Ela achou o primeiro esqueleto de ictiossauro aos 12 anos. A Sociedade Geológica não a deixava entrar
Mary Anning descobriu répteis marinhos que mudaram a ideia de extinção. Os cientistas que publicaram sobre eles quase nunca citavam o nome dela.

Em 1811, na praia de Lyme Regis, no sul da Inglaterra, um menino de 15 anos achou um crânio estranho preso na rocha. Era Joseph Anning. Ele contou à irmã mais nova, Mary, de 12.
Ela passou os meses seguintes escavando. Retirou um esqueleto de mais de cinco metros que não correspondia a nenhum animal vivo conhecido.
Era o primeiro ictiossauro que a ciência aceitaria como tal.
O que estava em jogo
É difícil enxergar hoje o tamanho do problema que aquele fóssil criava.
Em 1811, a ideia de extinção ainda era controversa. A leitura corrente sustentava que a criação era completa e estável, e que uma espécie não desaparecia. Um réptil marinho gigante que não existia em lugar nenhum do planeta forçava a conclusão contrária.
Anning continuou. Em 1823 desenterrou o primeiro esqueleto completo de plesiossauro, tão incomum que o anatomista francês Georges Cuvier, a maior autoridade viva do assunto, acusou o achado de ser falsificação. Ele mesmo se retratou depois de examinar os desenhos.
Em 1828 ela encontrou o primeiro pterossauro achado fora da Alemanha.
A parte que quase ninguém conta
Anning não era uma amadora que teve sorte na praia.
Ela dissecava peixes e lulas atuais para comparar anatomia. Lia os artigos científicos que conseguia obter e os copiava à mão, com as ilustrações, porque não tinha como comprá-los. Identificou que certas pedras encontradas dentro dos esqueletos, chamadas de bezoares, eram na verdade fezes fossilizadas, o que deu informação direta sobre a dieta desses animais. Hoje se chamam coprólitos.
Geólogos consagrados viajavam a Lyme Regis para consultá-la.
E publicavam sem citá-la.
A conta
Os fósseis de Anning foram descritos em artigos assinados por homens que os compraram dela. Ela não podia apresentar trabalho, porque a Sociedade Geológica de Londres não admitia mulheres. Não podia se filiar. Em geral nem era mencionada nas publicações que descreviam suas próprias descobertas.
Passou a vida com dificuldade financeira. Numa carta, escreveu que o mundo a tinha usado com tanta crueldade que a fizera desconfiar de todos.
Morreu de câncer de mama em 1847, aos 47 anos.
O detalhe que amarra tudo
Existe um reconhecimento que chegou tarde e por um caminho torto.
Quando Anning morreu, a Sociedade Geológica de Londres, que nunca a deixara entrar, publicou um elogio fúnebre. Foi a primeira vez na história da instituição que isso foi feito para alguém que não era membro.
E não podia ser membro exatamente por ser quem era.
A Sociedade só passou a admitir mulheres em 1904, cinquenta e sete anos depois.
Os esqueletos que ela retirou da rocha estão até hoje no Museu de História Natural de Londres. Por décadas, as placas ao lado deles traziam o nome dos homens que os descreveram.
Fontes
- Mary Anning: the unsung hero of fossil discovery, Natural History Museum, Londres
- Mary Anning and the fossils of Lyme Regis, The Geological Society of London
Perguntas frequentes
- Quem foi Mary Anning?
- Uma coletora e paleontóloga britânica, nascida em 1799 em Lyme Regis, na costa sul da Inglaterra. Descobriu os primeiros esqueletos completos de ictiossauro e plesiossauro reconhecidos pela ciência, além do primeiro pterossauro encontrado fora da Alemanha.
- Por que ela não era reconhecida?
- Era mulher, de família pobre e dissidente religiosa. A Sociedade Geológica de Londres não aceitava mulheres como membras, e os cientistas que compravam e descreviam seus achados costumavam publicar sem creditá-la.
- A Sociedade Geológica reconheceu o erro?
- Sim, mais de um século depois. A instituição só passou a admitir mulheres em 1904, e hoje trata Anning publicamente como uma das figuras fundadoras da paleontologia.
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