Ele viveu 55 anos sem conseguir formar uma memória nova
Uma cirurgia experimental em 1953 apagou a capacidade de Henry Molaison de guardar qualquer coisa. Ele se tornou o paciente mais estudado da história da neurociência.

Em 1º de setembro de 1953, um jovem de 27 anos entrou numa sala de cirurgia em Hartford, nos Estados Unidos, para tratar crises epilépticas que remédio nenhum controlava. Saiu de lá sem nunca mais conseguir formar uma lembrança nova.
Henry Gustav Molaison viveu mais 55 anos. Em todos eles, apresentaram-se a ele milhares de vezes as mesmas pessoas.
A cirurgia
Molaison tinha crises desde a adolescência, e por volta dos 27 anos elas o haviam incapacitado para o trabalho. O neurocirurgião William Beecher Scoville propôs um procedimento experimental: remover, dos dois lados, uma porção do lobo temporal medial, onde ele suspeitava que as crises começavam.
A cirurgia funcionou para o que se propunha. As crises diminuíram muito.
O efeito colateral não estava previsto por ninguém. Ao acordar, Molaison reconhecia os pais, sabia quem era, falava normalmente e tinha inteligência preservada. Mas não conseguia guardar nada de novo.
O que exatamente ele perdia
Scoville chamou a colega Brenda Milner, do Instituto Neurológico de Montreal, para estudar o caso. O trabalho que os dois publicaram em 1957 é um dos artigos mais citados da neurociência.
Milner descreveu um quadro específico, e é a especificidade que torna o caso valioso:
- A memória imediata estava intacta. Ele repetia um número de telefone e o mantinha na cabeça por cerca de trinta segundos, desde que não fosse interrompido.
- As lembranças antigas estavam quase todas lá. Ele contava a infância, reconhecia a família, sabia acontecimentos anteriores à cirurgia.
- Nada novo se fixava. Passada a distração, o que tinha acabado de acontecer desaparecia. Ele leu a mesma revista incontáveis vezes sem reconhecê-la.
Milner o acompanhou por décadas. A cada visita, precisava se apresentar de novo.
A descoberta que ninguém esperava
Em 1962, Milner pediu que Molaison desenhasse contornando uma estrela olhando apenas para o reflexo num espelho. É difícil: a mão se atrapalha porque a imagem está invertida.
Ela repetiu o teste em dias seguidos. Molaison melhorava a cada tentativa, com a curva de aprendizado de qualquer pessoa saudável.
E, a cada sessão, dizia com sinceridade que nunca tinha feito aquilo antes.
Foi a demonstração decisiva de que existe mais de um tipo de memória. Uma delas guarda fatos e episódios que a gente sabe que sabe, e depende do hipocampo. A outra guarda habilidades motoras, funciona sem consciência e vive em outro lugar do cérebro. Molaison tinha perdido a primeira e conservado a segunda inteira.
Até ali, a hipótese dominante era que a memória se distribuía por todo o córtex sem endereço definido. O caso mostrou que não.
O paciente H.M.
Por toda a vida, Molaison foi identificado nos artigos apenas pelas iniciais H.M., para proteger sua identidade. Ele participou de estudos por mais de cinquenta anos, sempre consentindo de novo, porque nunca lembrava de ter consentido antes.
Suzanne Corkin, do MIT, coordenou as pesquisas nas décadas finais. Molaison morreu em 2 de dezembro de 2008, aos 82 anos. Só então o nome foi divulgado.
Ele havia autorizado, em vida, a doação do próprio cérebro.
O detalhe que amarra tudo
Nas semanas seguintes à morte, o cérebro de Molaison foi congelado e cortado em 2.401 fatias de 70 micrômetros cada, ao longo de 53 horas de trabalho contínuo, transmitido ao vivo pela internet por uma equipe da Universidade da Califórnia em San Diego.
O procedimento gerou um atlas digital em alta resolução, aberto a qualquer pesquisador. Isso significa que o cérebro que não conseguia registrar nada virou, no fim, o registro mais detalhado que a neurociência já produziu de um cérebro humano individual.
Molaison passou a vida sem conseguir guardar o dia anterior. E é ele que a neurociência não consegue esquecer.
Fontes
- Loss of recent memory after bilateral hippocampal lesions (1957), Scoville & Milner, Journal of Neurology, Neurosurgery & Psychiatry
- What's new with the amnesic patient H.M.? (2002), Suzanne Corkin, Nature Reviews Neuroscience
- The Brain Observatory: o cérebro de H.M., The Brain Observatory, Universidade da Califórnia em San Diego
Perguntas frequentes
- Quem foi Henry Molaison?
- Um americano nascido em 1926 que, aos 27 anos, passou por uma cirurgia experimental para tratar epilepsia grave. O procedimento removeu partes dos dois lobos temporais e o deixou incapaz de formar novas memórias de longo prazo. Ele foi conhecido pelas iniciais H.M. até sua morte, em 2008.
- Ele esquecia tudo?
- Não. Ele mantinha a maior parte das lembranças anteriores à cirurgia, guardava informação por cerca de 30 segundos e aprendia habilidades motoras normalmente. O que sumiu foi a capacidade de transformar experiências novas em lembranças duradouras.
- O que o caso dele ensinou?
- Que a memória não é uma função única espalhada pelo cérebro, e sim um conjunto de sistemas separados. O hipocampo é necessário para formar memórias conscientes novas, mas não para guardar as antigas nem para aprender habilidades práticas.
Leia também

Ciência · 3 min
Um estudante de 13 anos foi ridicularizado na aula por dizer que água quente congela antes da fria
Erasto Mpemba insistiu, acabou publicando o resultado com um físico e ganhou um efeito com seu nome. Sessenta anos depois, ninguém conseguiu reproduzi-lo direito.

Ciência · 3 min
O cheiro de chuva tem nome, causa conhecida e dois descobridores australianos
Chama-se petricor. Dois pesquisadores isolaram a substância em 1964, e só em 2015 alguém filmou como ela chega até o seu nariz.