Lápides de 1338 no Quirguistão diziam “morreu de pestilência”. O DNA desses mortos apontou a origem da Peste Negra; um modelo de 2018 pôs em dúvida a culpa dos ratos
Um estudo de 2022 achou a bactéria Yersinia pestis em vítimas enterradas em 1338 e 1339 perto do lago Issyk-Kul, oito anos antes dos surtos no Mar Negro. Outro, de 2018, sugere que piolhos e pulgas humanas explicam melhor as mortes na Europa, e foi contestado.

Em 30 segundos
- A Peste Negra (1346-1353) foi causada pela bactéria Yersinia pestis. Estimativas de mortalidade vão de mais de 30% a até 60% da população, e variam muito por região.
- Em 2022, cientistas acharam a bactéria em três pessoas enterradas em 1338 e 1339 perto do lago Issyk-Kul, no Quirguistão. A cepa é a ancestral comum das linhagens associadas à pandemia.
- Um modelo publicado em 2018 concluiu que piolhos e pulgas humanas explicavam melhor que os ratos as mortes em 7 de 9 surtos europeus. Outros pesquisadores dizem que o apoio é fraco.
- A peste ainda existe: a OMS registra a maioria dos casos recentes na República Democrática do Congo e em Madagascar. No Brasil, o último caso humano foi em 2005.
A Peste Negra foi a onda de peste que atravessou a Eurásia e o norte da África entre 1346 e 1353, causada pela bactéria Yersinia pestis. Quanto ela matou ainda está em discussão: as estimativas mais altas chegam a 60% da população, e um estudo de 2022 mostra regiões quase intocadas. A doença ainda existe e é tratada com antibióticos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Dois estudos recentes mexeram na história que se aprende na escola. Um achou a bactéria em mortos de 1338 no Quirguistão. O outro pôs em dúvida o papel do rato.
Lápides que diziam “morreu de pestilência”
Perto do lago Issyk-Kul, no vale do Chüy, no atual Quirguistão, dois cemitérios escavados entre 1885 e 1892 chamavam atenção: as lápides mostravam um número desproporcional de enterros em 1338 e 1339, e algumas davam como causa da morte uma "pestilência".
Uma delas, traduzida no estudo publicado em 2022 na revista Nature, diz: "No ano de 1649 [1338], que foi o ano do Tigre (...), este é o túmulo do fiel Sanmaq. Morreu de pestilência" (tradução nossa).
A equipe do estudo, assinado por Maria Spyrou e colegas, extraiu DNA de sete pessoas enterradas nos cemitérios de Kara-Djigach e Burana. Em três, todas de Kara-Djigach, havia DNA da Yersinia pestis. Os dois genomas mais completos eram da mesma cepa.
O achado principal está na árvore genealógica da bactéria. A cepa de 1338-1339 é a ancestral comum mais recente de uma grande diversificação de linhagens que os cientistas associam ao início da Peste Negra, datada pelo estudo na primeira metade do século 14.
Os parentes mais próximos dessa cepa circulam hoje em focos naturais da região do Tian Shan, entre o leste do Cazaquistão, o leste do Quirguistão e o noroeste da China. A maioria foi isolada de marmotas e de seus parasitas, que os autores apontam como candidatos ao salto da bactéria para os humanos.
O início convencional da Peste Negra são os surtos na região do Mar Negro em 1346, oito anos depois. Como a bactéria chegou lá, dizem os autores, ainda não se sabe; a proximidade de rotas de comércio que cruzavam a Ásia torna o comércio um suspeito.
A versão clássica: o rato e a pulga
A bactéria foi isolada pela primeira vez em 1894, por Alexandre Yersin, que dá nome a ela, segundo o Instituto Pasteur. Hoje, a OMS descreve a peste como uma doença de pequenos mamíferos e suas pulgas, transmitida a humanos pela picada da pulga, pelo contato com tecidos infectados e pela inalação de gotículas.
Daí vem a versão mais conhecida: o rato pegou a doença, e a pulga dele a passou para as pessoas. No Brasil, a peste é conhecida também como "febre do rato" ou "doença do rato", registra o Ministério da Saúde.

O problema, segundo um estudo de 2018 da revista PNAS, é que essa explicação tem "pouco apoio histórico e arqueológico" quando aplicada à Peste Negra e às epidemias europeias dos séculos seguintes (tradução nossa).
O que o modelo de 2018 mostrou, e o que não mostrou
Katharine Dean, da Universidade de Oslo, e colegas compararam três modelos de transmissão: por ectoparasitas humanos (piolhos do corpo e pulgas humanas), por via respiratória e por ratos e suas pulgas. Testaram cada um contra as curvas de mortes de nove surtos europeus, de 1348 a 1813.
O modelo dos piolhos e pulgas humanas foi o preferido em 7 dos 9. Em Givry, na França, em 1348, e em Eyam, na Inglaterra, em 1665, não foi possível escolher entre os modelos: os surtos eram pequenos demais.
O detalhe pesa. Dos nove surtos, o de Givry é o único da Peste Negra propriamente dita. Os outros vão de Florença, em 1400, à ilha de Malta, em 1813. Ou seja: a conclusão sobre a Peste Negra se apoia sobretudo no que o modelo achou nas epidemias dos séculos seguintes.
Os próprios autores listam limites: os modelos não combinavam vias de transmissão nem explicam como a peste ia de uma cidade a outra. Ainda em 2018, um grupo da Universidade McMaster, no Canadá, respondeu na mesma revista com uma carta cujo título resume a objeção: a transmissão por ectoparasitas humanos é "apenas fracamente sustentada" pelos modelos (tradução nossa). A réplica dos autores: ela "continua plausível" (tradução nossa).
Eyam, aliás, já tinha sido estudada sozinha: um modelo de 2016 concluiu que a peste passou ali sobretudo de pessoa para pessoa, como conta a matéria sobre o vilarejo inglês que se trancou. Deduzir a transmissão pelo padrão das mortes tem história: foi o que John Snow tentou com o mapa da cólera de Londres, em 1854.

Quantos morreram: os números não fecham
A estimativa mais citada em estudos recentes é alta. O artigo da Nature de 2022, apoiado nos livros do historiador Ole Benedictow, fala em até 60% da população da Eurásia ocidental em oito anos. A OMS fala em mais de 50 milhões de mortes na Europa.
Um estudo de 2022 na Nature Ecology & Evolution, assinado por Adam Izdebski e colegas, testou a ideia de uma mortandade uniforme de cerca de 50% com pólen fóssil de 261 lagos e pântanos em 19 países europeus. Onde muita gente morre, a lavoura encolhe e a mata volta, e o pólen registra isso.
O resultado: queda forte da agricultura na Escandinávia, na França, no oeste da Alemanha, na Grécia e no centro da Itália; continuidade ou crescimento na Europa central e oriental, na Irlanda e na Península Ibérica. Para os autores, isso invalida as histórias que supõem um impacto devastador em toda parte.
O que se conta e o que os estudos mostram
Em cada item, primeiro: versão popular. Depois: o que as pesquisas recentes indicam.
- Ninguém sabe de onde veio a Peste Negra.
- DNA de mortos de 1338 e 1339 perto do lago Issyk-Kul traz a cepa ancestral das linhagens da pandemia (Nature, 2022).
- Ratos e suas pulgas espalharam a peste pela Europa.
- Um modelo de 2018 preferiu piolhos e pulgas humanas em 7 de 9 surtos; críticos dizem que o apoio é fraco.
- A peste matou metade da Europa, por igual.
- O pólen de 261 locais mostra regiões devastadas e outras com a lavoura crescendo (2022).
- É uma doença do passado.
- A OMS segue recebendo casos; de 2019 a 2025, a maioria veio do Congo e de Madagascar.
A peste ainda existe, e tem tratamento
A Yersinia pestis continua circulando. Entre 2019 e 2025, a maioria dos casos humanos informados à OMS ocorreu na República Democrática do Congo e em Madagascar. Segundo o Instituto Pasteur, foram quase 50 mil casos informados à OMS por 26 países entre 1990 e 2020.
Sem tratamento, a forma bubônica mata de 30% a 60% dos doentes, e as formas pneumônica e septicêmica são sempre fatais, segundo a OMS. Antibióticos são eficazes, e o diagnóstico precoce salva vidas.
No Brasil, há focos naturais da doença no Nordeste e em Teresópolis, no estado do Rio de Janeiro. O último caso humano, segundo o Ministério da Saúde, foi registrado em 2005, em Pedra Branca, no Ceará.
Fontes
- The source of the Black Death in fourteenth-century central Eurasia (2022), Maria A. Spyrou e colegas, Nature 606
- Human ectoparasites and the spread of plague in Europe during the Second Pandemic (2018), Katharine R. Dean e colegas, PNAS 115(6) (registro no PubMed)
- Human ectoparasite transmission of the plague during the Second Pandemic is only weakly supported by proposed mathematical models (2018), Sang Woo Park e colegas, carta à PNAS (registro no PubMed)
- Palaeoecological data indicates land-use changes across Europe linked to spatial heterogeneity in mortality during the Black Death pandemic (2022), Adam Izdebski e colegas, Nature Ecology & Evolution 6
- Plague (fact sheet), Organização Mundial da Saúde (OMS)
- Plague (disease sheet), Institut Pasteur
- Peste, Ministério da Saúde do Brasil
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Perguntas frequentes
- Quantas pessoas a peste negra matou?
- Não há número exato, e as estimativas divergem. A OMS fala em mais de 50 milhões de mortes na Europa. O artigo da Nature de 2022, apoiado nos livros do historiador Ole Benedictow, fala em até 60% da população da Eurásia ocidental. Um estudo de 2022 com pólen de 261 lagos e pântanos mostrou que a mortalidade variou muito: houve queda forte da agricultura na Escandinávia, na França e no centro da Itália, e continuidade ou crescimento na Europa central e oriental, na Irlanda e na Península Ibérica.
- A peste negra ainda existe?
- A bactéria Yersinia pestis continua circulando entre pequenos mamíferos e suas pulgas, e a peste humana é endêmica em vários países. Entre 2019 e 2025, a maioria dos casos informados à OMS ocorreu na República Democrática do Congo e em Madagascar. No Brasil, o Ministério da Saúde não registra casos humanos desde 2005, quando o último ocorreu em Pedra Branca, no Ceará.
- A peste negra tem cura?
- Segundo a OMS, o tratamento com antibióticos é eficaz contra a bactéria, e diagnóstico e tratamento precoces salvam vidas. Sem tratamento, a forma bubônica mata de 30% a 60% dos doentes, e as formas pneumônica e septicêmica são sempre fatais.
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