Ele provou em 1847 que lavar as mãos salvava mães. Foi demitido, ridicularizado e morreu num manicômio
Ignaz Semmelweis derrubou a mortalidade da enfermaria de 18% para 2% com uma solução de cloro. A classe médica levou décadas para aceitar.

No Hospital Geral de Viena, em 1846, havia duas enfermarias de maternidade. As mulheres eram distribuídas entre elas por dia da semana, sem escolha.
Na primeira, atendida por médicos e estudantes de medicina, morria cerca de uma em cada seis. Na segunda, atendida por parteiras, morria menos de uma em cada vinte e cinco.
As mulheres de Viena sabiam disso. Havia relatos de gestantes implorando de joelhos para não serem internadas na primeira, e de mulheres que preferiam parir na rua.
O que Ignaz Semmelweis fez
Semmelweis era um médico húngaro de 28 anos, assistente na primeira enfermaria. A diferença entre os dois números o incomodava, e ele foi eliminando explicações uma a uma.
Não era superlotação: a segunda enfermaria era mais cheia. Não era o clima, que era o mesmo. Não era a posição do parto, que ele testou mudando. Não era o padre que passava tocando um sino, hipótese que ele levou a sério o suficiente para pedir que mudasse o trajeto.
A resposta veio de uma tragédia. Em 1847, seu colega Jakob Kolletschka morreu depois de se cortar com um bisturi durante uma autópsia. Semmelweis leu o laudo e reconheceu o quadro: era o mesmo das mulheres que morriam de febre puerperal.
E então percebeu o que separava as duas enfermarias.
Os médicos e estudantes faziam autópsias pela manhã e iam direto atender partos. As parteiras não faziam autópsias.
A solução, e o resultado
Semmelweis passou a exigir que todos lavassem as mãos com solução de cloro antes de examinar as pacientes. A escolha do cloro foi empírica: era o que melhor removia o cheiro de cadáver.
A mortalidade da primeira enfermaria caiu de cerca de 18% para menos de 2% em poucos meses. Em abril de 1847, antes da medida, foi de 18,3%. Em alguns meses seguintes, chegou a zero.
Era o resultado mais forte que a medicina da época tinha visto.
Por que ele foi rejeitado
Semmelweis não tinha explicação para o mecanismo. A teoria dos germes só seria estabelecida por Pasteur e Lister nas décadas seguintes. Ele falava em "partículas cadavéricas", que soava vago.
Mas o obstáculo maior não era científico. A conclusão dizia, em bom português, que os médicos estavam matando as pacientes com as próprias mãos. Cavalheiros, argumentaram alguns colegas, não têm mãos sujas.
O chefe do serviço não renovou seu contrato. Semmelweis deixou Viena e voltou à Hungria, onde repetiu o resultado em outro hospital, com a mesma queda drástica.
Publicou seu livro em 1861. A recepção foi hostil. Ele passou a escrever cartas abertas cada vez mais duras a obstetras europeus, chamando-os de assassinos irresponsáveis. Não estava tecnicamente errado, e isso não ajudou.
O detalhe que amarra tudo
Em 1865, o comportamento de Semmelweis havia se deteriorado. Colegas o levaram, sob pretexto de uma visita, a um manicômio em Viena. Ao perceber, tentou sair. Foi contido à força por guardas, espancado e trancado numa cela.
Morreu duas semanas depois, aos 47 anos, de septicemia decorrente de um ferimento infeccionado.
A infecção que o matou é do mesmo tipo daquela que ele passou a vida tentando impedir. E ela chegou pela via que ele havia descrito: por um ferimento tratado sem higiene, num hospital.
Vinte anos depois, quando a teoria dos germes se firmou, ele foi reabilitado. O hospital onde nasceu, em Budapeste, leva seu nome. A prática que ele exigia é hoje a medida isolada mais eficaz de controle de infecção hospitalar no mundo.
Existe até um termo, na literatura, para a rejeição automática de evidência que contraria a crença estabelecida. Chamam de reflexo de Semmelweis.
Fontes
- Die Ätiologie, der Begriff und die Prophylaxis des Kindbettfiebers (1861), Ignaz Philipp Semmelweis
- Ignaz Semmelweis and the birth of infection control, BMJ Quality & Safety
Perguntas frequentes
- O que Semmelweis descobriu?
- Que a febre puerperal, que matava mães depois do parto, era transmitida pelas mãos dos próprios médicos, que vinham de autópsias direto para a sala de parto sem higienizar as mãos. Lavar com solução de cloro derrubou a mortalidade de cerca de 18% para menos de 2%.
- Por que ele não foi aceito?
- A teoria dos germes ainda não existia, então ele não conseguia explicar o mecanismo. Além disso, a conclusão acusava os próprios médicos de causar as mortes, o que foi recebido como ofensa pessoal pela classe.
- Como ele morreu?
- Em 1865, aos 47 anos, num manicômio em Viena, duas semanas após ser internado. O laudo aponta septicemia decorrente de ferimentos, possivelmente causados por espancamento dos guardas.
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