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Ele decorava matrizes de 50 números em minutos e lembrava delas 15 anos depois. Era um problema

Solomon Shereshevsky foi estudado por 30 anos pelo neuropsicólogo Alexander Luria. A memória sem limite parecia um dom — até ficar claro do que ela o impedia.

Redação Fatos e Relatos5 min de leitura
Retrato do neuropsicólogo soviético Alexander Luria, que estudou o mnemonista Solomon Shereshevsky por três décadas.
Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em meados dos anos 1920, um jornalista soviético foi repreendido numa reunião de pauta por não anotar nada. Para espanto de todos — e dele próprio — repetiu a fala inteira do chefe, palavra por palavra.

Era a primeira vez que Solomon Shereshevsky descobria que as outras pessoas não faziam aquilo.

Trinta anos de estudo

O neuropsicólogo Alexander Luria assumiu o caso e o acompanhou por cerca de três décadas. É, provavelmente, o estudo de caso mais longo da história da neuropsicologia. Luria o publicou em 1968 no livro A Mente de um Mnemonista, chamando o sujeito apenas de "S.".

Os testes eram implacáveis. Fórmulas matemáticas complexas, matrizes enormes de números, poemas em línguas que ele não falava. S. memorizava tudo em minutos, com precisão meticulosa.

E o resultado que ainda hoje impressiona: Luria voltava anos depois — em alguns casos quinze anos depois — pedia a tabela de novo, sem aviso, e ele a reproduzia. Inclusive de trás para frente, ou pelas diagonais.

Não havia sinal de decaimento. A informação não desbotava.

Como isso funcionava por dentro

Luria diagnosticou em S. uma sinestesia extraordinariamente forte, atingindo os cinco sentidos: o estímulo de um deles disparava reação em todos os outros.

Um tom musical produzia uma cor. Um toque produzia um sabor. Uma voz podia ser descrita como "amarela e quebradiça".

Isso fazia com que cada informação chegasse embrulhada em um pacote sensorial inteiro — e um pacote assim é muito mais difícil de apagar que um número seco.

Os números, para ele, eram gente:

Pegue o número 1. É um homem orgulhoso, bem constituído; 2 é uma mulher animada; 3, uma pessoa sombria; 6, um homem com o pé inchado; 7, um homem de bigode; 8, uma mulher muito corpulenta — um saco dentro de um saco. Quanto ao 87, o que eu vejo é uma mulher gorda e um homem torcendo o bigode.

Vale registrar uma ressalva que o próprio campo faz: Luria não separou com clareza o que era capacidade natural e o que era técnica. S. descrevia usar o método dos lugares — distribuir mentalmente as informações ao longo de um percurso conhecido — e sistemas de associação por forma dos algarismos. Parte do desempenho vinha de método, não de anomalia.

O preço

Aqui a história vira do avesso, e é por isso que ela vale.

A memória sem freio atrapalhava.

Ler era difícil. Cada palavra disparava imagens, cores e sabores, e as imagens brigavam entre si. Uma frase simples podia se dissolver numa cascata sensorial que enterrava o sentido.

Metáfora era quase impossível. Poesia, então, era um suplício: o sentido figurado esbarrava na concretude do que cada palavra fazia aparecer. Se lhe diziam que alguém tinha "um coração de pedra", ele via a pedra.

Abstrair — descartar o detalhe irrelevante e ficar com o padrão — é exatamente o que uma memória seletiva faz de graça, o tempo todo. S. não conseguia descartar.

E havia um detalhe cruel: ele tinha dificuldade em reconhecer rostos. Não por falta de memória, mas por excesso. Cada expressão de um mesmo rosto se registrava como um objeto novo e distinto. O rosto de uma pessoa não era uma coisa: eram centenas.

Ele passou a ter que treinar o esquecimento. Tentava escrever num papel para poder jogar fora, ou imaginar o texto coberto por uma lona. Nada funcionava de forma confiável.

O detalhe que amarra tudo

Nos anos 2000, o pesquisador Reed Johnson localizou um diário autobiográfico do próprio Shereshevsky. Ele contradiz Luria em vários pontos — inclusive na data do primeiro encontro entre os dois, que S. registra como 13 de abril de 1929.

E há uma frase que desmonta a lenda: segundo o próprio diário, ele não tinha, de fato, memória perfeita.

Mikhail Reynberg, sobrinho dele, lembra que o tio "podia ser esquecido". A família descreve um homem que vivia num quarto úmido no porão de uma dependência de zeladoria num pátio de Moscou, com a esposa Aida e o filho. Reynberg conta ainda que S. foi pressionado a trabalhar para a polícia secreta soviética por causa da memória, e recusou.

Ou seja: o caso mais famoso de memória absoluta da psicologia foi, em alguma medida, construído. Não por fraude — Luria via desempenhos reais e extraordinários —, mas pela distância entre o que um estudo de caso registra e o que uma vida é.

Um homem foi reduzido a uma letra, "S.", e a uma única característica. O resto — o quarto no porão, o emprego incerto, a pressão da NKVD, a esposa, o filho, as falhas de memória comuns — ficou fora do livro que o tornou célebre.

O que ficou

Nada disso invalida a pesquisa. O que S. permitiu a Luria demonstrar continua valendo: memória não é um depósito, é um processo, e um processo que precisa descartar para funcionar.

Esquecer não é o defeito do sistema. É parte do projeto.

Essa conclusão fica ainda mais clara quando o caso é lido ao lado do seu oposto exato: Henry Molaison, o paciente H.M., que depois de uma cirurgia não conseguia formar novas lembranças. Um homem que não conseguia guardar nada, outro que não conseguia largar nada — e os dois mostrando, por vias opostas, que a memória útil vive no equilíbrio entre reter e jogar fora.

Shereshevsky morreu em 1º de maio de 1958. Como no caso de Phineas Gage, o personagem que os livros didáticos fixaram é mais simples, mais redondo e menos verdadeiro que a pessoa que existiu.

Fontes

  1. The Mind of a Mnemonist: A Little Book about a Vast Memory (1968), Alexander R. Luria, Harvard University Press
  2. The Mind of a Mnemonist — exemplar digitalizado, Internet Archive

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Perguntas frequentes

Quem foi Solomon Shereshevsky?
Um jornalista soviético, nascido em 1886 e morto em 1958, que foi objeto do estudo de caso mais longo da neuropsicologia. Alexander Luria o acompanhou por cerca de trinta anos e o descreveu no livro "A Mente de um Mnemonista", de 1968, chamando-o apenas de "S.".
Como ele conseguia memorizar tanto?
Luria diagnosticou nele uma sinestesia múltipla, em que o estímulo de um sentido disparava reação em todos os outros: um som virava cor, um toque virava sabor. Cada informação chegava carregada de textura, cor e sabor, o que a tornava quase impossível de apagar. Ele também usava técnicas mnemônicas clássicas, como o método dos lugares.
A memória perfeita dele era só uma vantagem?
Não. As imagens involuntárias interferiam na leitura e na conversa, e ele tinha grande dificuldade com abstração, metáfora e poesia — o sentido figurado esbarrava na imagem concreta que cada palavra disparava. Ele também tinha dificuldade em reconhecer rostos, porque registrava cada expressão como um objeto novo.
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