Pular para o conteúdo

Uma barra de ferro atravessou o crânio dele em 1848. Anos depois, ele conduzia diligências no Chile

Phineas Gage é o caso mais citado da neurociência. E quase tudo que os livros dizem sobre o que aconteceu depois está errado.

Redação Fatos e RelatosAtualizada em 8 min de leitura
Retrato do século XIX de Phineas Gage, de terno, com a pálpebra esquerda fechada sobre o olho cego, segurando a barra de ferro que atravessou seu crânio.
Coleção da família Gage, c. 1850, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Em 13 de setembro de 1848, uma barra de ferro de 1,09 metro e 6 quilos atravessou a cabeça de Phineas Gage, de 25 anos, em Cavendish, Vermont; minutos depois ele estava falando.
  • O médico John Harlow escreveu em 1868 que os amigos o achavam "não mais Gage", e manuais posteriores o pintaram como um beberrão irascível.
  • Os registros mostram outra coisa: ele trabalhou um ano e meio num estábulo e, a partir de 1852, passou cerca de sete anos no Chile cuidando de cavalos e conduzindo diligências de seis cavalos.
  • Morreu em 21 de maio de 1860, aos 36 anos, depois de uma série de convulsões; o crânio e a barra estão no Museu Anatômico Warren, em Harvard.

Em 13 de setembro de 1848, perto de Cavendish, no estado americano de Vermont, uma barra de ferro de 1,09 metro e 6 quilos atravessou a cabeça de Phineas Gage de baixo para cima. Entrou pelo lado esquerdo do rosto, logo à frente do ângulo da mandíbula, e saiu pelo alto do crânio.

Gage tinha 25 anos. Foi jogado de costas, teve alguns movimentos convulsivos e, em poucos minutos, estava falando.

O acidente

Gage era capataz de uma turma que preparava o leito da ferrovia Rutland & Burlington. O trabalho consistia em abrir caminho na rocha: perfurar um buraco, pôr pólvora e pavio, cobrir com areia e socar a carga com uma barra de ferro.

A barra dele era pontuda numa das pontas, afinando ao longo de cerca de 30 centímetros. Segundo o relato do médico John Martyn Harlow, publicado em 1868, Gage socava a carga antes de a areia ser despejada quando sua atenção foi desviada pelos homens que trabalhavam atrás dele. Olhou por cima do ombro direito, deixou a barra cair sobre a carga, o ferro soltou faísca na rocha e a pólvora explodiu.

A barra caiu "várias varas" atrás dele, escreveu Harlow, numa medida da época em que cada vara tem cerca de 5 metros. O histórico do caso lido no Senado americano em 1998 fala em 25 a 30 jardas, algo entre 23 e 27 metros. Os homens a encontraram suja de sangue e cérebro.

Eles carregaram Gage nos braços até a estrada e o puseram num carro de boi. Ele fez sentado o trajeto de cerca de 1,2 quilômetro até o hotel onde se hospedava, e desceu do carro com pouca ajuda.

O primeiro médico a chegar foi Edward Williams, uns 25 ou 30 minutos depois do acidente. Encontrou Gage sentado numa cadeira na varanda do hotel. No depoimento que mandou em 1849 ao cirurgião Henry Bigelow, de Harvard, Williams registrou a frase com que foi recebido: "Doutor, aqui tem trabalho suficiente para o senhor" (tradução nossa).

Williams não acreditou na história da barra. Um irlandês que estava ali insistiu: "Foi isso mesmo, senhor, a barra está caída na estrada lá embaixo, toda sangue e cérebro."

Página impressa de revista médica do século XIX, em duas colunas de texto corrido, com o cabeçalho Bigelow's Case of Injury of Head e a assinatura Edward H. Williams, M.D. no pé.
Página 16 do American Journal of the Medical Sciences de julho de 1850, com o depoimento do médico Edward Williams, o primeiro a atender Gage. A frase 'Doctor, here is business enough for you' está na quinta linha. Imagem: The American Journal of the Medical Sciences 1850-07: Vol 20 Iss 39, via Internet Archive · Domínio público

A recuperação

Harlow assumiu o caso. Segundo o relato dele, Gage subiu um lance de escada apoiado no braço do médico, e estava consciente enquanto o ferimento era tratado. Dois dias depois, começou a delirar.

O pior veio no fim de setembro. A visão do olho esquerdo se perdeu por completo dez dias depois do acidente. Uma infecção grave deixou Gage em coma, e a família chegou a deixar prontos o caixão e as roupas. Harlow cortou os tecidos que brotavam do cérebro exposto e drenou um abscesso perto do nariz.

Em 11 de outubro, Gage estava lúcido. Em 8 de novembro, descia a escada e, segundo Harlow, já tinha ido à rua. Em 25 de novembro, cerca de dez semanas depois do acidente, foi levado de carruagem para casa, em Lebanon, New Hampshire. Em 1º de janeiro de 1849, a abertura no alto da cabeça estava fechada.

Em abril de 1849, sete meses depois do acidente, voltou a Cavendish, levando a barra. Pediu o antigo posto de capataz. Os empreiteiros, que o consideravam antes o capataz mais eficiente que tinham, recusaram: acharam a mudança na mente dele marcante demais.

A convite de Bigelow, Gage também passou oito ou nove semanas em Boston, sendo examinado por médicos. Muitos não acreditavam que alguém pudesse sobreviver àquilo. Bigelow publicou o caso em 1850.

A vida de Gage depois da barra

  1. 13 de setembro de 1848A explosão em Cavendish, Vermont. Gage tem 25 anos.
  2. 23 de setembro de 1848Perde a visão do olho esquerdo; dias depois, entra em coma por infecção.
  3. 25 de novembro de 1848Volta para casa, em Lebanon, New Hampshire.
  4. Abril de 1849Volta a Cavendish e pede o emprego de capataz. É recusado.
  5. 1851Começa a trabalhar num estábulo em Hanover, New Hampshire, onde fica cerca de um ano e meio.
  6. Agosto de 1852Parte para o Chile, para trabalhar numa linha de diligências em Valparaíso.
  7. Cerca de 1859Doente, vai para São Francisco, onde mora a mãe.
  8. 21 de maio de 1860Morre aos 36 anos, depois de uma série de convulsões.
  9. Fim de 1867O corpo é exumado; crânio e barra vão para Harlow e, depois, para Harvard.

O que os livros dizem, e o que a pesquisa mostra

Em 1868, Harlow publicou o segundo relato, o que fez a fama do caso. Nele descreveu o Gage de abril de 1849 como inconstante, desrespeitoso, dado aos piores palavrões, coisa que antes não fazia, impaciente com conselhos, teimoso e incapaz de sustentar um plano. E registrou a frase que virou a mais citada da neurociência: seus amigos e conhecidos diziam que ele "não era mais Gage".

Foi esse parágrafo que transformou o caso em prova de que o lobo frontal governa personalidade e autocontrole. Segundo a revista Smithsonian, Malcolm Macmillan, da Universidade de Melbourne, contou que dois terços dos manuais introdutórios de psicologia mencionam Gage.

O problema é o que veio depois. Relatos posteriores foram além do que Harlow observou e transformaram Gage, nas palavras da Smithsonian, num beberrão irascível e sem rumo.

O próprio Harlow conta outra história. Gage passou um tempo no museu de Barnum, em Nova York, com a barra. Mas, em 1851, foi trabalhar no estábulo de aluguel de Jonathan Currier, em Hanover, New Hampshire, e ficou lá cerca de um ano e meio, "sem nenhuma interrupção por problema de saúde".

A lenda e o registro

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que os registros mostram.

Gage saiu andando do local do acidente.
Foi carregado pelos homens até um carro de boi, desceu dele com pouca ajuda e recebeu o médico sentado na varanda do hotel.
Virou um beberrão incapaz de trabalhar.
Trabalhou cerca de um ano e meio num estábulo e cerca de sete anos com diligências no Chile.
Morreu em 1861, como escreveu Harlow.
Harlow errou o ano: Gage morreu em 21 de maio de 1860.
O dano frontal o desligou para sempre.
Macmillan conclui que ele acabou fazendo uma adaptação psicossocial surpreendentemente boa.

O detalhe que ninguém conta

Em agosto de 1852, quase quatro anos depois do acidente, Gage deixou a Nova Inglaterra para sempre. Foi para o Chile, contratado por um homem que ia montar uma linha de diligências em Valparaíso.

Ficou lá até por volta de 1859, nos arredores de Valparaíso e Santiago, "cuidando de cavalos e muitas vezes conduzindo uma diligência pesadamente carregada e puxada por seis cavalos".

É um trabalho que exige rotina, atenção e trato com passageiros, justamente o tipo de função que ele supostamente teria perdido. Malcolm Macmillan e Matthew Lena reexaminaram as evidências antigas e material novo num artigo de 2010. A conclusão: Gage acabou fazendo uma adaptação psicossocial surpreendentemente boa à lesão. Para os autores, a estrutura imposta pelas circunstâncias do trabalho ajudou nesse resultado, num paralelo com a reabilitação moderna.

A leitura muda o sentido do caso. O lobo frontal não é um interruptor que desliga a pessoa para sempre. O cérebro lesionado pode se adaptar, e o ambiente pesa nisso. O caso mais citado como prova de dano permanente é, olhado de perto, um dos primeiros registros de reabilitação.

O fim

Por volta de 1859, com a saúde em declínio, Gage foi para São Francisco, onde moravam a mãe e a irmã. Em fevereiro de 1860 começou a ter convulsões. Morreu em 21 de maio de 1860, aos 36 anos, onze anos e meio depois da explosão.

Harlow, que perdeu o rastro do paciente e só o reencontrou, por cartas da família, em 1866, quando Gage já tinha morrido, escreveu que a morte foi em 1861. Errou o ano: os registros posteriores, como o histórico lido no Senado americano e a reportagem da Smithsonian, dão 1860. Para Harlow, as convulsões eram "inquestionavelmente epilépticas".

Não houve autópsia. No fim de 1867, o corpo foi exumado do cemitério de Lone Mountain, em São Francisco. O cunhado de Gage entregou o crânio e a barra a Harlow, que os doou ao Museu Anatômico Warren, da Escola de Medicina de Harvard.

Os dois estão lá até hoje. A barra tem uma inscrição feita ainda em vida de Gage: diz que aquela foi a barra que atravessou a cabeça dele em Cavendish e que ele "se recuperou plenamente do ferimento". A inscrição grafa o nome como "Phinehas", segundo a Smithsonian, e dá a data de 14 de setembro, um dia depois do acidente. É essa barra que ele segura na fotografia acima.

O caso virou argumento nos debates do século XIX sobre que funções o cérebro concentra em cada região, os mesmos debates em que o paciente Tan ajudou a localizar a fala. Outro caso célebre, o de Henry Molaison, faria pela memória o que o de Gage fez pela personalidade.

E, no reino animal, há o caso de Mike, a "galinha sem cabeça", que viveu mais 18 meses.

Fontes

  1. Recovery from the Passage of an Iron Bar through the Head (1868), John Martyn Harlow, Massachusetts Medical Society — exemplar digitalizado da National Library of Medicine
  2. Dr. Harlow's Case of Recovery from the Passage of an Iron Bar through the Head (1850), Henry J. Bigelow, American Journal of the Medical Sciences, vol. 20 — com os depoimentos dos médicos Edward Williams e Joseph Freeman
  3. Rehabilitating Phineas Gage (2010), Malcolm Macmillan e Matthew Lena, Neuropsychological Rehabilitation
  4. An Odd Kind of Fame: Stories of Phineas Gage (2000), Malcolm Macmillan, MIT Press
  5. 150th Phineas Gage Anniversary Celebration, Cavendish, Vermont (1998), Congressional Record, Senado dos Estados Unidos — com o histórico do caso fornecido pela cidade de Cavendish
  6. Phineas Gage: Neuroscience's Most Famous Patient (2010), Steve Twomey, Smithsonian Magazine
  7. The Face Of A Famous Skull Found On Flickr (2010), NPR

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Phineas Gage sobreviveu ao acidente?
Sim. A barra de ferro atravessou seu crânio em 13 de setembro de 1848 e ele viveu mais 11 anos e meio, morrendo em 21 de maio de 1860, aos 36 anos, após uma série de convulsões.
É verdade que a personalidade dele mudou completamente?
Em parte. O médico John Harlow descreveu mudanças marcantes e registrou que os amigos diziam que ele "não era mais Gage". Mas relatos posteriores foram além do que Harlow viu. Os registros mostram que Gage trabalhou um ano e meio num estábulo e depois cerca de sete anos no Chile cuidando de cavalos e conduzindo diligências, e o pesquisador Malcolm Macmillan conclui que ele acabou fazendo uma adaptação psicossocial surpreendentemente boa.
Onde está o crânio de Phineas Gage hoje?
No Museu Anatômico Warren, da Biblioteca Countway, ligada à Escola de Medicina de Harvard, em Boston, junto com a barra de ferro. Harlow os doou depois que o corpo foi exumado, no fim de 1867.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também

Mais de Ciência

Ver a seção