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John Snow tirou a manivela da bomba e a epidemia acabou. Só que ela já estava acabando

A cena mais contada da história da saúde pública é quase uma lenda. O trabalho que realmente fez a diferença foi outro, envolveu 300 mil pessoas e ninguém conta.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Mapa de John Snow marcando com traços pretos cada morte por cólera nas ruas do Soho, em Londres, em torno da bomba de água da Broad Street.
Wellcome Collection, via Wikimedia Commons · CC BY 4.0

Em 8 de setembro de 1854, o médico John Snow convenceu as autoridades locais a remover a manivela da bomba d'água da Broad Street, no Soho londrino. O surto de cólera que matava o bairro cessou. A cena virou o mito fundador da epidemiologia.

O surto já estava terminando quando a manivela saiu. E não foi por isso que Snow entrou para a história.

O bairro

O Soho de 1854 era um problema sanitário ambulante. A rede de esgotos de Londres não tinha chegado ali. Havia estábulos, matadouros e casas de fervura de gordura nas ruas, despejando dejetos e fluidos em putrefação num sistema precário. Muitos porões tinham fossas sob o assoalho, formadas pelo que vazava de fora para dentro.

Com as fossas transbordando, o governo de Londres tomou a decisão de despejar os dejetos no rio Tâmisa. De onde, entre outros, se tirava água para beber.

Londres já vinha de surtos devastadores — os de 1832 e 1849 mataram 14.137 pessoas.

Em 31 de agosto de 1854, começou o pior deles. Snow o chamaria de "o mais terrível surto de cólera que já ocorreu neste reino".

O relatório oficial rastreou 31 ataques fatais só na tarde de 31 de agosto, 131 no dia 1º de setembro e 125 no dia 2 — perto de trezentos em pouco mais de dois dias. Boa parte dos moradores fugiu do bairro na primeira semana. No fim, 616 mortos.

O que se acreditava

Havia duas teorias em disputa, e a que perdia era a de Snow.

A teoria miasmática dizia que a cólera vinha de partículas no ar, exaladas por matéria orgânica em decomposição. William Farr, responsável pelo censo de 1851 e figura de peso na estatística oficial, achava que o miasma subia do solo às margens do Tâmisa.

Não era uma ideia idiota. Bairros fedorentos realmente adoeciam mais — só que pelo motivo errado.

Snow defendia que a doença era transmitida por algo ingerido com água contaminada. O agente ainda não tinha sido identificado; a teoria dos germes só seria proposta por Pasteur em 1861. John Simon, principal autoridade médica de Londres, classificou a hipótese de Snow como "peculiar".

O mapa, e o que ele não prova

Snow fez o levantamento casa a casa e desenhou o mapa que hoje ilustra todo curso de saúde pública: cada morte marcada como um traço, os traços se acumulando em torno da bomba da Broad Street.

O mapa é lindo e é honesto. Mas Snow, que era mais cuidadoso que a lenda, desconfiava dele. Ele mesmo registrou a hesitação em concluir a partir de uma população que havia em boa parte fugido do bairro. Um mapa de mortes num lugar esvaziado tem um problema óbvio de denominador: você conta quem morreu, mas não sabe direito quantos ainda estavam lá para morrer.

Quanto à manivela: ela saiu em 8 de setembro, quando a curva já caía. Um levantamento posterior resumiu o efeito sem cerimônia — desativar a bomba "mal fez diferença" na epidemia que varria a cidade e que ainda mataria cerca de 3.000 pessoas.

A cena é ótima. A conclusão que tiram dela é falsa.

O experimento que ninguém conta

O trabalho decisivo de Snow está na segunda edição de On the Mode of Communication of Cholera, de 1855, e não tem nada de cinematográfico.

Duas companhias forneciam água a bairros do sul de Londres, ambas captando do Tâmisa: a Southwark and Vauxhall e a Lambeth. A Lambeth havia mudado sua captação para um ponto rio acima, longe do esgoto da cidade. A Southwark and Vauxhall, não.

E o traçado dos canos era caótico. Ruas inteiras tinham casas alternadas entre as duas empresas. Snow descreveu a situação com uma clareza que ainda hoje se cita:

Em muitos casos uma única casa tem um fornecimento diferente do das casas ao lado... Como não há diferença alguma nem nas casas nem nas pessoas que recebem o fornecimento das duas companhias, nem em nenhuma das condições físicas que as cercam, é evidente que nenhum experimento poderia ter sido concebido para testar mais completamente o efeito do abastecimento de água sobre o avanço da cólera.

E a escala:

Nada menos que trezentas mil pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e ocupações, e de toda posição e condição, dos ricos até os muito pobres, foram divididas em dois grupos sem sua escolha e, na maioria dos casos, sem seu conhecimento.

Ele então fez o trabalho braçal: identificou, por teste químico da água de cada casa, qual companhia a abastecia — porque os moradores muitas vezes não sabiam. E comparou a mortalidade entre os dois grupos.

Isso não é um mapa bonito. É um estudo comparativo, com um fator isolado e uma amostra de trezentas mil pessoas. É o nascimento do método.

O detalhe que amarra tudo

O que faz de Snow um cientista, e não um sortudo, é que ele reconheceu um experimento que não montou.

Nenhum comitê poderia dividir 300 mil londrinos em dois grupos e dar água suja para metade. Seria monstruoso. Mas a cidade, por pura desorganização comercial, já tinha feito exatamente isso — e ninguém tinha percebido que aquilo era uma pergunta científica esperando resposta.

É o que hoje se chama de experimento natural, e é uma das ferramentas mais poderosas da epidemiologia. Snow o usou antes de existir nome para ele.

Ele foi além e testou a hipótese onde podia: observou prisões de Londres e verificou que a cólera cessava poucos dias após a troca da fonte de água.

William Farr, o maior nome da estatística oficial e defensor do miasma, acabou mudando de lado depois das publicações de Snow. Que é o desfecho mais raro e mais bonito que uma disputa científica pode ter.

Por que a versão errada venceu

Porque a manivela cabe num parágrafo, e o experimento de trezentas mil pessoas não.

A imagem do médico que tira a manivela e detém a peste é uma parábola de ação individual decisiva. A história real é sobre um sujeito conferindo, casa por casa, de qual cano vinha a água — e sabendo que o próprio mapa famoso tinha um defeito metodológico.

É a mesma injustiça que se cometeu com Ignaz Semmelweis, reduzido à frase "lave as mãos" quando o que ele fez foi montar uma comparação entre duas alas de maternidade e sustentá-la contra o próprio hospital. E é curioso que os dois estivessem certos sobre uma transmissão invisível décadas antes de alguém conseguir ver as bactérias que a causavam.

John Snow morreu em 16 de junho de 1858, aos 45 anos, sem ver a teoria dos germes estabelecida.

Fontes

  1. Report on the cholera outbreak in the parish of St. James, Westminster, during the autumn of 1854, Cholera Inquiry Committee, 1855 — relatório oficial digitalizado
  2. On the Mode of Communication of Cholera (2ª edição, 1855), John Snow, John Churchill — obra digitalizada
  3. John Snow Society, John Snow Society, London

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Perguntas frequentes

Quantas pessoas morreram no surto de Broad Street?
616 pessoas, segundo o relatório oficial da comissão de inquérito de 1855. O surto começou em 31 de agosto de 1854 no Soho, em Londres: só na tarde daquele dia foram rastreados 31 ataques fatais, seguidos de 131 no dia 1º de setembro e 125 no dia 2. Boa parte dos moradores fugiu do bairro na primeira semana.
Tirar a manivela da bomba acabou com a epidemia?
Não. Quando a manivela foi removida, em 8 de setembro de 1854, o surto já estava em declínio, em boa parte porque a maioria das pessoas havia fugido do bairro. A desativação da bomba, nas palavras de um levantamento posterior, "mal fez diferença" na epidemia que atingia a cidade inteira e que ainda mataria cerca de 3.000 pessoas.
Qual foi então a contribuição decisiva de John Snow?
A comparação entre as áreas atendidas por duas companhias de água diferentes, que ele publicou na segunda edição de "On the Mode of Communication of Cholera", em 1855. Cerca de 300 mil pessoas recebiam água de fornecedores distintos, casa a casa, sem escolha e quase sempre sem saber — o que criou uma comparação em escala que ele soube reconhecer e explorar.
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