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Nove pessoas saíram da barraca no escuro, a 25 graus negativos, em 1959. A explicação chegou 62 anos depois

O caso do passo Dyatlov virou terreno de teoria da conspiração por décadas. Dois pesquisadores de instituições suíças mostraram como uma avalanche pequena e improvável pode ter feito tudo.

Redação Fatos e RelatosAtualizada em 8 min de leitura
Página datilografada em russo do processo criminal de 1959 que encerrou a investigação sobre as mortes no passo Dyatlov.
Lev Ivanov, promotor-criminalista de Sverdlovsk, 1959, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Na noite de 1º para 2 de fevereiro de 1959, nove esquiadores experientes cortaram a barraca por dentro numa encosta dos Urais, saíram mal agasalhados a menos de 25 graus negativos e morreram.
  • A investigação soviética foi encerrada atribuindo as mortes a uma força natural irresistível, sem dizer qual, e o vazio alimentou décadas de teorias.
  • Em 2019 e 2020, investigações russas reabertas apontaram uma avalanche. Em 2021, dois pesquisadores de instituições suíças publicaram o primeiro modelo físico que explica como uma placa de neve pequena pode ter caído horas depois de o grupo cortar a encosta.

Na noite de 1º para 2 de fevereiro de 1959, nove esquiadores experientes acamparam numa encosta dos montes Urais, na União Soviética.

Depois da meia-noite, alguma coisa fez o grupo cortar a barraca por dentro e fugir em direção a uma floresta mais de um quilômetro encosta abaixo, sem roupas adequadas, a menos de 25 graus negativos e com vento forte.

Nenhum voltou. Mais de seis décadas depois, a explicação mais bem sustentada é também a menos espetacular: uma avalanche pequena, que o próprio grupo ajudou a provocar sem saber.

A expedição

O grupo saiu em 27 de janeiro de 1959. Eram dez pessoas, a maioria estudantes do Instituto Politécnico dos Urais, lideradas por Igor Dyatlov, de 23 anos. Todos eram esquiadores experientes. O destino era o monte Otorten, numa travessia de 14 dias classificada na época como categoria III, a mais difícil, com temperaturas que chegavam a 30 graus negativos.

No dia 28, Yuri Yudin desistiu e voltou. Nunca mais viu os colegas.

Em 1º de fevereiro, os outros nove armaram a barraca na encosta do Kholat Syakhl, nome que significa "Montanha Morta" na língua mansi, cerca de 20 quilômetros ao sul do destino. Para isso, cortaram um degrau na neve da encosta. A última foto do grupo mostra esse trabalho.

O que os socorristas encontraram

Quando a data de retorno passou, saíram as buscas. Em 26 de fevereiro, os socorristas acharam a barraca danificada, coberta de neve, com os pertences dentro.

O que veio depois foi difícil de encaixar em qualquer explicação simples:

  • Os cortes na lona tinham sido feitos de dentro para fora.
  • Debaixo de um velho cedro, mais abaixo, estavam dois corpos vestidos só de meias e roupa de baixo.
  • Outros três, entre eles Dyatlov, foram achados entre a árvore e a barraca. Ao que tudo indica, morreram de hipotermia tentando voltar ao acampamento.
  • Dois meses depois, os quatro restantes apareceram num barranco, sob uma camada grossa de neve. Tinham ferimentos graves, com fraturas no tórax e no crânio.
  • Dois corpos estavam sem os olhos, e um sem a língua.
  • Havia traços de radioatividade em algumas roupas.

A hipotermia foi apontada como principal causa das mortes. A investigação soviética foi encerrada cerca de três meses depois com uma frase que virou a origem de tudo o que veio em seguida: as mortes se deviam a uma "força natural irresistível".

Ninguém disse qual.

Seis décadas de hipóteses

O arquivamento vago, o sigilo soviético e os detalhes estranhos criaram terreno fértil. Ao longo dos anos foram propostos pânico causado por infrassom, ataque de animais, de iétis ou de moradores locais, ventos violentos, uma briga amorosa e testes de armas nucleares.

A explicação por avalanche chegou a ser popular, mas esbarrava em quatro objeções:

  1. Os socorristas não viram sinal de avalanche nem de entulho de neve quando chegaram, 26 dias depois.
  2. A inclinação média acima da barraca era menor que 30 graus, considerada pouca para uma avalanche.
  3. Se houve avalanche, ela aconteceu pelo menos nove horas depois de o grupo cortar a encosta.
  4. As fraturas no tórax e no crânio não pareciam típicas de vítimas de avalanche.

Em 2015, o Comitê de Investigação da Rússia reabriu o caso e, em 2019, concluiu que uma avalanche era a causa mais provável. A Procuradoria-Geral abriu sua própria investigação e, em julho de 2020, chegou à mesma conclusão. Nenhuma das duas, porém, explicou cientificamente as quatro objeções, e parentes e pesquisadores continuaram contestando.

O estudo de 2021

O engenheiro francês Johan Gaume, que dirige o laboratório de simulação de neve e avalanches da EPFL, em Lausanne, e é pesquisador visitante do instituto suíço de pesquisa em neve SLF, nunca tinha ouvido falar do caso. Em outubro de 2019, uma jornalista de Nova York ligou pedindo sua opinião. Ele pesquisou, começou a fazer contas e chamou Alexander Puzrin, engenheiro geotécnico nascido na Rússia e professor do ETH Zurique.

Em janeiro de 2021, os dois publicaram na Communications Earth & Environment um modelo de avalanche de placa. Ela é diferente da avalanche de neve solta que a maioria imagina: uma camada compacta desliza sobre uma camada frágil enterrada, e pode ser pequena.

As respostas às objeções:

  • A inclinação. Embaixo da neve, o terreno era mais íngreme, até 30 graus. Nevascas tinham alisado a superfície para os 23 graus medidos. Com isso, a camada frágil enterrada ficava a uns 28 graus. E o ângulo crítico pode ser bem menor que 30 graus, até 20, quando o atrito da neve é baixo, como no caso dos cristais de geada profunda que a investigação registrou no local.
  • O atraso. O corte feito para a barraca tirou o apoio de baixo da placa. Ventos catabáticos, que descem a encosta empurrados pela gravidade, foram depositando neve acima da barraca, graças a um ressalto do terreno. O modelo mostra que a placa poderia ceder entre 7,5 e 13,5 horas depois do corte, o que bate com a estimativa forense da hora das mortes.
  • A falta de rastro. Uma placa pequena, mais fina na parte de cima, deixa pouca marca, ainda mais 26 dias depois.
  • As fraturas. Os autores combinaram simulações com dados de testes de impacto no tórax feitos pela indústria automobilística nos anos 1970. Na barraca, as vítimas estavam deitadas sobre um piso de neve compactada reforçado com esquis. Presas entre a placa e esse piso rígido, poderiam sofrer fraturas graves sem morrer na hora.

A simulação usou uma técnica numérica chamada Método do Ponto Material. Em 2013, pesquisadores da UCLA e dos estúdios de animação da Disney publicaram uma versão do método adaptada para simular neve.

Os autores admitem uma alternativa: as fraturas podem ter vindo de um impacto posterior no barranco muito íngreme onde os quatro corpos foram encontrados.

Do acampamento ao modelo

  1. 27 de janeiro de 1959Dez esquiadores partem rumo ao monte Otorten.
  2. 28 de janeiroYuri Yudin desiste e volta.
  3. 1º de fevereiroO grupo corta a encosta do Kholat Syakhl e arma a barraca.
  4. 26 de fevereiroSocorristas encontram a barraca danificada.
  5. Cerca de dois meses depoisOs últimos quatro corpos são achados num barranco.
  6. 2019O Comitê de Investigação da Rússia aponta avalanche como causa mais provável.
  7. Julho de 2020A Procuradoria-Geral russa chega à mesma conclusão.
  8. Janeiro de 2021Gaume e Puzrin publicam o modelo físico da avalanche de placa.

O que o estudo não explica

A reconstituição não exige nada de extraordinário, e é aí que ela convence. Mas os próprios autores marcam os limites.

Eles escrevem que o trabalho mostra a plausibilidade de um tipo raro de instabilidade da neve, e que não explica nem trata outros elementos do caso: os traços de radioatividade nas roupas, o comportamento do grupo depois de sair da barraca, a posição e o estado dos corpos. Para eles, esses pontos devem continuar fazendo parte do mistério.

Puzrin resumiu: "A verdade, claro, é que ninguém sabe realmente o que aconteceu naquela noite. Mas fornecemos fortes evidências quantitativas de que a teoria da avalanche é plausível" (tradução nossa). E sobre a causa inicial: "Se eles não tivessem feito um corte na encosta, nada teria acontecido".

Há também uma lição prática no artigo. Para acampar na neve sob encostas, cavar uma caverna de neve pode ser mais seguro do que cortar a encosta para armar barraca.

Imagem de satélite em cores falsas mostrando cristas de montanha alongadas e esbranquiçadas no sentido norte-sul, cercadas por vales verdes e um rio sinuoso no alto.
Trecho dos montes Urais do Norte visto pelo satélite Terra em julho de 2011, perto de 65,5 graus de latitude norte. A imagem mostra o relevo da cordilheira, não o local do acidente. Imagem: NASA/GSFC/METI/ERSDAC/JAROS, and U.S./Japan ASTER Science Team · Domínio público (NASA)

O detalhe que amarra tudo

Não houve monstro nem arma secreta na explicação que tem demonstração física. Houve um grupo competente que provavelmente escolheu um ponto protegido do vento, cortou a neve para armar a barraca e dormiu sob uma encosta que, horas depois, cedeu.

A diferença entre essa hipótese e as outras não é ser mais bonita. É poder ser testada. Durante sessenta anos, o caso acumulou teorias que ninguém conseguia pôr à prova. É o mesmo tipo de virada que aconteceu com o efeito Mpemba, quando alguém finalmente mediu com cuidado, e com o pânico da Guerra dos Mundos, quando alguém foi olhar os dados daquela noite.

Os autores não afirmam ter provado o que aconteceu no Kholat Syakhl. Afirmam ter mostrado que é fisicamente possível, o que até 2021 ninguém tinha feito.

Para outra tragédia noturna com explicação física, há o Lago Nyos, que soltou uma nuvem de gás carbônico em 1986.

Fontes

  1. Mechanisms of slab avalanche release and impact in the Dyatlov Pass incident in 1959 (2021), Johan Gaume e Alexander Puzrin, Communications Earth & Environment
  2. Using science to explore a 60-year-old Russian mystery (2021), EPFL, Escola Politécnica Federal de Lausanne
  3. A material point method for snow simulation (2013), Stomakhin, Schroeder, Chai, Teran e Selle, Walt Disney Animation Studios e UCLA

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

O que foi o incidente do passo Dyatlov?
Em fevereiro de 1959, nove esquiadores experientes, a maioria estudantes do Instituto Politécnico dos Urais, morreram nos montes Urais, na União Soviética. Eles cortaram a própria barraca por dentro, saíram no escuro sem roupas adequadas, a menos de 25 graus negativos, e morreram espalhados pela encosta e pela floresta abaixo.
Qual foi a conclusão oficial da época?
O processo foi encerrado cerca de três meses depois atribuindo as mortes a uma "força natural irresistível", sem detalhar qual. A vagueza da conclusão alimentou décadas de especulação. Em 2019, o Comitê de Investigação da Rússia concluiu que uma avalanche era a causa mais provável, e em julho de 2020 a Procuradoria-Geral chegou à mesma conclusão.
A explicação da avalanche é aceita hoje?
É a mais bem sustentada. Em 2021, Johan Gaume, da EPFL, e Alexander Puzrin, do ETH Zurique, mostraram com modelos e dados de testes de impacto que uma avalanche de placa pequena era possível naquela encosta, com atraso de horas, e explicaria as fraturas observadas. Os próprios autores dizem que não provaram o que aconteceu e que vários pontos, como a radioatividade nas roupas, continuam sem explicação.
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