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A conta de que temos 10 bactérias para cada célula do corpo estava errada por um fator de dez

O número apareceu em 1972 numa estimativa feita em poucos parágrafos, sem dados. Levou 44 anos para alguém refazer a conta.

Por Redação Fatos e Relatos3 min de leitura
Imagem de microscopia eletrônica mostrando bactérias Escherichia coli ampliadas dez mil vezes, com coloração digital.
Eric Erbe e Christopher Pooley, USDA, via Wikimedia Commons · Domínio público

Você provavelmente já ouviu que o corpo humano tem dez vezes mais células bacterianas do que células próprias. Que, em número, somos mais bactéria do que gente.

A frase aparece em livro didático, em palestra e em reportagem há quatro décadas.

Ela está errada.

De onde veio o número

Em 1972, o microbiologista Thomas Luckey publicou um artigo de revisão sobre a flora intestinal. Em uma passagem curta, estimou a quantidade de bactérias no trato digestivo humano.

O cálculo era simples: supôs uma concentração de bactérias por grama de conteúdo intestinal e multiplicou pelo volume total do trato digestivo.

O resultado foi da ordem de 100 trilhões. Comparado a uma estimativa corrente de 10 trilhões de células humanas, dava a razão de 10 para 1.

Não havia medição, nem margem de erro, nem detalhamento do método. Era uma estimativa de ordem de grandeza, apresentada como tal.

O número saiu do artigo e virou fato. Foi citado em milhares de trabalhos ao longo de 44 anos, cada citação se apoiando na anterior.

A recontagem

Em 2016, Ron Sender, Shai Fuchs e Ron Milo, do Instituto Weizmann, em Israel, refizeram a conta com dados de imagem médica e de análise de tecido.

Duas correções mudaram tudo.

A primeira foi sobre o volume. A estimativa de 1972 usava o volume de todo o trato digestivo. Mas a densidade bacteriana só é alta no intestino grosso, e mais especificamente no cólon. O estômago e boa parte do intestino delgado são ambientes ruins para bactéria. O volume relevante é bem menor do que o utilizado.

A segunda foi sobre as nossas células. A contagem de 10 trilhões estava subestimada. Ao somar de fato os tipos celulares, com dados de tecido, o total chega perto de 30 trilhões.

E aqui aparece o dado que costuma surpreender mais que o resultado principal: cerca de 84% das células humanas do corpo são hemácias. Glóbulos vermelhos, pequenos e sem núcleo. Quando alguém imagina "as células do corpo", pensa em pele ou músculo. Em número, o corpo é esmagadoramente sangue.

O resultado

A conta revisada, para um homem de referência de 70 quilos:

  • cerca de 38 trilhões de bactérias
  • cerca de 30 trilhões de células humanas
  • razão em torno de 1,3 para 1

Não é dez para um. É quase empate.

Os autores acrescentam uma observação prática: como a maior parte das bactérias está no cólon, uma evacuação altera a razão de forma perceptível. Depois dela, por um período, a balança pende para o lado humano.

O detalhe que amarra tudo

Sender, Fuchs e Milo notam algo no artigo que vai além da aritmética.

O número de 1972 nunca foi apresentado como medida definitiva. Foi uma estimativa honesta e claramente rotulada como aproximação. O que aconteceu com ele foi um problema de transmissão, não de origem.

A cada citação, a ressalva ia caindo. O que era "da ordem de" virou "cerca de", que virou "dez vezes mais", que virou "somos mais bactéria do que humanos".

O mesmo mecanismo, aliás, que transformou o caso de Phineas Gage numa história que os documentos originais não sustentam, e que fez o pânico da Guerra dos Mundos crescer de uma noite para outra.

E vale registrar o que a correção não faz. Ela não diminui a importância do microbioma. Trinta e oito trilhões de bactérias continuam sendo um número enorme, e o papel delas na digestão, na imunidade e no metabolismo segue tão relevante quanto era.

O que se perdeu foi só a frase de efeito.

Fontes

  1. Revised Estimates for the Number of Human and Bacteria Cells in the Body (2016), Sender, Fuchs e Milo, Instituto Weizmann, PLOS Biology

Perguntas frequentes

Quantas bactérias existem no corpo humano?
A estimativa mais recente, publicada em 2016, aponta cerca de 38 trilhões de bactérias contra cerca de 30 trilhões de células humanas, numa razão próxima de 1,3 para 1. A maior parte das bactérias fica no intestino grosso.
De onde veio o número de 10 para 1?
De uma estimativa publicada em 1972 pelo microbiologista Thomas Luckey, feita de forma aproximada e sem dados de sustentação. O número foi citado e recitado por décadas sem que ninguém refizesse o cálculo.
A maior parte das nossas células é sangue?
Sim. Cerca de 84% das células humanas do corpo são hemácias, os glóbulos vermelhos. Elas são pequenas e não têm núcleo, o que costuma surpreender quem imagina as células do corpo como células de músculo ou de pele.
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