Ele viveu 55 anos sem conseguir formar uma memória nova
Uma cirurgia experimental em 1953 apagou a capacidade de Henry Molaison de guardar qualquer coisa. Ele se tornou o paciente mais estudado da história da neurociência.

Em 30 segundos
- Em 1º de setembro de 1953, aos 27 anos, Henry Molaison teve partes dos dois lobos temporais removidas para tratar uma epilepsia grave e perdeu a capacidade de formar memórias conscientes duradouras.
- Ele conservou a inteligência, boa parte das lembranças antigas e a capacidade de aprender habilidades: melhorou num teste de desenho no espelho sem lembrar de tê-lo feito.
- Conhecido nos artigos apenas como H.M., foi estudado por cinco décadas e teve o nome revelado só depois da morte, em 2 de dezembro de 2008, aos 82 anos.
- Um ano depois, o cérebro dele foi cortado em 2.401 fatias numa sessão de 53 horas transmitida pela internet; a análise mostrou que parte do hipocampo tinha sobrevivido à cirurgia.
Em 1º de setembro de 1953, o neurocirurgião William Scoville operou, no Hospital de Hartford, em Connecticut, um homem de 27 anos com epilepsia grave. Henry Gustav Molaison saiu da cirurgia com as crises controladas e sem conseguir formar uma lembrança nova.
Ele viveu mais 55 anos. Nesse tempo, virou provavelmente o paciente mais conhecido da história da neurociência, e mostrou que a memória não é uma coisa só.
A cirurgia
Molaison foi derrubado por uma bicicleta na infância, começou a ter crises leves aos 10 anos e crises graves na adolescência. As fontes divergem sobre a idade exata: 15 anos, segundo a equipe que examinou o cérebro dele, ou 16, segundo uma revisão de 2009. Trabalhou um tempo numa linha de montagem. Em 1953, mesmo com doses altas de anticonvulsivantes, já não conseguia trabalhar nem levar uma vida normal.
Scoville ofereceu um procedimento experimental que já tinha feito em pacientes psiquiátricos: retirar, dos dois lados, estruturas da parte interna do lobo temporal, incluindo o hipocampo. O paciente e a família aprovaram.
A cirurgia funcionou para o que se propunha: a frequência das crises caiu, embora Molaison continuasse a tomar remédio. O efeito colateral não estava previsto por ninguém.
O que exatamente ele perdia
Em 1955, depois que dois casos parecidos, operados pelo neurocirurgião Wilder Penfield, foram apresentados num congresso de neurologia, Scoville telefonou para Penfield contando o caso do seu paciente. Foi assim que Brenda Milner, do Instituto Neurológico de Montreal, viajou a Hartford para estudar Molaison.
Ela encontrou alguém que esquecia os acontecimentos do dia quase tão depressa quanto eles ocorriam, sem perda de inteligência ou de percepção. Ele subestimava a própria idade e se desculpava por esquecer o nome de pessoas que acabavam de ser apresentadas. Descrevia o próprio estado como "acordar de um sonho": "cada dia é sozinho em si mesmo" (tradução nossa).
O artigo de Scoville e Milner, de 1957, tornou-se um dos mais citados da neurociência. O que o torna valioso é a precisão do quadro:
- A memória imediata estava intacta. Ele repetia sequências de seis ou sete dígitos e conseguia manter um número de três dígitos por até 15 minutos, repetindo-o mentalmente. Bastava mudar de assunto para esquecer tudo.
- Desenhos e rostos sumiam mais rápido. O que não dava para repetir em voz baixa escapava em menos de um minuto.
- As lembranças antigas estavam quase todas lá. O artigo de 1957 registrou perda parcial dos três anos anteriores à cirurgia, com memórias antigas "aparentemente normais". Em 1975, ele reconheceu rostos de famosos das décadas anteriores à operação tão bem quanto pessoas da mesma idade.
- Nada novo se fixava. Ele não reconhecia funcionários e médicos que tinha visto minutos antes.
A cientista do MIT que o estudava regularmente precisava se apresentar de novo a cada encontro. O MIT acompanhava Molaison desde 1966, e Suzanne Corkin, ex-aluna de Milner, coordenou as pesquisas nas décadas finais.
A descoberta que ninguém esperava
A surpresa veio num teste de habilidade publicado por Milner em 1962. Ela mostrou a Molaison uma estrela de cinco pontas com contorno duplo e pediu que ele traçasse o desenho vendo a mão e a estrela só pelo reflexo num espelho. É difícil, porque a imagem chega invertida.
Ao longo de dez tentativas, ele aprendeu, e reteve a habilidade por três dias. No fim dos testes, não tinha lembrança nenhuma de já ter feito aquilo.
Foi a primeira pista de que existe mais de um tipo de memória. Um sistema guarda fatos e episódios que a gente sabe que sabe, e depende da região que Molaison perdeu. Outro guarda habilidades, funciona sem consciência e depende de outras estruturas, como os gânglios da base e o cerebelo. Hoje, os neurocientistas chamam o primeiro de memória declarativa.
Até ali, por influência do neuropsicólogo Karl Lashley, a ideia dominante era que a memória se espalhava pelo córtex inteiro, misturada à inteligência e à percepção. O caso mostrou que não.
Não era só o hipocampo
O artigo de 1957 tinha "hipocampo" no título, e por isso é muitas vezes citado como prova de que o hipocampo é a sede da memória. A própria Milner corrigiu isso: "apesar do uso da palavra 'hipocampal' nos títulos dos meus artigos com Scoville e Penfield, nunca afirmei que a perda de memória se devia apenas às lesões no hipocampo" (tradução nossa).
A cirurgia tinha retirado também a amígdala e parte do giro para-hipocampal. Exames de ressonância feitos em 1992 e 1993 mostraram que a lesão era menor do que Scoville descrevera: um pouco mais de 5 centímetros a partir da ponta do lobo temporal, e não 8. A gravidade da amnésia vinha justamente de a lesão ir além do hipocampo.

O paciente H.M.
Por toda a vida, Molaison foi identificado nos artigos só pelas iniciais H.M., para proteger sua privacidade. O nome verdadeiro só foi divulgado depois da morte, em 2 de dezembro de 2008, aos 82 anos, de insuficiência respiratória.
Quem o estudou o descreve como um homem quieto, cortês, com senso de humor e consciência da própria condição. Sobre o neurocirurgião que o operou, disse certa vez: "O que ele aprendeu sobre mim ajudou outras pessoas, e fico feliz com isso" (tradução nossa).
Anos antes, ele tinha consentido em doar o próprio cérebro para pesquisa.
O detalhe que amarra tudo
Em fevereiro de 2009, o neurocientista Jacopo Annese levou o cérebro de avião para o Brain Observatory, em San Diego, ligado à Universidade da Califórnia. O órgão passou meses em fixação e em soluções de açúcar, para não rachar ao ser congelado.
Em dezembro de 2009, no primeiro aniversário da morte, começou o corte. O cérebro congelado foi fatiado sem interrupção durante 53 horas, e o processo foi filmado e transmitido ao vivo pela internet. Resultaram 2.401 imagens anatômicas e cortes colhidos a cada 70 micrômetros, base de uma reconstrução digital em 3D.
A análise, publicada em 2014, encontrou o que as ressonâncias não conseguiam mostrar com clareza: uma quantidade significativa de hipocampo tinha sobrevivido à cirurgia, além de uma pequena lesão no córtex orbitofrontal esquerdo e de alterações difusas na substância branca. Mesmo o cérebro mais estudado da neurociência ainda guardava surpresas.
Molaison é parte de uma linhagem de pacientes que ensinaram, pelo que perderam, como o cérebro se organiza: antes dele, o paciente Tan e a área da fala e Phineas Gage e a barra de ferro. E é o avesso exato de Solomon Shereshevsky, o homem que não conseguia esquecer.
Ele passou a vida sem conseguir guardar o dia anterior. E é ele que a neurociência não consegue esquecer.
Para outro caso em que uma única pessoa virou laboratório da mente, há o de Michel Siffre, que passou 63 dias numa caverna sem relógio.
Fontes
- Loss of recent memory after bilateral hippocampal lesions (1957), Scoville & Milner, Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry
- The Legacy of Patient H.M. for Neuroscience (2009), Larry R. Squire, Neuron
- Postmortem examination of patient H.M.'s brain based on histological sectioning and digital 3D reconstruction (2014), Jacopo Annese e colegas, Nature Communications
- What's new with the amnesic patient H.M.? (2002), Suzanne Corkin, Nature Reviews Neuroscience
- Making Memories (2017), Israel Rosenfield e Edward Ziff, The New York Review of Books
- Famous brain falls to slices (2009), Nature, blog The Great Beyond
- The Brain Observatory: Patient H.M., The Brain Observatory, San Diego
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Perguntas frequentes
- Quem foi Henry Molaison?
- Um americano de Connecticut que, aos 27 anos, em 1953, passou por uma cirurgia experimental para tratar epilepsia grave. O procedimento removeu partes dos lobos temporais dos dois lados e o deixou incapaz de formar novas memórias conscientes duradouras. Ele foi identificado nos artigos apenas como H.M. até morrer, em 2 de dezembro de 2008, aos 82 anos.
- Ele esquecia tudo?
- Não. Ele conservava a inteligência, boa parte das lembranças anteriores à cirurgia e a memória imediata: repetia sequências de seis ou sete dígitos e conseguia segurar um número de três dígitos por até 15 minutos repetindo-o mentalmente. Também aprendia habilidades motoras normalmente. O que sumiu foi a capacidade de transformar experiências novas em lembranças duradouras.
- O que o caso dele ensinou?
- Que a memória é uma função separável da inteligência e da percepção, e que existe mais de um sistema de memória. A região medial do lobo temporal, que inclui o hipocampo, é necessária para formar memórias conscientes novas, mas não para guardar lembranças antigas nem para aprender habilidades práticas.
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