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Não existe retrato de Tiradentes feito em vida. No processo, quem o viu falou em oficial “feio e espantado”, de cabelos brancos; o rosto de Cristo foi pintado a partir de 1890

Os Autos de Devassa da Inconfidência quase não descrevem o alferes. A barba e o cabelo longo dos quadros escolares vieram depois, quando a República recém-proclamada precisou de um herói e o pintou à imagem de Jesus.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Pintura de uma prisão com arcos de pedra: no centro, um homem de barba e cabelo longo, de camisa branca e pés descalços, acorrentado, põe a mão no peito diante de frades de hábito marrom; à esquerda, um homem de peruca lê um papel; à direita, presos e um crucifixo com velas acesas.
Unknown, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Não há retrato de Tiradentes feito em vida. Nos Autos de Devassa, as raras referências ao aspecto dele são um “oficial feio, e espantado”, na fala de Alvarenga Peixoto, e um homem que “já tinha cabelos brancos”, segundo um estalajadeiro.
  • Tiradentes era alferes dos Dragões, e o glossário da edição dos Autos registra que os dragões não usavam barba.
  • Os frades que o acompanharam à forca, em 21 de abril de 1792, contam que ele vestiu a alva dizendo que Cristo também morrera nu.
  • Os primeiros quadros a óleo de Tiradentes são dos anos 1890, quando a República fez dele seu herói e o pintou com barba e cabelo longo, à semelhança de Jesus.

Não existe retrato de Tiradentes feito em vida. Nos Autos de Devassa, o processo da Inconfidência Mineira, as referências à aparência dele são raras e curtas: um “oficial feio, e espantado”, segundo o poeta Alvarenga Peixoto, e um homem que “já tinha cabelos brancos”, segundo um estalajadeiro.

O Tiradentes de barba e cabelo comprido, parecido com Jesus, é posterior. Os primeiros quadros a óleo do alferes são dos anos 1890, quando a República recém-proclamada fez dele o seu herói.

O que os autos do processo dizem sobre o rosto dele

A primeira edição dos Autos, publicada pela Biblioteca Nacional entre 1936 e 1938, tem mais de 3.000 páginas. Na segunda, uma nota do organizador, Herculano Gomes Mathias, chama um dos trechos de “uma das raras referências ao aspecto físico de Tiradentes”.

É um depoimento de 18 de julho de 1789, em Vila Rica. O tenente-coronel Basílio de Brito Malheiro contou ter pousado na estalagem de João da Costa Rodrigues, na Varginha do Lourenço. Perguntado se o oficial que pregava levante por ali era moço, o estalajadeiro respondeu que ele “já tinha cabelos brancos e que falava com muita liberdade”. Por esses sinais, Basílio concluiu que era o alferes Joaquim José, “por alcunha o Tiradentes”.

A outra descrição é de 14 de janeiro de 1790, num interrogatório na Fortaleza da Ilha das Cobras, no Rio. Alvarenga Peixoto contou que lhe apareceu “um oficial feio, e espantado”, que disse ser “o Alferes Joaquim José”.

A expressão ganhou enfeites depois. Em 1882, o historiador Joaquim Norberto, que tentava diminuir o papel do alferes, descreveu-o como “feio, replecto, alto, de olhar espantado e cabelos meios encanescidos”, acrescentando detalhes “por conta própria”, segundo o volume dos Autos publicado em 2001 pelo Museu da Inconfidência.

Um alferes dos dragões, tropa que não usava barba

Tiradentes era alferes no corpo de Dragões del-Rei, segundo o Arquivo Nacional. No glossário que escreveu para a edição de 1976 dos Autos, o pesquisador Tarquínio J. B. de Oliveira registra: “Os dragões não usavam barba”.

Preso no Rio em 10 de maio de 1789, passou quase três anos na cadeia. Em reportagem sobre o livro dos historiadores André Figueiredo Rodrigues, da Unesp, e Maria Alda Barbosa Cabreira, a revista Pesquisa FAPESP afirma que documentos dos Autos indicam que ele morreu sem barba e de cabeça raspada. Os dois relatos dos frades sobre a execução, reproduzidos nos Autos, não falam do cabelo nem da barba dele.

O rosto dos quadros e o que os documentos registram

Em cada item, primeiro: o que a pintura mostra. Depois: o que os documentos dizem.

Cabelo longo e barba.
Nenhum documento descreve barba. Os dragões não usavam barba, diz o glossário dos Autos.
Rosto sereno e bonito.
“Oficial feio, e espantado”, segundo Alvarenga Peixoto, em 1790.
Homem jovem.
Em 1789, ele “já tinha cabelos brancos”. Nascera em 1746, segundo o Arquivo Nacional.
Túnica branca e crucifixo.
Documentados: os frades contam que ele vestiu a alva e olhava o crucifixo.

Na manhã da forca, a comparação com Cristo já estava lá

Onze réus foram condenados à forca em abril de 1792, e só Tiradentes ficou fora do perdão da rainha, que trocou a pena dos outros por degredo na África. A sentença mandava armar no campo da Lampadosa “uma forca mais alta que de costume”, registra o frei Raimundo da Anunciação Penaforte.

Página manuscrita amarelada com a palavra Sentença em letra caligráfica grande no alto, texto corrido em tinta marrom e dois carimbos do Arquivo Nacional.
Primeira página da sentença contra os réus da conjuração de Minas Gerais, de abril de 1792, no Arquivo Nacional. Tiradentes estava entre os condenados. Imagem: Autor desconhecido, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 21 de abril de 1792, um sábado, o carrasco foi pôr-lhe as cordas e vestir-lhe a alva, uma veste branca. O frei José Carlos de Jesus Maria do Desterro, que elogia a clemência da rainha e chama o réu de “infame Tiradentes”, conta: “Ao despir-se para receber a alva, despiu também a camisa e disse assim: ‘Nosso Senhor morreu nu por meus pecados...’”. Penaforte registra a mesma cena: ele vestiu a alva dizendo “que o seu Redentor morrera por ele, também nu”.

A marcha começou entre oito e nove horas, com nove frades franciscanos ao lado do réu, que seguiu “sem apartar os olhos do crucifixo”, diz Desterro. Penaforte acrescenta que a escada da forca tinha mais de 20 degraus e que Tiradentes pediu três vezes ao carrasco que abreviasse a execução. Depois, o corpo foi esquartejado, e a cabeça ficou num poste em Vila Rica, segundo a Agência Senado.

A túnica branca, o crucifixo e a aproximação com Cristo não foram inventados pelos pintores. Estão nos relatos de 1792. O que nenhum documento traz é o rosto.

1890: a República dá um rosto ao herói

A comparação circulou entre os republicanos antes de 1889. Castro Alves fala no “Cristo da multidão” na peça Gonzaga ou a Revolução de Minas, e Luís Gama escreveu “À forca o Cristo da Multidão” em 1882, no jornal do Clube Tiradentes, segundo o historiador José Luciano de Queiroz Aires.

Em 14 de janeiro de 1890, o Decreto nº 155-B pôs o 21 de abril entre os dias de festa nacional, “consagrada á commemoração dos precursores da Independencia Brazileira, resumidos em Tiradentes”. Segundo a Agência Senado, que ouviu o historiador José Murilo de Carvalho, os golpistas de 1889 não tinham apelo popular, e o herói escolhido foi o alferes enforcado quase cem anos antes. Pesou haver nele “um quê de Jesus Cristo”: foi traído por um amigo e aceitou a morte por um ideal.

Pintura de um homem de cabelo comprido e barba ruiva, de perfil voltado para cima, com túnica branca, uma corda no pescoço e um ramo de palmeira sobre o peito.
Ilustração. Tiradentes por Décio Villares (1851-1931), óleo do século 20, assinado e sem data, de coleção particular. O rosto é imaginado; a túnica e a corda aparecem nos relatos da execução. Imagem: Décio Villares, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Os primeiros quadros a óleo de Tiradentes são dos anos 1890, como os de Décio Villares, Pedro Américo e Aurélio de Figueiredo, e mostram “rostos imaginados ou idealizados”, diz a Agência Senado. Villares, pintor positivista, é o mesmo que desenhou a bandeira republicana, segundo Aires, aquela do céu da manhã de 15 de novembro de 1889.

A Pesquisa FAPESP aponta como primeira imagem do alferes um esboço de 1890 de Angelo Agostini, inspirado no quadro Cristo carregando a cruz, de Antoon van Dyck. “Sem conhecer seu rosto”, diz Rodrigues, Agostini o representou “com barba e cabelos compridos”.

Em 1893, Pedro Américo, o autor de Independência ou Morte, pintou o alferes já executado, com um crucifixo ao lado da cabeça; a crítica rejeitou o quadro. No mesmo ano, Aurélio de Figueiredo pintou o Martírio de Tiradentes, que José Murilo de Carvalho, citado por Aires, chama de “uma cena de pé de cruz”.

Como o rosto de Tiradentes foi construído

  1. 1789 e 1790Nos Autos, testemunhas falam em cabelos brancos e em “oficial feio, e espantado”.
  2. 21 de abril de 1792Execução; os frades registram a alva e a frase sobre Cristo.
  3. 14 de janeiro de 1890Decreto nº 155-B faz do 21 de abril dia de festa nacional.
  4. 1940José Wasth Rodrigues pinta o primeiro Tiradentes de farda de alferes.
  5. 9 de dezembro de 1965Lei nº 4.897 declara Tiradentes patrono cívico da nação.

Do quadro ao retrato oficial

Em 1940, José Wasth Rodrigues pintou o primeiro Tiradentes de farda de alferes, segundo a Pesquisa FAPESP. Em 1965, a Lei nº 4.897 o declarou “patrono cívico da Nação Brasileira” e mandou escolas e repartições inaugurarem “a efígie do glorioso republicano”. Até 1986, diz Rodrigues, as escolas públicas eram obrigadas a ter uma imagem do alferes.

“Em maior ou menor dose, todos os heróis e heroínas nacionais são construídos”, disse José Murilo de Carvalho à Agência Senado. No caso de Tiradentes, há uma ironia: o que os quadros acertaram, a túnica e o crucifixo, está nos relatos dos frades; o que inventaram foi o rosto. Com Napoleão, a lenda foi outra, e também cai diante do documento: a autópsia que anotou a altura dele.

Fontes

  1. Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 1 (2ª ed., 1976), com o glossário de Tarquínio J. B. de Oliveira, Câmara dos Deputados e Governo de Minas Gerais (cópia digital da Escola Judicial do TJMG)
  2. Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 5 (2ª ed., 1982), Câmara dos Deputados e Governo de Minas Gerais (cópia digital da Escola Judicial do TJMG)
  3. Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 9 (2ª ed.): relatos de frei José Carlos de Jesus Maria do Desterro e frei Raimundo da Anunciação Penaforte, 1792, Câmara dos Deputados e Governo de Minas Gerais (cópia digital da Escola Judicial do TJMG)
  4. Autos de Devassa da Inconfidência Mineira, volume 11: complementação documental (2001), Herculano Gomes Mathias, MinC, IPHAN e Museu da Inconfidência
  5. Xavier, Joaquim José da Silva (1746-1792), verbete do glossário, Arquivo Nacional, O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira
  6. Em busca de apoio popular, República fez de Tiradentes herói nacional (2022), Ricardo Westin, Agência Senado (Arquivo S)
  7. Representação de um herói (2020), Sidnei Santos de Oliveira, Revista Pesquisa FAPESP, edição 297
  8. Pintando o herói da República: a construção do imaginário mitificado de Tiradentes e o ensino de história (2009), José Luciano de Queiroz Aires, Anais do XXV Simpósio Nacional de História (ANPUH)
  9. Decreto nº 155-B, de 14 de janeiro de 1890 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada
  10. Lei nº 4.897, de 9 de dezembro de 1965 (publicação original), Câmara dos Deputados, Legislação Informatizada

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Perguntas frequentes

Como era a aparência real de Tiradentes?
Ninguém sabe ao certo, porque não existe retrato dele feito em vida. Nos Autos de Devassa, Alvarenga Peixoto o descreveu em 1790 como um “oficial feio, e espantado”, e um estalajadeiro disse em 1789 que o oficial que passara por sua estalagem “já tinha cabelos brancos”. O organizador da edição dos Autos chama essas passagens de raras referências ao aspecto físico de Tiradentes.
Por que Tiradentes é parecido com Jesus Cristo?
Porque foi pintado assim a partir de 1890, quando a República recém-proclamada fez dele seu herói. Segundo a Agência Senado, com base no historiador José Murilo de Carvalho, havia na história dele “um quê de Jesus Cristo”: foi traído por um amigo e aceitou a morte por um ideal. A comparação é mais antiga que os quadros: em 1792, os frades registraram que ele vestiu a alva dizendo que Cristo também morrera nu.
Tiradentes tinha barba?
Nenhum documento da época descreve barba ou cabelo longo. Tiradentes era alferes dos Dragões, e o glossário da edição dos Autos de Devassa afirma que os dragões não usavam barba. A revista Pesquisa FAPESP, em reportagem sobre um livro dos historiadores André Figueiredo Rodrigues e Maria Alda Barbosa Cabreira, afirma que documentos dos Autos indicam que ele morreu sem barba e de cabeça raspada; os relatos dos frades sobre a execução não falam do cabelo dele.
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