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Um tiro abriu um buraco permanente no estômago dele. O médico passou 8 anos olhando lá dentro

Alexis St. Martin levou um tiro em 1822 e sobreviveu com uma fístula que nunca fechou. Foram 238 experimentos e o nascimento da fisiologia da digestão — sob um contrato que hoje não passaria em nenhum comitê de ética.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
Retrato de William Beaumont, cirurgião do Exército dos Estados Unidos que conduziu experimentos sobre a digestão em Alexis St. Martin.
Wellcome Collection, via Wikimedia Commons · CC BY 4.0

Em 6 de junho de 1822, um disparo acidental de mosquete à queima-roupa atingiu o canadense Alexis St. Martin, de 20 anos, num entreposto de peles na ilha Mackinac. O ferimento perfurou o estômago, feriu o pulmão e quebrou costelas. Ninguém esperava que ele sobrevivesse.

Ele viveu mais 58 anos — com um buraco aberto no estômago que nunca fechou.

O ferimento que virou uma janela

William Beaumont, cirurgião do Exército dos Estados Unidos lotado num posto próximo, atendeu o caso. Sangrou o paciente, deu um purgante e acompanhou o que esperava ser uma morte.

Por onze dias St. Martin teve febre, dificuldade para respirar e perda de tecido na ferida. Depois a febre cedeu.

Durante dezessete dias, tudo o que ele comia saía de volta pela abertura no abdômen. Beaumont o manteve vivo com nutrição administrada por via retal até conseguir tampar o furo com um chumaço de fiapos preso por tiras adesivas. Aí a comida começou a ficar no lugar.

Seguiu-se quase um ano de abscessos recorrentes na cartilagem das costelas, que Beaumont tratou com cirurgia e aplicações de vinho com ácido muriático diluído e extrato de assa-fétida — a farmacologia disponível em 1822.

Em 6 de junho de 1823, um ano exato depois do tiro, tudo tinha cicatrizado. Menos uma coisa.

A borda do furo no estômago havia se fundido à borda do furo na pele. O resultado era uma fístula gástrica permanente: uma abertura direta para dentro do estômago, coberta por uma dobra de tecido que funcionava como válvula.

Dava para olhar lá dentro. Enquanto a digestão acontecia.

O que ninguém sabia sobre digestão

É difícil hoje avaliar o tamanho da ignorância que havia sobre o assunto.

Havia duas escolas em disputa. Uma dizia que o estômago tritura o alimento mecanicamente. Outra dizia que ele apodrece o alimento, ou que o cozinha por algum calor interno. A ideia de que existisse um líquido quimicamente ativo era especulação.

Ninguém tinha visto. Não havia como ver. Autópsia mostra um estômago parado, e um estômago parado não digere nada.

Beaumont percebeu o que tinha em mãos.

Duzentos e trinta e oito experimentos

O primeiro experimento oficial foi em agosto de 1825, no Forte Niagara. Beaumont amarrava pedaços de comida a um cordão de seda, introduzia pela fístula e retirava em intervalos, para ver quanto cada alimento havia sido digerido.

Foram 238 experimentos entre 1825 e 1833. Ele testou a digestão em jejum, depois de exercício, em temperaturas diferentes e — este é o ponto mais moderno de todos — sob estados emocionais diferentes.

Também coletava suco gástrico puro pela abertura e o colocava em frascos, fora do corpo, com comida dentro. A digestão continuava no vidro.

Isso encerrava a discussão. Não era trituração nem apodrecimento: era química. Um líquido secretado pelo estômago que decompõe o alimento, e que funciona mesmo longe do corpo, desde que na temperatura certa.

Em 1833 Beaumont publicou Experiments and Observations on the Gastric Juice, and the Physiology of Digestion, com 51 conclusões. Que vegetais são digeridos mais devagar que carne. Que o leite coagula logo no início do processo. Que há um movimento de agitação no estômago que ajuda a digestão.

O livro fundou a fisiologia gástrica moderna e continua disponível na íntegra.

O detalhe que amarra tudo

Beaumont observou uma coisa que a medicina levaria mais de um século para levar a sério: o estado emocional de St. Martin alterava o funcionamento do estômago dele.

Quando o paciente estava irritado ou impaciente — o que acontecia com alguma frequência, e com boas razões —, a mucosa mudava de aparência e a digestão ficava mais lenta. Beaumont registrou isso porque conseguia ver.

Ele estava olhando, em 1830, para a conexão entre estado mental e função digestiva. Sem nenhuma teoria disponível para explicar o que via.

E aqui a história fica desconfortável. Porque a irritação de St. Martin era parte do experimento, e o experimento era a fonte dela.

Ele não era um voluntário no sentido que damos hoje à palavra. Participava sob contrato, trabalhando para Beaumont como criado. O próprio médico registrou que, nos intervalos entre os experimentos, o rapaz "executava todas as obrigações de um servo comum, cortando lenha, carregando fardos etc.". Alguns procedimentos eram dolorosos: depois de sacos de comida serem colocados no estômago, Beaumont anotou que "o rapaz reclamou de alguma dor e desconforto no peito".

Em setembro de 1825 St. Martin foi embora para o Canadá, contra a vontade de Beaumont. Casou, teve filhos. Só voltou em 1829, vivendo na pobreza perto de Montreal, disposto a acompanhar o médico até Prairie du Chien, em Wisconsin. Os experimentos seguiram até 1833.

Um homem pobre, analfabeto, imigrante, com uma lesão que o tornava cientificamente valioso, sob contrato com o médico que o salvou. Não existe versão dessa relação em que o consentimento seja livre.

O fim

Alexis St. Martin morreu em 24 de junho de 1880, aos 78 anos — 27 anos depois de Beaumont, que morrera em 1853.

A família dele fez algo que diz tudo sobre o que aquela relação significou do outro lado: deixou o corpo se decompor ao sol por vários dias antes do enterro, e o sepultou em cova funda, deliberadamente, para impedir que fosse autopsiado. Havia pedidos de instituições médicas interessadas no estômago mais famoso da ciência.

Depois de 58 anos servindo de janela, ele foi enterrado fechado.

Se essa tensão entre descoberta legítima e sujeito humano usado como instrumento te interessa, ela reaparece de forma ainda mais crua na história das moças que pintavam mostradores com tinta de rádio, e de forma invertida na de Barry Marshall, que resolveu ser a própria cobaia justamente porque não havia maneira ética de usar outra pessoa.

Fontes

  1. Experiments and Observations on the Gastric Juice, and the Physiology of Digestion (1833), William Beaumont, F. P. Allen — obra completa digitalizada

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Perguntas frequentes

Como Alexis St. Martin ficou com um buraco no estômago?
Em 6 de junho de 1822, ele foi atingido acidentalmente por um disparo de mosquete à queima-roupa num entreposto de comércio de peles na ilha Mackinac. O ferimento perfurou o estômago e não cicatrizou por completo: a borda do furo no estômago se fundiu à borda do furo na pele, formando uma fístula gástrica permanente.
Quantos experimentos William Beaumont fez nele?
238 experimentos, entre 1825 e 1833. Beaumont chegou a suspender pedaços de comida amarrados a um cordão dentro do estômago e retirá-los depois, para observar o estágio da digestão.
St. Martin era voluntário?
Ele participou trabalhando para Beaumont como criado, sob contrato. Chegou a voltar ao Canadá por conta própria em 1825, contra a vontade do médico, e só se reuniu a ele em 1829, quando vivia na pobreza perto de Montreal. A relação entre os dois é hoje um caso clássico de discussão sobre consentimento e desigualdade em pesquisa.
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