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Ele provou em 1847 que lavar as mãos salvava mães. Foi demitido, ridicularizado e morreu num manicômio

Ignaz Semmelweis derrubou a mortalidade da enfermaria de 18% para 2% com uma solução de cloro. A classe médica levou décadas para aceitar.

Redação Fatos e RelatosAtualizada em 6 min de leitura
Retrato gravado do médico húngaro Ignaz Semmelweis, de terno e barba, por volta de 1860.
A partir da gravura de Jenő Doby, c. 1860, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Em 1846, a primeira clínica obstétrica de Viena, atendida por médicos e estudantes, perdeu 11,4% das parturientes; a segunda, de parteiras, 2,7%.
  • Ignaz Semmelweis concluiu que os médicos levavam partículas de cadáver nas mãos e mandou lavá-las com cloro em maio de 1847. Em abril, a mortalidade fora de 18,3%; em junho, 2,2%.
  • O contrato dele não foi renovado em 1849. Morreu em 1865, aos 47 anos, num asilo perto de Viena, de uma infecção num ferimento.

No Hospital Geral de Viena, em 1846, havia duas clínicas de maternidade. As gestantes eram encaminhadas a uma ou outra conforme o dia de chegada: a admissão se alternava a cada 24 horas.

Na primeira clínica, onde estudavam os futuros médicos, morreram naquele ano 459 de 4.010 parturientes, ou 11,4%. Na segunda, onde se formavam parteiras, morreram 105 de 3.754, ou 2,7%.

Os números são do próprio Ignaz Semmelweis, no livro que publicou em 1861. Ele conta que viu mulheres de joelhos, torcendo as mãos, implorando para serem liberadas quando percebiam que tinham caído na primeira clínica.

O que Ignaz Semmelweis fez

Semmelweis nasceu em Buda, na Hungria, em 1º de julho de 1818. Assumiu o posto de assistente na primeira clínica em 1º de julho de 1846, no dia em que fez 28 anos.

A diferença entre as duas clínicas o incomodava, e ele foi eliminando explicações uma a uma.

Não era a superlotação: segundo ele, a segunda clínica, que todas preferiam, vivia mais cheia em relação ao espaço que tinha. Não eram influências da atmosfera, que atingiriam as duas igualmente.

Ele chegou a trocar a posição do parto na primeira clínica pela usada na segunda, de lado, sem acreditar muito nisso. Escreveu depois que agiu "como um afogado que se agarra a uma palha" (tradução nossa).

Não era nem o padre que atravessava as enfermarias tocando uma sineta para levar a extrema-unção. Semmelweis conseguiu que os padres fizessem um caminho alternativo, sem sineta. A diferença de mortalidade continuou.

Havia ainda um dado intrigante: mulheres que davam à luz na rua, antes de chegar ao hospital, adoeciam bem menos do que as que pariam lá dentro.

A morte de Kolletschka

Em março de 1847, Semmelweis voltou de uma viagem a Veneza e soube que Jakob Kolletschka, professor de medicina legal que ele admirava, tinha morrido.

Durante uma aula prática de autópsia, um estudante o furou no dedo com o bisturi usado na dissecção. Kolletschka teve inflamação dos vasos linfáticos e das veias do braço e morreu com pleurite, pericardite, peritonite e meningite.

Semmelweis reconheceu o quadro: era o mesmo das mulheres que morriam de febre puerperal.

E então percebeu o que separava as duas clínicas. Os médicos e estudantes lidavam com cadáveres e iam examinar as gestantes. As parteiras, não. Lavar as mãos com sabão não bastava, escreveu ele: o cheiro de cadáver continuava na pele por algum tempo.

A solução, e o resultado

Por volta de meados de maio de 1847, ele não lembrava o dia exato, Semmelweis passou a exigir que todos lavassem as mãos numa solução de cloro antes de examinar as pacientes. Depois trocou o produto pelo cloreto de cal, bem mais barato.

Em abril daquele ano, antes da medida, morreram 57 de 312 parturientes, ou 18,3%. Em maio, 12,2%. Em junho, com a lavagem já em vigor o mês inteiro, 2,2%. Em julho, 1,2%.

Em 1848, com a lavagem o ano todo, a primeira clínica perdeu 45 de 3.556 mulheres: 1,27%. Em março e agosto daquele ano, nenhuma morreu.

Por que ele foi rejeitado

Semmelweis não tinha explicação para o mecanismo. Falava em "partículas cadavéricas" e em matéria orgânica em decomposição. A aceitação da teoria dos germes só viria depois da morte dele.

Mas o obstáculo não era só científico. A conclusão dizia que os médicos estavam levando a morte às pacientes nas próprias mãos.

A frase que melhor resume essa resistência não é dele nem dos colegas de Viena. Foi escrita em 1854 pelo obstetra americano Charles Meigs, de Filadélfia, contra os que defendiam o contágio. Sobre um colega suspeito de levar a febre de casa em casa, perguntou: "Ele a levava nas mãos? Mas as mãos de um cavalheiro são limpas" (tradução nossa).

Em março de 1849, o contrato de Semmelweis em Viena não foi renovado.

De Viena a Pest

  1. 1º de julho de 1846Semmelweis assume como assistente da primeira clínica.
  2. Março de 1847Volta de Veneza e sabe da morte de Kolletschka.
  3. Meados de maio de 1847Começa a lavagem obrigatória das mãos com cloro.
  4. 1848A mortalidade da primeira clínica fica em 1,27% no ano.
  5. Março de 1849O contrato não é renovado.
  6. 20 de maio de 1851Assume, sem salário, a maternidade do Hospital São Roque, em Pest.
  7. 1861Publica o livro sobre a febre puerperal.
  8. 13 de agosto de 1865Morre num asilo perto de Viena, aos 47 anos.

Pest

Em outubro de 1850, Semmelweis voltou para Pest. Pouco antes, Viena o nomeara docente de obstetrícia teórica, com demonstrações limitadas a manequins. Ele considerou o cargo inútil.

Em Pest, ouviu que a maternidade do Hospital São Roque vivia epidemias de febre puerperal, embora ali nenhum estudante examinasse pacientes. Foi ver. Descobriu que o chefe da maternidade era também cirurgião e legista, e fazia a visita da cirurgia antes da visita às parturientes.

Em 20 de maio de 1851, assumiu a maternidade como chefe honorário, sem salário, e ficou seis anos, até 1857. Segundo os números do livro, nos anos letivos de 1850-51 a 1855-56 houve ali 933 partos e 8 mortes por febre puerperal: 0,85%.

Fachada de um prédio de três andares com janelas de venezianas, à frente de uma praça de paralelepípedos com um canteiro redondo de plantas e algumas pessoas na entrada.
O Hospital São Roque, em Budapeste, por volta de 1890. Semmelweis chefiou a maternidade dele entre 1851 e 1857. No canteiro em frente, depois, foi posta uma estátua dele. Imagem: Wellcome Collection · Domínio público

O livro e as cartas

Semmelweis publicou o livro sobre a causa e a prevenção da febre puerperal em 1861. A recepção foi hostil, e ele passou a escrever cartas abertas furiosas à comunidade médica, segundo o Science History Institute.

O detalhe que amarra tudo

Em 1865, o comportamento de Semmelweis havia se deteriorado. Colegas e familiares providenciaram sua internação num asilo austríaco sob falso pretexto.

Segundo a revista de humanidades médicas Hektoen International, lá ele foi contido e espancado por funcionários. Desenvolveu uma infecção num ferimento, que evoluiu para septicemia. Morreu pouco depois da internação, em 13 de agosto de 1865, aos 47 anos.

O pioneiro da antissepsia, resume a mesma revista, morreu de sepse. Uma infecção generalizada, da mesma família da que ele passou a vida tentando afastar das parturientes.

As ideias dele só foram amplamente aceitas depois da morte. A casa onde nasceu, em Buda, abriga desde 1965 o Museu Semmelweis de História da Medicina.

Num artigo de 2018 sobre os 200 anos de Semmelweis, os infectologistas Didier Pittet e Benedetta Allegranzi chamam a higiene das mãos de pedra angular do controle de infecções. E escrevem que ela, sozinha, pode cortar pela metade as infecções adquiridas em serviços de saúde.

Existe até um nome para a rejeição automática de evidências que contrariam a crença estabelecida: reflexo de Semmelweis.

É uma história parecida com a de John Snow, que provou que a cólera vinha da água também sem saber que bactéria a causava. E com a de Barry Marshall, que bebeu um caldo de bactérias para provar que elas causavam úlcera, mais de um século depois.

Outra pioneira que a ciência do seu tempo demorou a reconhecer foi Mary Anning, que aos 13 anos desenterrou o primeiro esqueleto de ictiossauro estudado pela ciência.

Fontes

  1. Die Aetiologie, der Begriff und die Prophylaxis des Kindbettfiebers (1861), Ignaz Philipp Semmelweis, obra digitalizada (Wellcome Library, via Internet Archive)
  2. Preventing sepsis in healthcare – 200 years after the birth of Ignaz Semmelweis, Didier Pittet e Benedetta Allegranzi, Eurosurveillance (2018)
  3. On the Nature, Signs, and Treatment of Childbed Fevers (1854), Charles D. Meigs, Blanchard and Lea, obra digitalizada
  4. Ignaz Semmelweis, Science History Institute
  5. Ignaz Semmelweis: the original hand hygiene pioneer, Hektoen International
  6. HNM Semmelweis Museum of the History of Medicine, Museu Semmelweis de História da Medicina, via Google Arts & Culture

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Perguntas frequentes

O que Semmelweis descobriu?
Que a febre puerperal, que matava mulheres depois do parto, era levada às pacientes pelas mãos de médicos e estudantes que vinham de autópsias. Com a lavagem das mãos em solução de cloro, a partir de maio de 1847, a mortalidade da primeira clínica de Viena caiu de 18,3% em abril para 2,2% em junho, e ficou em 1,27% no ano de 1848.
Por que ele não foi aceito?
Ele não sabia explicar o mecanismo: falava em partículas de cadáver, e a aceitação da teoria dos germes só viria depois da morte dele. Além disso, a conclusão dizia que os médicos causavam as mortes, ideia que muitos colegas rejeitaram.
Como ele morreu?
Em 13 de agosto de 1865, aos 47 anos, num asilo perto de Viena, pouco depois de ser internado sob falso pretexto. Segundo a revista Hektoen International, foi contido e espancado por funcionários e morreu de septicemia causada por um ferimento infectado.
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