Aos 13 anos, ela desenterrou o primeiro esqueleto de ictiossauro estudado pela ciência. A Sociedade Geológica não a deixava entrar
Mary Anning descobriu répteis marinhos que mudaram a ideia de extinção. Muitos dos cientistas que publicaram sobre eles não citavam o nome dela.

Em 30 segundos
- Em 1811, Joseph Anning achou o crânio de um ictiossauro em Lyme Regis; em novembro de 1812, a irmã, Mary, desenterrou o resto do esqueleto. Foi o primeiro ictiossauro descrito pela ciência.
- Mary Anning achou ainda o primeiro esqueleto completo de plesiossauro, em 1823, e o primeiro pterossauro encontrado fora da Alemanha, em 1828.
- Nunca pôde ser membro da Sociedade Geológica de Londres, que só elegeu as primeiras mulheres em 1919. Morreu em 1847, aos 47 anos.
No outono de 1811, em Lyme Regis, no sul da Inglaterra, Joseph Anning achou um crânio estranho na rocha, com cerca de 1,2 metro. A irmã mais nova dele, Mary, tinha 12 anos.
Em novembro de 1812, já com 13 anos, Mary encontrou o resto do animal: a coluna e as costelas. Levou meses para tirar da rocha o contorno de um esqueleto de cerca de cinco metros.
Não era o primeiro ictiossauro a aparecer. Fragmentos já tinham sido achados e chamados de "crocodilos fósseis". Mas, segundo a Sociedade Geológica de Londres, foi esse exemplar que deu início à primeira descrição científica desses répteis marinhos.
A família
Mary Anning nasceu em 21 de maio de 1799. Os pais tiveram pelo menos nove filhos; só ela e Joseph chegaram à idade adulta. A família era pobre e dissidente religiosa, fora da Igreja da Inglaterra.
O pai, Richard, era marceneiro e vendia fósseis aos turistas. Em 1808, caiu de um penhasco ao andar no escuro. Morreu em novembro de 1810, deixando dívidas de 120 libras e a família dependente da assistência aos pobres da paróquia.
Mary estudou na escola dominical da capela até os 11 anos, mais ou menos. Lia e escrevia. Geologia e anatomia, segundo o Museu de História Natural de Londres, aprendeu sozinha.
O que estava em jogo
Na época, quem desenterrava um bicho irreconhecível costumava supor que ele tinha migrado para terras distantes. A teoria da extinção tinha sido proposta pouco antes pelo naturalista francês Georges Cuvier e ainda era nova.
O animal dos Anning foi estudado e discutido por anos. Em 1820, já tinha nome, Ichthyosaurus, e era reconhecido como um réptil marinho extinto.
O crédito, porém, foi para outros. O fóssil foi comprado por um proprietário de terras local por 23 libras e exibido num museu de Londres. Em 1814, o anatomista Everard Home o descreveu num artigo lido na Royal Society. Os Anning não são mencionados: Home cita só o dono anterior.
O plesiossauro e a dúvida de Cuvier
Em 10 de dezembro de 1823, Mary Anning achou o primeiro esqueleto articulado de plesiossauro, um réptil de pescoço longo e cabeça pequena. O Duque de Buckingham o comprou por 150 guinéus.
O fóssil foi levado à reunião da Sociedade Geológica de 20 de fevereiro de 1824. A sala ficava no primeiro andar de um prédio estreito, e a peça, de três metros por dois, não passou pela escada. Foi mostrada no corredor. Anning não foi convidada.
Cuvier, a maior autoridade da época, achou que podia ser fraude ou montagem de dois animais. Mudou de ideia depois de ser convencido pelos geólogos William Conybeare e William Buckland, e mandou um emissário à Inglaterra comprar um exemplar para Paris.
Esse segundo plesiossauro tinha sido achado por outro coletor. Anning o comprou por 3 libras e o revendeu ao emissário francês por 10.

Os coprólitos e o pterossauro
Os coletores de Lyme chamavam de "pedras bezoar" umas pedras espiraladas encontradas junto aos ictiossauros. Dentro delas havia escamas e ossos de peixe.
Segundo a Sociedade Geológica, Anning entendeu o que eram desde 1824: fezes fossilizadas, que ela encontrava com frequência dentro do abdômen dos ictiossauros. Buckland apresentou a conclusão em 1829. Hoje se chamam coprólitos, e servem para reconstituir a dieta e o tamanho de animais extintos.
Em dezembro de 1828, ela desenterrou o primeiro pterossauro achado fora da Alemanha, hoje chamado Dimorphodon. Ao descrevê-lo, Buckland escreveu que o fóssil tinha sido encontrado por "Miss Mary Anning".
A vida de Mary Anning
- 21 de maio de 1799Nasce em Lyme Regis.
- Novembro de 1810Morre o pai, Richard, deixando dívidas de 120 libras.
- 1811 e 1812Joseph acha o crânio; Mary, aos 13, acha o resto do ictiossauro.
- 1814Everard Home descreve o animal sem citar os Anning.
- 10 de dezembro de 1823Primeiro esqueleto completo de plesiossauro.
- Dezembro de 1828Primeiro pterossauro achado fora da Alemanha.
- 9 de março de 1847Morre de câncer de mama, aos 47 anos.
- 21 de maio de 1919A Sociedade Geológica elege as primeiras mulheres.
Quem a conhecia sabia
Em 1824, a viúva Lady Harriet Silvester visitou Anning e escreveu no diário que a jovem conhecia tanto a ciência que, ao achar um osso, sabia a que grupo pertencia. E que os professores reconheciam que ela entendia do assunto mais do que qualquer pessoa no reino.
A mesma anotação atribui isso a um "exemplo maravilhoso de favor divino", porque se tratava de uma "pobre moça ignorante". O museu de paleontologia da Universidade da Califórnia observa que foi preciso invocar a intervenção divina para explicar o conhecimento de uma mulher pobre.
No início dos anos 1820, o coletor Thomas Birch leiloou a própria coleção e deu o dinheiro aos Anning. Justificou que eles tinham achado "quase todas as coisas boas" submetidas à investigação científica.
A conta
Anning não podia ser membro da Sociedade Geológica de Londres, por ser mulher.
A própria Sociedade, na exposição que dedicou a ela, faz uma ressalva à versão mais contada. Os cientistas da época, diz o texto, se apropriaram das descobertas dela "em alguns casos". Mas o círculo de geólogos que a conhecia a respeitava e recorria com frequência à opinião dela.
Esse círculo também a socorreu. Quando ela perdeu as economias de 200 libras para um vigarista, os geólogos fizeram uma coleta que rendeu outras 200. O primeiro-ministro, Lord Melbourne, concedeu 300 libras de um fundo do governo, o Bounty Fund. O dinheiro virou uma pensão de 25 libras por ano.
Em 1830, o geólogo Henry De la Beche pintou Duria Antiquior, cena da vida pré-histórica de Dorset baseada nos animais que ela achara, e vendeu reproduções para ajudá-la.
Anning publicou com o próprio nome um único texto curto. Depois da morte dela, os papéis foram vendidos e dispersos. Para a Sociedade, essa ausência na literatura ajudou a apagar o que ela fez.
Mary Anning: o que se conta e o que as fontes mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Achou sozinha o primeiro ictiossauro aos 12 anos
- O irmão achou o crânio em 1811; ela achou o resto do esqueleto em 1812, aos 13
- Foi o primeiro ictiossauro encontrado
- Já havia fragmentos; foi o primeiro descrito pela ciência
- Ninguém a citava
- Home não a citou em 1814; Buckland a citou em 1829
- Foi ignorada pelos geólogos
- Os que a conheciam a consultavam e arrecadaram dinheiro para ela
O detalhe que amarra tudo
A mãe morreu em 1842. Com câncer de mama, Anning passou a ter dificuldade para trabalhar. Morreu em 9 de março de 1847, aos 47 anos, mesmo ano em que, em Viena, Ignaz Semmelweis mostrou que lavar as mãos salvava parturientes.
Em 18 de fevereiro de 1848, De la Beche, então presidente da Sociedade Geológica, leu o discurso anual em que se homenageiam os membros mortos no ano. Segundo a Sociedade, rompendo a norma, ele incluiu Anning: alguém que "tinha de ganhar o pão de cada dia com o próprio trabalho" e mesmo assim contribuíra "em grau nada pequeno" para o conhecimento dos grandes répteis marinhos (tradução nossa).
Em 1850, membros da Sociedade ajudaram a pagar um vitral em memória dela na igreja de St Michael, em Lyme Regis.
A Sociedade só elegeu as primeiras mulheres em 21 de maio de 1919, 72 anos depois da morte de Anning. O Museu de História Natural de Londres fala em 1908. Pela cronologia da Sociedade, naquele ano uma assembleia declarou desejável admitir mulheres, mas a eleição só veio onze anos depois.
Vários dos fósseis dela estão expostos no Museu de História Natural de Londres. Como acontece com John Snow e a manivela da bomba de Broad Street, a versão mais contada da história dela é mais simples do que o arquivo.
Fontes
- Mary Anning: the unsung hero of fossil discovery, Natural History Museum, Londres
- Mary Anning and the Geological Society (exposição on-line), The Geological Society of London
- Temnodontosaurus platyodon, found 1811-1812, The Geological Society of London
- Final years and memorials (com o discurso de Henry De la Beche, 1848), The Geological Society of London
- Election of women, The Geological Society of London
- Mary Anning (1799-1847), University of California Museum of Paleontology
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Perguntas frequentes
- Quem foi Mary Anning?
- Uma coletora de fósseis e paleontóloga britânica, nascida em 21 de maio de 1799 em Lyme Regis, na costa sul da Inglaterra. Com o irmão, achou o primeiro ictiossauro descrito pela ciência; depois, sozinha, o primeiro esqueleto completo de plesiossauro e o primeiro pterossauro encontrado fora da Alemanha.
- Por que ela não era reconhecida?
- Era mulher, pobre e de família dissidente religiosa. A Sociedade Geológica de Londres não aceitava mulheres, e vários cientistas que compravam e descreviam seus achados publicaram sem citá-la. Ela também só publicou um texto curto com o próprio nome, o que ajudou a apagar seu papel depois da morte.
- Quando a Sociedade Geológica passou a aceitar mulheres?
- Segundo a cronologia da própria Sociedade, as primeiras oito mulheres foram eleitas em 21 de maio de 1919, 72 anos depois da morte de Anning. O Museu de História Natural de Londres cita 1908; pela cronologia da Sociedade, naquele ano uma assembleia declarou desejável admitir mulheres, sem efeito prático imediato.
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