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O último caso natural de varíola foi um cozinheiro de hospital na Somália, em 1977. A última morte, um ano depois, veio de um laboratório na Inglaterra

A OMS declarou a varíola erradicada em 8 de maio de 1980. O caminho passou por vacinação em anel, um erro de rastreamento em Merca e um vazamento em Birmingham, e o vírus ainda existe em dois laboratórios.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Fotografia em preto e branco de três homens de camisa em frente a uma parede de madeira; o do meio, sentado, segura uma revista aberta com a manchete "smallpox is dead!" ao lado de um globo.
CDC, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • A OMS declarou o mundo livre da varíola em 8 de maio de 1980. Antes da vacina, 3 em cada 10 pessoas infectadas morriam, segundo o CDC.
  • O Programa Intensificado de Erradicação começou em 1967. Combinou vacinação em massa, vigilância dos casos e vacinação de quem tinha contato com cada doente.
  • O último caso natural foi o de Ali Maow Maalin, cozinheiro de hospital em Merca, na Somália, em outubro de 1977. Ele sobreviveu. A última morte foi a de Janet Parker, em Birmingham, em 1978.
  • No Brasil, o último caso foi em abril de 1971, no Rio de Janeiro. Hoje o vírus só é guardado oficialmente no CDC, nos Estados Unidos, e no instituto Vector, na Rússia.

A varíola foi declarada erradicada em 8 de maio de 1980, quando a Assembleia Mundial da Saúde, órgão da Organização Mundial da Saúde (OMS), declarou o mundo livre da doença. É a única doença infecciosa a receber essa declaração, segundo a OMS. O último caso natural foi em outubro de 1977, na Somália, e a última morte foi em 1978, causada por um laboratório.

Antes disso, a varíola matava em média 3 de cada 10 pessoas que a pegavam, segundo o CDC, e deixava cicatrizes nas que sobreviviam.

Uma doença que matava 3 em cada 10 infectados

Estimativas citadas pela Universidade Estadual de Ohio falam em até 300 milhões de mortes só no século 20. O número varia conforme a fonte, e nenhuma contagem da época é exata.

Em 1967, quando a OMS lançou o Programa Intensificado de Erradicação, a doença já tinha sido eliminada da América do Norte (1952) e da Europa (1953), segundo o CDC. Ainda circulava na América do Sul, na Ásia e na África.

O programa deu certo por uma soma de coisas, diz o CDC: vacina liofilizada (seca) de qualidade melhor, produzida em mais países; a agulha bifurcada; um sistema para registrar cada caso; e campanhas de vacinação em massa.

Fotografia de um frasco de vacina com rótulo, uma seringa deitada e uma agulha fina de ponta dupla sobre um tecido azul.
Kit moderno de vacina contra varíola, com o frasco de vacina e a agulha bifurcada, fotografado pelo CDC em 2002. É um registro posterior à campanha, que mostra o instrumento. Imagem: James Gathany/CDC, via Wikimedia Commons · Domínio público

O anel em volta de cada caso

O método ganhou fama como vacinação em anel. Depois da vacinação em massa, equipes locais saíam em busca de focos persistentes, vacinavam o doente e as pessoas em contato com ele e criavam, assim, um anel de imunizados em volta do vírus, descreve o texto da Universidade Estadual de Ohio. O método foi desenvolvido pelo epidemiologista americano William Foege.

Na Índia e em Bangladesh, que somavam mais de 700 milhões de habitantes, muitos em áreas rurais ou em deslocamento constante, o método foi especialmente difícil, segundo o texto de Ohio. Mesmo assim, segundo o CDC, a varíola foi eliminada da América do Sul em 1971, da Ásia em 1975 e da África em 1977.

Fotografia em preto e branco de um homem de tranças e colares de couro, de perfil, enquanto uma mão com um aparelho metálico encosta no braço dele.
Vacinação durante o Programa de Erradicação da Varíola e Controle do Sarampo no Níger, em fevereiro de 1969, segundo o CDC. O aparelho em primeiro plano é um injetor a pressão. Imagem: CDC/Dr. J. D. Millar, via Wikimedia Commons · Domínio público

Um cozinheiro, um erro de rastreamento e uma sobrevivência

O último caso natural foi o de Ali Maow Maalin, cozinheiro de um hospital em Merca, na Somália, segundo o CDC. Em 12 de outubro de 1977, ele acompanhou doentes de varíola num veículo, do hospital até o escritório local do programa. Em 22 de outubro, teve febre.

Ele foi tratado primeiro como malária e depois como varicela. A equipe de erradicação fez o diagnóstico correto em 30 de outubro. A Universidade Estadual de Ohio acrescenta que ele não tinha sido incluído na lista de contatos dos doentes que acompanhou, o que ela chama de erro de rastreamento.

Maalin ficou isolado e se recuperou. O caso era de varíola menor, a forma mais branda da doença. A região foi monitorada por meses, segundo a Universidade Estadual de Ohio, e nenhum caso novo apareceu.

A história tem uma segunda parte. Maalin morreu em 22 de julho de 2013, de malária, quando trabalhava na campanha de erradicação da poliomielite, registra o CDC.

Em Birmingham, a última morte

A morte veio de um laboratório. Janet Parker, fotógrafa médica da Faculdade de Medicina da Universidade de Birmingham, na Inglaterra, trabalhava um andar acima do departamento de microbiologia, onde se pesquisava o vírus. Ficou doente em 11 de agosto de 1978 e morreu em 11 de setembro de 1978, segundo o CDC.

A investigação sugeriu que ela se infectou pelo ar, pelo sistema de dutos do prédio, ou por contato direto ao passar pelo corredor da microbiologia. Segundo o CDC, a mãe dela também adoeceu, em 7 de setembro, mesmo vacinada duas semanas antes.

Da campanha ao último caso

  1. 1967A OMS inicia o Programa Intensificado de Erradicação da Varíola.
  2. 1971A varíola é eliminada da América do Sul; o último caso do Brasil e das Américas é registrado no Rio de Janeiro.
  3. 1975Eliminada da Ásia.
  4. Outubro de 1977Último caso natural: Ali Maow Maalin, em Merca, na Somália.
  5. 11 de setembro de 1978Janet Parker morre em Birmingham, a última vítima da doença.
  6. 9 de dezembro de 1979A comissão mundial assina o documento que declara o mundo livre da varíola.
  7. 8 de maio de 1980A Assembleia Mundial da Saúde faz a declaração oficial.

O último caso do Brasil foi no Rio, em 1971

Em 1967, segundo documento da Organização Pan-Americana da Saúde, o Brasil registrava quase a maioria dos casos de varíola das Américas. O governo criou a Campanha Nacional contra a Varíola em 1962; os casos caíram de 9.600, com 160 mortes, naquele ano, para 3.623, com 20 mortes, em 1966, quando a campanha de erradicação foi criada, conta a Revista Pesquisa FAPESP.

Em abril de 1971, 19 moradores da Vila Cruzeiro, uma comunidade no bairro da Penha, na zona norte do Rio, foram os últimos a ter varíola no Brasil, segundo a mesma reportagem. Foi também o último caso das Américas.

A campanha usou vacinação em massa em festas populares, escolas, feiras e quartéis, segundo o historiador Gilberto Hochman, da Fiocruz, citado pela reportagem, e pistolas injetoras que vacinavam milhares de pessoas por dia. A vacinação de bloqueio, em volta de cada caso, ajudou a conter o sarampo nas últimas duas décadas.

O clima era outro do de 1904, quando a vacinação obrigatória levou à Revolta da Vacina. E a experiência da campanha deu base ao Programa Nacional de Imunizações, criado em 1973, diz a historiadora Tania Maria Fernandes, da Fiocruz.

O vírus que sobrou em dois freezers

Depois da erradicação, os laboratórios autorizados a guardar o vírus foram reduzidos a quatro, e em 1984 já eram dois, segundo o CDC: o próprio CDC, em Atlanta, nos Estados Unidos, e o Centro Estatal de Pesquisa de Virologia e Biotecnologia (Vector), em Koltsovo, na Rússia.

A OMS diz que, em 1996, a Assembleia decidiu destruir o estoque em junho de 1999, mas a retenção temporária continuou, para pesquisa de vacinas e tratamentos. O vírus vivo ficou guardado, e a última morte foi de alguém que trabalhava perto dele. Para outra emergência de saúde que pegou uma cidade brasileira de surpresa, veja a gripe espanhola no Rio de Janeiro, em 1918.

Fontes

  1. History of Smallpox, Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC)
  2. Smallpox, Organização Mundial da Saúde (OMS)
  3. A erradicação da varíola e a certificação de países livres (documento CD50/INF/5, 2010), Organização Pan-Americana da Saúde / OMS
  4. Os caminhos abertos pela primeira vacina, Revista Pesquisa FAPESP, com historiadores da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
  5. The WHO and the Eradication of Smallpox, Origins, Universidade Estadual de Ohio

Como conferimos cada matéria: nosso método. Achou um erro? Veja como corrigimos.

Perguntas frequentes

Quando a varíola foi erradicada no mundo?
A Assembleia Mundial da Saúde declarou o mundo livre da varíola em 8 de maio de 1980. Antes, em 9 de dezembro de 1979, a comissão mundial que certificava a erradicação assinou um documento no mesmo sentido. O último caso natural tinha sido registrado em outubro de 1977, em Merca, na Somália.
Como ocorreu a erradicação da varíola?
Pelo Programa Intensificado de Erradicação, iniciado pela OMS em 1967. Reuniu vacina liofilizada de melhor qualidade, a agulha bifurcada, vigilância para achar cada caso e campanhas de vacinação em massa. Depois de cada caso, a equipe vacinava os contatos, formando um anel de vacinados em volta do doente.
A varíola pode voltar?
Não há casos naturais desde 1977. O vírus, porém, ainda é guardado oficialmente em dois lugares, sob supervisão da OMS: o CDC, em Atlanta, e o instituto Vector, em Koltsovo, na Rússia. Em 1978, um vazamento de laboratório em Birmingham, na Inglaterra, causou a última morte pela doença.
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