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Ele só conseguia dizer uma sílaba. Foi assim que descobrimos onde mora a fala

O paciente ficou conhecido como Tan, a única palavra que sabia pronunciar. O cérebro dele está guardado em Paris até hoje, e continua sendo estudado.

Por Redação Fatos e Relatos3 min de leitura
Retrato fotográfico do médico francês Paul Broca, de barba e terno escuro, no século XIX.
Pierre Petit, via Wikimedia Commons · Domínio público

Louis Victor Leborgne entrou no hospital Bicêtre, perto de Paris, aos 30 anos. Ele entendia o que diziam, tinha inteligência preservada e conseguia se comunicar por gestos. Mas quando abria a boca, saía sempre a mesma coisa: a sílaba tan, geralmente repetida duas vezes.

Foi assim por 21 anos. Os funcionários passaram a chamá-lo simplesmente de Tan.

O encontro

Em 11 de abril de 1861, Leborgne foi transferido para a enfermaria cirúrgica de Paul Broca, com uma infecção grave na perna. Ele morreu seis dias depois.

Broca fez a autópsia no dia seguinte e encontrou uma lesão no lobo frontal esquerdo, na terceira circunvolução. Apresentou o caso à Sociedade Antropológica de Paris naquela mesma semana.

O momento não era casual. Havia anos que a comunidade médica europeia discutia se as funções mentais tinham endereço no cérebro ou se o órgão trabalhava como um todo indivisível. Faltava evidência que resolvesse a disputa.

O que o caso provou, e o que não provou

Broca acumulou outros casos parecidos nos anos seguintes, incluindo o de Lazare Lelong, e formulou a conclusão que ficou: a produção da fala depende de uma região específica do hemisfério esquerdo. É o que hoje se chama área de Broca, e o quadro clínico correspondente é a afasia de Broca.

Foi a primeira demonstração convincente de que o cérebro tem divisão de trabalho por região. Praticamente toda a neurologia moderna sai dali.

Mas vale registrar o que o caso não provou. Um único paciente com uma lesão não diz onde começa nem onde termina a função, e a ideia de que a área de Broca é "o centro da fala" é uma simplificação que a pesquisa posterior desmontou. Falar envolve uma rede distribuída, e a região de Broca é um nó dela, não o comando.

O detalhe que amarra tudo

Broca tomou uma decisão que os colegas da época achariam estranha: não dissecou o cérebro de Leborgne. Preservou o órgão inteiro em álcool e o depositou num museu anatômico, dizendo que gerações futuras teriam métodos melhores que os dele.

Ele estava certo, e o intervalo foi de 146 anos.

Em 2007, uma equipe liderada pela neurocientista Nina Dronkers levou o espécime do Museu Dupuytren a um aparelho de ressonância magnética de alta resolução. O exame atravessou o tecido sem tocar nele.

E mostrou algo que Broca não tinha como ver. A lesão superficial que ele descreveu era a ponta de um dano bem maior, que se estendia para dentro do cérebro e atingia estruturas profundas e feixes de fibras que conectam regiões distantes. O prejuízo de Leborgne não vinha só da área que leva o nome de Broca.

Ou seja: o exame moderno confirmou a intuição central e corrigiu a versão simplificada que virou livro didático. As duas coisas ao mesmo tempo.

Nada disso teria sido possível se Broca tivesse feito o que se esperava dele em 1861. O maior serviço que ele prestou à ciência não foi o corte que fez. Foi o que decidiu não cortar.

Fontes

  1. Paul Broca's historic cases: high resolution MR imaging of the brains of Leborgne and Lelong (2007), Dronkers, Plaisant, Iba-Zizen & Cabanis, Brain
  2. Perte de la parole, ramollissement chronique et destruction partielle du lobe antérieur gauche du cerveau (1861), Paul Broca, Bulletins de la Société Anthropologique de Paris

Perguntas frequentes

Quem foi o paciente Tan?
Louis Victor Leborgne, francês internado no hospital Bicêtre, perto de Paris. Ele perdeu progressivamente a fala a partir dos 30 anos e passou o resto da vida conseguindo pronunciar praticamente só a sílaba "tan", que virou seu apelido. Morreu em 1861.
O que é a área de Broca?
Uma região do lobo frontal esquerdo ligada à produção da fala. Lesões ali costumam prejudicar a capacidade de articular linguagem, preservando em boa parte a compreensão.
O cérebro dele ainda existe?
Sim. Broca preservou o cérebro em vez de dissecá-lo, e ele está no acervo do Museu Dupuytren, em Paris. Em 2007, uma equipe fez ressonância magnética de alta resolução no espécime, sem abri-lo.
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