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Nenhum tubarão-da-groenlândia foi medido com 512 anos: o maior dos 28 estudados teve idade estimada em 392, com margem de 272 a 512

O número que viralizou é o teto de um intervalo de 95% de certeza, não uma idade medida. Como a datação por radiocarbono do cristalino chegou à estimativa, quem a achou alta e o que os estudos de 2024 a 2026 dizem sobre genes, olhos e coração do vertebrado de vida mais longa conhecido.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Tubarão cinza de focinho arredondado nadando para a direita em águas escuras e azuladas, acima de um fundo de areia esverdeada, com pequenas partículas suspensas na água.
NOAA Okeanos Explorer Program, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Em 2016, a revista Science publicou a datação por radiocarbono do cristalino de 28 tubarões-da-groenlândia fêmeas, de 81 a 502 centímetros.
  • O maior, de 502 cm, teve idade estimada em 392 anos, com margem de 120 anos para mais ou para menos (95% de probabilidade): de 272 a 512.
  • O 512 virou manchete de tabloide em dezembro de 2017. O autor do estudo escreveu que nenhum tubarão foi achado com 500 ou 600 anos.
  • Até o piso da margem, 272 anos, faz do tubarão o vertebrado de vida mais longa conhecido, segundo o estudo.

Nenhum tubarão-da-groenlândia foi medido com 512 anos. O estudo de 2016 que deu origem ao número estimou em 392 anos a idade do maior dos 28 tubarões analisados, uma fêmea de 502 centímetros, com uma margem de 120 anos para mais e para menos. O 512 é o teto dessa margem.

O piso, 272, já basta: segundo os autores, faz do tubarão-da-groenlândia o vertebrado de vida mais longa conhecido.

Como se data um animal sem anéis

Muitos peixes têm estruturas duras que registram a idade, como anéis de crescimento. O tubarão-da-groenlândia é um tubarão "mole": sem tecidos calcificados, não há anel para contar. O pesquisador Julius Nielsen, da Universidade de Copenhague, e colegas recorreram ao cristalino do olho.

O núcleo do cristalino é formado de proteínas metabolicamente inertes, feitas na fase embrionária, e guarda o carbono do início da vida do animal. Os tubarões analisados eram 28 fêmeas de 81 a 502 cm, coletadas em levantamentos científicos na Groenlândia entre 2010 e 2013. A maioria veio de pesca acidental, segundo o University Post, da universidade.

Os pesquisadores mediram o carbono-14. Só os menores, de 220 cm ou menos, tinham o "pulso de bomba", a marca deixada na atmosfera pelos testes nucleares do meio do século 20, que aparece a partir do começo dos anos 1960. Um deles, de 220 cm, ganhou idade de cerca de 50 anos em 2012. Os outros 25 maiores eram anteriores às bombas, e a idade deles saiu de um modelo que combina o carbono-14 com um modelo de crescimento, o tamanho ao nascer e uma correção para o carbono do oceano.

Tubarão de pele cinza-azulada manchada, de focinho arredondado, visto de frente e de cima, em água escura; sobre o olho há um pequeno filamento claro.
Tubarão-da-groenlândia fotografado na borda do gelo em Admiralty Inlet, em Nunavut, no Canadá. Um recorte desta foto, no Commons, identifica o filamento sobre o olho como o copépode parasita Ommatokoita. A foto mostra um indivíduo, não um dos 28 do estudo. Imagem: Hemming1952, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

De onde saiu o 392, e de onde saiu o 512

O resultado, no resumo do artigo, é este: o maior animal, de 502 cm, tem 392 ± 120 anos. A conta é "ponto médio mais ou menos metade da faixa", com 95,4% de probabilidade. Logo, a faixa vai de 272 a 512. O segundo maior, de 493 cm, teve 335 ± 75 anos.

Nielsen disse ao Live Science que o ponto médio da faixa, "a idade de um único ano mais provável", era de 390 anos. E repetiu: "Há alguma incerteza nessa estimativa", mas "até a parte mais baixa da faixa, ao menos 272 anos, ainda faz do tubarão-da-groenlândia o vertebrado de vida mais longa conhecido pela ciência" (tradução nossa).

O crescimento é a outra pista. O manuscrito do estudo cita crescimento anual de no máximo 1 cm. Já a maturidade sexual é tardia: como as fêmeas ficam maduras com mais de 400 cm, a idade correspondente seria de ao menos 156 ± 22 anos, calculada num tubarão de 392 cm.

Como o 512 virou manchete

A pesquisa saiu em 12 de agosto de 2016 e foi um sucesso: segundo o University Post, Nielsen falou com 80 a 90 jornalistas em três dias e saíram 1.200 matérias em 48 horas. Nielsen reclamou que parte da imprensa pegou só a idade máxima de um tubarão, apesar de ele ter tentado explicar a margem de erro.

Em dezembro de 2017, segundo o Snopes, tabloides como The Sun disseram que se tinha achado um tubarão de 512 anos, "nascido antes de Shakespeare". O Live Science respondeu em 15 de dezembro: a análise "não identificou nenhum como tendo mais de 500 anos".

O próprio Nielsen explicou no Instagram, segundo o Snopes, que não tinham achado nenhum tubarão de 500 ou 600 anos: o que estimaram foi que um tubarão tinha pelo menos 272 anos, ou, em detalhe, entre 272 e 512 com 95% de certeza, e que isso também era uma estimativa não verificada.

O que viralizou e o que o estudo mediu

Em cada item, primeiro: manchete de 2017. Depois: estudo de 2016.

Cientistas acharam um tubarão de 512 anos.
Estimaram 392 anos para o maior dos 28, com 95% de certeza entre 272 e 512.
A idade foi medida.
É uma estimativa por radiocarbono e modelo, e o próprio autor diz que não foi verificada.
Só um tubarão importa.
O estudo analisou 28 fêmeas, e a conclusão de longevidade vale para a espécie, pelo piso de 272 anos.

Quem achou a estimativa alta

O estudo foi bem recebido, mas teve ressalvas. O biólogo marinho Aaron MacNeil, que não participou, elogiou o trabalho, mas questionou um elemento da análise e disse, segundo o Maritime Executive, que a idade de 392 anos "me parece alta" (tradução nossa). Eu não achei o raciocínio completo dele.

O próprio manuscrito admite premissas: a cronologia "presume que tamanho e idade se correlacionam positivamente". E Nielsen explicou ao University Post que não dá para datar um único tubarão com carbono-14, porque o método é impreciso nesse caso: é preciso analisar muitos animais e compará-los entre si.

O detalhe que amarra tudo é de onde vem o relógio. A âncora do estudo é o pulso de carbono-14 dos testes nucleares do começo dos anos 1960, que marca só os tubarões pequenos. Para os grandes, nascidos antes, a idade vem de calibração e de modelo, e daí as margens largas. Nielsen brincou que o melhor teria sido ter detonado, a cada 50 anos nos últimos 500, bombas de hidrogênio "bem sujas": assim o título do artigo poderia passar de "estimar" para "estabelecer" a idade (tradução nossa).

O que 2024 a 2026 acrescentaram

Em 2024, uma equipe liderada por Arne Sahm, da Universidade de Ruhr em Bochum, divulgou o genoma da espécie no bioRxiv, um repositório de estudos ainda sem revisão. O genoma tem 6,5 bilhões de pares de bases, o dobro do humano, e mais de 70% dele são elementos transponíveis, os "genes saltadores". Os autores sugerem que um reparo de DNA melhor pode ter papel na longevidade, mas dizem que são necessários mais estudos.

Em maio de 2026, a PNAS publicou outro genoma, de uma equipe com sede na Universidade de Tóquio, com 5,9 bilhões de bases. O resumo aponta genes de imunidade, resistência ao câncer e reparo de DNA, e cita a idade de 392 ± 120 anos como a estimativa vigente. Os dois números de tamanho diferem, e os resumos não explicam por quê.

Os números de idade também variam: um estudo do coração, de 2026, fala em vida de cerca de 300 anos, e um do olho, no mesmo ano, em até 400. Os olhos aliás surpreenderam: apesar dos copépodes parasitas na córnea, a Nature Communications mostrou retina intacta, com bastonetes, as células da luz fraca, e córneas que transmitem de 70 a 100% da luz, sem sinais claros de degeneração nos exemplares examinados.

Mapa-múndi em cinza com manchas azuis no Atlântico Norte, em volta da Groenlândia, do Canadá oriental e do norte da Europa.
Distribuição do tubarão-da-groenlândia, segundo o mapa do Commons. O estudo de 2016 descreve a espécie como amplamente distribuída no Atlântico Norte e como captura acidental frequente na pesca de fundo no Ártico e no subártico. Imagem: Chris_huh, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Para outros jeitos de desafiar o tempo, a água-viva Turritopsis volta a ser pólipo, e o tardígrado aguentou o espaço. O tubarão-da-groenlândia continua com o título que a ciência lhe dá, o de vertebrado mais longevo, e com a incerteza que a própria pesquisa assume.

Fontes

  1. Eye lens radiocarbon reveals centuries of longevity in the Greenland shark (Somniosus microcephalus) (2016), Nielsen et al., Science 353(6300), 702–704
  2. Eye lens radiocarbon reveals centuries of longevity in Greenland shark (manuscrito aceito), Oxford Research Archive (Universidade de Oxford)
  3. The truth about the world’s oldest shark (2016), University Post, Universidade de Copenhague
  4. Greenland Shark Nearly Four Hundred Years Old (2016), The Maritime Executive (reportagem sobre o estudo)
  5. No, Scientists Haven’t Found a 512-Year-Old Greenland Shark (2017), Mindy Weisberger, Live Science
  6. Did Researchers Discover a 512-Year-Old Shark? (2018), Snopes
  7. Biology: How to live 400 years (2024), Universidade de Ruhr em Bochum (comunicado sobre o genoma de Sahm et al.)
  8. The Greenland shark genome: Insights into lifespan extremes and population dynamics (2026), Yang et al., Proceedings of the National Academy of Sciences 123(21)
  9. The visual system of the longest-living vertebrate, the Greenland shark (2026), Fogg et al., Nature Communications 17

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Perguntas frequentes

O tubarão-da-groenlândia tem 512 anos?
Não. Nenhum tubarão foi medido com 512 anos. O estudo de 2016 estimou a idade do maior dos 28 tubarões em 392 anos, com 95% de probabilidade de estar entre 272 e 512. O 512 é o teto dessa margem. O autor, Julius Nielsen, escreveu que nenhum tubarão foi achado com 500 ou 600 anos.
Quantos anos vive o tubarão-da-groenlândia?
O estudo de 2016 concluiu que a vida chega a pelo menos 272 anos, o que o torna o vertebrado de vida mais longa conhecido. A estimativa para a maior fêmea, de 502 cm, foi de 392 anos, com margem de 120 anos. Estudos de 2026 citam números diferentes: cerca de 300 anos num, até 400 em outro.
O tubarão-da-groenlândia é cego?
Não. Os olhos costumam ter copépodes parasitas presos à córnea, e por isso se pensava que a visão era ruim. Um estudo de 2026 na Nature Communications achou um sistema visual intacto, adaptado à pouca luz, e córneas que deixam passar de 70 a 100% da luz medida.
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