Balto ganhou a estátua por correr o último trecho da corrida do soro de 1925. O trecho mais longo e perigoso foi guiado por Togo
Vinte condutores e mais de 150 cães levaram antitoxina contra a difteria até Nome, no Alasca. O cão que chegou à cidade virou bronze no Central Park; o que fez o trecho mais longo e perigoso ficou à sombra por décadas.

Em 30 segundos
- Em 1925, 20 condutores e mais de 150 cães levaram antitoxina contra a difteria de Nenana a Nome, no Alasca, em cerca de 127 horas.
- Balto guiou a equipe de Gunnar Kaasen no último trecho, de 53 ou 55 milhas conforme a fonte, e ganhou estátua no Central Park ainda em 1925.
- Togo guiou a equipe de Leonhard Seppala por 261 milhas, incluindo a travessia do gelo do Norton Sound, segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA.
- Condutores nativos do Alasca cobriram quase dois terços do percurso e só passaram a ser reconhecidos nos anos 1970.
Na madrugada de 2 de fevereiro de 1925, o condutor Gunnar Kaasen entrou em Nome, no Alasca, com uma equipe de 13 cães e pacotes de antitoxina contra a difteria no trenó. O cão da frente se chamava Balto. Dez meses depois, ele já tinha uma estátua de bronze no Central Park, em Nova York.
Balto puxou o último trecho do revezamento: 53 ou 55 milhas, cerca de 85 a 89 km, dependendo da fonte. O cão que guiou a equipe pelo trecho mais longo e mais perigoso foi outro, Togo, que segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA (NPS) levou seu time por 261 milhas, cerca de 420 km.
Os dois existiram, os dois correram e os dois ajudaram a salvar a cidade. A diferença entre eles é de distância, de dificuldade do trecho e, sobretudo, de quem estava na frente quando os jornalistas chegaram.
Uma cidade sem soro e sem estrada
Nome era uma cidade de cerca de 1.400 habitantes, segundo a Smithsonian Magazine. O NPS detalha: 455 nativos do Alasca e 975 colonos de origem europeia. Entre novembro e julho, o porto ficava preso no gelo, e a ligação com o resto do mundo era a trilha Iditarod.
O único médico da cidade, Curtis Welch, tinha encomendado antitoxina nova antes do inverno, porque o estoque do hospital estava vencido. O carregamento não chegou antes de o porto fechar, informa o NPS.
Em 20 de janeiro de 1925, Welch diagnosticou difteria num menino de 3 anos, segundo a Smithsonian. Por telegrama, pediu socorro. O Museu de História Natural de Cleveland reproduz a mensagem: "Uma epidemia de difteria é quase inevitável aqui. Preciso com urgência de um milhão de unidades de antitoxina diftérica" (tradução nossa). Havia 300 mil unidades em Anchorage.
O soro foi de trem até Nenana. Dali para Nome, nada de avião: segundo o comitê da corrida Iditarod, o único piloto considerado capaz de enfrentar o tempo no território, Carl Ben Eielson, estava fora do Alasca. A saída foi um revezamento de trenós puxados por cães.
O revezamento
O primeiro condutor, William "Wild Bill" Shannon, pegou o pacote na estação de Nenana na noite de 27 de janeiro, com nove cães. Ao fim do seu trecho, de 52 milhas, estava com hipotermia e queimaduras de frio, segundo o museu de Cleveland.

No total, foram 20 condutores e mais de 150 cães. O museu de Cleveland e a Universidade do Alasca falam em 674 milhas, cerca de 1.085 km; o comitê da Iditarod fala em "quase 700". O tempo é o mesmo nas duas fontes que o informam: 127 horas. Cleveland traduz isso como cerca de cinco dias e meio; a Iditarod, como cerca de seis. As temperaturas chegaram a 60 graus Fahrenheit negativos, cerca de 51 °C abaixo de zero, segundo o museu.
A corrida do soro e o que veio depois
- 20 de janeiro de 1925Curtis Welch diagnostica difteria num menino de 3 anos em Nome.
- 27 de janeiroÀ noite, Wild Bill Shannon parte de Nenana com o soro e nove cães.
- 28 de janeiroLeonhard Seppala e Togo saem de Nome rumo a Nulato, para encontrar o revezamento no meio do caminho.
- 31 de janeiroSem visibilidade, Henry Ivanoff e Seppala quase se desencontram. Ivanoff entrega o soro.
- 1º de fevereiroDe madrugada, Seppala passa o soro adiante. No mesmo dia, ele chega às mãos de Gunnar Kaasen.
- 2 de fevereiroPor volta das 5h30, Kaasen chega a Nome com Balto à frente da equipe.
- Dezembro de 1925Estátua de Balto é inaugurada no Central Park, com o cão e Kaasen presentes.
- 19 de março de 1927Balto e seis companheiros chegam a Cleveland, comprados com doações.
- 5 de dezembro de 1929Togo morre no Maine, aos 16 anos.
- 1933Balto morre em Cleveland.
O trecho de Togo
Leonhard Seppala, norueguês, era considerado um dos melhores condutores do Alasca. Togo, seu cão-guia, tinha nascido em 17 de outubro de 1913, segundo o NPS, e pesava cerca de 48 libras, uns 22 kg. Pela data de nascimento, tinha 11 anos em janeiro de 1925; o próprio texto do NPS diz 12.
Em 28 de janeiro, Seppala e Togo saíram de Nome no sentido contrário ao do soro, para encontrá-lo no meio do caminho. Segundo o museu de Cleveland, já tinham percorrido 150 milhas quando cruzaram com a equipe de Henry Ivanoff, em 31 de janeiro. Ivanoff, conta a Smithsonian, gritou: "O soro! O soro! Está aqui comigo!" (tradução nossa). Seppala deu meia-volta.
O caminho de volta passava pelo gelo do Norton Sound, uma enseada da costa do Alasca. Para a Iditarod, foi o "trecho crítico", de Shaktoolik a Golovin. A Smithsonian descreve que, num ponto de água aberta, Seppala amarrou uma corda longa ao arreio de Togo e o arremessou por cima do canal. A corda arrebentou, e o cão mergulhou na água gelada para pegá-la. Segundo o museu de Cleveland, a equipe cruzou o gelo três horas antes de ele se partir.
Quanto o trecho de Togo mediu depende do que se conta:
- 261 milhas no total, ida e volta, segundo o NPS e a Smithsonian;
- 135 milhas carregando o soro, segundo a Smithsonian, que diz ser mais de duas vezes e meia a distância de qualquer outro condutor;
- 91 milhas, o maior trecho do revezamento, segundo o museu de Cleveland.
Em qualquer das contas, foi o trecho mais longo. Para o NPS, foi também o mais perigoso.
O trecho de Balto
Balto também era um dos cães de Seppala. O museu de Cleveland o descreve como um dos cães reserva: inexperiente, de corpo mais atarracado, que Seppala achava mais útil para carga do que para corrida. A Smithsonian é mais direta: "Seppala não considerava Balto um cão-guia e nunca o tinha usado como tal" (tradução nossa). Kaasen, por sua vez, alternava os cães da frente, e Balto ocupou a posição "em algumas ocasiões".
Isso não quer dizer que o último trecho tenha sido um passeio. Segundo o museu de Cleveland, uma rajada de vento virou o trenó e jogou o soro na neve, e Kaasen cavou com as mãos nuas até achá-lo. Pelo relato do próprio Kaasen, citado pelo museu, Balto parou a equipe ao pisar em gelo fino sobre o rio Topkok. O comitê da Iditarod registra ventos de 80 milhas por hora, cerca de 130 km/h, na nevasca.
No dia seguinte à chegada, a manchete do New York Times, reproduzida pela Universidade do Alasca, dizia: "Arrancada final leva antitoxina a Nome, mas ela está congelada. Acredita-se que o soro ainda esteja bom" (tradução nossa). A Smithsonian contabiliza pelo menos cinco mortos na epidemia e observa que muitas mortes entre nativos provavelmente nunca foram registradas.

Como o reserva virou o herói
Balto era o cão que estava na frente quando a corrida terminou, e a imprensa acompanhava a corrida por telégrafo. Segundo a Smithsonian, alguns jornais atribuíram a ele feitos de Togo. Ainda em 1925, ele estrelou um filme mudo, Balto's Race to Nome.
Um grupo de artistas de Nova York liderado por Cecilia Beaux arrecadou dinheiro para a estátua, feita pelo escultor Frederick Roth. A data da inauguração diverge: 17 de dezembro de 1925, segundo a Central Park Conservancy, ou 15 de dezembro, na cena que abre o texto da Smithsonian. Balto e Kaasen estavam lá.
Seppala nunca engoliu. Num livro de memórias de 1930, citado pela Smithsonian, escreveu: "Eu me ressenti da estátua para Balto, porque, se algum cão merecia menção especial, era Togo" (tradução nossa).
Balto e Togo: o que se conta e o que as fontes mostram
Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.
- Balto salvou Nome.
- Vinte condutores e mais de 150 cães levaram o soro por cerca de 674 milhas. Balto guiou o último trecho, de 53 ou 55 milhas.
- Balto era o grande cão-guia de Seppala.
- Era um cão reserva do canil. Seppala nunca o usou na frente; Kaasen o pôs lá em algumas ocasiões.
- O trecho final foi o decisivo.
- O mais longo e perigoso foi o de Togo, com a travessia do gelo do Norton Sound.
- A corrida foi feita por dois condutores famosos.
- Condutores nativos do Alasca cobriram quase dois terços do percurso, segundo a Smithsonian.
Do palco ao museu
A fama durou pouco. Kaasen vendeu a equipe a um promotor de turnês, e os cães acabaram expostos num cômodo em Los Angeles, a 10 centavos o ingresso, segundo a Universidade do Alasca. O museu de Cleveland diz que Balto e seis companheiros estavam doentes e maltratados quando o empresário George Kimble os viu.
Kimble tinha duas semanas para juntar US$ 1.500. A campanha, feita por rádio e pelo jornal The Plain Dealer, levantou o dinheiro em dez dias. Em 19 de março de 1927, Balto, Fox, Billy, Tillie, Sye, Old Moctoc e Alaska Slim desfilaram pela Public Square de Cleveland e foram viver no zoológico de Brookside. Balto morreu em 1933, e o corpo empalhado está até hoje no Museu de História Natural de Cleveland.
O reconhecimento tardio
Togo se aposentou em Poland Spring, no Maine, onde foi sacrificado aos 16 anos, segundo o NPS. Seppala mandou empalhá-lo. A pele montada passou pelo Museu Shelburne, em Vermont, e hoje está no museu da sede da corrida Iditarod, em Wasilla, no Alasca. O esqueleto está no Museu Peabody, da Universidade Yale.
Em 1960, segundo o NPS, Seppala resumiu: "Nunca tive um cão melhor que Togo. Sua resistência, sua lealdade e sua inteligência não poderiam ser melhoradas. Togo foi o melhor cão que já percorreu a trilha do Alasca" (tradução nossa).
O reconhecimento veio aos poucos. Em 1995, Balto ganhou um filme de animação. Em 2011, a revista Time elegeu Togo o animal mais heroico de todos os tempos, e em 2019 a Disney lançou um filme com o nome dele, com Willem Dafoe no papel de Seppala, segundo a Smithsonian.
Há ainda quem continue fora da foto. Os condutores nativos do Alasca, que segundo a Smithsonian cobriram quase dois terços do percurso, receberam pouco reconhecimento até os anos 1970.
Balto não roubou nada de ninguém: correu no frio, na nevasca, e chegou. O que a história fez foi transformar o último trecho no único. É o mesmo atalho que transformou um cão que esperava na estação na lenda de Hachiko, cuja cena mais famosa provavelmente nunca existiu, e que levou um filme da Disney a jogar lemingues de um penhasco para filmar um suicídio em massa.
Fontes
- Togo (biografia), National Park Service, Departamento do Interior dos EUA
- This Heroic Dog Raced Across the Frozen Alaskan Wilderness to Deliver Life-Saving Medicine, but His Contributions Were Long Overlooked (2025), David Kindy, Smithsonian Magazine
- 100 Years After the Great Serum Run, Balto’s Legacy Endures (2025), Cleveland Museum of Natural History
- Booms and Busts: Iditarod Trail History, Iditarod Trail Committee
- Long after run to glory, Balto lives on (2023), Ned Rozell, Geophysical Institute, Universidade do Alasca em Fairbanks
- From Alaska to Central Park: Balto the Siberian Husky, Central Park Conservancy
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Perguntas frequentes
- Qual a diferença entre Balto e Togo?
- Os dois eram huskies siberianos que guiaram equipes na corrida do soro para Nome, em 1925. Balto foi o cão da frente da equipe de Gunnar Kaasen no último trecho, de 53 milhas segundo o Museu de História Natural de Cleveland ou 55 segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA. Togo guiou a equipe de Leonhard Seppala por 261 milhas, no trecho mais longo e perigoso, que incluiu a travessia do gelo do Norton Sound.
- Balto salvou Nome sozinho?
- Não. A antitoxina foi levada de trem até Nenana e dali por um revezamento de 20 condutores e mais de 150 cães, ao longo de cerca de 674 milhas. Balto chegou com o soro a Nome na madrugada de 2 de fevereiro de 1925 e ficou com a fama. Segundo a Smithsonian Magazine, condutores nativos do Alasca cobriram quase dois terços do percurso.
- Onde estão Balto e Togo hoje?
- Balto morreu em 1933 em Cleveland, e o corpo empalhado está exposto no Museu de História Natural da cidade. Togo foi sacrificado em 1929, aos 16 anos, no Maine; a pele montada está no museu da sede da corrida Iditarod, em Wasilla, no Alasca, e o esqueleto pertence ao Museu Peabody da Universidade Yale.
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