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Canudos caiu em 5 de outubro de 1897 com quatro defensores diante de cinco mil soldados. Ninguém contou os mortos: as estimativas vão de 10 mil a 25 mil

A Guerra de Canudos opôs o Exército da República ao arraial de Belo Monte, no sertão da Bahia. Euclides da Cunha, o Museu da República e as fotos de Flávio de Barros mostram o que foi, e cada número de mortos tem um dono.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia antiga em sépia de uma multidão de mulheres e crianças sentadas no chão, muitas cobertas por panos claros, com soldados em pé ao fundo, na crista de uma colina.
Flávio de Barros, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Entre novembro de 1896 e outubro de 1897, o Exército mandou quatro expedições contra o arraial de Belo Monte (Canudos), no sertão da Bahia, onde Antônio Conselheiro reunia milhares de sertanejos.
  • O arraial caiu em 5 de outubro de 1897. Euclides da Cunha escreveu que os últimos defensores eram quatro, um velho, dois homens feitos e uma criança, diante de 5 mil soldados.
  • Os mortos nunca foram contados. O Museu da República cita cerca de 10 mil conselheiristas e 5 mil baixas do Exército; reportagens falam em 25 mil mortos.
  • As fotos de Flávio de Barros foram feitas a pedido do Exército e quase não mostram mortos. Uma delas, do cadáver exumado de Conselheiro, atendeu ao pedido que Machado de Assis fizera meses antes.

A Guerra de Canudos foi o conflito entre o Exército da República e o arraial de Belo Monte, no sertão da Bahia, onde o líder religioso Antônio Conselheiro reunia milhares de sertanejos. O Estado mandou quatro expedições entre novembro de 1896 e outubro de 1897, e o arraial caiu em 5 de outubro de 1897.

Quantos morreram nunca foi contado. O Museu da República cita cerca de 10 mil conselheiristas e 5 mil baixas do Exército, e reportagens repetem 25 mil mortos.

Onde ficava Canudos e quem era Antônio Conselheiro

O arraial ficava num vale cercado de serras, à margem do rio Vaza-Barris, no nordeste da Bahia. Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido no Ceará em 1830, ficou conhecido como Antônio Conselheiro: pregava pelo sertão baiano e sergipano, com devotos que construíam igrejas, açudes e cemitérios.

Em 1893, segundo a cronologia do Museu da República, ele fixou a comunidade numa antiga fazenda, que passou a chamar-se Belo Monte. O museu fala em cerca de 15 mil pessoas atraídas, entre vaqueiros, meeiros e jornaleiros, e em 5.200 casas.

Euclides da Cunha, que olhou o arraial do alto dos morros, descreveu os soldados contando os tetos: "Cinco mil casas ou mais! Seis mil casas, talvez! Quinze ou 20 mil almas". A historiadora Jacqueline Hermann, em artigo de 1996 na revista Tempo, da UFF, lembra que a população chegou a ser estimada em 25.000 e conclui que "uma estimativa mais realista da população de Canudos ainda está por fazer".

A guerra começou por uma entrega de madeira

Em 1896, a comunidade encomendou madeira em Juazeiro para a igreja nova e pagou adiantado. A entrega atrasou, e correu o boato de que os canudenses viriam buscá-la à força. As autoridades de Juazeiro pediram tropas ao governo da Bahia, e o Museu da República marca ali o início do conflito armado. Hermann escreve que esse primeiro choque não teve relação com contestação explícita da ordem republicana.

Quatro expedições e um fim

  1. Novembro de 1896Primeira expedição: 113 soldados, oficiais, médico e guias. Emboscados em Uauá, recuam a Juazeiro.
  2. Janeiro de 1897Segunda expedição, do major Febrônio de Brito: 609 soldados e 10 oficiais. Combatem dois dias e se retiram em 20 de janeiro.
  3. Fevereiro e março de 1897Terceira expedição, do coronel Moreira César, com cerca de 1.300 soldados. Ela recua, e o coronel morre em 4 de março.
  4. De março a agosto de 1897Quarta expedição, do general Artur Oscar: 5.000 homens no início e de 8.000 a 10.000 depois dos reforços.
  5. 22 de setembro de 1897Antônio Conselheiro morre, segundo o Museu da República.
  6. 5 de outubro de 1897O arraial é tomado.
  7. 2 de dezembro de 1902Euclides da Cunha publica Os Sertões, com 1.200 exemplares na primeira edição.

Os números são do Museu da República. Hermann acrescenta um detalhe: segundo os relatórios do governo baiano que examinou, Canudos só apareceu neles depois da morte de Moreira César, em março de 1897.

Canudos era uma conspiração monarquista?

Foi o que disseram a imprensa e as autoridades. Segundo o museu, jornais do Rio afirmavam que os conselheiristas eram monarquistas, com apoio estrangeiro, e que deviam ser exterminados. Depois da derrota da terceira expedição, uma multidão invadiu e destruiu as redações da Gazeta da Tarde, da Liberdade e do Apóstolo, e o coronel e jornalista monarquista Gentil de Castro foi assassinado.

O que Conselheiro disse, em 1895, ao frei João Evangelista de Monte Marciano, citado por Euclides: "No tempo da monarquia deixei-me prender, porque reconhecia o governo, hoje não, porque não reconheço a República". Era oposição à República, não plano de restaurar o Império.

Euclides, que em março de 1897 escreveu "A nossa Vendéia" acreditando numa conspiração, mudou de ideia. Em Os Sertões (1902), afirmou que a pregação contra a República "não traduzia o mais pálido intuito político". O museu resume: o livro reconhece que os conselheiristas não eram adeptos da monarquia nem tinham apoio estrangeiro.

Quatro defensores, 5.200 casas

Euclides foi como correspondente de O Estado de S. Paulo: enviou 31 reportagens e 62 telegramas, segundo o museu. Em 3 de outubro, doente, deixou a frente de batalha e não viu o fim. Por isso o capítulo final se apoia em notas e relatos.

Em 2 de outubro, Antônio Beatinho, auxiliar de Conselheiro, propôs a rendição e voltou ao acampamento com centenas de mulheres, crianças e velhos debilitados. Euclides escreveu que, "desde a manhã de 3", os prisioneiros válidos capturados na véspera, Beatinho entre eles, deixaram de aparecer.

Sobre o dia 5, ele registrou: "Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até ao esgotamento completo". Os últimos defensores "eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados". No dia 6, as 5.200 casas foram desmanchadas, "cuidadosamente contadas".

Fotografia em sépia de paredes de pedra parcialmente desabadas, com vigas tortas de madeira ao redor de um vão e um monte de entulho de pedras em primeiro plano; duas figuras minúsculas aparecem ao pé da ruína.
Ruínas de uma das igrejas de Canudos depois do bombardeio, em foto de Flávio de Barros de 1897. O Commons identifica a igreja como a de Bom Jesus. Imagem: Flávio de Barros, via Wikimedia Commons · Domínio público

O livro dedica um trecho às degolas de prisioneiros. Euclides escreveu que as execuções eram "tácita e explicitamente sancionadas pelos chefes militares" e resumiu: "Aquilo não era uma campanha, era uma charqueada". Em novembro de 1897, segundo o museu, só o jornal O Comércio de São Paulo protestou, em artigo de Afonso Arinos que acusava o general Artur Oscar de ordenar degolas e incêndio.

Quantos morreram? Cada número tem dono

O museu fala em baixas, sem separar mortos de feridos. O Poder360 escreve que "estima-se que tenham sido 25 mil mortos". Euclides, num telegrama de 3 de outubro, anotou "mais de duzentos mortos nos tiroteios dos dois últimos dias". Hermann nota que "os dados do Exército ainda não foram suficientemente estudados".

Machado de Assis pediu um repórter "meio fotógrafo". A foto que veio foi a do cadáver

Em 31 de janeiro de 1897, na Gazeta de Notícias, Machado de Assis escreveu: "Nenhum jornal mandou ninguém aos Canudos. Um repórter paciente e sagaz, meio fotógrafo ou desenhista, para trazer as feições do Conselheiro e dos principais sub-chefes, podia ir ao centro da seita nova e colher a verdade inteira sobre ela".

Quem foi fotografar foi Flávio de Barros, dono do estúdio Photographia Americana, em Salvador, contratado por iniciativa de um general da quarta expedição. O museu guarda 69 fotos dele. Segundo a instituição, a maioria é posada e evita soldados mortos e doentes, e o museu lê os registros de prisioneiros em boas condições como argumento contra as notícias de degolas.

A foto das prisioneiras, a da capa, saiu na primeira edição de Os Sertões com a legenda "As prisioneiras". Depois da tomada do arraial, o Exército pediu a Flávio uma foto do corpo de Conselheiro, exumado em 6 de outubro e anexada à ata da guerra. Para Cícero Almeida, citado pelo museu, a foto "decifra um enigma para todos que queriam conhecer as feições" do líder, as mesmas que Machado pedira.

Depois da foto, segundo o museu, o corpo foi degolado. A cabeça foi para Salvador, onde Nina Rodrigues examinou o crânio. A Pesquisa FAPESP cita a conclusão dele: "É, pois, um crânio normal".

Mapa em preto e branco com o desenho em hachuras de morros ao redor de uma curva do rio, centenas de pequenos quadrados representando casas e legendas como Igreja Nova, Igreja Velha, Latada e Morro da Favela.
Planta do arraial feita em 1897 pelo tenente-coronel Siqueira Menezes, chefe da Comissão de Engenharia da quarta expedição. Ao pé do mapa aparece o Morro da Favela, de onde o Exército bombardeou o arraial. Imagem: Siqueira Menezes (1897), via Wikimedia Commons · Domínio público

De onde veio o nome "favela"

O Morro da Favela, de onde o Exército bombardeou Canudos, devia o nome a um arbusto que queima a pele ao contato. Segundo o museu, soldados que voltaram da guerra e foram morar numa encosta do centro do Rio chamaram o lugar de Morro da Favela, em lembrança do de Canudos. Na segunda década do século 20, o nome se estendeu a outros morros.

Sete anos depois do fim de Canudos, a mesma República enfrentou nas ruas do Rio a Revolta da Vacina. Em 1910, foi a vez da Revolta da Chibata, na Marinha.

Fontes

  1. Cronologia resumida da Guerra de Canudos (2017), Carla Costa, Museu da República / Ibram
  2. Os Sertões (edição digital, 2010), Euclides da Cunha, SciELO Livros / Centro Edelstein de Pesquisas Sociais
  3. Os Sertões, primeira edição (1902), digitalização, Biblioteca Oliveira Lima, via Wikimedia Commons
  4. Canudos destruído em nome da República (1996), Jacqueline Hermann, revista Tempo, UFF
  5. Nina Rodrigues tentou explicar as desigualdades sociais por meio da raça (2025), Enrico Di Gregorio, Pesquisa FAPESP
  6. Há 125 anos, Canudos escancarou dificuldades do Brasil rural (2021), Poder360

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Perguntas frequentes

Onde foi a Guerra de Canudos?
No sertão do nordeste da Bahia, num vale cercado de serras às margens do rio Vaza-Barris, onde ficava o arraial de Belo Monte, conhecido como Canudos. O Exército partiu das bases de Juazeiro, Queimadas e Monte Santo, esta última a cerca de 120 quilômetros do arraial, segundo o Museu da República. O açude de Cocorobó inundou depois a região do antigo arraial.
Quantas pessoas morreram na Guerra de Canudos?
Não há contagem. O Museu da República registra 5.000 baixas do Exército e cerca de 10.000 conselheiristas, sem separar mortos de feridos. Reportagens falam em 25 mil mortos, e a historiadora Jacqueline Hermann diz que uma estimativa realista da população de Canudos ainda está por fazer.
Qual foi o motivo da Guerra de Canudos?
O primeiro choque, em 1896, veio de uma encomenda de madeira em Juazeiro: o pagamento foi adiantado, a entrega atrasou e correu o boato de que os canudenses iriam buscar a madeira à força. Depois, o governo e a imprensa trataram o arraial como foco monarquista. Euclides da Cunha concluiu em 1902 que não havia intuito político de restaurar a monarquia.
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