Nove pessoas saíram da barraca no escuro, a 25 graus negativos, em 1959. A explicação chegou 62 anos depois
O caso do passo Dyatlov virou terreno de teoria da conspiração por décadas. Dois engenheiros suíços mostraram como uma avalanche pequena e improvável pode ter feito tudo.

Na noite de 1º para 2 de fevereiro de 1959, nove montanhistas experientes acamparam numa encosta dos montes Urais, na União Soviética.
Em algum momento da madrugada, todos cortaram a barraca por dentro, saíram descalços ou de meias na neve e caminharam encosta abaixo, com temperatura por volta de 25 graus negativos.
Nenhum voltou.
O que os socorristas encontraram
As buscas levaram meses e revelaram uma cena difícil de encaixar em qualquer explicação simples:
- A barraca estava de pé, com quase todos os pertences dentro, inclusive calçados e casacos.
- Os cortes na lona vieram de dentro para fora.
- Os corpos apareceram espalhados por cerca de 1,5 quilômetro, em grupos.
- Quatro deles, encontrados num barranco meses depois, tinham lesões internas graves: fraturas de crânio e de costelas, sem ferimentos externos correspondentes.
- Uma das vítimas não tinha a língua nem os olhos, o que é comum em corpos expostos por semanas em ambiente úmido.
- Algumas roupas apresentavam radioatividade acima do normal, resultado compatível com trabalho anterior de dois deles em instalações nucleares.
O promotor Lev Ivanov encerrou o processo em maio de 1959 com uma frase que virou a origem de tudo que veio depois: as mortes se deviam a uma "força natural irresistível" que os montanhistas não teriam como enfrentar.
Ele não disse qual.
Sessenta anos de hipóteses
O arquivamento vago, somado ao sigilo soviético e a alguns detalhes estranhos, criou terreno fértil. Ao longo das décadas foram propostos testes militares secretos, ataque de nativos mansi, ovnis, arma sônica, fuga de gás e o iéti.
A explicação por avalanche era considerada e descartada por três objeções que pareciam fortes:
- A encosta tem inclinação de cerca de 23 graus, abaixo dos 30 graus tidos como necessários.
- Não havia rastro de avalanche quando os socorristas chegaram, semanas depois.
- As lesões internas graves sem dano externo não pareciam típicas de neve.
O estudo de 2021
Em janeiro de 2021, Johan Gaume, do ETH Zurique e da EPFL, e Alexander Puzrin, do ETH Zurique, publicaram na Communications Earth & Environment uma resposta às três objeções.
Eles modelaram uma avalanche de placa, que é diferente da avalanche de neve solta que a maioria imagina. Uma placa é uma camada compacta que desliza sobre uma camada frágil embaixo, e pode ser pequena.
Os pontos principais:
- A inclinação. O terreno tem degraus naturais. Ao cavar a plataforma para montar a barraca, o próprio grupo cortou a base de uma camada de neve, criando a condição para o deslizamento. Ventos catabáticos, comuns na região, acumularam neve sobre esse corte nas horas seguintes.
- A ausência de rastro. Uma placa pequena, de poucos metros, seguida de mais neve soprada pelo vento, não deixaria marca visível semanas depois.
- As lesões. Aqui está a parte mais interessante. Os autores usaram dados de ensaios com cadáveres feitos pela indústria automobilística nos anos 1970 para calcular o efeito de um bloco de neve compacta caindo sobre um corpo deitado sobre uma superfície rígida. As pessoas estavam deitadas sobre esquis e mochilas, o que impede o corpo de ceder. Nessa condição, o impacto produz fratura interna sem ferimento externo, exatamente o padrão observado.
Gaume contou que teve a ideia do modelo ao ver a animação de deformação de neve do filme Frozen, e chegou a procurar a equipe de animação da Disney para adaptar o código.
O detalhe que amarra tudo
A reconstituição não exige nada de extraordinário, e é justamente aí que ela convence.
Os nove eram experientes. Sentiram a placa ceder no escuro, dentro de uma barraca soterrada em parte, e fizeram o que qualquer pessoa treinada faria: cortaram a lona pelo caminho mais rápido e saíram.
O erro seguinte foi lógico e fatal. Afastaram-se da encosta instável para esperar em segurança e voltar buscar o material com luz. Só que a 25 graus negativos, sem casaco, o corpo tem menos tempo do que a razão supõe.
Não houve um monstro nem uma arma secreta. Houve uma decisão correta tomada por gente competente, seguida de uma margem de erro que não existia.
Um detalhe fecha o argumento: os autores não afirmam ter provado o que aconteceu. Afirmam ter demonstrado que a hipótese é fisicamente possível, o que até 2021 ninguém tinha feito. Depois de sessenta anos de teorias que não podiam ser testadas, essa é a diferença que importa.
Fontes
- Mechanisms of slab avalanche release and impact in the Dyatlov Pass incident in 1959 (2021), Johan Gaume e Alexander Puzrin, Communications Earth & Environment
Perguntas frequentes
- O que foi o incidente do passo Dyatlov?
- Em fevereiro de 1959, nove estudantes e ex-estudantes experientes em montanhismo morreram nos montes Urais, na União Soviética. Eles cortaram a própria barraca por dentro, saíram no escuro em roupas insuficientes para 25 graus negativos e morreram espalhados pela encosta.
- Qual foi a conclusão oficial da época?
- O processo foi encerrado em maio de 1959 atribuindo as mortes a uma "força natural irresistível", sem detalhar qual. A vagueza da conclusão alimentou décadas de especulação.
- A explicação da avalanche é aceita hoje?
- Ela é a mais bem sustentada. Um estudo de 2021 publicado por dois engenheiros do ETH Zurique e da EPFL mostrou, com modelagem e dados de acidentes reais, que uma avalanche de placa pequena era possível naquela encosta e explicaria as lesões observadas. Não é consenso absoluto, mas é a única hipótese com demonstração física publicada.
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