Gato sempre cai de pé? Em 1894 as fotos de Marey mostraram como ele gira no ar, e os físicos da Academia de Paris tiveram de corrigir o enunciado de um teorema
O gato tem um reflexo que o põe de patas para baixo durante a queda, e a imagem de 1894 que o revelou obrigou matemáticos a revisar uma regra da mecânica. Cair de pé, porém, não é cair ileso: o que os estudos de 1969, 1987, 2004 e 2026 mostram.

Em 30 segundos
- Numa nota de outubro de 1894, Étienne-Jules Marey mostrou com fotografias em sequência que o gato se endireita girando primeiro a parte da frente do corpo e depois a de trás, sem apoio externo.
- Matemáticos da Academia de Ciências de Paris explicaram o giro e corrigiram o enunciado absoluto de um teorema da mecânica. Kane e Scher propuseram em 1969 um modelo de dois corpos que reproduz o movimento.
- Em 2026, medidas em gatos mostraram que a coluna torácica gira com facilidade e a lombar quase não gira.
- Cair de pé não evita ferimentos: de 132 gatos que caíram de prédios em Nova York, 90% dos tratados sobreviveram, mas muitos tinham lesões sérias.
Quase sempre. O gato tem um reflexo de endireitamento no ar que o põe de patas para baixo durante a queda, e uma série de fotografias que mostra o movimento foi publicada em Paris, no número de 29 de outubro de 1894 dos Comptes rendus da Academia de Ciências. Mas cair de pé não é cair ileso: de 132 gatos que caíram de prédios em Nova York, 90% dos tratados sobreviveram, e muitos tinham ferimentos sérios.
A história mais interessante é a da física. Um gato solto de cabeça para baixo não tem onde se apoiar e, mesmo assim, gira. Para a Academia de Ciências, isso parecia contrariar uma regra da mecânica.
O que Marey viu quando desacelerou a queda
Étienne-Jules Marey estudava a locomoção dos animais na Estação Fisiológica, em Paris. Numa nota publicada nos Comptes rendus da Academia de Ciências, ele escreveu que havia fenômenos que o olho não tem tempo de seguir, entre eles o do animal que cai e se vira para pousar sobre as patas. Há um ditado popular, lembrou, segundo o qual o gato cai sempre sobre as patas, e ele verificou que o mesmo vale para o coelho e o cachorro (tradução nossa).
O efeito tinha "algo de paradoxal": sem ponto de apoio externo, como o bicho gira? Alguns achavam que ele se apoiava nas mãos de quem o soltava. Outros, que se apoiava na resistência do ar.
Marey recorreu à cronofotografia. Disse que, fotografando as imagens a 60 por segundo e passando-as diante do olho a 10 por segundo, o movimento ficava seis vezes mais lento que o real. O que ele descreveu a partir das imagens:
- Nos primeiros quadros, o animal não tem tendência a girar para nenhum lado. A rotação só começa com a torção da região lombar. Isso afasta a hipótese de apoio nas mãos.
- Se o ar tivesse efeito sensível, produziria uma rotação contrária à observada. A hipótese do ar também cai.
- O gato arqueia o dorso para baixo e depois o curva em sentido inverso, enquanto uma torção percorre a coluna.
- A rotação é desigual: primeiro a frente do corpo gira, quase sozinha, e só depois, quando ela já deu cerca de 180 graus, a parte de trás gira.
A explicação de Marey era a inércia do próprio corpo. Com as patas dianteiras encolhidas junto ao pescoço, a frente tem pouca inércia e gira. As traseiras estendidas, quase perpendiculares ao corpo, resistem ao giro contrário. Depois, a posição das patas se inverte. Marey disse que a explicação lhe foi dada pelo colega Guyou.

A regra que parecia proibir o giro
A nota de Marey saiu no mesmo número dos Comptes rendus que trazia duas respostas de matemáticos. O comandante Guyou escreveu que, à primeira vista, o giro espontâneo parece impossível, porque cada ponto do corpo girou 180 graus e isso parecia incompatível com o teorema das áreas, da mecânica. Para ele, a incompatibilidade não existia: a soma das áreas depende das fases intermediárias do movimento, e ela pode ficar sempre nula enquanto o corpo termina girado.
Maurice Lévy mostrou que um sistema articulado pode se virar sem ajuda externa, repetindo movimentos cíclicos. O gato, escreveu, consegue com mais razão, pela flexibilidade do corpo (tradução nossa).
Uma semana depois, Marcel Deprez contou que o tratado de mecânica racional de Delaunay dizia que um ser animado isolado no espaço não consegue se dar um movimento de rotação. Ele lembrou do ditado e fez o teste: soltava gatos de costas sobre uma almofada. De qualquer jeito que fizesse, o resultado confirmava o ditado. Para Deprez, a experiência de Marey mostrou o erro dos autores de tratados de mecânica, e Guyou, Lévy e Émile Picard "retificaram o que o enunciado do teorema tem de absoluto demais" (tradução nossa).
Em 1969, um modelo de dois cilindros
A explicação detalhada demorou. Em 1969, T. R. Kane e M. P. Scher, do Departamento de Mecânica Aplicada da Universidade Stanford, publicaram na revista International Journal of Solids and Structures um modelo de dois corpos rígidos unidos num ponto, a frente e a traseira do gato. Eles listaram as características do movimento a reproduzir: o tronco dobra, mas não torce; a coluna se curva para a frente, depois para um lado, para trás, para o outro lado e de novo para a frente; e a curva para trás é bem menos pronunciada que a da frente.
Um modelo anterior, de Rademaker e Ter Braak, exigia curvas iguais para a frente e para trás. O de Kane e Scher admite curvas diferentes, ao custo da simplicidade. Eles desenharam o movimento por computador e o compararam a fotos da revista Life. Concluíram que a teoria "explica o fenômeno" (tradução nossa).
Da foto à explicação
- 29 de outubro de 1894Marey publica as sequências fotográficas. Guyou e Lévy explicam o giro no mesmo número dos Comptes rendus.
- 5 de novembro de 1894Deprez conta que testou o ditado soltando gatos sobre uma almofada e aponta o erro dos tratados.
- 1969Kane e Scher propõem o modelo de dois corpos rígidos.
- 1984Sechzer e colegas medem quando o reflexo aparece nos filhotes.
- 1987Whitney e Mehlhaff descrevem 132 gatos que caíram de prédios em Nova York.
- 2026Higurashi e colegas medem a torção da coluna de gatos e filmam o giro.
A medida de 2026: a frente gira primeiro
Em 24 de fevereiro de 2026, Yasuo Higurashi e colegas, da Universidade de Yamaguchi, no Japão, publicaram na revista The Anatomical Record medidas da flexibilidade da coluna do gato à torção, que a universidade descreve como a primeira demonstração da grande capacidade de torção das vértebras torácicas. Testaram a coluna de cinco gatos que passaram por autópsia e filmaram o giro de dois gatos vivos.
A coluna torácica tem uma "zona neutra" de 47 graus: nesse intervalo gira quase sem resistência. A lombar quase não tem. Segundo a reportagem da Science Japan, a torácica só deixou de suportar a carga perto de 171 graus de torção, e a lombar a cerca de 57. Nos gatos filmados, a rotação da frente do tronco terminou antes da de trás.
É a descrição de Marey, 132 anos depois, agora com medidas da coluna que combinam com ela. A amostra é pequena: cinco colunas e dois gatos.

Quando o reflexo aparece, e a partir de que altura
Sobre a idade, há medida. Em 1984, Sechzer e colegas testaram reflexos de gatinhos normais do nascimento até as sete semanas. Os primeiros a amadurecer, na terceira semana, foram os de colocação visual das patas, de colocação com o queixo e de endireitamento do corpo no chão. O de endireitamento no ar chegou à maturidade até a quinta semana.
Sobre altura mínima, não encontrei estudo que fixe um número. No experimento de 2026, os gatos soltos de 1 metro se endireitaram.
Cair de pé não é cair ileso
Em 1987, William Whitney e Cheryl Mehlhaff, do Animal Medical Center, em Nova York, descreveram 132 gatos atendidos em cinco meses depois de cair de prédios. A idade média era de 2,7 anos. Nove em cada dez tinham algum trauma torácico, 57% tinham lesão no rosto e 39% fraturas nos membros. Cerca de 30% só foram observados, e 90% dos tratados sobreviveram.
Segundo a descrição de Cecil Adams, do The Straight Dope, os veterinários notaram que as lesões aumentavam com a altura até o sétimo andar e depois diminuíam. Os autores levantaram a hipótese de que, depois de cerca de cinco andares, o gato atingiria a velocidade máxima e relaxaria o corpo, como um paraquedista.
Em 2004, Dražen Vnuk e colegas, de Zagreb, reuniram 119 gatos. Sobreviveram 96,5%, a queda média foi de quatro andares, e a gravidade das lesões subiu de forma brusca a partir do sétimo andar. A curva deles, porém, não revelou um padrão definido.
Há uma crítica de método. O próprio Adams apontou em 1996 que o estudo de 1987 só incluiu gatos levados ao hospital: os que morreram na queda não chegavam à clínica, o que pode fazer as quedas grandes parecerem mais seguras. Um médico do hospital, Michael Garvey, discordou, e Adams escreveu que era um ponto em que "pessoas razoáveis" podem divergir (tradução nossa).
Um ditado que passou na conferência, com ressalva
Marey citou o ditado popular em 1894 e foi conferir. Ao contrário da memória de peixe de 3 segundos, este ditado tem base verdadeira. Como o raio que cai duas vezes no mesmo lugar, porém, ele esconde um exagero: o "sempre", e um "de pé" que não significa ileso.
Fontes
- Des mouvements que certains animaux exécutent pour retomber sur leurs pieds (Note de M. Marey), Comptes rendus, t. 119, nº 18, 29 de outubro de 1894, Académie des sciences, Paris (digitalizado pelo Internet Archive)
- Sur un appareil servant à mettre en évidence certaines conséquences du théorème des aires (Note de M. Marcel Deprez), Comptes rendus, t. 119, nº 19, 5 de novembro de 1894, Académie des sciences, Paris (digitalizado pelo Internet Archive)
- A dynamical explanation of the falling cat phenomenon (1969), T. R. Kane e M. P. Scher, International Journal of Solids and Structures 5, 663–670 (cópia hospedada pela Universidad de los Andes)
- Development and maturation of postural reflexes in normal kittens (1984), Sechzer et al., Experimental Neurology 86(3), 493–505
- High-rise syndrome in cats (1987), Whitney e Mehlhaff, Journal of the American Veterinary Medical Association 191(11), 1399–1403
- Feline high-rise syndrome: 119 cases (1998–2001), Vnuk et al., Journal of Feline Medicine and Surgery 6(5), 305–312 (2004)
- Do cats always land unharmed on their feet, no matter how far they fall? (1996), Cecil Adams, The Straight Dope
- Torsional flexibility of the thoracic spine is superior to that of the lumbar spine in cats (2026), Higurashi et al., The Anatomical Record (Universidade de Yamaguchi)
- Yamaguchi University reveals "cat air-righting" ability lies in the spine (2026), Science Japan (Japan Science and Technology Agency)
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- Por que o gato sempre cai de pé?
- Porque ele gira o corpo no ar, em duas etapas. Em 1894, as fotos em sequência de Étienne-Jules Marey mostraram que o gato arqueia as costas, torce a coluna e gira primeiro a frente do corpo e depois a parte de trás. Em 2026, medidas na Universidade de Yamaguchi indicaram que a coluna torácica gira com facilidade e a lombar quase nada.
- É verdade que o gato sempre cai de pé?
- Quase sempre ele se endireita, mas cair de pé não é cair ileso. Num estudo de 1987 com 132 gatos que caíram de prédios em Nova York, 90% dos tratados sobreviveram, e 90% dos gatos tinham algum trauma torácico. Em Zagreb, de 119 gatos, 96,5% sobreviveram, e 46,2% tinham fraturas nos membros.
- Com que idade o gatinho aprende a cair de pé?
- Num estudo de 1984 com gatinhos acompanhados do nascimento até as sete semanas, o reflexo de endireitamento no ar chegou à maturidade até a quinta semana de vida. Os autores testaram filhotes normais e registraram a maturação dos reflexos semana a semana.
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