Rasputin morreu aos 47 anos, no fim de 1916, e a autópsia não achou veneno nem sinal de afogamento. A história do cianeto vem de quem o matou
Cianeto, tiros e um mergulho vivo no rio gelado: a versão famosa nasceu nos relatos dos próprios assassinos. O que se sabe da autópsia, onde os autores divergem e o que existe, e o que não existe, de prova contra os britânicos.

Em 30 segundos
- Rasputin foi morto em Petrogrado entre a noite de 29 e a madrugada de 30 de dezembro de 1916 (17 de dezembro no calendário russo), aos 47 anos.
- A história do cianeto e do mergulho vivo no rio vem das memórias do príncipe Yusupov e do diário de Purichkevich, dois dos assassinos. Para o historiador Douglas Smith, Yusupov precisava de dinheiro e quis o livro dramático.
- A autópsia do professor Kosorotov não achou veneno nem sinal de afogamento. Os autores divergem sobre qual dos três tiros foi o fatal.
- A tese de que um agente britânico deu o tiro se apoia em indícios. O próprio embaixador britânico escreveu em 1923 que garantiu ao czar que a suspeita era infundada.
Grigori Rasputin foi morto em Petrogrado entre a noite de 29 e a madrugada de 30 de dezembro de 1916, aos 47 anos. Era 17 de dezembro pelo calendário russo da época. A versão famosa, com cianeto, tiros e um mergulho vivo no rio gelado, vem dos relatos dos próprios assassinos. A autópsia não achou veneno nem sinal de afogamento.
A hora varia entre as fontes: a BBC e o patologista Roger Byard falam na noite de 30; Kulegin, na noite de 16 para 17 de dezembro do calendário russo, ou seja, a de 29 para 30.
A versão famosa foi escrita pelos assassinos
O príncipe Felix Yusupov publicou seu relato em 1927, no exílio, e o refez em 1953. Segundo o historiador Douglas Smith, ouvido pela History, a ideia de que Rasputin se recusava a morrer se baseia “principalmente” nessas duas memórias. Byard resume a narrativa popular: envenenado, baleado, espancado e, por fim, afogado. “Ele precisava de dinheiro”, disse Smith. “Precisava vender o livro” (tradução nossa).
Na história de Yusupov, segundo a Mental Floss, Rasputin come bolos e bebe vinho com cianeto sem efeito, leva um tiro, se levanta e corre para o pátio, onde Vladimir Purichkevich o derruba a tiros. O corpo vai para o rio. A ideia de que ele se soltou e se afogou fazendo o sinal da cruz vem do livro da filha, Maria. O diário de Purichkevich traz versão parecida; para o historiador russo A. M. Kulegin, é “pura publicística” (tradução nossa).
A história já circulava antes de 1927. Em 1923, o embaixador britânico George Buchanan escreveu que o jantar de Rasputin no palácio Yusupov teve “bolos envenenados e vinho envenenado” e ele “não ficou pior” (tradução nossa).
Rasputin e as versões da sua morte
- Janeiro de 1869Nasce na Sibéria; a History dá 21 de janeiro e o artigo forense de Byard, 22.
- Noite de 29 para 30 de dezembro de 1916Morto no palácio Yusupov, em Petrogrado.
- 20 de dezembro de 1916, calendário russoAutópsia do professor Kosorotov, segundo Kulegin.
- 1923Buchanan publica a versão do veneno e dos tiros.
- 1927 e 1953Yusupov publica seus dois relatos.
- 1 de outubro de 2004A BBC exibe o documentário que acusa o britânico Oswald Rayner.
- 2016Douglas Smith publica a biografia que desmonta parte das versões.
O que a autópsia registrou
A autópsia foi feita na noite de 20 de dezembro (pelo calendário russo) pelo professor Dmitri Kosorotov, da Academia Médico-Militar. Segundo Kulegin, o protocolo original sumiu do arquivo da academia nos anos 1930. O que se conhece vem de uma entrevista de Kosorotov depois da Revolução de Fevereiro.
Dois pontos são consenso nas fontes lidas. Não se achou veneno: segundo Byard, que cita o livro de Andrew Cook, Kosorotov escreveu que “o exame não revela vestígio de veneno” (tradução nossa). E a BBC cita o laudo: “Não se achou evidência de afogamento. Rasputin já estava morto quando foi jogado na água” (tradução nossa). Smith, pela History, diz o mesmo.
O consenso acaba no tiro fatal. Pela entrevista de Kosorotov, resumida por Kulegin, a primeira bala atravessou o estômago e chegou ao fígado, a cerca de 20 centímetros, e outra destruiu o rim direito. O disparo na cabeça também seria fatal, mas dado em quem já morria. Byard, a partir de uma foto do corpo, vê na testa uma ferida de contato, que teria matado na hora. E Smith, pela History, fala em um “tiro de controle” na testa.
O relato dos assassinos e o que os autores registram
Em cada item, primeiro: versão de yusupov e purichkevich. Depois: autópsia e historiadores.
- Cianeto no vinho e nos bolos, sem efeito sobre Rasputin.
- Nenhum vestígio de veneno na autópsia. Kulegin e Smith falam em aspirina no lugar do veneno.
- Rasputin se levanta, foge pelo pátio e é baleado nas costas.
- Nas fotos do álbum da investigação, segundo Kulegin, o tiro nas costas veio de longe, e os do abdômen e da testa, à queima-roupa.
- Jogado no rio ainda vivo, teria se afogado.
- Sem sinal de afogamento: já estava morto.
Sobre o veneno, alguém teria desistido de última hora: Kulegin atribui a troca por aspirina ao médico Lazovert, e Smith, pela History, a quem iria fornecer o cianeto. Para o historiador Edvard Radzinsky, a história dos bolos tinha outro problema: Rasputin não comia doces, e testemunhos no arquivo da comissão de inquérito de 1917 diziam isso, segundo a Associated Press.

Um agente britânico? Há acusação, não há documento
Poucos dias depois de o corpo ser achado, um jornal russo falou em “detetives ingleses”, segundo a Mental Floss. O próprio Buchanan conta, em 1923, que soube que o czar suspeitava de “um jovem inglês, colega de faculdade do príncipe Yusupov”, e que aproveitou para garantir a Nicolau II que a suspeita era “absolutamente infundada” (tradução nossa).

A tese foi revivida em 2004, quando a BBC exibiu o documentário Timewatch, que apontou o tenente Oswald Rayner, amigo de Yusupov em Oxford. Em 2006, a Universidade de Dundee divulgou que o patologista Derrick Pounder, contratado pelo autor Andrew Cook, concluiu, pelas fotos da autópsia, que o tiro na testa saiu de outra arma, a de maior calibre, que seria a de um agente britânico. A bala, diz Pounder, parece ter sido retirada pelo agente, em tese como lembrança (tradução nossa).
Outros autores discordam. Byard escreve que a foto “de forma nenhuma prova” quem atirou. A Mental Floss lembra que a autópsia não identificou a arma e que uma carta de 1917 citada pelos defensores da tese não foi autenticada. Para Kulegin, a versão se apoia “exclusivamente” em indícios e na “quase total ausência” de provas documentais (tradução nossa).
O inglês suspeito traduziu o livro do assassino
O registro da edição inglesa do livro de Yusupov, de 1935, no Internet Archive diz “traduzido do russo por Oswald Rayner”. Segundo Kulegin, Rayner é citado nas memórias: no dia seguinte ao crime, Yusupov teria se encontrado com ele para uma refeição, e Rayner “sabia da conspiração e veio saber as novidades” (tradução nossa).
Isso não prova participação no crime. A Mental Floss resume: a única coisa certa é a amizade entre os dois. Mas mostra por que a pista britânica nunca saiu de cena.
Em julho de 1918, a família imperial seria executada. Outra autópsia que corrigiu uma lenda foi a de Napoleão, que desfez o mito da altura.
Fontes
- Кто убил Распутина? Версии и факты о покушениях на «святого чёрта» (2011, fragmento), A. M. Kulegin, Editora Norma, reproduzido pela Universidade Estatal de Humanidades da Rússia (RGGU)
- The death of Rasputin: a forensic evaluation (2024), Roger W. Byard, Forensic Science, Medicine, and Pathology
- My mission to Russia and other diplomatic memories, vol. 2 (1923), Sir George Buchanan, Cassell — obra digitalizada no Internet Archive
- Rasputin: His Malignant Influence and His Assassination (edição de 1935, registro), Príncipe Felix Yusupov, Jonathan Cape — registro no Internet Archive
- How was Russian mystic Rasputin murdered? (2016), BBC News (Artem Krechetnikov, BBC Russian)
- The Truth Behind Rasputin’s Brutal Assassination, History (Gregory Wakeman, com Douglas Smith e Leonid Trofimov)
- The Murder of Rasputin: The Mystery That Won’t Die (2025), Mental Floss (Andrew Lenoir)
- Uncovering the truth of the death of Rasputin (2006), Universidade de Dundee, comunicado de imprensa
- Russian rejects poison theory of Rasputin death (2000), Associated Press, reproduzido pelo Deseret News
- Rasputin: Close Friend of the Family (resenha do livro de Douglas Smith, 2016), Orlando Figes, The New York Review of Books
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Perguntas frequentes
- Como Rasputin morreu?
- Baleado. A autópsia, feita pelo professor Dmitri Kosorotov, registrou três ferimentos de bala e não achou veneno nem sinal de afogamento. Os autores divergem sobre qual tiro foi o fatal: o de estômago e fígado, segundo a entrevista do próprio Kosorotov, ou o de testa, segundo a revisão forense de Roger Byard, de 2024.
- Rasputin morreu com quantos anos?
- Com 47 anos. Nasceu em janeiro de 1869, numa aldeia da Sibéria (a History dá 21 de janeiro, e o artigo forense de Byard, 22), e morreu no fim de dezembro de 1916.
- Quando Rasputin morreu?
- Entre a noite de 29 e a madrugada de 30 de dezembro de 1916, pelo calendário atual. No calendário juliano, ainda usado na Rússia, era a noite de 16 para 17 de dezembro. A autópsia é de 20 de dezembro pelo calendário russo.
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