Pular para o conteúdo

Uma barra de ferro atravessou o crânio dele em 1848. Ele voltou a trabalhar em 4 meses

Phineas Gage é o caso mais citado da neurociência. E quase tudo que os livros dizem sobre o que aconteceu depois está errado.

Por Redação Fatos e Relatos4 min de leitura
Retrato do século XIX de Phineas Gage, de terno, com a pálpebra esquerda fechada sobre o olho cego, segurando a barra de ferro que atravessou seu crânio.
Coleção da família Gage, c. 1850, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 13 de setembro de 1848, perto de Cavendish, no estado americano de Vermont, uma barra de ferro de pouco mais de um metro e seis quilos atravessou a cabeça de Phineas Gage de baixo para cima. Entrou pela bochecha esquerda, passou por trás do olho, cruzou o lobo frontal e saiu pelo alto do crânio, indo cair a cerca de 25 metros dali.

Gage tinha 25 anos. Ele não desmaiou. Poucos minutos depois estava falando, e caminhou até a carroça com pouca ajuda.

O acidente

Gage era chefe de uma turma de construção da ferrovia Rutland & Burlington. O trabalho consistia em abrir caminho na rocha: perfurar um buraco, despejar pólvora, cobrir com areia e socar a mistura com uma barra de ferro para compactá-la.

A barra dele era feita sob medida, afinada numa das pontas. Naquele dia, por distração, ele socou antes de a areia ser despejada. O ferro raspou a rocha, soltou faísca e a pólvora explodiu debaixo dele.

Ao chegar ao hotel onde se hospedava, sentou-se na varanda e conversou com quem passava enquanto esperava o médico. Quando o dr. Edward Williams chegou, Gage o recebeu com uma frase que ficou registrada: "Doutor, aqui tem trabalho suficiente para o senhor."

Quatro meses depois

O tratamento ficou a cargo de John Martyn Harlow, o médico da cidade, que acompanhou o caso e o publicou. Gage teve infecção grave, ficou semiconsciente por semanas e perdeu a visão do olho esquerdo. Em novembro, pouco menos de dois meses após o acidente, já andava pela cidade. Em abril de 1849 voltou à casa dos pais, em New Hampshire, disposto a trabalhar.

Isso, por si só, já bastaria para o caso entrar na história da medicina. Só que não é por isso que ele entrou.

O que os livros dizem, e o que a pesquisa mostra

Vinte anos depois, em 1868, Harlow publicou um segundo relato. Nele descreveu o Gage do período pós-acidente como irregular, desrespeitoso, dado a palavrões que antes não usava, incapaz de sustentar um plano. E registrou a frase que virou a mais citada da neurociência: seus amigos diziam que ele "não era mais Gage".

Foi esse parágrafo que fez a fama do caso. Ele virou a prova de que o lobo frontal governa personalidade e autocontrole, o que em linhas gerais está certo e é uma contribuição real.

O problema é o que veio depois. Ao longo do século XX, os livros didáticos foram engrossando a história. Gage apareceu descrito como violento, alcoólatra, incapaz de manter emprego, vagando de circo em circo até morrer na miséria.

O historiador australiano Malcolm Macmillan foi atrás das fontes primárias e mostrou que quase nada disso se sustenta. As descrições mais pesadas não vêm de Harlow nem de ninguém que tenha convivido com Gage: foram sendo acrescentadas por autores que copiavam uns aos outros, cada vez mais longe do documento original.

O detalhe que ninguém conta

Aqui está a parte que sumiu dos livros, e é a mais interessante.

Por volta de 1852, Gage foi para o Chile. Passou cerca de sete anos trabalhando como condutor de diligência na linha entre Valparaíso e Santiago.

Pense no que esse trabalho exige: acordar em horário fixo, cuidar de uma parelha de seis cavalos, cobrar passagem, lidar com passageiros, decidir na hora em estrada de montanha. É quase um teste de todas as funções que ele supostamente teria perdido.

Macmillan chama isso de recuperação social: com rotina estruturada e uma função clara, Gage voltou a dar conta de um trabalho complexo. A leitura muda o sentido do caso. O lobo frontal não é um interruptor que desliga a pessoa para sempre. O cérebro se reorganiza, e o ambiente pesa nisso.

O caso mais citado como prova de dano permanente é, olhado de perto, um dos primeiros registros de reabilitação neurológica.

O fim

Em 1859 a saúde de Gage piorou e ele foi para São Francisco, onde a mãe morava. Em fevereiro de 1860 começou a ter convulsões, cada vez mais frequentes. Morreu em 21 de maio de 1860, aos 36 anos, onze anos e meio depois da explosão.

Não houve autópsia. Anos depois, a pedido de Harlow, a família autorizou a exumação. O crânio e a barra de ferro foram enviados a ele e, mais tarde, doados a Harvard.

Os dois estão lá até hoje, expostos juntos no Warren Anatomical Museum. A barra tem uma inscrição gravada, mandada fazer pelo próprio Gage, que a carregou consigo pelo resto da vida. É ela que ele segura na fotografia acima.

Fontes

  1. Recovery from the Passage of an Iron Bar through the Head (1868), John Martyn Harlow, Publications of the Massachusetts Medical Society
  2. An Odd Kind of Fame: Stories of Phineas Gage (2000), Malcolm Macmillan, MIT Press
  3. Rehabilitating Phineas Gage, Macmillan & Lena, Neuropsychological Rehabilitation (2010)
  4. The Warren Anatomical Museum: Phineas Gage skull and tamping iron, Countway Library, Harvard University

Perguntas frequentes

Phineas Gage sobreviveu ao acidente?
Sim. A barra de ferro atravessou seu crânio em 13 de setembro de 1848 e ele viveu mais 11 anos e meio, morrendo em 21 de maio de 1860, aos 36 anos, após uma série de convulsões.
É verdade que a personalidade dele mudou completamente?
Em parte. O médico John Harlow descreveu mudanças marcantes nos primeiros meses. Mas a pesquisa do historiador Malcolm Macmillan mostra que os livros didáticos exageraram muito o quadro: Gage se recuperou o suficiente para trabalhar anos como condutor de diligência no Chile, função que exige planejamento, pontualidade e trato social.
Onde está o crânio de Phineas Gage hoje?
No Warren Anatomical Museum, da Biblioteca Countway da Universidade Harvard, em Boston, exposto ao lado da própria barra de ferro.
Gostou? Manda para alguém:WhatsAppFacebookX

Leia também