Um estudante de 13 anos foi ridicularizado na aula por dizer que água quente congela antes da fria
Erasto Mpemba insistiu, acabou publicando o resultado com um físico e ganhou um efeito com seu nome. Sessenta anos depois, ninguém conseguiu reproduzi-lo direito.

Em 1963, na escola secundária Magamba, na Tanzânia, uma turma de adolescentes fazia sorvete numa aula de culinária. A receita mandava ferver o leite, esperar esfriar e levar ao congelador.
Erasto Mpemba, 13 anos, viu que os colegas estavam ocupando os últimos espaços do freezer e não quis esperar o leite esfriar. Colocou fervendo mesmo.
Uma hora e meia depois, o dele estava congelado. O dos colegas, que tinham esperado esfriar, ainda não.
A pergunta que rendeu chacota
Mpemba perguntou ao professor de física por que aquilo tinha acontecido.
A resposta, segundo o relato dele, foi que ele devia estar confundindo as coisas. Quando insistiu, virou piada da turma. Erro dele passou a ser chamado de "física do Mpemba".
Ele testou de novo com água em vez de leite. Deu o mesmo resultado. Perguntou a outros professores, e ouviu a mesma coisa.
O físico que resolveu ouvir
Em 1966, o físico britânico Denis Osborne, da Universidade de Dar es Salaam, foi dar uma palestra na escola de Mpemba, que então estudava no ensino médio.
No fim, Mpemba fez a pergunta. Os colegas riram outra vez.
Osborne não riu. Respondeu que não sabia, mas que iria verificar. Voltou para o laboratório e pediu a um técnico que repetisse o procedimento. O técnico relatou o mesmo resultado, com o comentário de que continuaria testando até obter o resultado esperado.
Osborne convidou o adolescente a assinar o artigo com ele. "Cool?" saiu na revista Physics Education em 1969, com Erasto B. Mpemba como primeiro autor.
O fenômeno passou a se chamar efeito Mpemba.
As explicações propostas
Ao longo de cinco décadas, apareceram várias hipóteses. Entre as mais citadas:
- Evaporação. A água quente perde massa evaporando, e sobra menos líquido para congelar.
- Convecção. As correntes internas de um líquido quente distribuem calor de forma diferente.
- Gases dissolvidos. Água fervida perde gases, e isso mudaria o congelamento.
- Contato com a superfície. Um recipiente quente derrete a camada de gelo sob si e passa a ter contato térmico melhor com a prateleira.
- Ligações de hidrogênio. Propostas sobre a estrutura molecular da água.
Nenhuma explicou todos os relatos, e várias eram incompatíveis entre si.
O estudo que virou a mesa
Em 2016, Henry Burridge e Paul Linden, então na Universidade de Cambridge, publicaram na Scientific Reports uma tentativa cuidadosa de reproduzir o efeito.
Eles repetiram o experimento muitas vezes, controlando o que os estudos anteriores não controlavam com rigor, e chegaram a uma conclusão desconfortável.
O resultado dependia de onde o termômetro estava. Pequenas diferenças no posicionamento do sensor dentro do recipiente mudavam completamente qual amostra parecia congelar primeiro. Deslocando o sensor poucos centímetros, o efeito aparecia ou sumia.
Os autores concluíram que não havia evidência de que água quente esfria mais rápido, e que os relatos anteriores eram provavelmente artefato de medição.
O trabalho não encerrou o debate. Publicações posteriores relataram efeitos parecidos em outros sistemas, como materiais granulares e simulações. Mas para água em recipiente, que é a versão popular da história, a evidência hoje é fraca.
O detalhe que amarra tudo
Repare no que sobrou dessa história depois de sessenta anos.
O fenômeno que Mpemba descreveu provavelmente não existe da forma como ficou famoso. E ainda assim ele está certo no que importa.
Ele observou algo, foi contrariado pela autoridade da sala, testou de novo, insistiu, e encontrou um adulto disposto a responder "não sei, vamos verificar". Esse é o procedimento inteiro. Foi assim que a observação virou artigo, o artigo virou objeto de estudo, e o estudo acabou mostrando que a observação original era provavelmente um erro de medida.
O sistema funcionou exatamente como deveria. Levou meio século, mas funcionou.
Erasto Mpemba nunca virou físico. Formou-se em manejo de fauna, trabalhou como funcionário público na Tanzânia e morreu em 2020, aos 70 anos. O efeito com seu nome continua nos livros, agora com uma nota de rodapé sobre a controvérsia.
Ele foi o único aluno da turma a insistir na pergunta. É por isso que a gente sabe o nome dele.
Fontes
- Cool? (1969), Erasto B. Mpemba e Denis G. Osborne, Physics Education
- Questioning the Mpemba effect: hot water does not cool more quickly than cold (2016), Henry Burridge e Paul Linden, Scientific Reports
Perguntas frequentes
- O que é o efeito Mpemba?
- A observação de que, em certas condições, água inicialmente mais quente pode congelar antes de água inicialmente mais fria. Leva o nome de Erasto Mpemba, estudante tanzaniano que descreveu o fenômeno em 1963 fazendo sorvete na escola.
- O efeito Mpemba é real?
- É contestado. Em 2016, um estudo publicado na Scientific Reports repetiu o experimento com controle rigoroso e não conseguiu reproduzir o efeito de forma consistente. Os autores concluíram que os relatos anteriores provavelmente vinham de variações no posicionamento dos sensores de temperatura.
- Quem foi Erasto Mpemba?
- Um tanzaniano nascido em 1950 que, aos 13 anos, notou o fenômeno na aula de culinária. Publicou o artigo com o físico britânico Denis Osborne em 1969, formou-se em manejo de fauna e trabalhou como funcionário público na Tanzânia. Morreu em 2020.
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