O último caso natural de varíola foi um cozinheiro de hospital na Somália, em 1977. A última morte, um ano depois, veio de um laboratório na Inglaterra
A OMS declarou a varíola erradicada em 8 de maio de 1980. O caminho passou por vacinação em anel, um erro de rastreamento em Merca e um vazamento em Birmingham, e o vírus ainda existe em dois laboratórios.

Em 30 segundos
- A OMS declarou o mundo livre da varíola em 8 de maio de 1980. Antes da vacina, 3 em cada 10 pessoas infectadas morriam, segundo o CDC.
- O Programa Intensificado de Erradicação começou em 1967. Combinou vacinação em massa, vigilância dos casos e vacinação de quem tinha contato com cada doente.
- O último caso natural foi o de Ali Maow Maalin, cozinheiro de hospital em Merca, na Somália, em outubro de 1977. Ele sobreviveu. A última morte foi a de Janet Parker, em Birmingham, em 1978.
- No Brasil, o último caso foi em abril de 1971, no Rio de Janeiro. Hoje o vírus só é guardado oficialmente no CDC, nos Estados Unidos, e no instituto Vector, na Rússia.
A varíola foi declarada erradicada em 8 de maio de 1980, quando a Assembleia Mundial da Saúde, órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou o mundo livre da doença. É a única doença infecciosa a receber essa declaração, segundo a OMS. O último caso natural foi em outubro de 1977, na Somália, e a última morte foi em 1978, causada por um laboratório.
Antes disso, a varíola matava em média 3 de cada 10 pessoas que a pegavam, segundo o CDC, e deixava cicatrizes nas que sobreviviam.
Uma doença que matava 3 em cada 10 infectados
Estimativas citadas pela Universidade Estadual de Ohio falam em até 300 milhões de mortes só no século 20. O número varia conforme a fonte, e nenhuma contagem da época é exata.
Em 1967, quando a OMS lançou o Programa Intensificado de Erradicação, a doença já tinha sido eliminada da América do Norte (1952) e da Europa (1953), segundo o CDC. Ainda circulava na América do Sul, na Ásia e na África.
O programa deu certo por uma soma de coisas, diz o CDC: vacina liofilizada (seca) de qualidade melhor, produzida em mais países; a agulha bifurcada; um sistema para registrar cada caso; e campanhas de vacinação em massa.

O anel em volta de cada caso
O método ganhou fama como vacinação em anel. Depois da vacinação em massa, equipes locais saíam em busca de focos persistentes, vacinavam o doente e as pessoas em contato com ele e criavam, assim, um anel de imunizados em volta do vírus, descreve o texto da Universidade Estadual de Ohio. O método foi desenvolvido pelo epidemiologista americano William Foege.
Na Índia e em Bangladesh, que somavam mais de 700 milhões de habitantes, muitos em áreas rurais ou em deslocamento constante, o método foi especialmente difícil, segundo o texto de Ohio. Mesmo assim, segundo o CDC, a varíola foi eliminada da América do Sul em 1971, da Ásia em 1975 e da África em 1977.

Um cozinheiro, um erro de rastreamento e uma sobrevivência
O último caso natural foi o de Ali Maow Maalin, cozinheiro de um hospital em Merca, na Somália, segundo o CDC. Em 12 de outubro de 1977, ele acompanhou doentes de varíola num veículo, do hospital até o escritório local do programa. Em 22 de outubro, teve febre.
Ele foi tratado primeiro como malária e depois como varicela. A equipe de erradicação fez o diagnóstico correto em 30 de outubro. A Universidade Estadual de Ohio acrescenta que ele não tinha sido incluído na lista de contatos dos doentes que acompanhou, o que ela chama de erro de rastreamento.
Maalin ficou isolado e se recuperou. O caso era de varíola menor, a forma mais branda da doença. A região foi monitorada por meses, segundo a Universidade Estadual de Ohio, e nenhum caso novo apareceu.
A história tem uma segunda parte. Maalin morreu em 22 de julho de 2013, de malária, quando trabalhava na campanha de erradicação da poliomielite, registra o CDC.
Em Birmingham, a última morte
A morte veio de um laboratório. Janet Parker, fotógrafa médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, trabalhava um andar acima do departamento de microbiologia, onde se pesquisava o vírus. Ficou doente em 11 de agosto de 1978 e morreu em 11 de setembro de 1978, segundo o CDC.
A investigação sugeriu que ela se infectou pelo ar, pelo sistema de dutos do prédio, ou por contato direto ao passar pelo corredor da microbiologia. Segundo o CDC, a mãe dela também adoeceu, em 7 de setembro, mesmo vacinada duas semanas antes.
Da campanha ao último caso
- 1967A OMS inicia o Programa Intensificado de Erradicação da Varíola.
- 1971A varíola é eliminada da América do Sul; o último caso do Brasil e das Américas é registrado no Rio de Janeiro.
- 1975Eliminada da Ásia.
- Outubro de 1977Último caso natural: Ali Maow Maalin, em Merca, na Somália.
- 11 de setembro de 1978Janet Parker morre em Birmingham, a última vítima da doença.
- 9 de dezembro de 1979A comissão mundial assina o documento que declara o mundo livre da varíola.
- 8 de maio de 1980A Assembleia Mundial da Saúde faz a declaração oficial.
O último caso do Brasil foi no Rio, em 1971
Em 1967, segundo documento da Organização Pan-Americana da Saúde, o Brasil registrava quase a maioria dos casos de varíola das Américas. O governo criou a Campanha Nacional contra a Varíola em 1962; os casos caíram de 9.600, com 160 mortes, naquele ano, para 3.623, com 20 mortes, em 1966, quando a campanha de erradicação foi criada, conta a Revista Pesquisa FAPESP.
Em abril de 1971, 19 moradores da Vila Cruzeiro, uma comunidade no bairro da Penha, na zona norte do Rio, foram os últimos a ter varíola no Brasil, segundo a mesma reportagem. Foi também o último caso das Américas.
A campanha usou vacinação em massa em festas populares, escolas, feiras e quartéis, segundo o historiador Gilberto Hochman, da Fiocruz, citado pela reportagem, e pistolas injetoras que vacinavam milhares de pessoas por dia. A vacinação de bloqueio, em volta de cada caso, ajudou a conter o sarampo nas últimas duas décadas.
O clima era outro do de 1904, quando a vacinação obrigatória levou à Revolta da Vacina. E a experiência da campanha deu base ao Programa Nacional de Imunizações, criado em 1973, diz a historiadora Tania Maria Fernandes, da Fiocruz.
O vírus que sobrou em dois freezers
Depois da erradicação, os laboratórios autorizados a guardar o vírus foram reduzidos a quatro, e em 1984 já eram dois, segundo o CDC: o próprio CDC, em Atlanta, nos Estados Unidos, e o Centro Estatal de Pesquisa de Virologia e Biotecnologia (Vector), em Koltsovo, na Rússia.
A OMS diz que, em 1996, a Assembleia decidiu destruir o estoque em junho de 1999, mas a retenção temporária continuou, para pesquisa de vacinas e tratamentos. O vírus vivo ficou guardado, e a última morte foi de alguém que trabalhava perto dele. Para outra emergência de saúde que pegou uma cidade brasileira de surpresa, veja a gripe espanhola no Rio de Janeiro, em 1918.
Fontes
- History of Smallpox, Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC)
- Smallpox, Organização Mundial da Saúde (OMS)
- A erradicação da varíola e a certificação de países livres (documento CD50/INF/5, 2010), Organização Pan-Americana da Saúde / OMS
- Os caminhos abertos pela primeira vacina, Revista Pesquisa FAPESP, com historiadores da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
- The WHO and the Eradication of Smallpox, Origins, Universidade Estadual de Ohio
Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.
Perguntas frequentes
- Quando a varíola foi erradicada no mundo?
- A Assembleia Mundial da Saúde declarou o mundo livre da varíola em 8 de maio de 1980. Antes, em 9 de dezembro de 1979, a comissão mundial que certificava a erradicação assinou um documento no mesmo sentido. O último caso natural tinha sido registrado em outubro de 1977, em Merca, na Somália.
- Como ocorreu a erradicação da varíola?
- Pelo Programa Intensificado de Erradicação, iniciado pela OMS em 1967. Reuniu vacina liofilizada de melhor qualidade, a agulha bifurcada, vigilância para achar cada caso e campanhas de vacinação em massa. Depois de cada caso, a equipe vacinava os contatos, formando um anel de vacinados em volta do doente.
- A varíola pode voltar?
- Não há casos naturais desde 1977. O vírus, porém, ainda é guardado oficialmente em dois lugares, sob supervisão da OMS: o CDC, em Atlanta, e o instituto Vector, em Koltsovo, na Rússia. Em 1978, um vazamento de laboratório em Birmingham, na Inglaterra, causou a última morte pela doença.
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