Em 1518, centenas de pessoas dançaram sem parar em Estrasburgo. As autoridades mandaram dançar mais
Começou com uma mulher sozinha na rua, em julho. Em um mês havia centenas. A resposta oficial foi contratar músicos.

Em 30 segundos
- Em meados de julho de 1518, uma mulher começou a dançar numa rua de Estrasburgo e continuou por quatro a seis dias; em uma semana, outras 34 pessoas a acompanhavam.
- Os médicos diagnosticaram "sangue quente", e as autoridades receitaram mais dança: liberaram dois salões de guilda e o mercado de grãos, montaram um palco e pagaram músicos.
- Um cronista fala em 400 atingidos até o fim de agosto; as mortes chegam às dezenas, mas não há contagem confiável.
- A explicação mais aceita, defendida pelo historiador John Waller, é a de doença psicogênica em massa, numa cidade arrasada pela fome e convencida de que São Vito mandava maldições de dança.
Em meados de julho de 1518, uma mulher entrou numa rua de Estrasburgo, cidade do Sacro Império Romano-Germânico às margens do Reno, e começou a dançar. Segundo o historiador John Waller, a dança durou de quatro a seis dias seguidos.
Relatos posteriores a chamam de Frau Troffea. Em uma semana, outras 34 pessoas dançavam com ela. No fim de agosto, segundo um cronista, 400 tinham sido atingidas.
A resposta oficial foi mandar dançar mais.
A decisão mais estranha da história municipal
Diante da epidemia, nobres e burgueses consultaram os médicos locais. Eles descartaram causas astrológicas e sobrenaturais e declararam que se tratava de uma "doença natural", provocada por "sangue quente".
Era medicina ortodoxa para a época, explica Waller, num artigo de 2008 na revista Endeavour: seguia a ideia de Galeno de que o excesso de sangue podia superaquecer o cérebro e causar loucura. O tratamento esperado seria sangria ou dieta refrescante. As autoridades não fizeram nem uma coisa nem outra.
A prescrição foi mais dança. Os doentes, diziam as autoridades, só recuperariam o juízo se dançassem dia e noite.
Para isso, a cidade liberou dois salões de guilda e o mercado de grãos ao ar livre, e mandou construir um palco de madeira em frente à feira de cavalos. Os dançarinos eram levados para esses lugares. E a cidade pagou músicos e dançarinos profissionais para manter os doentes em movimento.
Waller descreveu a cena num texto citado pelo boletim da Sociedade Britânica de Psicologia: músicos tocavam flautas e tambores, e dançarinos contratados seguravam os doentes com força para que não parassem. Logo, escreveu, as pessoas começaram a morrer de exaustão.
Quantos morreram
Aqui as fontes não fecham, e é preciso dizer isso.
Waller escreve que as crônicas concordam que dezenas morreram de exaustão. Num artigo de 2009 na revista The Lancet, ele registra que uma crônica fala em cerca de 15 mortes por dia, "por um breve período, ao menos". A editora do livro dele, publicado em 2008, resume que o calor e a exaustão tiraram um número incontável de vidas.
Reportagem da National Geographic de 2025 menciona relatos de mortes por ataque cardíaco, exaustão ou fome. Nenhuma dessas fontes traz uma contagem total confiável.
O fungo que não explica
A hipótese popular é a do ergotismo: o fungo Claviceps purpurea, que contamina o centeio e produz substâncias psicotrópicas. Ela foi proposta nos anos 1950 pelo farmacologista sueco Eugene Backman.
É uma explicação atraente e provavelmente errada. Waller, historiador da medicina da Universidade Estadual de Michigan, admite que o ergot poderia causar alucinações e convulsões. Mas considera muito improvável que o ergotismo provocasse dias seguidos de dança.
Há outros problemas. Segundo a reportagem da National Geographic, Waller observa que o centeio não era alimento central em todos os lugares onde houve surtos de dança. E que não há relatos do escurecimento de braços e pernas típico da gangrena causada pelo ergot.

Uma cidade no limite
A leitura que hoje reúne mais apoio é a de doença psicogênica em massa. Waller a defende a partir de dois ingredientes: sofrimento extremo e uma crença específica.
O sofrimento está documentado. Na década anterior a 1518, fome, doença e um frio terrível espalharam desespero por Estrasburgo e arredores. O preço do pão chegou ao nível mais alto em uma geração. Milhares de camponeses e vinhateiros famintos chegaram às portas da cidade. E às doenças antigas, como a lepra e a peste, juntou-se uma nova e aterrorizante: a sífilis.
A crença também. Os moradores estavam convencidos de que um santo, São Vito, podia lançar uma maldição de dança. Para Waller, os dançarinos entraram num estado de transe dissociativo e agiram conforme as convenções desse mito: dançar por dias.
Ele lembra que é difícil imaginar alguém dançando dias seguidos, com os pés feridos e sangrando, fora de um estado alterado de consciência. Cada nova vítima tornava a maldição mais crível. E as autoridades, ao reunir os dançarinos nos lugares mais públicos da cidade, garantiram que o surto saísse do controle.
Segundo a National Geographic, em setembro o conselho mudou de rumo e levou os dançarinos a um santuário de São Vito, em busca de cura divina.
Surtos de dança na Europa
- 1021Em Kölbigk, na Alemanha, 18 pessoas dançam diante de uma igreja; o relato do cronista mistura lenda e um possível fato real.
- 1247Crônicas falam de dança compulsiva, às vezes fatal, em Erfurt.
- 1374O surto se espalha pelo oeste da Alemanha, pelos Países Baixos e pelo nordeste da França, no mesmo ano de uma das piores enchentes do século no Reno.
- Meados de julho de 1518Uma mulher começa a dançar numa rua de Estrasburgo.
- Uma semana depoisOutras 34 pessoas dançam com ela.
- Fim de agosto de 1518Um cronista fala em 400 atingidos.
- Setembro de 1518O conselho leva os dançarinos a um santuário de São Vito.
Não foi um caso isolado
Estrasburgo é o surto mais bem documentado, mas não o único. No artigo da Lancet, Waller lista antecedentes: Kölbigk, em 1021, cujo relato é em boa parte lenda; Erfurt, em 1247; e uma história, contada por cronistas, de 200 pessoas que teriam dançado sobre uma ponte em Maastricht até ela desabar.
O maior foi o de 1374. Dezenas de autores medievais descrevem a compulsão que varreu o oeste da Alemanha, os Países Baixos e o nordeste da França. Pouco antes, naquele mesmo ano, as áreas mais atingidas tinham sofrido uma das piores enchentes do século: as crônicas falam do Reno subindo 34 pés, cerca de 10 metros.
O padrão se repete: desastre, medo e uma crença religiosa que dava forma ao sofrimento.
O que ficou no papel
O episódio de 1518 se destaca pela documentação. Os surtos de dança foram descritos de forma independente por médicos, cronistas, monges e padres. E, para Estrasburgo, nas palavras de Waller, ainda é possível ler as ordens municipais aflitas escritas pelas autoridades durante a epidemia.
Isso também separa Estrasburgo de outras histórias de histeria coletiva que viraram lenda. O pânico da Guerra dos Mundos, em 1938, por exemplo, quase não existiu fora das páginas dos jornais. Em 1518, o surto está nas ordens da própria cidade.
Doença psicogênica em massa não ficou na Idade Média. No mesmo texto de 2009, Waller cita uma escola perto do lago Tanganica onde, em 1962, meninas passaram a rir e chorar sem controle, e o surto se espalhou para as comunidades vizinhas. Cita também cerca de 600 alunas de uma escola na Cidade do México que, em 2006, tiveram paralisia e náusea por dias ou semanas.
Comportamentos se espalham entre pessoas por caminhos que ainda não entendemos bem, como mostra até um fenômeno banal como o bocejo contagioso. Em Estrasburgo, a autoridade que deveria conter o contágio tratou de amplificá-lo, com palco e banda.
Outro episódio coletivo cercado de versões é o de Salem, em 1692, onde nenhuma das acusadas de bruxaria foi queimada.
Fontes
- In a spin: the mysterious dancing epidemic of 1518 (2008), John Waller, Endeavour, vol. 32, n. 3
- Dancing plagues and mass hysteria (2009), John Waller, The Psychologist (British Psychological Society)
- A forgotten plague: making sense of dancing mania (2009), John Waller, The Lancet, vol. 373
- A Time to Dance, a Time to Die: The Extraordinary Story of the Dancing Plague of 1518, John Waller (Icon Books, 2008)
- Sorry souls who danced til they dropped, literally (2008), Christian Jarrett, BPS Research Digest
- What caused Strasbourg’s dancing plague of 1518? (2025), Olivia Campbell, National Geographic
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Perguntas frequentes
- A epidemia de dança de 1518 realmente aconteceu?
- Sim. O episódio foi descrito por médicos, cronistas e religiosos, e sobreviveram as ordens municipais escritas pelas autoridades de Estrasburgo durante a epidemia. É um dos surtos mais bem documentados do gênero.
- O que causou a epidemia de dança?
- Não há consenso. A explicação mais aceita hoje, defendida pelo historiador John Waller, é a de doença psicogênica em massa, num contexto de fome, doença e medo de uma maldição de São Vito. A hipótese do fungo ergot, do centeio contaminado, é considerada frágil: o ergotismo provoca convulsões e alucinações, mas é muito improvável que cause dias seguidos de dança.
- Quantas pessoas morreram na epidemia de dança?
- Não se sabe. Waller fala em dezenas de mortes, e uma crônica afirma que, por um breve período, morriam cerca de 15 pessoas por dia. Os registros não trazem uma contagem confiável.
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