A frase dos 10% do cérebro ganhou fama no prefácio de um best-seller de autoajuda de 1936. Nem ali ela falava em cérebro
O jornalista Lowell Thomas atribuiu a William James a ideia de que o homem médio desenvolve só 10% da sua capacidade mental. Lesões, exames de imagem e a conta de energia do cérebro mostram por que a versão "usamos 10% do cérebro" não se sustenta.

Em 30 segundos
- O maior impulso ao mito veio do prefácio de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de 1936: segundo Lowell Thomas, William James dizia que o homem médio desenvolve só 10% de sua capacidade mental latente. A frase não fala em cérebro.
- James escreveu em 1907 que usamos "só uma pequena parte" de nossos recursos mentais e físicos, sem número nenhum.
- O cérebro tem cerca de 2% do peso do corpo e consome cerca de 20% do oxigênio. Nenhuma lesão ou estimulação elétrica encontrou uma área de reserva.
- O grão de verdade é outro: talvez menos de 1% dos neurônios do córtex possa ficar muito ativo ao mesmo tempo, por economia de energia, não por desperdício.
Em outubro de 1936 saiu nos Estados Unidos a primeira tiragem de How to Win Friends and Influence People, de Dale Carnegie — no Brasil, Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas. No prefácio, o jornalista Lowell Thomas escreveu: "O professor William James, de Harvard, costumava dizer que o homem médio desenvolve apenas dez por cento de sua capacidade mental latente" (tradução nossa).
A frase não fala em cérebro. Mas, segundo o neurocientista Barry Beyerstein, esse prefácio, num dos livros de autoajuda mais vendidos da história, deu o maior impulso à ideia de que usamos só 10% do cérebro.
A resposta curta é que não usamos só 10% do cérebro. Não se conhece área que possa ser destruída sem deixar algum déficit, e os exames de imagem não acharam nenhuma região de reserva. O neurologista Barry Gordon, da Universidade Johns Hopkins, disse à Scientific American em 2008 que o mito é "tão errado que chega a ser quase risível" (tradução nossa).
William James falava em energia, não em neurônios
James, um dos pioneiros da psicologia americana, fez em 28 de dezembro de 1906 o discurso presidencial da Associação Filosófica Americana, na Universidade Columbia. O texto, The Energies of Men, saiu em janeiro de 1907 na revista The Philosophical Review.
O trecho que interessa diz: "Comparados com o que deveríamos ser, estamos apenas meio acordados. Nossos fogos estão abafados, nossas correntes de ar, bloqueadas. Estamos usando só uma pequena parte de nossos possíveis recursos mentais e físicos" (tradução nossa).
Não há número nenhum. Beyerstein, que pesquisou a origem do mito, nunca achou uma porcentagem em James: ele falava de potencial não desenvolvido, sem ligar isso a uma quantidade de massa cinzenta.
O detalhe curioso está no próprio livro de Carnegie. No capítulo em que explica como a obra foi escrita, o autor cita James corretamente — "estamos apenas meio acordados", "uma pequena parte de nossos recursos físicos e mentais". Quem pôs os 10% na boca de James foi o prefácio de Thomas.
Depois, segundo Beyerstein, gurus do "pensamento positivo" foram menos cuidadosos, e "10% da nossa capacidade" virou "10% do nosso cérebro".
Como uma frase sem número virou o mito dos 10%
- 1848Uma barra de ferro atravessa a cabeça de Phineas Gage, em Vermont; o caso é o primeiro a sugerir ligação entre trauma cerebral e mudança de personalidade.
- 1861Paul Broca descreve pacientes que perderam a fala depois de lesões no giro frontal inferior.
- Janeiro de 1907William James publica The Energies of Men: usamos "só uma pequena parte" de nossos recursos.
- Outubro de 1936Primeira tiragem de How to Win Friends and Influence People; o prefácio de Lowell Thomas fala em "dez por cento" da capacidade mental.
- 1953Henry Molaison, o paciente H.M., passa por uma cirurgia nos dois lobos temporais e perde a capacidade de formar memórias novas.
- 2002Pesquisa com 2.158 pessoas no Rio de Janeiro mede o que o público sabe sobre o cérebro.
- 2009A contagem de células do cérebro humano chega a 86 bilhões de neurônios e quase o mesmo número de células não neuronais.
Outras pistas: o "córtex silencioso" e Einstein
Beyerstein encontrou mais duas trilhas. Os primeiros pesquisadores do cérebro chamaram, por razões técnicas, uma grande parte dos hemisférios de "córtex silencioso". Não queriam dizer que essa região, hoje chamada de córtex de associação, não tinha função — mas foi isso que chegou ao público.
Eles também admitiam não saber o que 90% do cérebro fazia, e a frase foi lida como se a sobra não fizesse nada.
E há Einstein, que teria explicado o próprio gênio pelo mito. A pedido de Beyerstein, o arquivo Albert Einstein fez uma busca cuidadosa e não encontrou nenhum registro de uma afirmação assim.
O que as lesões mostram
Se 90% do cérebro estivesse parado, perder um pedaço dele não faria diferença. Segundo Beyerstein, perder bem menos de 90% do cérebro por acidente ou doença tem consequências catastróficas, e não parece haver área que possa ser destruída por derrame ou trauma sem deixar o paciente com algum déficit.
Os casos mais famosos da neurociência são justamente isso. Lesões no giro frontal inferior tiraram a fala dos pacientes de Broca, como conta a história do paciente que só conseguia dizer "tan". Em 1953, a retirada de partes dos dois lobos temporais de Henry Molaison, para controlar crises epilépticas, deixou a inteligência dele intacta e levou embora a capacidade de formar memórias novas — a história está em H.M., o homem que viveu 55 anos sem memória nova. E o caso de Phineas Gage foi o primeiro a sugerir que trauma no cérebro podia mudar a personalidade.
A estimulação elétrica em neurocirurgias, feitas com o paciente acordado porque o cérebro não tem receptores de dor, também nunca achou uma área "dormente", onde correntes minúsculas não provocassem percepção, emoção ou movimento.
Há uma ressalva. O neurologista John Henley, da Clínica Mayo, lembrou à Scientific American que algumas pessoas que perderam partes do cérebro vivem de forma bastante normal, porque o que sobra assume a tarefa.
O que os exames de imagem mostram
Com EEG, magnetoencefalografia, PET e ressonância magnética funcional, os pesquisadores localizaram um número enorme de funções psicológicas em centros e sistemas específicos do cérebro. Segundo Beyerstein, apesar desse reconhecimento detalhado, nenhuma área quieta à espera de serviço apareceu.
"As evidências mostram que, ao longo de um dia, você usa 100% do cérebro", disse Henley (tradução nossa). Até durante o sono, regiões como o córtex frontal e as áreas somatossensoriais estão ativas. E um gesto simples como servir café de manhã põe para trabalhar, em poucos segundos, os lobos occipital e parietal, os córtices motor e sensorial, os gânglios da base, o cerebelo e os lobos frontais.

Nas imagens desses exames, a atividade costuma aparecer como manchas pequenas. O resto do cérebro não está desligado. Os pesquisadores Raichle e Gusnard registraram em 2002, na revista PNAS, que, na maioria das tarefas cognitivas, as mudanças locais de fluxo sanguíneo medidas com PET costumam ser de 5% ou menos. E as tentativas de medir mudanças no cérebro inteiro durante atividade mental intensa não mostraram mudança nenhuma.
A conta de energia não fecha
O cérebro representa cerca de 2% do peso do corpo e responde por cerca de 20% do oxigênio — e, portanto, das calorias — que o corpo consome, segundo Raichle e Gusnard. Gordon, da Johns Hopkins, usou outro número para o peso: 3%. As duas fontes concordam nos 20% de energia.
E esse gasto, escreveram Raichle e Gusnard, é "notavelmente constante", apesar de a atividade mental e motora variar muito.
Para Beyerstein, o tecido cerebral é caro demais para crescer e funcionar, e a seleção natural dificilmente permitiria manter um órgão tão subutilizado.
O grão de verdade: poucos neurônios de cada vez
Há uma versão do "usamos pouco" com base, e ela diz quase o oposto do mito. Gordon admitiu que, em certos momentos, como quando estamos em repouso pensando, talvez estejamos usando só 10% do cérebro.
Peter Lennie fez a conta num artigo publicado em 2003 na revista Current Biology. A partir do custo de cada impulso nervoso e do consumo de energia conhecido do córtex humano, estimou que esse custo limita, possivelmente a menos de 1%, o número de neurônios que podem estar muito ativos ao mesmo tempo.
Isso não é capacidade ociosa. Segundo Lennie, o custo alto obriga o cérebro a usar códigos que dependem de pouquíssimos neurônios ativos e a distribuir a energia entre as regiões conforme a demanda da tarefa. É uma economia, e é justamente esse controle local do fluxo de sangue que a ressonância funcional aproveita para enxergar a atividade.
O artigo que desmentiu um mito e repetiu outro
A reportagem de 2008 da Scientific American que ouviu Gordon e Henley termina com uma virada: só 10% das células do cérebro seriam neurônios, os outros 90% seriam células da glia, e o que entendemos do cérebro seria uns 10%.
A conta das células também estava errada. Em 2009, Azevedo e colegas, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, com a neurocientista Suzana Herculano-Houzel entre os autores, contaram as células de cérebros de homens adultos e encontraram em média 86,1 bilhões de neurônios e 84,6 bilhões de células não neuronais. Uma revisão de 2016, assinada por ela e dois colegas, concluiu que os dados histológicos sempre apontaram para uma proporção de cerca de uma célula da glia por neurônio.
Herculano-Houzel conta que chegou a essa pergunta por causa do mito dos 10%. Numa pesquisa publicada em 2002, quando trabalhava no Museu da Vida, da Fiocruz, ela ouviu 2.158 pessoas do Rio de Janeiro sobre o cérebro. Em entrevista ao site BrainFacts, da Society for Neuroscience, disse que 60% das pessoas com curso superior aceitaram o mito. Procurando a origem dele, encontrou nos livros didáticos os 100 bilhões de neurônios e as "dez vezes mais" células da glia, números que ninguém tinha de fato contado.
O mito também resiste entre professores. Num levantamento publicado em 2012 com 242 professores interessados em neurociência, 48% dos britânicos e 46% dos holandeses marcaram como correta a frase "usamos só 10% do nosso cérebro".
Por que ele não morre
Para Gordon, as pessoas veem as próprias limitações como prova de que há massa cinzenta sem uso. Para Beyerstein, o mito resiste porque seria muito bom se fosse verdade, e há quem venda produtos "turbinadores de cérebro" apoiados nele.
Um painel do Conselho Nacional de Pesquisa dos Estados Unidos que avaliou esses produtos chegou a uma conclusão bem menos animadora: não há substituto confiável para a prática e o trabalho duro.
Promessas de atalho para a inteligência têm um histórico conhecido, como mostra o estudo de uma página com 36 universitários que virou CDs de Mozart para bebês. E a proporção de dez células da glia para cada neurônio tem uma prima famosa: a conta de que temos 10 bactérias para cada célula do corpo.
Outra regra famosa que saiu do prefácio de um livro, e não de uma medição, é a de que bastam 21 dias para criar um hábito.
Fontes
- Do we really use only 10 percent of our brains? (2004), Barry L. Beyerstein, Scientific American
- Do People Only Use 10 Percent of Their Brains? (2008), Robynne Boyd, Scientific American
- The Energies of Men (1907), William James, The Philosophical Review 16(1) — acervo digitalizado no Internet Archive
- How to Win Friends and Influence People, 11ª edição (prefácio de Lowell Thomas, 1936), Dale Carnegie, D. B. Taraporevala Sons, 1943 — acervo digitalizado no Internet Archive
- Appraising the brain's energy budget (2002), Raichle e Gusnard, PNAS 99(16), 10237–10239
- The cost of cortical computation (2003), Peter Lennie, Current Biology 13, 493
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Perguntas frequentes
- É verdade que usamos só 10% do cérebro?
- Não. O neurologista Barry Gordon, da Universidade Johns Hopkins, disse à Scientific American que a ideia é "tão errada que chega a ser quase risível". Não se conhece área do cérebro que possa ser destruída por derrame ou trauma sem deixar algum déficit, a estimulação elétrica durante cirurgias nunca achou regiões "dormentes", e exames como EEG, PET e ressonância funcional localizaram um grande número de funções sem encontrar áreas quietas. Além disso, o cérebro tem cerca de 2% do peso do corpo e consome cerca de 20% do oxigênio.
- De onde veio a ideia dos 10% do cérebro?
- Não há um autor único. O psicólogo William James escreveu em 1907 que usamos "só uma pequena parte" de nossos recursos mentais e físicos, sem citar porcentagem. Em 1936, no prefácio de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas, de Dale Carnegie, o jornalista Lowell Thomas escreveu que James dizia que o homem médio desenvolve só 10% de sua capacidade mental latente. Segundo o neurocientista Barry Beyerstein, autores de autoajuda transformaram depois "10% da capacidade" em "10% do cérebro".
- Einstein disse que usamos só 10% do cérebro?
- Não há registro disso. Barry Beyerstein contou na Scientific American que pediu ao arquivo Albert Einstein uma busca cuidadosa, e nenhum registro de uma afirmação assim foi encontrado.
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