O Maracanazo não foi uma final: o Brasil só precisava empatar com o Uruguai em 16 de julho de 1950. O público oficial foi de 173 mil, a estimativa passa de 200 mil, e os jornais da época registram ao menos uma morte
Uruguai 2 x 1 Brasil no Maracanã decidiu o quadrangular final da Copa de 1950. A FIFA, o Correio da Manhã e uma agência de notícias da época mostram o placar, o público, as mortes e o que sobrou para Barbosa e para a camisa branca.

Em 30 segundos
- O Maracanazo foi o Uruguai 2 x 1 Brasil de 16 de julho de 1950, no Maracanã. A Copa não teve final: o jogo era a última rodada do quadrangular, e o Brasil, com 4 pontos contra 3, precisava de um empate.
- Friaça abriu o placar aos 47 minutos, Schiaffino empatou aos 66 e Ghiggia virou aos 79, segundo a FIFA.
- O público pagante foi de 173.830 pessoas, segundo a FIFA, e a estimativa vai de 200 mil a 220 mil. Uma agência da época falou em quase 250 mil.
- Os jornais de 1950 registram 141 pessoas socorridas no estádio e a morte de João Soares da Silva, de 58 anos. Não achamos registro de suicídios.
O Maracanazo foi o Uruguai 2 x 1 Brasil de 16 de julho de 1950, no Maracanã, no Rio de Janeiro. Não foi uma final: a Copa de 1950 não teve final, e esse jogo era a última rodada do quadrangular decisivo.
O Brasil precisava só de um empate. O público pagante foi de 173.830 pessoas, segundo a FIFA, e a estimativa passa de 200 mil.
Não era uma final, e o Brasil jogava pelo empate
A Copa de 1950 foi decidida num quadrangular com Brasil, Uruguai, Suécia e Espanha. Os resultados da FIFA mostram o caminho: o Brasil venceu a Suécia por 7 x 1 e a Espanha por 6 x 1. O Uruguai empatou com a Espanha em 2 x 2 e venceu a Suécia por 3 x 2.
Com vitória valendo 2 pontos, como na tabela final da RSSSF, o Brasil chegou ao último jogo com 4 pontos e o Uruguai com 3. Um empate daria 5 a 4 ao Brasil. A conta é nossa, feita a partir dos placares.
O quadrangular final de 1950
- 9 de julhoBrasil 7 x 1 Suécia, no Maracanã. Uruguai 2 x 2 Espanha, no Pacaembu.
- 13 de julhoBrasil 6 x 1 Espanha, no Maracanã. Uruguai 3 x 2 Suécia, no Pacaembu.
- 16 de julhoUruguai 2 x 1 Brasil, no Maracanã. O árbitro foi o inglês George Reader.
Os gols, segundo a FIFA: Friaça, aos 47 minutos, abriu o placar para o Brasil. Schiaffino empatou aos 66, e Ghiggia virou aos 79. A RSSSF dá minutos diferentes, 46, 58 e 61, e a Asapress da época fala em gol de Friaça "aos 2 minutos" do segundo tempo, o que bate com a FIFA. Os minutos variam conforme a fonte.

Quantas pessoas estavam no Maracanã
A FIFA registra 173.830 pagantes, segundo uma página do UOL sobre a Copa de 1950. A Jovem Pan escreve que as catracas foram arrombadas e que a estimativa indica de 200 mil a 220 mil pessoas. A nota da Asapress de 17 de julho de 1950, reproduzida pelo jornal O Povo, calculou "quase 250 mil" e registrou uma renda de Cr$ 6.272.959,00, "novo record mundial".
Nenhuma dessas cifras vem de uma contagem na catraca: a de 173.830 conta ingressos vendidos, e as outras são estimativas.

Houve mortes? O que os jornais de 1950 registram
O Correio da Manhã de 17 de julho de 1950 publicou uma lista de 141 pessoas socorridas pelo serviço de assistência do Maracanã, "vítimas de acidentes durante a realização do jogo", sem dizer como se machucaram. A informação vem de uma reportagem da Jovem Pan, de 2026.
Há também uma morte documentada. Em outra nota, que chama o jogo de "domingo último", o mesmo jornal contou que o marinheiro reformado João Soares da Silva, de 58 anos, não conseguiu entrar no estádio e ouviu o jogo pelo rádio. Terminada a transmissão, levantou-se "pálido de emoção e tristeza" e caiu, "vitimado por um colapso". O corpo foi levado ao Instituto Médico Legal.
A Asapress deu uma versão diferente em 17 de julho: o sargento da Marinha João Soares da Silva "tombou fulminado por um colapso cardíaco" no próprio estádio, ao fim do jogo, quando "numerosos torcedores desmaiaram". São dois relatos com o mesmo nome e circunstâncias diferentes. Não achamos registro de suicídios, e fica sem confirmação o que se contou depois.
Barbosa e a pena que não acabou
Moacyr Barbosa, goleiro do Vasco, nasceu em Campinas em 1921 e morreu em 7 de abril de 2000, aos 79 anos, em Praia Grande (SP). A Asapress de 1950 deu o segundo gol, de Ghiggia, como "outra falha de Bigode", o lateral, e escreveu que o uruguaio venceu "pela segunda vez a vigilância de Barbosa".
Em 1993, Barbosa disse ao jornalista Helvidio Mattos: "Qual é a pena máxima no Brasil? Não são 30 anos? Pois eu já estou a mais de 40 anos cumprindo e ninguém esquece. (...) Qual foi o meu crime? Qual foi o meu pecado?". Em 2000, ele revia o lance: "Eu fiz certo e deu errado. Ghiggia fez errado e deu certo".
Segundo a ESPN, os últimos anos têm sido mais generosos com a memória dele, e ele já é mais citado pelos feitos do que pela suposta falha. A Folha escreveu que, depois de aposentado, ele trabalhou no complexo do Maracanã e relutava em pisar no gramado.
O que se conta e o que as fontes mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Foi a final da Copa de 1950.
- Foi a última rodada de um quadrangular. A Copa de 1950 não teve final.
- O Maracanã tinha 200 mil pessoas, e ponto.
- A FIFA registra 173.830 pagantes. As estimativas vão de 200 mil a 220 mil, e a Asapress falou em quase 250 mil.
- Houve suicídios e um enfarte coletivo.
- Os jornais de 1950 registram 141 pessoas socorridas e a morte de um homem, João Soares da Silva. Suicídios não aparecem nas fontes consultadas.
- A camisa amarela deu ao Brasil o primeiro título.
- Em 1958, na final, o Brasil jogou de azul, porque a Suécia também vestia amarelo. Só ergueu a taça de amarelo em 1962, segundo o New Yorker.
O desenhista da camisa amarela torcia pelo Uruguai
Até 1950, a seleção brasileira jogava de branco, com gola azul. Depois da derrota, sentiu-se que o uniforme não era patriótico o bastante, e o jornal Correio da Manhã, com apoio da Confederação Brasileira de Desportos, promoveu um concurso, em 1953, para um novo uniforme com as quatro cores da bandeira: verde, amarelo, azul e branco.
O vencedor foi Aldyr Garcia Schlee, ilustrador de Pelotas, no Rio Grande do Sul. A BBC diz que ele tinha 18 anos, e o New Yorker e o Independent, 19. Ele ganhou de cerca de 300 candidatos e escolheu a camisa amarela, com gola verde, calção azul e meias brancas. Schlee nasceu perto da fronteira com o Uruguai e, segundo a BBC, torceu pela seleção uruguaia a vida inteira, inclusive no jogo de 1950.
A camisa que substituiu a branca do Maracanazo foi desenhada por um torcedor do Uruguai. A estreia foi uma vitória por 1 x 0 sobre o Chile, no Maracanã. O Brasil foi campeão em 1958, com camisa azul, porque a Suécia também jogava de amarelo, e só ergueu a taça de amarelo em 1962, segundo o New Yorker.
O futebol já aparece em outra história desta série, a trégua de Natal de 1914. E as quatro cores do concurso são as da bandeira, cujo céu estrelado tem sua própria explicação.
Fontes
- FIFA World Cup 1950, Uruguay v Brazil (dados da partida e do torneio), FIFA
- 1950 World Cup Final Round (tabela e lista de artilheiros), RSSSF (Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation)
- Brasil perde a final da Copa no Maracanã em 1950 (O Povo é História, 17/7/1950, notas da Asapress), O Povo, com notícias reproduzidas do jornal de 1950
- Mais de 140 torcedores ficaram feridos no Maracanã (2026, cita o Correio da Manhã de 17/7/1950), Jovem Pan
- Você sabia? Copa de 1950, UOL Esporte
- Nascido há 100 anos, Barbosa criou sua própria redenção para o Maracanazo (2021), Folha de S.Paulo
- Barbosa, 100 anos: a trajetória do goleiro (2021), ESPN Brasil
- Aldyr Schlee, designer of Brazil famous yellow jersey, dies (2018), BBC News
- The Writer Who Designed Brazil Soccer Uniform (2014), Jon Michaud, The New Yorker
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Perguntas frequentes
- O Maracanazo foi a final da Copa de 1950?
- Não formalmente. A Copa de 1950 foi a única sem final: as quatro equipes que passaram da primeira fase disputaram um quadrangular, e o Uruguai 2 x 1 Brasil de 16 de julho foi a última rodada. O Brasil tinha 4 pontos e o Uruguai 3, e uma vitória valia 2. Um empate daria o título ao Brasil.
- Quantas pessoas estavam no Maracanã no Maracanazo?
- A FIFA registra 173.830 pagantes. As catracas foram arrombadas, e a estimativa de público vai de 200 mil a 220 mil pessoas, segundo reportagens atuais. A agência Asapress, em nota de 17 de julho de 1950, falou em quase 250 mil. Não existe contagem fechada.
- Houve mortes no Maracanazo?
- Há registro documentado de ao menos uma: o Correio da Manhã noticiou a morte de João Soares da Silva, de 58 anos, que passou mal ao fim da transmissão de rádio do jogo. A Asapress, no mesmo dia, deu a morte de um sargento da Marinha de mesmo nome no estádio. O jornal também listou 141 pessoas socorridas no Maracanã. Nenhuma fonte consultada registra suicídios.
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