Elas lambiam o pincel para afinar a ponta. O pincel tinha rádio
Milhares de operárias pintaram mostradores de relógio com tinta radioativa nos anos 1920. O processo que elas moveram mudou o direito trabalhista americano.

Nos anos 1910 e 1920, milhares de jovens americanas trabalharam pintando mostradores de relógio com uma tinta que brilhava no escuro. A substância que brilhava era rádio.
O trabalho era bem pago e disputado. As operárias eram chamadas de garotas fantasma, porque saíam do turno com o cabelo e a roupa luminosos.
O método de trabalho tinha um nome na fábrica: lip, dip, paint. Encostar o pincel nos lábios para afinar a ponta, molhar na tinta, pintar. Repetir.
Cada mostrador levava algumas passadas. Uma operária rápida fazia mais de duzentos por dia.
O que se sabia na época
O rádio havia sido isolado por Marie e Pierre Curie em 1898 e era vendido como tônico de saúde. Havia água radioativa, pasta de dente, creme facial e supositório com rádio no mercado.
Mas quem manipulava o material em quantidade sabia de outra coisa. Os químicos das próprias fábricas trabalhavam com aventais de chumbo, pinças e biombos.
As operárias na linha de produção não recebiam proteção nenhuma. Quando perguntavam, ouviam que a quantidade era pequena demais para fazer mal, e que o rádio deixaria as bochechas rosadas.
Algumas pintavam as unhas e os dentes com a tinta, para brincar, antes de sair à noite.
O que o rádio faz no corpo
O organismo humano trata o rádio como se fosse cálcio, porque os dois estão na mesma família química. Ele é levado direto para o osso e fica lá, emitindo radiação de dentro para fora, por anos.
Os primeiros sintomas apareceram nos dentes. Dor, depois queda, depois ferimentos na gengiva que não cicatrizavam. Dentistas tentavam extrair um dente e retiravam pedaços da mandíbula junto. O quadro ficou conhecido na literatura médica como mandíbula do rádio.
Depois vieram fraturas espontâneas de quadril e de coluna, anemia grave e tumores ósseos.
Muitas morreram antes dos trinta anos.
O processo
As empresas negaram por anos. Sustentaram que as mortes vinham de sífilis, sugestão que atacava a reputação das mulheres e desestimulava familiares a insistir. Contrataram peritos próprios e questionaram cada laudo.
Em 1927, cinco operárias de Nova Jersey abriram processo. Estavam tão doentes que não conseguiam levantar os braços para prestar juramento. A imprensa as chamou de Radium Girls, e o caso virou notícia nacional.
Elas aceitaram um acordo em 1928. O valor foi pequeno e a maioria morreu pouco depois.
Mas o processo abriu caminho. Em Illinois, Catherine Donohue levou seu caso até o fim, testemunhando de uma cama levada ao tribunal, e venceu. A decisão foi mantida em recurso.
O detalhe que amarra tudo
Há uma consequência dessa história que não estava no plano de ninguém.
A partir dos anos 1930, cientistas começaram a acompanhar sistematicamente as sobreviventes e a analisar os restos das que haviam morrido. O acompanhamento durou décadas e envolveu mais de duas mil pessoas.
Foi o maior conjunto de dados já reunido sobre o efeito de um emissor de radiação alojado dentro do corpo humano. E, por uma tragédia de calendário, esses dados ficaram prontos justamente quando começou o Projeto Manhattan.
Os limites de segurança para exposição interna a radiação adotados no programa nuclear americano, e depois no mundo inteiro, foram calculados a partir do que aconteceu com aquelas operárias.
Os corpos delas continuam radioativos. O rádio-226 tem meia-vida de cerca de 1.600 anos. Quando pesquisadores exumaram algumas para estudo, décadas depois, os ossos ainda registravam no contador Geiger.
Fontes
- The Radium Girls and the birth of occupational health, American Journal of Public Health
- Radium dial painters: the human radiobiology program, ORAU, Museum of Radiation and Radioactivity
Perguntas frequentes
- Quem foram as Radium Girls?
- Operárias americanas que, a partir de 1917, pintavam mostradores luminosos de relógios e instrumentos com tinta contendo rádio. Eram instruídas a afinar o pincel com os lábios, ingerindo rádio a cada mostrador pintado.
- O que aconteceu com elas?
- O rádio se acumula no osso, porque o organismo o trata como se fosse cálcio. Muitas desenvolveram necrose da mandíbula, fraturas espontâneas, anemia e sarcomas ósseos. Dezenas morreram, várias ainda na casa dos vinte anos.
- Por que o caso é importante até hoje?
- Porque estabeleceu na justiça americana o direito de trabalhadores processarem empregadores por doença ocupacional, e porque os dados coletados sobre elas fundamentaram os limites de exposição interna a radiação usados no mundo inteiro.
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