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Ela achou o primeiro esqueleto de ictiossauro aos 12 anos. A Sociedade Geológica não a deixava entrar

Mary Anning descobriu répteis marinhos que mudaram a ideia de extinção. Os cientistas que publicaram sobre eles quase nunca citavam o nome dela.

Por Redação Fatos e Relatos2 min de leitura
Retrato a óleo de Mary Anning, de vestido escuro e chapéu, com um martelo de geóloga e um cachorro deitado ao lado, na praia de Lyme Regis.
Atribuído a "Mr. Grey", antes de 1842, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 1811, na praia de Lyme Regis, no sul da Inglaterra, um menino de 15 anos achou um crânio estranho preso na rocha. Era Joseph Anning. Ele contou à irmã mais nova, Mary, de 12.

Ela passou os meses seguintes escavando. Retirou um esqueleto de mais de cinco metros que não correspondia a nenhum animal vivo conhecido.

Era o primeiro ictiossauro que a ciência aceitaria como tal.

O que estava em jogo

É difícil enxergar hoje o tamanho do problema que aquele fóssil criava.

Em 1811, a ideia de extinção ainda era controversa. A leitura corrente sustentava que a criação era completa e estável, e que uma espécie não desaparecia. Um réptil marinho gigante que não existia em lugar nenhum do planeta forçava a conclusão contrária.

Anning continuou. Em 1823 desenterrou o primeiro esqueleto completo de plesiossauro, tão incomum que o anatomista francês Georges Cuvier, a maior autoridade viva do assunto, acusou o achado de ser falsificação. Ele mesmo se retratou depois de examinar os desenhos.

Em 1828 ela encontrou o primeiro pterossauro achado fora da Alemanha.

A parte que quase ninguém conta

Anning não era uma amadora que teve sorte na praia.

Ela dissecava peixes e lulas atuais para comparar anatomia. Lia os artigos científicos que conseguia obter e os copiava à mão, com as ilustrações, porque não tinha como comprá-los. Identificou que certas pedras encontradas dentro dos esqueletos, chamadas de bezoares, eram na verdade fezes fossilizadas, o que deu informação direta sobre a dieta desses animais. Hoje se chamam coprólitos.

Geólogos consagrados viajavam a Lyme Regis para consultá-la.

E publicavam sem citá-la.

A conta

Os fósseis de Anning foram descritos em artigos assinados por homens que os compraram dela. Ela não podia apresentar trabalho, porque a Sociedade Geológica de Londres não admitia mulheres. Não podia se filiar. Em geral nem era mencionada nas publicações que descreviam suas próprias descobertas.

Passou a vida com dificuldade financeira. Numa carta, escreveu que o mundo a tinha usado com tanta crueldade que a fizera desconfiar de todos.

Morreu de câncer de mama em 1847, aos 47 anos.

O detalhe que amarra tudo

Existe um reconhecimento que chegou tarde e por um caminho torto.

Quando Anning morreu, a Sociedade Geológica de Londres, que nunca a deixara entrar, publicou um elogio fúnebre. Foi a primeira vez na história da instituição que isso foi feito para alguém que não era membro.

E não podia ser membro exatamente por ser quem era.

A Sociedade só passou a admitir mulheres em 1904, cinquenta e sete anos depois.

Os esqueletos que ela retirou da rocha estão até hoje no Museu de História Natural de Londres. Por décadas, as placas ao lado deles traziam o nome dos homens que os descreveram.

Fontes

  1. Mary Anning: the unsung hero of fossil discovery, Natural History Museum, Londres
  2. Mary Anning and the fossils of Lyme Regis, The Geological Society of London

Perguntas frequentes

Quem foi Mary Anning?
Uma coletora e paleontóloga britânica, nascida em 1799 em Lyme Regis, na costa sul da Inglaterra. Descobriu os primeiros esqueletos completos de ictiossauro e plesiossauro reconhecidos pela ciência, além do primeiro pterossauro encontrado fora da Alemanha.
Por que ela não era reconhecida?
Era mulher, de família pobre e dissidente religiosa. A Sociedade Geológica de Londres não aceitava mulheres como membras, e os cientistas que compravam e descreviam seus achados costumavam publicar sem creditá-la.
A Sociedade Geológica reconheceu o erro?
Sim, mais de um século depois. A instituição só passou a admitir mulheres em 1904, e hoje trata Anning publicamente como uma das figuras fundadoras da paleontologia.
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