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O Empire State é atingido por raios mais de 20 vezes por ano. Um guarda-florestal da Virgínia foi atingido sete vezes e sobreviveu

O ditado diz que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. O serviço meteorológico americano diz o contrário, os pesquisadores do Inpe filmaram raios saindo sempre da mesma torre em São Paulo, e um único raio pode percorrer o mesmo caminho várias vezes seguidas.

Redação Fatos e Relatos8 min de leitura
Um raio ramificado e muito brilhante desce de nuvens escuras sobre uma superfície de água à noite, em direção a uma faixa de luzes verdes no horizonte.
Sean McAuliffe, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • O serviço meteorológico dos EUA classifica o ditado como mito: o raio costuma cair repetidas vezes no mesmo lugar, sobretudo em objetos altos, pontudos e isolados.
  • O Empire State Building é atingido em média 23 vezes por ano, segundo o NWS, ou 25, segundo o próprio prédio.
  • No Pico do Jaraguá, em São Paulo, pesquisadores do Inpe registram em média de 30 a 40 raios ascendentes por ano, que partem sempre do topo das torres.
  • O guarda-florestal Roy C. Sullivan detém o recorde do Guinness de pessoa atingida mais vezes por raios: sete, entre 1942 e 1977.

O Empire State Building, em Nova York, é atingido por raios em média 23 vezes por ano, segundo o Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS). O próprio prédio fala em 25.

E um guarda-florestal da Virgínia, Roy C. Sullivan, foi atingido sete vezes entre 1942 e 1977. Sobreviveu a todas.

Então, não: o ditado não se sustenta. Na página em que lista mitos sobre raios, o NWS responde à frase "um raio nunca cai duas vezes no mesmo lugar" assim: "O raio costuma cair repetidamente no mesmo lugar, especialmente se for um objeto alto, pontudo e isolado" (tradução nossa).

O que decide onde o raio cai

O mesmo serviço resume a regra em uma linha: altura, forma pontuda e isolamento são os fatores dominantes que controlam onde uma descarga vai cair.

O mecanismo está descrito pelo Laboratório Nacional de Tempestades Severas (NSSL), também ligado à agência americana de oceanos e atmosfera, a NOAA. Um canal de carga negativa, o líder escalonado, desce da nuvem em zigue-zague, em segmentos de cerca de 50 jardas (uns 45 metros). Do chão, canais de carga positiva sobem ao encontro dele, "normalmente a partir dos objetos mais altos da área" (tradução nossa).

Quando os dois se ligam, vem a descarga de retorno, a parte brilhante que a gente vê. O NSSL acrescenta um cuidado: "Nunca diga sempre! O raio geralmente atinge o objeto mais alto" (tradução nossa).

Ou seja: o lugar que foi atingido uma vez continua alto, pontudo e isolado na tempestade seguinte. Nada nele muda para que o raio o evite.

O mesmo raio cai várias vezes no mesmo ponto

Há um detalhe que desmonta o ditado até dentro de um único relâmpago.

Segundo o NSSL, um raio negativo entre nuvem e solo é formado por uma e até 20 descargas de retorno. "Vemos o raio piscar quando o processo se repete rapidamente várias vezes pelo mesmo caminho" (tradução nossa). Aquele tremular do relâmpago é o mesmo canal sendo percorrido de novo.

O laboratório também registra que cerca de metade dos relâmpagos tem mais de um ponto de impacto no solo. Na sua página de perguntas frequentes, a resposta à pergunta sobre o mesmo lugar é direta: o raio atinge o mesmo ponto, ou quase o mesmo ponto, mais de uma vez, "contrariando a sabedoria popular" (tradução nossa).

O prédio que virou laboratório

O Empire State não é só o exemplo favorito dos meteorologistas. Em 1949, um anúncio da General Electric publicado na revista do Caltech dizia que os estudos de campo da empresa sobre raios usavam o prédio "como laboratório".

Em fevereiro de 1939, a revista Time relatou que Karl Boyer McEachron, pesquisador de raios da General Electric, tinha começado três anos antes um estudo das descargas que atingiam o arranha-céu, descrito como "um gigantesco para-raios". McEachron observou que vários raios que atingiram o prédio não fizeram barulho.

Quanto à frequência atual, as fontes oficiais não batem. A página nacional de mitos do NWS fala em 23 vezes por ano. Um texto da NOAA de agosto de 2020 e o site do próprio prédio falam em 25. Já a página de um escritório regional do NWS, o de Wilmington, em Ohio, diz que o prédio é atingido "quase 100 vezes por ano". Não encontramos a origem desse número maior.

Torre do Empire State Building vista de baixo, com a antena fina no topo contra um céu azul com nuvens, entre prédios mais baixos e copas de árvores.
O Empire State Building numa manhã de verão em Nova York. O prédio tem 443 metros contando a antena, segundo o site oficial. Foto ilustrativa, sem registro de raio. Imagem: Chris Czermak, via Unsplash · Licença Unsplash

No Brasil, o raio sai sempre do mesmo lugar

O Brasil tem bastante material para testar o ditado. Segundo o Inpe, o país registrou, na média dos últimos dez anos, de 100 milhões a 150 milhões de descargas elétricas por ano, conforme a técnica de monitoramento usada.

Em 2012, o Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe (Elat) registrou pela primeira vez no país um tipo de raio que leva o problema do "mesmo lugar" ao extremo: o raio ascendente, que nasce em estruturas elevadas e sobe em direção à nuvem.

As gravações foram feitas no Pico do Jaraguá, o ponto mais alto da cidade de São Paulo, a 1.135 metros de altitude, com uma câmera de 4 mil quadros por segundo. No fim de janeiro daquele ano, numa só tempestade, foram filmados três raios ascendentes saindo da mesma torre de transmissão de 130 metros em 6 minutos. No início de março, mais três, do mesmo ponto, em 7 minutos.

O coordenador do projeto, Marcelo Saba, explicou a diferença à Agência FAPESP:

Em geral, há muito mais raios descendentes do que ascendentes. Porém, os primeiros tocam pontos diferentes no solo e os ascendentes sempre saem do mesmo lugar, gerando um estresse muito grande em cima desse ponto, que pode ser uma torre de televisão ou de celular, por exemplo.

A mesma reportagem comparava: no Empire State ocorrem, em média, 26 raios ascendentes por ano.

Em 2019, a equipe publicou na revista Scientific Reports a análise de 110 raios ascendentes observados entre 2011 e 2016 em Rapid City, nos Estados Unidos, e em São Paulo. Segundo a Agência FAPESP, o Jaraguá registra em média de 30 a 40 raios ascendentes por ano e é o segundo lugar do mundo com mais registros do fenômeno. "Temos observado que estruturas com mais de 70 metros são sujeitas a gerar raios ascendentes", disse Saba na ocasião.

O Cristo Redentor, no Rio, é o exemplo brasileiro mais citado, mas os números variam. Em 2013, a Gazeta do Povo atribuiu ao Elat uma média de seis raios por ano no monumento. Em 2025, a Agência Brasil escreveu que ele é atingido em média 12 vezes a cada verão, sem dizer de onde veio o número. Não conseguimos abrir as páginas do próprio Elat para conferir, porque o site do grupo estava fora do ar.

O homem que foi atingido sete vezes

Se o ditado não vale para lugares, vale menos ainda para pessoas.

O recorde do Guinness de mais raios sobrevividos pertence a Roy C. Sullivan, ex-guarda-florestal, a quem a organização chama de "condutor humano de raios da Virgínia". O primeiro raio, em abril de 1942, o atingiu na perna direita no Parque Nacional de Shenandoah, quando ele fugia de uma torre de vigia em chamas. O último foi em 25 de junho de 1977, numa pescaria.

Os sete raios de Roy Sullivan, segundo o Guinness

  1. Abril de 1942Atingido na perna direita ao fugir de uma torre de vigia em chamas, em Shenandoah. Perde a unha do dedão do pé.
  2. 1969Atingido enquanto dirigia sua caminhonete. Fica inconsciente e perde as sobrancelhas.
  3. Julho de 1970Atingido no quintal de casa. Queimadura no ombro esquerdo.
  4. 16 de abril de 1972Atingido numa guarita, no trabalho. O cabelo pega fogo.
  5. 7 de agosto de 1973Atingido no carro. O cabelo pega fogo de novo e as pernas ficam queimadas.
  6. 5 de junho de 1976Atingido durante uma caminhada. Machuca o tornozelo.
  7. 25 de junho de 1977Atingido num barco, pescando. Queimaduras no peito e na barriga.

Os dois textos do Guinness diferem num detalhe: a página do recorde dá só o ano do segundo raio, 1969; uma reportagem da própria organização, de 2023, diz que foi em julho. A página de segurança do Parque Nacional de Bryce Canyon, do Serviço de Parques Nacionais americano, também cita Sullivan, mas fala em sete raios "ao longo de 40 anos". Pelas datas do Guinness, foram 35.

A mesma reportagem de 2023 registra que a mulher de Sullivan também foi atingida uma vez, enquanto pendurava roupa no quintal. Ele morreu em 1983, aos 71 anos, sem ter sido atingido de novo.

O que a chance de ser atingido diz, e o que não diz

Para uma pessoa comum, ser atingido é raro. O NWS calcula a chance em 1 em 1.222.000 por ano e 1 em 15.300 ao longo de uma vida de 80 anos, com base nas médias de 2009 a 2018 nos Estados Unidos. O Guinness usa outra conta: cerca de 1 em 10 mil numa vida de 80 anos.

Mas essa é uma média por pessoa, e o ditado fala de lugares. Um ponto específico do mapa não herda a raridade média. Um prédio de 443 metros ou uma torre de 130 metros no alto de um morro reúnem exatamente o que o NWS aponta como decisivo: altura, ponta e isolamento. Por isso são atingidos de novo, tempestade após tempestade.

Sobreviver ao improvável mais de uma vez não é exclusividade de Sullivan. Há também a história do homem que sobreviveu a Hiroshima e, três dias depois, a Nagasaki. E, para quem prefere a parte mais tranquila da tempestade, vale ler sobre o cheiro de chuva, que tem nome e causa conhecida.

Fontes

  1. Lightning Myths and Facts, National Weather Service (NWS/NOAA)
  2. Severe Weather 101 — Lightning FAQ, National Severe Storms Laboratory (NSSL/NOAA)
  3. Raios ascendentes são registrados pela primeira vez no Brasil (2012), Agência FAPESP, sobre pesquisa do Grupo de Eletricidade Atmosférica (Elat) do Inpe
  4. Brasil registra aumento de raios em todo o território nacional (2026), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)
  5. Most lightning strikes survived, Guinness World Records
  6. Empire State Building Facts, Empire State Building

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Perguntas frequentes

Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar?
Pode, e cai com frequência. O Serviço Nacional de Meteorologia dos Estados Unidos (NWS) classifica o ditado como mito e diz que o raio costuma atingir repetidamente o mesmo lugar, sobretudo se for um objeto alto, pontudo e isolado. O Empire State Building, em Nova York, é atingido em média 23 vezes por ano, segundo o NWS, ou 25, segundo o próprio prédio.
Por que os raios caem mais em lugares altos?
Segundo o NWS, altura, forma pontuda e isolamento são os fatores dominantes que controlam onde o raio cai. Quando a descarga desce da nuvem, objetos altos tendem a lançar para cima canais de carga positiva que vão ao encontro dela. Estruturas muito altas também podem gerar raios ascendentes: pesquisadores do Inpe observaram que estruturas com mais de 70 metros estão sujeitas a isso.
Quem foi atingido mais vezes por raios?
Segundo o Guinness World Records, o ex-guarda-florestal americano Roy C. Sullivan, da Virgínia, atingido sete vezes entre 1942 e 1977. Ele sobreviveu a todas, com queimaduras e outros ferimentos, e morreu em 1983, aos 71 anos.
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