Ele só conseguia dizer uma sílaba. Foi assim que descobrimos onde mora a fala
O paciente ficou conhecido como Tan, a única palavra que sabia pronunciar. O cérebro dele está guardado em Paris até hoje, e continua sendo estudado.

Em 30 segundos
- Louis Victor Leborgne perdeu a fala por volta dos 30 anos e passou 21 anos no hospício de Bicêtre, perto de Paris, respondendo a tudo com a sílaba "tan".
- Ele morreu em 17 de abril de 1861, seis dias depois de chegar à enfermaria do cirurgião Paul Broca, que encontrou uma grande lesão no lobo frontal esquerdo e a ligou à perda da fala.
- Broca não dissecou o cérebro: guardou-o em álcool num museu de Paris. Em 2007, uma ressonância mostrou que a lesão ia bem mais fundo do que ele tinha descrito.
Durante 21 anos, os funcionários do hospício de Bicêtre, perto de Paris, chamaram um dos internos de Tan. Era a única coisa que ele dizia. A qualquer pergunta, respondia tan, tan, sempre duas vezes, acompanhando a sílaba com gestos variados da mão esquerda.
Ele entendia o que lhe diziam e tinha boa audição. Quando o cérebro dele foi examinado, em abril de 1861, a lesão encontrada no lobo frontal esquerdo ajudou a convencer a comunidade médica de que a fala tinha um endereço no cérebro. O órgão existe até hoje, e o exame moderno mostrou que a história era mais complicada.
Quem era Tan
Por muito tempo, ele foi só "Monsieur Leborgne" nos livros. Em 2013, o historiador polonês Cezary Domanski encontrou nos registros franceses a identidade completa: Louis Victor Leborgne, nascido em Moret-sur-Loing, filho de um professor. Para Domanski, isso deveria enterrar de vez a ideia, repetida por décadas, de que ele era "um iletrado sem instrução da classe social mais baixa" (tradução nossa).
Segundo o relato de Broca, Leborgne tinha epilepsia desde jovem, mas trabalhou como formier, um artesão de fôrmas, até os 30 anos. As fontes divergem sobre o tipo de fôrma: de chapéu, na tradução do texto de Broca, ou de sapato, na leitura de Domanski. Por volta dos 30, perdeu a fala e foi internado em Bicêtre por isso.
Ali, ficou conhecido pelo apelido e por um traço que Broca registrou sem cerimônia: quando não conseguia se fazer entender, irritava-se e acrescentava ao vocabulário um palavrão, sempre o mesmo.
Depois de dez anos sem falar, o braço direito começou a ficar paralisado. A paralisia avançou para a perna, e ele passou cerca de sete anos de cama.
O encontro
Em 11 de abril de 1861, Leborgne, então com 50 anos, foi levado à enfermaria cirúrgica de Bicêtre com uma infecção gangrenosa que tomava a perna direita inteira. Foi ali que o cirurgião Paul Broca o viu pela primeira vez.
O exame foi difícil. Leborgne não falava e, com a mão direita paralisada, não podia escrever. Mas respondia a números abrindo e fechando os dedos da mão esquerda. Perguntado há quantos anos estava em Bicêtre, abriu a mão quatro vezes e depois mostrou um dedo: 21, o que era exato. Olhando um relógio, dizia a hora certa.
O momento não era casual. Na Sociedade de Antropologia de Paris, discutia-se se a linguagem dependia de uma região dos lobos frontais, como defendia o médico Bouillaud. Seu seguidor Auburtin tinha dito que abandonaria a tese se alguém mostrasse um único caso de perda da fala sem lesão nos lobos anteriores. Broca o convidou para examinar Leborgne em vida e dizer antes qual seria o diagnóstico.
Leborgne morreu em 17 de abril, às 11 horas da manhã. A autópsia foi feita 24 horas depois. O cérebro foi mostrado poucas horas mais tarde à Sociedade de Antropologia e, em seguida, posto em álcool.
De Bicêtre à ressonância
- Por volta de 1840Aos 30 anos, Leborgne perde a fala e é internado em Bicêtre.
- 11 de abril de 1861Chega à enfermaria cirúrgica de Paul Broca com uma infecção na perna direita.
- 17 de abril de 1861Morre às 11 horas. A autópsia é feita 24 horas depois.
- 18 de abril de 1861O cérebro é apresentado à Sociedade de Antropologia de Paris.
- 2007Ressonância de alta resolução mostra que a lesão chegava a regiões mediais do cérebro.
- 2013O historiador Cezary Domanski revela a identidade completa do paciente.
- 2016O Museu Dupuytren fecha; a coleção vai para reservas da Sorbonne Université.
O que Broca viu
Na superfície do hemisfério esquerdo havia uma cavidade do tamanho de um ovo de galinha, cheia de líquido. Broca descreveu um amolecimento lento, de muitos anos, que tinha destruído a metade posterior da terceira circunvolução frontal e parte da segunda, e que também alcançava a ínsula e parte do corpo estriado, mais fundo.
Ele concluiu que a lesão tinha começado no lobo frontal, onde o dano era mais antigo e mais extenso, e que essa lesão inicial explicava a perda da fala. A paralisia viera depois, quando o amolecimento se espalhou. Deu ao quadro o nome de aphémie. O termo que pegou, afasia, foi cunhado na mesma época pelo médico Armand Trousseau.
O que o caso provou, e o que não provou
Ainda em 1861, Broca descreveu um segundo paciente que perdera a fala, Lelong. A região do lobo frontal esquerdo ligada à produção da fala passou a se chamar área de Broca.
Broca não foi o primeiro a propor que a fala dependia dos lobos frontais. Bouillaud e Auburtin defendiam isso antes dele. O caso de Leborgne foi o que convenceu a comunidade, e o historiador Stanley Finger o descreve como um "ponto de virada" na história das ciências do cérebro.
Mas um único paciente com uma lesão grande não diz onde começa nem onde termina uma função. A ideia de que a área de Broca é "o centro da fala" é uma simplificação. Estudos mais recentes com pacientes sugerem que outras regiões também participam da produção da fala, algumas delas mais profundas que a área descrita por Broca.
O detalhe que amarra tudo
Broca tomou uma decisão incomum: não dissecou o cérebro de Leborgne. Fez só o exame da superfície e guardou o órgão inteiro. O cérebro, muito alterado, levou dois meses e várias trocas de álcool para firmar. Foi depositado no Museu Dupuytren, em Paris, sob o número 55a da seção de sistema nervoso.
O intervalo até alguém conseguir olhar lá dentro sem cortar foi de 146 anos. Em 2007, a neurocientista Nina Dronkers e colegas levaram o cérebro de Leborgne e o de Lelong a um aparelho de ressonância magnética de alta resolução.
O exame confirmou a lesão na superfície que Broca descreveu, mas mostrou que, nos dois pacientes, o dano se estendia significativamente para regiões mediais do cérebro. Também encontrou inconsistências entre a área que Broca identificou e aquilo que hoje se chama área de Broca. O prejuízo de Leborgne não vinha só da região que leva o nome do médico.
Ou seja: o exame moderno confirmou a intuição central e corrigiu a versão simplificada que virou livro didático. As duas coisas ao mesmo tempo.

O caso de Leborgne é o avesso de outro clássico. De Phineas Gage sabemos muito da vida e pouco do cérebro, que não foi preservado. De Leborgne, sabíamos tudo do cérebro e quase nada da vida. Um século depois, Henry Molaison faria pela memória o que Tan fez pela fala.
O Museu Dupuytren fechou definitivamente em 2016. A coleção, com o cérebro de Leborgne, está hoje nas reservas da Sorbonne Université, no campus de Jussieu, aberta a pesquisadores mediante pedido. O maior serviço que Broca prestou à ciência pode não ter sido o que ele viu. Foi o que decidiu não cortar.
Fontes
- Paul Broca's historic cases: high resolution MR imaging of the brains of Leborgne and Lelong (2007), Dronkers, Plaisant, Iba-Zizen & Cabanis, Brain
- Loss of Speech, Chronic Softening and Partial Destruction of the Anterior Left Lobe of the Brain (1861), Paul Broca, Bulletin de la Société Anthropologique — tradução de Christopher D. Green, York University
- Remarks on the Seat of the Faculty of Articulated Language, Following an Observation of Aphemia (1861), Paul Broca, Bulletin de la Société Anatomique — tradução de Christopher D. Green, York University
- Mysterious "Monsieur Leborgne": The mystery of the famous patient in the history of neuropsychology is explained (2013), Cezary W. Domanski, Journal of the History of the Neurosciences
- Glimpsed at last – the life of neuropsychology’s most important patient (2013), British Psychological Society, Research Digest
- Collections d’anatomie pathologique Dupuytren (2020), Sorbonne Université
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Perguntas frequentes
- Quem foi o paciente Tan?
- Louis Victor Leborgne, nascido em Moret-sur-Loing, na França, e internado no hospício de Bicêtre, perto de Paris, depois de perder a fala por volta dos 30 anos. Passou 21 anos lá respondendo a quase tudo com a sílaba "tan", que virou seu apelido. Morreu em 17 de abril de 1861, aos cuidados de Paul Broca.
- O que é a área de Broca?
- Uma região do lobo frontal esquerdo associada à produção da fala, batizada em homenagem a Paul Broca. Lesões ali costumam prejudicar a articulação da linguagem, preservando em boa parte a compreensão. Pesquisas posteriores mostraram que outras regiões, mais profundas, também participam da produção da fala.
- O cérebro dele ainda existe?
- Sim. Broca o preservou inteiro em álcool e o depositou no Museu Dupuytren, em Paris. O museu fechou em 2016, e a coleção hoje fica em reservas da Sorbonne Université. Em 2007, uma equipe fez ressonância magnética de alta resolução no espécime, sem abri-lo.
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