resolução B5. No comunicado divulgado no dia da votação, ela aparece como Resolução 5A. Diz que um planeta é um corpo celeste que "(a) está em órbita ao redor do Sol, (b) tem massa suficiente para que sua autogravidade supere as forças de corpo rígido, de modo que assuma uma forma de equilíbrio hidrostático (quase redonda), e (c) limpou a vizinhança em torno de sua órbita" (tradução nossa).
Uma nota de rodapé lista os oito: Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
A mesma resolução criou a categoria de planeta anão: corpo que cumpre os dois primeiros critérios, não limpou a vizinhança da órbita e não é satélite. Tudo o que sobra, menos os satélites, virou "pequeno corpo do Sistema Solar", grupo que inclui a maior parte dos asteroides, dos objetos transnetunianos e dos cometas.
A Resolução B6, logo em seguida, trata só de Plutão. Ela diz que ele é um planeta anão pela definição anterior e o reconhece como protótipo de uma nova categoria de objetos transnetunianos.
Plutão diante dos três critérios
Em cada item, primeiro: o que a resolução b5 exige. Depois: plutão.
- Estar em órbita ao redor do Sol
- Cumpre.
- Ter massa suficiente para assumir forma quase redonda
- Cumpre.
- Ter limpado a vizinhança da própria órbita
- Não cumpre. A maior parte dos objetos conhecidos do Cinturão de Kuiper cruza a órbita de Plutão, e ele próprio cruza a de Netuno.
O que quer dizer limpar a vizinhança
A resolução não traz uma fórmula para o terceiro critério. Um artigo publicado no mesmo ano no Astronomical Journal ajuda a ver o tamanho da diferença.
Steven Soter, do Departamento de Astrofísica do Museu Americano de História Natural, em Nova York, propôs medir o domínio de um corpo dividindo a massa dele pela massa de todos os outros objetos que dividem a mesma zona orbital. Na tabela dele, a Terra tem 1,7 milhão de vezes a massa do que circula na sua faixa. Plutão tem 0,07.
Soter descreve um vão de quatro ordens de grandeza entre Marte e Ceres: os oito planetas de Mercúrio a Netuno ficam acima dele, e todo o resto fica abaixo.
Os números explicam o caso de Plutão. Ele cruza a órbita de Netuno, mas uma ressonância de 3 para 2 com o planeta o protege de uma colisão. E a maior parte dos objetos conhecidos do Cinturão de Kuiper cruza a órbita de Plutão, que tem cerca de 7% da massa do cinturão, segundo o artigo.
Esse índice é a proposta de um pesquisador, não um número oficial. A IAU votou o critério em palavras e deixou para um processo futuro a classificação dos casos de fronteira.
Éris, o objeto que forçou a decisão
Plutão foi descoberto por Clyde Tombaugh em 1930 e recebido pelos astrônomos como o longamente procurado "Planeta X". A partir de 1992, a descoberta de outros objetos do Cinturão de Kuiper mostrou que ele pertence a uma população de corpos gelados além de Netuno, observa Soter.
O empurrão final veio de um desses corpos. Segundo a NASA, ele foi descoberto em 5 de janeiro de 2005, em dados obtidos em 21 de outubro de 2003 num levantamento do Observatório Palomar, por Mike Brown, do Caltech, Chad Trujillo, do Observatório Gemini, e David Rabinowitz, da Universidade Yale.

A equipe apelidou o objeto de Xena. Oficialmente, ele se chamava 2003 UB313. Para a NASA, a descoberta ajudou a disparar o debate que levou à decisão da IAU em 2006. Na época, Soter descrevia o objeto como maior que Plutão.
O problema que ele criava está numa frase do mesmo artigo: "Se Plutão for incluído como planeta, não temos base física para excluir Éris, dezenas de outros grandes objetos esféricos do Cinturão de Kuiper e Ceres" (tradução nossa).
Hoje a NASA apresenta Éris como quase do mesmo tamanho que Plutão, com cerca de 2.400 km de diâmetro, três vezes mais distante do Sol e com uma volta completa a cada 557 anos.
Em massa, a comparação não deixa dúvida. Em 2007, Brown e Schaller publicaram na Science a órbita da pequena lua de Éris, Disnomia: um círculo de 37.350 km de raio, percorrido em 15,774 dias. Disso saiu a massa de Éris: 1,27 vez a de Plutão.
A proposta que daria 12 planetas
A primeira tentativa da IAU ia no sentido contrário. O rascunho de 16 de agosto foi preparado por um comitê de sete pessoas, entre astrônomos, escritores e historiadores, presidido por Owen Gingerich.
Ele tinha só dois critérios: estar em órbita de uma estrela, sem ser estrela nem satélite de um planeta, e ter massa suficiente para ficar quase redondo. Por essa regra, os 12 planetas seriam os oito clássicos mais Ceres, Plutão, Caronte, o companheiro de Plutão, e 2003 UB313. Plutão seria o protótipo de uma nova categoria, os "plutões".
"A natureza decide se um objeto é ou não um planeta", disse no comunicado Richard Binzel, membro do comitê (tradução nossa).
O texto aprovado em 24 de agosto acrescentou o terceiro critério, o da órbita limpa. Com ele, Ceres, Plutão e 2003 UB313 viraram os primeiros planetas anões.
De nono planeta a planeta anão
- 1930Clyde Tombaugh descobre Plutão.
- 1992Começam as descobertas de outros objetos do Cinturão de Kuiper.
- 21 de outubro de 2003Data das imagens de Palomar em que 2003 UB313 seria encontrado.
- 5 de janeiro de 2005Brown, Trujillo e Rabinowitz descobrem o objeto nos dados.
- 16 de agosto de 2006Proposta da IAU prevê 12 planetas, com Plutão entre eles.
- 24 de agosto de 2006A Assembleia Geral aprova três critérios e oito planetas. Plutão vira planeta anão.
- 14 de setembro de 2006A IAU anuncia o nome Éris para 2003 UB313, segundo a NASA.
- 2007Medição publicada na Science dá a Éris 1,27 vez a massa de Plutão.
A votação em Praga
Segundo o comunicado da IAU, mais de 2.500 astrônomos participaram da Assembleia Geral. O resultado das votações sobre planetas saiu assim:
- Resolução 5A, a definição de planeta: não houve contagem, e ela passou "com grande maioria".
- Resolução 5B, que chamaria os oito de "planetas clássicos": 91 votos a favor e muito mais contra, sem contagem.
- Resolução 6A, a que faz de Plutão um planeta anão: 237 votos a favor, 157 contra e 17 abstenções.
- Resolução 6B, que daria a essa classe o nome de "objetos plutonianos": 183 votos a favor e 186 contra.
O placar da 6A mostra que a decisão não foi unânime. O nome da nova categoria também ficou para depois: a Resolução B6 diz, em nota, que a IAU criaria um processo para escolhê-lo.
Há uma divergência de data nas fontes. A página da NASA sobre Éris registra a votação em 26 de agosto de 2006. Os comunicados da própria IAU são datados de 24 de agosto, dia da sessão de encerramento.
O nome definitivo de 2003 UB313 veio semanas depois. Éris é a deusa grega da discórdia, e a NASA comenta que a escolha combina com um objeto cuja descoberta levou ao rebaixamento de Plutão em meio a um debate que continuava.
Não foi a primeira vez
Ceres passou por algo parecido cerca de dois séculos antes. Piazzi a descobriu em 1801, e ela foi recebida como o planeta que faltava entre Marte e Júpiter. Em 1802, Olbers achou Palas numa órbita quase igual.
Segundo Soter, os livros de astronomia listaram os quatro primeiros asteroides como planetas por cerca de quatro décadas. Entre 1845 e 1851, os asteroides conhecidos chegaram a 15, e os astrônomos passaram a numerá-los pela ordem de descoberta, como membros de uma população diferente da dos planetas.
Plutão seguiu o mesmo caminho. Não encolheu nem mudou de órbita: o que mudou foi o que se sabia sobre a vizinhança dele.
Se você gosta de ver como uma medição astronômica decide uma disputa, vale ler como as fotos do eclipse de Sobral deram razão a Einstein em 1919, e por que o primeiro astronauta chinês disse que não viu a Muralha do espaço.
Fontes
- Resolutions B5 and B6: Definition of a Planet in the Solar System; Pluto (2006), União Astronômica Internacional (IAU), XXVI Assembleia Geral, Praga
- IAU 2006 General Assembly: Result of the IAU Resolution votes (24 de agosto de 2006), União Astronômica Internacional, site oficial da Assembleia Geral de 2006
- The IAU draft definition of "planet" and "plutons" (16 de agosto de 2006), União Astronômica Internacional (IAU)
- Eris, NASA Science
- The mass of dwarf planet Eris (2007), Brown e Schaller, Science 316(5831), 1585
- What is a planet? (2006), Steven Soter, The Astronomical Journal 132, 2513–2519
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Perguntas frequentes
- Por que Plutão não é mais planeta?
- Porque, desde 24 de agosto de 2006, a União Astronômica Internacional exige três condições para um corpo ser planeta: orbitar o Sol, ter massa suficiente para assumir forma quase redonda e ter limpado a vizinhança da própria órbita. Plutão cumpre as duas primeiras, mas não a terceira: ele divide sua região com os demais objetos do Cinturão de Kuiper, e a maior parte dos objetos conhecidos do cinturão cruza a órbita dele. Pela Resolução B6, Plutão passou a ser um planeta anão.
- O que é um planeta anão?
- Pela Resolução B5 da IAU, é um corpo que orbita o Sol, tem massa suficiente para ficar quase redondo, não limpou a vizinhança da própria órbita e não é satélite de outro corpo. Os primeiros planetas anões anunciados pela IAU em 2006 foram Ceres, Plutão e 2003 UB313, que depois recebeu o nome de Éris.
- Éris é maior que Plutão?
- Em 2006, Éris era descrita como maior que Plutão. Hoje a NASA a apresenta como quase do mesmo tamanho, com cerca de 2.400 km de diâmetro. Em massa, porém, Éris é maior: uma medição publicada em 2007 na revista Science, feita a partir da órbita de sua lua Disnomia, chegou a 1,27 vez a massa de Plutão.
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