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O polvo tem três corações, sangue azul e para de bater um deles quando nada

Não é curiosidade solta: cada um desses detalhes explica por que o polvo prefere rastejar a nadar.

Redação Fatos e RelatosAtualizada em 7 min de leitura
Polvo-comum fotografado no fundo do mar, com os braços recolhidos sobre uma rocha.
NOAA National Marine Sanctuaries, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Dois corações do polvo empurram o sangue pelas brânquias; o terceiro, o sistêmico, leva o sangue oxigenado ao resto do corpo.
  • O sangue é azul por causa da hemocianina, proteína com cobre que circula dissolvida no plasma, carrega menos oxigênio que a hemoglobina e deixa o sangue mais viscoso.
  • Medições de 1987 mostraram que o coração sistêmico para durante a natação a jato, e que por isso o polvo não consegue nadar assim por mais que alguns metros.
  • O polvo tem mais de 500 milhões de neurônios, mais de dois terços fora do cérebro, mas os braços trocam informação com o cérebro central.

Quando o polvo nada a jato, o coração que abastece o corpo inteiro para de bater. Isso foi medido em 1987, com sensores presos à aorta de polvos nadando livremente num tanque.

É o detalhe que dá sentido a todos os outros. A anatomia do polvo costuma ser contada como lista de curiosidades soltas: três corações, sangue azul, braços que "pensam". Lida como um sistema, cada peça explica a seguinte.

Três corações, com funções diferentes

Dois deles são corações branquiais. Ficam junto às brânquias e têm uma função só: empurrar sangue através delas para que seja oxigenado.

O terceiro é o coração sistêmico. Ele recebe o sangue já oxigenado e o distribui para o resto do corpo.

O sistema é fechado, como o nosso, e conta ainda com veias que se contraem e ajudam a bombear. Um estudo de 2015 na revista Frontiers in Zoology descreve a circulação dos cefalópodes trabalhando com pressões sanguíneas altas para um invertebrado: no polvo-gigante-do-pacífico, entre 5,3 e 9,3 quilopascals.

Sangue azul, e não é enfeite

Nosso sangue é vermelho porque a hemoglobina carrega oxigênio usando ferro. O polvo usa hemocianina, uma proteína que leva cobre. É o cobre que deixa o sangue azul.

A troca tem custo. Segundo os autores do estudo de 2015, a hemocianina tem menor capacidade de ligar oxigênio que a hemoglobina dos peixes. E ela não fica empacotada dentro de células, como a nossa hemoglobina dentro das hemácias: circula solta no plasma. Quanto mais proteína dissolvida, mais viscoso o sangue.

O sangue de cefalópodes chega a ser muito concentrado. O estudo cita 89 miligramas de hemocianina por mililitro num polvo antártico e mais de 160 miligramas por mililitro na lula Loligo vulgaris.

Um sangue espesso, com uma proteína que carrega menos oxigênio, precisa de pressão para circular. É o problema que os três corações resolvem.

A hemocianina no frio

Uma ideia comum é a de que a hemocianina seria uma vantagem em água gelada. O estudo de 2015 mostra um quadro mais complicado.

A equipe, ligada ao Instituto Alfred Wegener, na Alemanha, comparou a hemocianina de três polvos: o antártico Pareledone charcoti, o australiano Octopus pallidus e o mediterrâneo Eledone moschata.

A 0 °C, a hemocianina do polvo antártico liberava mal o oxigênio para os tecidos. O animal compensava com mais hemocianina no sangue e com algo que a água gelada oferece de graça: muito oxigênio dissolvido.

A conclusão dos autores vai contra a versão simplificada. A função limitada da hemocianina no frio, escreveram, mostra o papel dessa proteína em restringir a tolerância ao frio dos polvos. Não é um pigmento feito para o gelo. É um pigmento que o polvo antártico precisou contornar.

O detalhe que amarra tudo

Em 1987, o zoólogo M. J. Wells e colegas publicaram no Journal of Experimental Biology medições feitas na aorta dorsal de polvos-comuns (Octopus vulgaris) que se moviam livremente, em repouso e em atividade.

Quando o animal se movimentava, a pressão média, a amplitude do pulso e o fluxo de sangue dobravam. A frequência dos batimentos quase não mudava. O coração sistêmico dava conta do esforço bombeando mais sangue a cada batida.

A natação a jato era outra história. O resumo do artigo é seco: "a propulsão a jato é acompanhada de parada cardíaca" (tradução nossa).

O mecanismo tem a ver com o próprio jato. Para nadar, o polvo enche o manto de água e a expulsa com força, o que eleva a pressão dentro dele. Pelas medições, o sistema venoso não consegue devolver o sangue ao coração contra esse gradiente de pressão.

O resultado prático está na mesma página. Como o polvo só tolera um débito de oxigênio pequeno, os autores concluíram que a locomoção a jato é impossível por mais que alguns metros.

É por isso que a fuga a jato funciona como recurso de emergência, de curto alcance. Para se deslocar de verdade, o polvo usa os braços e rasteja pelo fundo, que é o modo de movimento em que a circulação continua funcionando.

Uma escolha bioquímica, um sangue espesso e pobre em oxigênio, acaba determinando como o animal anda.

Polvo avermelhado com os oito braços abertos sobre rochas no fundo do mar, cercado de anêmonas.
Um polvo espalhado sobre o fundo rochoso. Rastejar com os braços é o jeito de se deslocar em que o coração sistêmico continua batendo. Imagem: Nick Brice, via Unsplash · Licença Unsplash

E os "nove cérebros"

A frase circula bastante e merece um ajuste. O polvo tem um cérebro central e um gânglio nervoso em cada braço. Segundo o Instituto de Ciência e Tecnologia de Okinawa (OIST), ele tem mais de 500 milhões de neurônios, número parecido com o de um cão. E, ao contrário dos vertebrados, mais de dois terços deles ficam fora do cérebro, nos braços e no corpo.

Os braços têm, de fato, muita autonomia. Em 2001, uma equipe da Universidade Hebraica de Jerusalém mostrou na revista Science que é possível provocar o movimento de estender o braço, por estímulo mecânico ou elétrico, em braços já desligados do cérebro. O movimento saía quase idêntico ao normal. A conclusão dos autores: o programa motor básico do gesto está embutido no próprio circuito nervoso do braço.

Mas autonomia não é independência. Em 2020, a pesquisadora Tamar Gutnick e colegas publicaram na Current Biology um experimento com um labirinto em forma de Y, opaco, em que o polvo não enxergava o caminho. O alimento só estava acessível de um lado.

Num dos testes, um tubo era áspero e o outro liso. Cinco de seis polvos aprenderam a escolher a textura certa, estivesse ela à esquerda ou à direita. E, depois de aprender, resolviam o labirinto com braços que não tinham usado no treino. Para os autores, isso indica que o aprendizado acontece no cérebro e fica disponível para todos os braços.

Gutnick resumiu a própria posição ao OIST: em vez de nove cérebros, "um polvo com um cérebro e oito braços muito espertos" (tradução nossa).

O que se conta e o que os estudos mostram

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que os estudos mostram.

O polvo tem nove cérebros.
Tem um cérebro central e um gânglio em cada braço; mais de dois terços dos neurônios ficam fora do cérebro.
Cada braço pensa sozinho.
O braço executa movimentos por conta própria, mas o que o polvo aprende com um braço serve para os outros.
A hemocianina é feita para água gelada.
No frio, ela libera mal o oxigênio; o polvo antártico compensa com mais proteína e com o oxigênio dissolvido na água.
O polvo nada quando quer ir longe.
A natação a jato para o coração sistêmico e não passa de alguns metros.

Um cérebro que delega

Na prática, um braço resolve boa parte do trabalho sozinho: tateia e agarra sem precisar de instrução detalhada do centro. Cada um tem mais de 200 ventosas, que, segundo o OIST, sentem o tato, o gosto e o cheiro do que tocam. O cérebro central dá a ordem geral e a execução fica distribuída.

Onde exatamente o cérebro guarda o que aprendeu ainda é desconhecido, segundo a própria equipe do labirinto. É a mesma pergunta, onde mora a memória, que o caso de Henry Molaison ajudou a responder em humanos.

Nove cérebros é força de expressão, do mesmo tipo da conta que dizia termos dez bactérias para cada célula do corpo: um número fácil de repetir que simplifica demais. Um cérebro que delega é mais perto do que acontece.

No mesmo mar há outro bicho cuja fama precisa de ressalvas: a água-viva "imortal", que volta a ser pólipo mesmo depois de adulta.

Fontes

  1. Blood flow and pressure changes in exercising octopuses (Octopus vulgaris) (1987), M. J. Wells, G. G. Duthie, D. F. Houlihan, P. J. S. Smith e J. Wells, Journal of Experimental Biology
  2. Blue blood on ice: modulated blood oxygen transport facilitates cold compensation and eurythermy in an Antarctic octopod (2015), Oellermann et al., Frontiers in Zoology
  3. Do octopuses’ arms have a mind of their own? (2020), Okinawa Institute of Science and Technology (OIST)
  4. Control of octopus arm extension by a peripheral motor program (2001), Sumbre, Gutfreund, Fiorito, Flash e Hochner, Science
  5. Octopuses survive sub-zero temps thanks to specialized blue blood (2013), Katherine Harmon, Scientific American
  6. Octopus: Physiology and Behaviour of an Advanced Invertebrate (1978), M. J. Wells (Chapman and Hall / Springer)

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Perguntas frequentes

Por que o sangue do polvo é azul?
Porque ele transporta oxigênio com hemocianina, uma proteína à base de cobre, em vez da hemoglobina à base de ferro que temos. É o cobre da hemocianina que deixa o sangue azul.
Para que servem os três corações do polvo?
Dois corações branquiais bombeiam sangue através das brânquias, onde ele recebe oxigênio. O terceiro, o coração sistêmico, envia esse sangue oxigenado para o resto do corpo.
É verdade que o polvo tem nove cérebros?
É uma simplificação. Ele tem um cérebro central e um gânglio nervoso em cada um dos oito braços. Mais de dois terços dos seus cerca de 500 milhões de neurônios ficam fora do cérebro, nos braços e no corpo, mas experimentos mostram que os braços trocam informação com o cérebro central.
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