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Nove pessoas saíram da barraca no escuro, a 25 graus negativos, em 1959. A explicação chegou 62 anos depois

O caso do passo Dyatlov virou terreno de teoria da conspiração por décadas. Dois engenheiros suíços mostraram como uma avalanche pequena e improvável pode ter feito tudo.

Por Redação Fatos e Relatos4 min de leitura
Página datilografada em russo do processo criminal de 1959 que encerrou a investigação sobre as mortes no passo Dyatlov.
Lev Ivanov, promotor-criminalista de Sverdlovsk, 1959, via Wikimedia Commons · Domínio público

Na noite de 1º para 2 de fevereiro de 1959, nove montanhistas experientes acamparam numa encosta dos montes Urais, na União Soviética.

Em algum momento da madrugada, todos cortaram a barraca por dentro, saíram descalços ou de meias na neve e caminharam encosta abaixo, com temperatura por volta de 25 graus negativos.

Nenhum voltou.

O que os socorristas encontraram

As buscas levaram meses e revelaram uma cena difícil de encaixar em qualquer explicação simples:

  • A barraca estava de pé, com quase todos os pertences dentro, inclusive calçados e casacos.
  • Os cortes na lona vieram de dentro para fora.
  • Os corpos apareceram espalhados por cerca de 1,5 quilômetro, em grupos.
  • Quatro deles, encontrados num barranco meses depois, tinham lesões internas graves: fraturas de crânio e de costelas, sem ferimentos externos correspondentes.
  • Uma das vítimas não tinha a língua nem os olhos, o que é comum em corpos expostos por semanas em ambiente úmido.
  • Algumas roupas apresentavam radioatividade acima do normal, resultado compatível com trabalho anterior de dois deles em instalações nucleares.

O promotor Lev Ivanov encerrou o processo em maio de 1959 com uma frase que virou a origem de tudo que veio depois: as mortes se deviam a uma "força natural irresistível" que os montanhistas não teriam como enfrentar.

Ele não disse qual.

Sessenta anos de hipóteses

O arquivamento vago, somado ao sigilo soviético e a alguns detalhes estranhos, criou terreno fértil. Ao longo das décadas foram propostos testes militares secretos, ataque de nativos mansi, ovnis, arma sônica, fuga de gás e o iéti.

A explicação por avalanche era considerada e descartada por três objeções que pareciam fortes:

  1. A encosta tem inclinação de cerca de 23 graus, abaixo dos 30 graus tidos como necessários.
  2. Não havia rastro de avalanche quando os socorristas chegaram, semanas depois.
  3. As lesões internas graves sem dano externo não pareciam típicas de neve.

O estudo de 2021

Em janeiro de 2021, Johan Gaume, do ETH Zurique e da EPFL, e Alexander Puzrin, do ETH Zurique, publicaram na Communications Earth & Environment uma resposta às três objeções.

Eles modelaram uma avalanche de placa, que é diferente da avalanche de neve solta que a maioria imagina. Uma placa é uma camada compacta que desliza sobre uma camada frágil embaixo, e pode ser pequena.

Os pontos principais:

  • A inclinação. O terreno tem degraus naturais. Ao cavar a plataforma para montar a barraca, o próprio grupo cortou a base de uma camada de neve, criando a condição para o deslizamento. Ventos catabáticos, comuns na região, acumularam neve sobre esse corte nas horas seguintes.
  • A ausência de rastro. Uma placa pequena, de poucos metros, seguida de mais neve soprada pelo vento, não deixaria marca visível semanas depois.
  • As lesões. Aqui está a parte mais interessante. Os autores usaram dados de ensaios com cadáveres feitos pela indústria automobilística nos anos 1970 para calcular o efeito de um bloco de neve compacta caindo sobre um corpo deitado sobre uma superfície rígida. As pessoas estavam deitadas sobre esquis e mochilas, o que impede o corpo de ceder. Nessa condição, o impacto produz fratura interna sem ferimento externo, exatamente o padrão observado.

Gaume contou que teve a ideia do modelo ao ver a animação de deformação de neve do filme Frozen, e chegou a procurar a equipe de animação da Disney para adaptar o código.

O detalhe que amarra tudo

A reconstituição não exige nada de extraordinário, e é justamente aí que ela convence.

Os nove eram experientes. Sentiram a placa ceder no escuro, dentro de uma barraca soterrada em parte, e fizeram o que qualquer pessoa treinada faria: cortaram a lona pelo caminho mais rápido e saíram.

O erro seguinte foi lógico e fatal. Afastaram-se da encosta instável para esperar em segurança e voltar buscar o material com luz. Só que a 25 graus negativos, sem casaco, o corpo tem menos tempo do que a razão supõe.

Não houve um monstro nem uma arma secreta. Houve uma decisão correta tomada por gente competente, seguida de uma margem de erro que não existia.

Um detalhe fecha o argumento: os autores não afirmam ter provado o que aconteceu. Afirmam ter demonstrado que a hipótese é fisicamente possível, o que até 2021 ninguém tinha feito. Depois de sessenta anos de teorias que não podiam ser testadas, essa é a diferença que importa.

Fontes

  1. Mechanisms of slab avalanche release and impact in the Dyatlov Pass incident in 1959 (2021), Johan Gaume e Alexander Puzrin, Communications Earth & Environment

Perguntas frequentes

O que foi o incidente do passo Dyatlov?
Em fevereiro de 1959, nove estudantes e ex-estudantes experientes em montanhismo morreram nos montes Urais, na União Soviética. Eles cortaram a própria barraca por dentro, saíram no escuro em roupas insuficientes para 25 graus negativos e morreram espalhados pela encosta.
Qual foi a conclusão oficial da época?
O processo foi encerrado em maio de 1959 atribuindo as mortes a uma "força natural irresistível", sem detalhar qual. A vagueza da conclusão alimentou décadas de especulação.
A explicação da avalanche é aceita hoje?
Ela é a mais bem sustentada. Um estudo de 2021 publicado por dois engenheiros do ETH Zurique e da EPFL mostrou, com modelagem e dados de acidentes reais, que uma avalanche de placa pequena era possível naquela encosta e explicaria as lesões observadas. Não é consenso absoluto, mas é a única hipótese com demonstração física publicada.
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