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Em 15 de novembro de 1889, Deodoro derrubou o ministério sem falar em República. O regime foi formalizado à noite, “provisoriamente”, e o povo, escreveu Aristides Lobo, assistiu “bestializado”

A manhã foi um golpe militar contra o gabinete do visconde de Ouro Preto. A República veio depois: na Câmara Municipal, segundo um relato, e no Decreto nº 1, assinado à noite. D. Pedro II partiu para o exílio na madrugada de 17 de novembro.

Redação Fatos e Relatos6 min de leitura
Pintura de uma grande praça com um quartel amarelo à direita: fileiras de soldados de farda escura, canhões e cavaleiros que erguem chapéus e braços, com fumaça ao fundo e morros ao longe.
Benedito Calixto, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Na manhã de 15 de novembro de 1889, tropas lideradas por Deodoro da Fonseca, que estava seriamente doente, derrubaram o ministério do visconde de Ouro Preto. Segundo o CPDOC, Deodoro não falou em mudar o regime.
  • Só à noite se formalizou o governo provisório e se assinou o Decreto nº 1, que proclamou “provisoriamente” a República Federativa.
  • D. Pedro II recebeu a ordem de partir em 16 de novembro, e a família embarcou na madrugada de 17.
  • O 15 de novembro é feriado nacional, segundo a Lei nº 10.607, de 2002.

Na manhã de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca, seriamente doente, assumiu o comando de tropas rebeladas no Rio de Janeiro e derrubou o ministério do visconde de Ouro Preto. Segundo o historiador Celso Castro, do CPDOC, ele não falou em mudar o regime: queria se entender com o imperador sobre um novo ministério.

A República só foi formalizada à noite, no Decreto nº 1, que a proclamou “provisoriamente”. O feriado de hoje comemora, portanto, um dia que começou como golpe contra um gabinete.

A manhã: tropas no Campo de Santana

Segundo Castro, a conspiração era obra de uma pequena fração do Exército: oficiais de patentes baixas e o tenente-coronel Benjamin Constant, professor da Escola Militar. Dos generais, só Deodoro estava presente. Ele estava seriamente doente, e sua ausência preocupava os rebeldes: só ele tinha ascendência sobre a tropa. Mas, avisado do movimento, levantou-se e foi ao encontro das tropas.

O visconde de Ouro Preto refugiou-se com os ministros no Quartel-General. Os rebeldes eram talvez seiscentos homens; a tropa do governo, talvez duas mil pessoas. Mas não houve disposição de lutar, apesar das ordens repetidas a Floriano Peixoto. A única ação em defesa do governo foi a do ministro da Marinha, barão de Ladário, que sacou a arma, recebeu tiros e sobreviveu.

Charge em preto e branco de uma rua com soldados a cavalo à direita, populares aplaudindo ao fundo e, à esquerda, um homem de casaca caído ao lado de uma carruagem.
Ilustração. Charge de Teixeira da Rocha na Vida Fluminense de 17 de novembro de 1889, sobre a prisão e o ferimento do barão de Ladário, ministro da Marinha do Império. Imagem: Manoel Teixeira da Rocha, via Wikimedia Commons · Domínio público

Ouro Preto capitulou. Deodoro entrou a cavalo no quartel, foi saudado pela tropa e anunciou que organizaria outro ministério, de acordo com indicações que levaria ao imperador. Castro registra também uma versão, negada pelos partidários de Deodoro, de que ele teria erguido um “viva” ao imperador. O próprio Castro lembra que o Partido Republicano tinha pouca força: nas eleições de agosto de 1889, seus três candidatos na Corte receberam 12% dos votos.

A bandeira que ficou desse dia guarda a hora: a lei manda que as constelações sejam as do céu do Rio às 8h30 de 15 de novembro de 1889.

A tarde e a noite: da Câmara Municipal ao Decreto nº 1

Na tarde do dia 15, republicanos civis e militares ainda estavam inquietos, diz Castro, porque a República não fora formalmente instituída. Muitos foram à casa de Deodoro.

Segundo o relato de Antônio Sérgio Ribeiro, publicado pela Assembleia Legislativa de São Paulo, o primeiro a proclamar de fato a República foi o jornalista José do Patrocínio, numa reunião da Câmara Municipal do Rio: “desfraldou o pavilhão republicano” e declarou extinta a monarquia. O Museu da República registra que, em 15 de novembro, foi hasteada na Câmara Municipal uma bandeira de inspiração norte-americana. As fontes que li não trazem a hora da sessão.

Já a formalização, segundo Castro, ficou para a noite: formou-se o governo provisório, com Deodoro na presidência, e assinou-se o primeiro decreto. O artigo 1º diz: “Fica proclamada provisoriamente e decretada como a fórma de governo da nação brazileira - a República Federativa”. Assinaram Deodoro, Benjamin Constant, Quintino Bocaiúva, Ruy Barbosa, Wandenkolk e S. Lobo.

O 15 de novembro: versão escolar e o que as fontes registram

Em cada item, primeiro: versão popular. Depois: o que as fontes registram.

Deodoro proclamou a República pela manhã.
Derrubou o ministério. Segundo Castro, não falou em mudar o regime.
O povo aderiu em festa.
Para Aristides Lobo, o povo assistiu “bestializado”. A frase é discutida pelos historiadores.
A República foi definitiva.
O decreto a proclamou “provisoriamente” e prometeu aguardar o voto da nação.
Alto da primeira página de um jornal, com o título Correio do Povo e, em letras grandes, as linhas Viva a República Brazileira, Viva o Exército, Viva a Armada, Viva o Povo Brazileiro e Proclamação.
Detalhe da primeira página do Correio do Povo, jornal republicano do Rio, de 16 de novembro de 1889, um dia depois da Proclamação. Imagem: Jornal Correio do Povo, via Wikimedia Commons · Domínio público

“O povo assistiu bestializado”

Em carta ao Diário Popular de 18 de novembro de 1889, Aristides Lobo, que integraria o governo provisório, escreveu que a cor do governo era “puramente militar”: “O fato foi deles, deles só, porque a colaboração do elemento civil foi quase nula. (...) O povo assistiu bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada.”

A frase virou lugar-comum, e a leitura dela é disputada. Para Joaquim Felizardo, citado por Flávia Braga, a afirmação é “totalmente falsa”. O próprio José Murilo de Carvalho, autor de Os Bestializados, pergunta no livro se o povo era mesmo bestializado, e lembra grupos de populares seguindo a tropa na Rua do Ouvidor, arengados por Lopes Trovão e Patrocínio. Segundo Braga, alguns historiadores entendem o termo como surpresa, e não como indiferença.

O exílio: a madrugada de 17 de novembro

O imperador estava em Petrópolis, e, segundo a Assembleia Legislativa de São Paulo, recebeu às 5h30 o telegrama de Ouro Preto. Chegou ao Rio às 14h. Em 16 de novembro, às 15h, recebeu uma carta de Deodoro que declarava a proclamação da República e determinava a partida da família em 24 horas. Dom Pedro respondeu: “resolvo, cedendo ao império das circunstâncias, partir com toda a minha família amanhã”.

Segundo o mesmo relato, a família foi levada na madrugada de 17 de novembro ao cais atrás do Paço e embarcada no cruzador Parnaíba. Ao meio-dia, a embarcação partiu para encontrar o paquete Alagoas, que a levaria à Europa.

Gravura em tons de cinza da baía de Guanabara, com duas palmeiras à esquerda, um navio a vapor no centro e o Pão de Açúcar à direita.
Ilustração. Gravura de 1890, de Urias Antonio da Silveira, intitulada Partida para o exílio da Família Imperial no dia 17 de novembro de 1889, no vapor Alagoas. Imagem: Urias Antonio da Silveira, via Wikimedia Commons · Domínio público

A República “provisória” que esperou 104 anos

O artigo 7º do Decreto nº 1 dizia que o governo aguardaria “o pronunciamento definitivo do voto da nação, livremente expressado pelo suffragio popular”. Esse voto só veio em 21 de abril de 1993, no plebiscito marcado pela Lei nº 8.624: segundo Castro, a República obteve 86,6% dos votos válidos, contra 13,4% da Monarquia.

Os dias da queda do Império

  1. 15 de novembro, manhãDeodoro lidera as tropas e derruba o ministério de Ouro Preto.
  2. 15 de novembro, noiteGoverno provisório e Decreto nº 1 proclamam “provisoriamente” a República.
  3. 16 de novembroCarta de Deodoro a D. Pedro II; resposta: partir “amanhã”.
  4. 18 de novembroCarta de Aristides Lobo ao Diário Popular: “bestializado”.
  5. 21 de abril de 1993Plebiscito mantém a República.

O 15 de novembro já era feriado nacional pela Lei nº 662, de 1949, e continua na lista da Lei nº 10.607, de 2002. Quem se interessa pelos militares do começo do regime pode ler a Revolta da Vacina, em que alunos da Escola Militar tentaram depor o presidente, e a Revolta da Chibata.

Fontes

  1. Decreto nº 1, de 15 de novembro de 1889 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  2. Proclamação da República (verbete), Celso Castro, CPDOC/FGV, Dicionário da Primeira República
  3. 15 de novembro de 1889 - A Proclamação da República no Brasil (2015), Antônio Sérgio Ribeiro, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo
  4. Para além do bestializado: diferentes interpretações acerca da (não) participação popular (2016), Flávia Bruna Ribeiro da Silva Braga, Hydra (Unifesp)
  5. Boletim do Museu da República nº 86 (2011), Museu da República (Ibram)
  6. Lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002, Senado Federal, Legis
  7. Lei nº 8.624, de 4 de fevereiro de 1993 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  8. Lei nº 8.421, de 11 de maio de 1992 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada

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Perguntas frequentes

Quem proclamou a República em 15 de novembro de 1889?
Deodoro da Fonseca liderou as tropas que derrubaram o ministério naquela manhã, mas, segundo o CPDOC, não falou em mudança de regime. A República foi formalizada à noite, no Decreto nº 1, assinado por Deodoro e pelos ministros do governo provisório. Segundo um relato da Assembleia Legislativa de São Paulo, o primeiro a proclamá-la foi José do Patrocínio, na Câmara Municipal do Rio.
A Proclamação da República é feriado nacional?
Sim. A Lei nº 10.607, de 19 de dezembro de 2002, lista o 15 de novembro entre os feriados nacionais, junto com 1º de janeiro, 21 de abril, 1º de maio, 7 de setembro, 2 de novembro e 25 de dezembro. O 15 de novembro já constava da Lei nº 662, de 1949.
O que significa “o povo assistiu bestializado”?
A frase é de Aristides Lobo, em carta ao Diário Popular de 18 de novembro de 1889: “O povo assistiu bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer que significava. Muitos acreditavam sinceramente estar vendo uma parada.” Historiadores discutem se ela descreve indiferença do povo ou surpresa; para Joaquim Felizardo, a afirmação é “totalmente falsa”.
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