O polvo tem três corações, sangue azul e para de bater um deles quando nada
Não é curiosidade solta: cada um desses detalhes explica por que o polvo prefere rastejar a nadar.

Em 30 segundos
- Dois corações do polvo empurram o sangue pelas brânquias; o terceiro, o sistêmico, leva o sangue oxigenado ao resto do corpo.
- O sangue é azul por causa da hemocianina, proteína com cobre que circula dissolvida no plasma, carrega menos oxigênio que a hemoglobina e deixa o sangue mais viscoso.
- Medições de 1987 mostraram que o coração sistêmico para durante a natação a jato, e que por isso o polvo não consegue nadar assim por mais que alguns metros.
- O polvo tem mais de 500 milhões de neurônios, mais de dois terços fora do cérebro, mas os braços trocam informação com o cérebro central.
Quando o polvo nada a jato, o coração que abastece o corpo inteiro para de bater. Isso foi medido em 1987, com sensores presos à aorta de polvos nadando livremente num tanque.
É o detalhe que dá sentido a todos os outros. A anatomia do polvo costuma ser contada como lista de curiosidades soltas: três corações, sangue azul, braços que "pensam". Lida como um sistema, cada peça explica a seguinte.
Três corações, com funções diferentes
Dois deles são corações branquiais. Ficam junto às brânquias e têm uma função só: empurrar sangue através delas para que seja oxigenado.
O terceiro é o coração sistêmico. Ele recebe o sangue já oxigenado e o distribui para o resto do corpo.
O sistema é fechado, como o nosso, e conta ainda com veias que se contraem e ajudam a bombear. Um estudo de 2015 na revista Frontiers in Zoology descreve a circulação dos cefalópodes trabalhando com pressões sanguíneas altas para um invertebrado: no polvo-gigante-do-pacífico, entre 5,3 e 9,3 quilopascals.
Sangue azul, e não é enfeite
Nosso sangue é vermelho porque a hemoglobina carrega oxigênio usando ferro. O polvo usa hemocianina, uma proteína que leva cobre. É o cobre que deixa o sangue azul.
A troca tem custo. Segundo os autores do estudo de 2015, a hemocianina tem menor capacidade de ligar oxigênio que a hemoglobina dos peixes. E ela não fica empacotada dentro de células, como a nossa hemoglobina dentro das hemácias: circula solta no plasma. Quanto mais proteína dissolvida, mais viscoso o sangue.
O sangue de cefalópodes chega a ser muito concentrado. O estudo cita 89 miligramas de hemocianina por mililitro num polvo antártico e mais de 160 miligramas por mililitro na lula Loligo vulgaris.
Um sangue espesso, com uma proteína que carrega menos oxigênio, precisa de pressão para circular. É o problema que os três corações resolvem.
A hemocianina no frio
Uma ideia comum é a de que a hemocianina seria uma vantagem em água gelada. O estudo de 2015 mostra um quadro mais complicado.
A equipe, ligada ao Instituto Alfred Wegener, na Alemanha, comparou a hemocianina de três polvos: o antártico Pareledone charcoti, o australiano Octopus pallidus e o mediterrâneo Eledone moschata.
A 0 °C, a hemocianina do polvo antártico liberava mal o oxigênio para os tecidos. O animal compensava com mais hemocianina no sangue e com algo que a água gelada oferece de graça: muito oxigênio dissolvido.
A conclusão dos autores vai contra a versão simplificada. A função limitada da hemocianina no frio, escreveram, mostra o papel dessa proteína em restringir a tolerância ao frio dos polvos. Não é um pigmento feito para o gelo. É um pigmento que o polvo antártico precisou contornar.
O detalhe que amarra tudo
Em 1987, o zoólogo M. J. Wells e colegas publicaram no Journal of Experimental Biology medições feitas na aorta dorsal de polvos-comuns (Octopus vulgaris) que se moviam livremente, em repouso e em atividade.
Quando o animal se movimentava, a pressão média, a amplitude do pulso e o fluxo de sangue dobravam. A frequência dos batimentos quase não mudava. O coração sistêmico dava conta do esforço bombeando mais sangue a cada batida.
A natação a jato era outra história. O resumo do artigo é seco: "a propulsão a jato é acompanhada de parada cardíaca" (tradução nossa).
O mecanismo tem a ver com o próprio jato. Para nadar, o polvo enche o manto de água e a expulsa com força, o que eleva a pressão dentro dele. Pelas medições, o sistema venoso não consegue devolver o sangue ao coração contra esse gradiente de pressão.
O resultado prático está na mesma página. Como o polvo só tolera um débito de oxigênio pequeno, os autores concluíram que a locomoção a jato é impossível por mais que alguns metros.
É por isso que a fuga a jato funciona como recurso de emergência, de curto alcance. Para se deslocar de verdade, o polvo usa os braços e rasteja pelo fundo, que é o modo de movimento em que a circulação continua funcionando.
Uma escolha bioquímica, um sangue espesso e pobre em oxigênio, acaba determinando como o animal anda.

E os "nove cérebros"
A frase circula bastante e merece um ajuste. O polvo tem um cérebro central e um gânglio nervoso em cada braço. Segundo o Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST), ele tem mais de 500 milhões de neurônios, número parecido com o de um cão. E, ao contrário dos vertebrados, mais de dois terços deles ficam fora do cérebro, nos braços e no corpo.
Os braços têm, de fato, muita autonomia. Em 2001, uma equipe da Universidade Hebraica de Jerusalém mostrou na revista Science que é possível provocar o movimento de estender o braço, por estímulo mecânico ou elétrico, em braços já desligados do cérebro. O movimento saía quase idêntico ao normal. A conclusão dos autores: o programa motor básico do gesto está embutido no próprio circuito nervoso do braço.
Mas autonomia não é independência. Em 2020, a pesquisadora Tamar Gutnick e colegas publicaram na Current Biology um experimento com um labirinto em forma de Y, opaco, em que o polvo não enxergava o caminho. O alimento só estava acessível de um lado.
Num dos testes, um tubo era áspero e o outro liso. Cinco de seis polvos aprenderam a escolher a textura certa, estivesse ela à esquerda ou à direita. E, depois de aprender, resolviam o labirinto com braços que não tinham usado no treino. Para os autores, isso indica que o aprendizado acontece no cérebro e fica disponível para todos os braços.
Gutnick resumiu a própria posição ao OIST: em vez de nove cérebros, "um polvo com um cérebro e oito braços muito espertos" (tradução nossa).
O que se conta e o que os estudos mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que os estudos mostram.
- O polvo tem nove cérebros.
- Tem um cérebro central e um gânglio em cada braço; mais de dois terços dos neurônios ficam fora do cérebro.
- Cada braço pensa sozinho.
- O braço executa movimentos por conta própria, mas o que o polvo aprende com um braço serve para os outros.
- A hemocianina é feita para água gelada.
- No frio, ela libera mal o oxigênio; o polvo antártico compensa com mais proteína e com o oxigênio dissolvido na água.
- O polvo nada quando quer ir longe.
- A natação a jato para o coração sistêmico e não passa de alguns metros.
Um cérebro que delega
Na prática, um braço resolve boa parte do trabalho sozinho: tateia e agarra sem precisar de instrução detalhada do centro. Cada um tem mais de 200 ventosas, que, segundo o OIST, sentem o tato, o gosto e o cheiro do que tocam. O cérebro central dá a ordem geral e a execução fica distribuída.
Onde exatamente o cérebro guarda o que aprendeu ainda é desconhecido, segundo a própria equipe do labirinto. É a mesma pergunta, onde mora a memória, que o caso de Henry Molaison ajudou a responder em humanos.
Nove cérebros é força de expressão, do mesmo tipo da conta que dizia termos dez bactérias para cada célula do corpo: um número fácil de repetir que simplifica demais. Um cérebro que delega é mais perto do que acontece.
No mesmo mar há outro bicho cuja fama precisa de ressalvas: a água-viva "imortal", que volta a ser pólipo mesmo depois de adulta.
Fontes
- Blood flow and pressure changes in exercising octopuses (Octopus vulgaris) (1987), M. J. Wells, G. G. Duthie, D. F. Houlihan, P. J. S. Smith e J. Wells, Journal of Experimental Biology
- Blue blood on ice: modulated blood oxygen transport facilitates cold compensation and eurythermy in an Antarctic octopod (2015), Oellermann et al., Frontiers in Zoology
- Do octopuses’ arms have a mind of their own? (2020), Okinawa Institute of Science and Technology (OIST)
- Control of octopus arm extension by a peripheral motor program (2001), Sumbre, Gutfreund, Fiorito, Flash e Hochner, Science
- Octopuses survive sub-zero temps thanks to specialized blue blood (2013), Katherine Harmon, Scientific American
- Octopus: Physiology and Behaviour of an Advanced Invertebrate (1978), M. J. Wells (Chapman and Hall / Springer)
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Perguntas frequentes
- Por que o sangue do polvo é azul?
- Porque ele transporta oxigênio com hemocianina, uma proteína à base de cobre, em vez da hemoglobina à base de ferro que temos. É o cobre da hemocianina que deixa o sangue azul.
- Para que servem os três corações do polvo?
- Dois corações branquiais bombeiam sangue através das brânquias, onde ele recebe oxigênio. O terceiro, o coração sistêmico, envia esse sangue oxigenado para o resto do corpo.
- É verdade que o polvo tem nove cérebros?
- É uma simplificação. Ele tem um cérebro central e um gânglio nervoso em cada um dos oito braços. Mais de dois terços dos seus cerca de 500 milhões de neurônios ficam fora do cérebro, nos braços e no corpo, mas experimentos mostram que os braços trocam informação com o cérebro central.
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