Não existe retrato de Tiradentes feito em vida. No processo, quem o viu falou em oficial “feio e espantado”, de cabelos brancos; o rosto de Cristo foi pintado a partir de 1890
Os Autos de Devassa da Inconfidência quase não descrevem o alferes. A barba e o cabelo longo dos quadros escolares vieram depois, quando a República recém-proclamada precisou de um herói e o pintou à imagem de Jesus.

Em 30 segundos
- Não há retrato de Tiradentes feito em vida. Nos Autos de Devassa, as raras referências ao aspecto dele são um “oficial feio, e espantado”, na fala de Alvarenga Peixoto, e um homem que “já tinha cabelos brancos”, segundo um estalajadeiro.
- Tiradentes era alferes dos Dragões, e o glossário da edição dos Autos registra que os dragões não usavam barba.
- Os frades que o acompanharam à forca, em 21 de abril de 1792, contam que ele vestiu a alva dizendo que Cristo também morrera nu.
- Os primeiros quadros a óleo de Tiradentes são dos anos 1890, quando a República fez dele seu herói e o pintou com barba e cabelo longo, à semelhança de Jesus.
Não existe retrato de Tiradentes feito em vida. Nos Autos de Devassa, o processo da Inconfidência Mineira, as referências à aparência dele são raras e curtas: um “oficial feio, e espantado”, segundo o poeta Alvarenga Peixoto, e um homem que “já tinha cabelos brancos”, segundo um estalajadeiro.
O Tiradentes de barba e cabelo comprido, parecido com Jesus, é posterior. Os primeiros quadros a óleo do alferes são dos anos 1890, quando a República recém-proclamada fez dele o seu herói.
O que os autos do processo dizem sobre o rosto dele
A primeira edição dos Autos, publicada pela Biblioteca Nacional entre 1936 e 1938, tem mais de 3.000 páginas. Na segunda, uma nota do organizador, Herculano Gomes Mathias, chama um dos trechos de “uma das raras referências ao aspecto físico de Tiradentes”.
É um depoimento de 18 de julho de 1789, em Vila Rica. O tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro contou ter pousado na estalagem de João da Costa Rodrigues, na Varginha do Lourenço. Perguntado se o oficial que pregava levante por ali era moço, o estalajadeiro respondeu que ele “já tinha cabelos brancos e que falava com muita liberdade”. Por esses sinais, Basílio concluiu que era o alferes Joaquim José, “por alcunha o Tiradentes”.
A outra descrição é de 14 de janeiro de 1790, num interrogatório na Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio. Alvarenga Peixoto contou que lhe apareceu “um oficial feio, e espantado”, que disse ser “o Alferes Joaquim José”.
A expressão ganhou enfeites depois. Em 1882, o historiador Joaquim Norberto, que tentava diminuir o papel do alferes, descreveu-o como “feio, replecto, alto, de olhar espantado e cabelos meios encanescidos”, acrescentando detalhes “por conta própria”, segundo o volume dos Autos publicado em 2001 pelo Museu da Inconfidência.
Um alferes dos dragões, tropa que não usava barba
Tiradentes era alferes no corpo de Dragões del-Rei, segundo o Arquivo Nacional. No glossário que escreveu para a edição de 1976 dos Autos, o pesquisador Tarquínio J. B. de Oliveira registra: “Os dragões não usavam barba”.
Preso no Rio em 10 de maio de 1789, passou quase três anos na cadeia. Em reportagem sobre o livro dos historiadores André Figueiredo Rodrigues, da Unesp, e Maria Alda Barbosa Cabreira, a revista Pesquisa FAPESP afirma que documentos dos Autos indicam que ele morreu sem barba e de cabeça raspada. Os dois relatos dos frades sobre a execução, reproduzidos nos Autos, não falam do cabelo nem da barba dele.
O rosto dos quadros e o que os documentos registram
Em cada item, primeiro: o que a pintura mostra. Depois: o que os documentos dizem.
- Cabelo longo e barba.
- Nenhum documento descreve barba. Os dragões não usavam barba, diz o glossário dos Autos.
- Rosto sereno e bonito.
- “Oficial feio, e espantado”, segundo Alvarenga Peixoto, em 1790.
- Homem jovem.
- Em 1789, ele “já tinha cabelos brancos”. Nascera em 1746, segundo o Arquivo Nacional.
- Túnica branca e crucifixo.
- Documentados: os frades contam que ele vestiu a alva e olhava o crucifixo.
Na manhã da forca, a comparação com Cristo já estava lá
Onze réus foram condenados à forca em abril de 1792, e só Tiradentes ficou fora do perdão da rainha, que trocou a pena dos outros por degredo na África. A sentença mandava armar no campo da Lampadosa “uma forca mais alta que de costume”, registra o frei Raimundo da Anunciação Penaforte.

Em 21 de abril de 1792, um sábado, o carrasco foi pôr-lhe as cordas e vestir-lhe a alva, uma veste branca. O frei José Carlos de Jesus Maria do Desterro, que elogia a clemência da rainha e chama o réu de “infame Tiradentes”, conta: “Ao despir-se para receber a alva, despiu também a camisa e disse assim: ‘Nosso Senhor morreu nu por meus pecados...’”. Penaforte registra a mesma cena: ele vestiu a alva dizendo “que o seu Redentor morrera por ele, também nu”.
A marcha começou entre oito e nove horas, com nove frades franciscanos ao lado do réu, que seguiu “sem apartar os olhos do crucifixo”, diz Desterro. Penaforte acrescenta que a escada da forca tinha mais de 20 degraus e que Tiradentes pediu três vezes ao carrasco que abreviasse a execução. Depois, o corpo foi esquartejado, e a cabeça ficou num poste em Vila Rica, segundo a Agência Senado.
A túnica branca, o crucifixo e a aproximação com Cristo não foram inventados pelos pintores. Estão nos relatos de 1792. O que nenhum documento traz é o rosto.
1890: a República dá um rosto ao herói
A comparação circulou entre os republicanos antes de 1889. Castro Alves fala no “Cristo da multidão” na peça Gonzaga ou a Revolução de Minas, e Luís Gama escreveu “À forca o Cristo da Multidão” em 1882, no jornal do Clube Tiradentes, segundo o historiador José Luciano de Queiroz Aires.
Em 14 de janeiro de 1890, o Decreto nº 155-B pôs o 21 de abril entre os dias de festa nacional, “consagrada á commemoração dos precursores da Independencia Brazileira, resumidos em Tiradentes”. Segundo a Agência Senado, que ouviu o historiador José Murilo de Carvalho, os golpistas de 1889 não tinham apelo popular, e o herói escolhido foi o alferes enforcado quase cem anos antes. Pesou haver nele “um quê de Jesus Cristo”: foi traído por um amigo e aceitou a morte por um ideal.

Os primeiros quadros a óleo de Tiradentes são dos anos 1890, como os de Décio Villares, Pedro Américo e Aurélio de Figueiredo, e mostram “rostos imaginados ou idealizados”, diz a Agência Senado. Villares, pintor positivista, é o mesmo que desenhou a bandeira republicana, segundo Aires, aquela do céu da manhã de 15 de novembro de 1889.
A Pesquisa FAPESP aponta como primeira imagem do alferes um esboço de 1890 de Angelo Agostini, inspirado no quadro Cristo carregando a cruz, de Antoon van Dyck. “Sem conhecer seu rosto”, diz Rodrigues, Agostini o representou “com barba e cabelos compridos”.
Em 1893, Pedro Américo, o autor de Independência ou Morte, pintou o alferes já executado, com um crucifixo ao lado da cabeça; a crítica rejeitou o quadro. No mesmo ano, Aurélio de Figueiredo pintou o Martírio de Tiradentes, que José Murilo de Carvalho, citado por Aires, chama de “uma cena de pé de cruz”.
Como o rosto de Tiradentes foi construído
- 1789 e 1790Nos Autos, testemunhas falam em cabelos brancos e em “oficial feio, e espantado”.
- 21 de abril de 1792Execução; os frades registram a alva e a frase sobre Cristo.
- 14 de janeiro de 1890Decreto nº 155-B faz do 21 de abril dia de festa nacional.
- 1940José Wasth Rodrigues pinta o primeiro Tiradentes de farda de alferes.
- 9 de dezembro de 1965Lei nº 4.897 declara Tiradentes patrono cívico da nação.
Do quadro ao retrato oficial
Em 1940, José Wasth Rodrigues pintou o primeiro Tiradentes de farda de alferes, segundo a Pesquisa FAPESP. Em 1965, a Lei nº 4.897 o declarou “patrono cívico da Nação Brasileira” e mandou escolas e repartições inaugurarem “a efígie do glorioso republicano”. Até 1986, diz Rodrigues, as escolas públicas eram obrigadas a ter uma imagem do alferes.
“Em maior ou menor dose, todos os heróis e heroínas nacionais são construídos”, disse José Murilo de Carvalho à Agência Senado. No caso de Tiradentes, há uma ironia: o que os quadros acertaram, a túnica e o crucifixo, está nos relatos dos frades; o que inventaram foi o rosto. Com Napoleão, a lenda foi outra, e também cai diante do documento: a autópsia que anotou a altura dele.
Fontes
- Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 1 (2ª ed., 1976), com o glossário de Tarquínio J. B. de Oliveira, Câmara dos Deputados e Governo de Minas Gerais (cópia digital da Escola Judicial do TJMG)
- Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 5 (2ª ed., 1982), Câmara dos Deputados e Governo de Minas Gerais (cópia digital da Escola Judicial do TJMG)
- Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 9 (2ª ed.): relatos de frei José Carlos de Jesus Maria do Desterro e frei Raimundo da Anunciação Penaforte, 1792, Câmara dos Deputados e Governo de Minas Gerais (cópia digital da Escola Judicial do TJMG)
- Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 11: complementação documental (2001), Herculano Gomes Mathias, MinC, IPHAN e Museu da Inconfidência
- Xavier, Joaquim José da Silva (1746-1792), verbete do glossário, Arquivo Nacional, O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira
- Em busca de apoio popular, República fez de Tiradentes herói nacional (2022), Ricardo Westin, Agência Senado (Arquivo S)
- Representação de um herói (2020), Sidnei Santos de Oliveira, Revista Pesquisa FAPESP, edição 297
- Pintando o herói da República: a construção do imaginário mitificado de Tiradentes e o ensino de história (2009), José Luciano de Queiroz Aires, Anais do XXV Simpósio Nacional de História (ANPUH)
- Decreto nº 155-B, de 14 de janeiro de 1890 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
- Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
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Perguntas frequentes
- Como era a aparência real de Tiradentes?
- Ninguém sabe ao certo, porque não existe retrato dele feito em vida. Nos Autos de Devassa, Alvarenga Peixoto o descreveu em 1790 como um “oficial feio, e espantado”, e um estalajadeiro disse em 1789 que o oficial que passara por sua estalagem “já tinha cabelos brancos”. O organizador da edição dos Autos chama essas passagens de raras referências ao aspecto físico de Tiradentes.
- Por que Tiradentes é parecido com Jesus Cristo?
- Porque foi pintado assim a partir de 1890, quando a República recém-proclamada fez dele seu herói. Segundo a Agência Senado, com base no historiador José Murilo de Carvalho, havia na história dele “um quê de Jesus Cristo”: foi traído por um amigo e aceitou a morte por um ideal. A comparação é mais antiga que os quadros: em 1792, os frades registraram que ele vestiu a alva dizendo que Cristo também morrera nu.
- Tiradentes tinha barba?
- Nenhum documento da época descreve barba ou cabelo longo. Tiradentes era alferes dos Dragões, e o glossário da edição dos Autos de Devassa afirma que os dragões não usavam barba. A revista Pesquisa FAPESP, em reportagem sobre um livro dos historiadores André Figueiredo Rodrigues e Maria Alda Barbosa Cabreira, afirma que documentos dos Autos indicam que ele morreu sem barba e de cabeça raspada; os relatos dos frades sobre a execução não falam do cabelo dele.
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