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Jack e Rose nunca existiram, mas o túmulo “J. Dawson” de Halifax é real. O que o Titanic tem de filme e o que tem de inquérito

Os relatórios britânico e americano de 1912 não concordam nem no número de mortos. Também registram botes que desceram com lugares vazios, taxas de sobrevivência muito diferentes por classe e um detalhe em que o filme acertou mais que os investigadores.

Redação Fatos e Relatos7 min de leitura
Fotografia em preto e branco do casco escuro e dos quatro funis do Titanic, visto de lado, navegando em águas calmas.
Francis Godolphin Osbourne Stuart, via Wikimedia Commons · Domínio público

Em 30 segundos

  • Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater são personagens do filme de 1997. Em Halifax há um túmulo marcado J. Dawson: é de Joseph Dawson, da casa de máquinas, segundo os Arquivos da Nova Escócia.
  • O inquérito britânico conta 1.490 mortos; o do Senado americano, 1.517. O navio tinha 20 botes, com lugares para 1.178 pessoas, e havia 2.201 a bordo, pelo número britânico.
  • Sobreviveram 97% das mulheres da primeira classe e 46% das da terceira, segundo o relatório britânico. Entre os homens, 33% na primeira classe e 8% na segunda.
  • Os dois inquéritos concluíram que o navio afundou inteiro. O casco foi achado em pedaços em 1985.

Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater não existiram: são personagens do filme de 1997. O resto da história está nos relatórios dos dois inquéritos de 1912, e eles divergem até na conta dos mortos: 1.490 para os britânicos, 1.517 para o Senado americano.

Segundo Paul Burns, curador de museus sobre o Titanic ouvido pelo site History, Cameron queria cercar o casal de passageiros reais. Margaret Brown, o capitão Edward Smith e o violinista Wallace Hartley, que aparecem no filme, eram pessoas de verdade.

Um túmulo em Halifax chama J. Dawson

Em Fairview Lawn, cemitério de Halifax, no Canadá, há uma lápide com o nome “J. Dawson”. O registro dos Arquivos da Nova Escócia diz que é o corpo nº 227, Joseph Dawson, “na lista da tripulação, Departamento de Máquinas”.

Nos anos 1990, conta a agência Associated Press, a lápide virou “ímã de buquês e de meninas chorando” (tradução nossa). Cameron disse que não há ligação entre o seu Jack Dawson e o J. Dawson enterrado ali. O produtor Jon Landau afirmou que a equipe só soube da lápide depois que o filme saiu.

A AP descreve o Joseph Dawson real como alguém que jogava carvão na caldeira e não ganhou a passagem no jogo, como o personagem. Segundo o curador do Museu Marítimo do Atlântico, a visitação mais que dobrou, para 250 mil pessoas, no ano seguinte ao filme.

O cemitério é uma consequência concreta do naufrágio. Dos 337 corpos recuperados, 209 foram levados a Halifax e 150 ficaram enterrados na cidade: 121 em Fairview Lawn, 19 em Mount Olivet e 10 em Baron de Hirsch, segundo a AP e os Arquivos da Nova Escócia. É a mesma Halifax que cinco anos depois seria destruída por uma explosão.

Fileiras de lápides baixas e idênticas de granito num gramado, sob árvores, com uma placa branca num poste azul, escrita Titanic Grave Site.
Parte das sepulturas de vítimas do Titanic no cemitério Fairview Lawn, em Halifax. Foto recente. Imagem: William B. Grice, via Wikimedia Commons · CC BY-SA 4.0

Dois relatórios, três totais

As tabelas mostram de onde vem a diferença. O relatório britânico conta 885 tripulantes e 1.316 passageiros; o americano, 899 tripulantes e 1.324 passageiros. Os dois relatórios não coincidem nem na contagem de quem embarcou.

O próprio texto britânico oscila: a tabela dá 711 salvos, mas, ao tratar dos botes, diz que só 712 foram salvos pelo Carpathia.

Vinte botes, lugares para 1.178 pessoas

O Titanic tinha 20 botes: 14 salva-vidas de 65 lugares, dois botes de emergência de 40 e quatro dobráveis de 47, o que dá 1.178 pessoas, segundo o relatório britânico. O americano soma 1.176, com capacidades ligeiramente diferentes para os botes menores.

Para 2.201 pessoas a bordo, era pouco. Mas a regra do Board of Trade, o ministério britânico do comércio, era mais branda ainda. A tabela de 1894 parava nos navios de “10.000 toneladas ou mais”: 16 botes. Para um navio de emigrantes como o Titanic, a conta dava lugar a cerca de 962 pessoas. O navio levava mais, e o relatório diz que isso era “muito acima” do exigido (tradução nossa).

O próprio juiz, Lord Mersey, achou que a regra devia ter mudado antes. O Titanic tinha 46.328 toneladas brutas, e, diz ele, não era possível que o que valia em 1894 ainda bastasse quando se construíam navios de 45.000.

Bote salva-vidas de madeira visto de cima, no mar agitado, com cerca de duas dezenas de pessoas de colete, a maioria sentada, e remos para fora.
Bote com sobreviventes do Titanic, fotografado em 15 de abril de 1912, segundo o acervo. Os botes foram recolhidos pelo Carpathia. Imagem: Louis Ogden, via Wikimedia Commons · Domínio público

Os primeiros botes desceram quase vazios

O choque foi às 23h40, hora do navio. O relatório britânico põe o primeiro bote na água por volta de 0h45, ressalvando que todos os horários são “pouco confiáveis”. O bote nº 1, com capacidade para 40, saiu com 12 pessoas; os nº 6 e nº 7, de 65 lugares, com 28 e 27.

Lord Mersey escreveu que é “difícil explicar” tantos botes saindo longe de cheios, “em mar calmo”, e que eles “deixaram para trás muitas centenas de vidas” (tradução nossa). A lista de motivos inclui a queda de cerca de 20 metros até a água e o fato de muitos acharem o navio mais seguro que o bote. O relatório cita ainda o medo de que os botes quebrassem se fossem cheios, o que, segundo ele, se provou infundado.

O Senado americano foi na mesma direção: a falha em usar todos os botes “resultou, sem dúvida, no sacrifício inútil de várias centenas de vidas” (tradução nossa). O relatório americano também diz que, salvo casos isolados, não houve pânico, o que lembra outro caso em que o pânico contado foi maior que o registrado.

Quem sobreviveu: por classe e por sexo

No total, 62% da primeira classe, 41% da segunda, 25% da terceira e 24% da tripulação. Somando passageiros e tripulantes, 74% das mulheres adultas e 20% dos homens adultos se salvaram.

A diferença de classe levou à pergunta: a terceira classe foi barrada? O relatório britânico diz que não: ela “não foi tratada injustamente”, e atribui a diferença à relutância em deixar o navio, à bagagem e ao alojamento nas extremidades. O americano diz que não houve distinção de classe ao carregar os botes, embora a proporção de mortos fosse maior na terceira.

Quem disse que era “inafundável”?

A revista especializada The Shipbuilder, em edição especial de 1911, escreveu que, com um simples interruptor elétrico, o capitão podia “fechar instantaneamente as portas em todo o navio” e fazer dele “praticamente inafundável” (tradução nossa). A mesma edição dizia que quaisquer dois compartimentos principais podiam alagar sem risco ao navio.

A frase tem “praticamente”. E o relatório britânico lista seis espaços danificados pelo iceberg, ao longo de cerca de 300 pés (uns 90 metros), em cerca de dez segundos. Os Arquivos da Nova Escócia falam em cinco compartimentos.

No que o filme acertou mais que os inquéritos de 1912

Os dois inquéritos concluíram que o navio afundou inteiro. Charles Lightoller, o oficial mais graduado a sobreviver, respondeu ao tribunal britânico que dizer que o navio partiu era “totalmente falso”: “o navio não partiu nem poderia ter partido” (tradução nossa). O Senado americano escreveu que a maior parte das provas indicava que ele afundou “intacto”.

Só uma minoria dos sobreviventes, incluindo esse oficial, testemunhou que o navio afundou inteiro. A maioria disse que ele se partiu e não foi acreditada pelo inquérito oficial, segundo o engenheiro Richard Woytowich, da Universidade da Cidade de Nova York. O padeiro Charles Joughin disse ao inquérito ter ouvido “como se uma parte do navio tivesse cedido”. Ele disse ter ficado “mais de duas horas” na água.

Em 1985, o explorador Robert Ballard encontrou o casco no fundo do mar, e, segundo Woytowich, os sobreviventes que falaram em navio partido foram vindicados pelo achado dos destroços em pedaços. A Associated Press lembra que o filme de 1997 mostra o casco partindo em proa e popa. Em 2005, pesquisadores acharam pedaços do fundo do casco e disseram que o naufrágio foi mais rápido do que se pensava. Nesse ponto, o filme ficou mais perto do que os investigadores de 1912 deram como certo.

Fontes

  1. Relatório do Inquérito do Comissário de Naufrágios sobre a perda do Titanic (1912), Lord Mersey, Board of Trade britânico — transcrição do Titanic Inquiry Project
  2. Relatório britânico: Boats (os botes), Inquérito britânico de 1912 — Titanic Inquiry Project
  3. Relatório britânico: Numbers Saved (números de salvos), Inquérito britânico de 1912 — Titanic Inquiry Project
  4. Relatório britânico: Board of Trade (regras de botes), Inquérito britânico de 1912 — Titanic Inquiry Project
  5. Relatório do Senado dos EUA, nº 806 (1912): dados gerais e sumário de passageiros, Comissão de Comércio do Senado dos EUA — Titanic Inquiry Project
  6. Relatório do Senado dos EUA: conclusões sobre botes e pânico, Comissão de Comércio do Senado dos EUA — Titanic Inquiry Project
  7. Depoimento de Charles Lightoller, 21 de maio de 1912, Inquérito britânico — Titanic Inquiry Project
  8. The Shipbuilder, número especial sobre Olympic e Titanic (1911), The Shipbuilder, Newcastle — digitalização no Internet Archive
  9. RMS Titanic Resource Guide, Nova Scotia Archives
  10. Registro do corpo nº 227, Joseph Dawson, Nova Scotia Archives (Medical Examiner, RG 41 vol. 76 nº 227)
  11. Titanic centennial returns Halifax to spotlight (2012), Associated Press, reproduzido pelo Bangor Daily News
  12. The True Stories That Inspired Titanic Movie Characters, History (Becky Little)
  13. Marine forensics expert seeks to vindicate Titanic survivors’ account (2012), City University of New York / Newswise

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Perguntas frequentes

Jack e Rose do Titanic existiram?
Não. Jack Dawson e Rose DeWitt Bukater são personagens do filme de 1997, segundo o site History. O roteiro os cercou de pessoas reais, como Margaret Brown e o capitão Edward Smith. O túmulo marcado J. Dawson, em Halifax, é de Joseph Dawson, da casa de máquinas, e Cameron disse não haver ligação com o personagem.
Quantas pessoas sobreviveram ao naufrágio do Titanic?
Depende do relatório. O inquérito britânico conta 711 salvos entre 2.201 a bordo, o que dá 1.490 mortos. O do Senado americano conta 706 salvos entre 2.223, ou 1.517 mortos. Os Arquivos da Nova Escócia falam em 1.497 mortos entre 2.209 pessoas e em 712 recolhidos pelo Carpathia.
O filme Titanic é história real?
Em parte. O naufrágio, o navio e vários passageiros e tripulantes são reais, mas o casal Jack e Rose é ficção. Num ponto o filme ficou mais perto dos fatos que os inquéritos de 1912: mostra o navio partindo em duas partes, o que os investigadores negaram e a descoberta do casco em pedaços, em 1985, apoiou.
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