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Balto ganhou a estátua por correr o último trecho da corrida do soro de 1925. O trecho mais longo e perigoso foi guiado por Togo

Vinte condutores e mais de 150 cães levaram antitoxina contra a difteria até Nome, no Alasca. O cão que chegou à cidade virou bronze no Central Park; o que fez o trecho mais longo e perigoso ficou à sombra por décadas.

Redação Fatos e Relatos9 min de leitura
Estátua de bronze de um husky de pé, com arreio e língua de fora, sobre uma rocha, cercada de árvores; ao fundo, uma ponte de tijolos.
Andrea Pedruzzi, via Unsplash · Licença Unsplash

Em 30 segundos

  • Em 1925, 20 condutores e mais de 150 cães levaram antitoxina contra a difteria de Nenana a Nome, no Alasca, em cerca de 127 horas.
  • Balto guiou a equipe de Gunnar Kaasen no último trecho, de 53 ou 55 milhas conforme a fonte, e ganhou estátua no Central Park ainda em 1925.
  • Togo guiou a equipe de Leonhard Seppala por 261 milhas, incluindo a travessia do gelo do Norton Sound, segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA.
  • Condutores nativos do Alasca cobriram quase dois terços do percurso e só passaram a ser reconhecidos nos anos 1970.

Na madrugada de 2 de fevereiro de 1925, o condutor Gunnar Kaasen entrou em Nome, no Alasca, com uma equipe de 13 cães e pacotes de antitoxina contra a difteria no trenó. O cão da frente se chamava Balto. Dez meses depois, ele já tinha uma estátua de bronze no Central Park, em Nova York.

Balto puxou o último trecho do revezamento: 53 ou 55 milhas, cerca de 85 a 89 km, dependendo da fonte. O cão que guiou a equipe pelo trecho mais longo e mais perigoso foi outro, Togo, que segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA (NPS) levou seu time por 261 milhas, cerca de 420 km.

Os dois existiram, os dois correram e os dois ajudaram a salvar a cidade. A diferença entre eles é de distância, de dificuldade do trecho e, sobretudo, de quem estava na frente quando os jornalistas chegaram.

Uma cidade sem soro e sem estrada

Nome era uma cidade de cerca de 1.400 habitantes, segundo a Smithsonian Magazine. O NPS detalha: 455 nativos do Alasca e 975 colonos de origem europeia. Entre novembro e julho, o porto ficava preso no gelo, e a ligação com o resto do mundo era a trilha Iditarod.

O único médico da cidade, Curtis Welch, tinha encomendado antitoxina nova antes do inverno, porque o estoque do hospital estava vencido. O carregamento não chegou antes de o porto fechar, informa o NPS.

Em 20 de janeiro de 1925, Welch diagnosticou difteria num menino de 3 anos, segundo a Smithsonian. Por telegrama, pediu socorro. O Museu de História Natural de Cleveland reproduz a mensagem: "Uma epidemia de difteria é quase inevitável aqui. Preciso com urgência de um milhão de unidades de antitoxina diftérica" (tradução nossa). Havia 300 mil unidades em Anchorage.

O soro foi de trem até Nenana. Dali para Nome, nada de avião: segundo o comitê da corrida Iditarod, o único piloto considerado capaz de enfrentar o tempo no território, Carl Ben Eielson, estava fora do Alasca. A saída foi um revezamento de trenós puxados por cães.

O revezamento

O primeiro condutor, William "Wild Bill" Shannon, pegou o pacote na estação de Nenana na noite de 27 de janeiro, com nove cães. Ao fim do seu trecho, de 52 milhas, estava com hipotermia e queimaduras de frio, segundo o museu de Cleveland.

Fila de cães de trenó com botinhas azuis correndo numa trilha de neve funda, vistos de trás do trenó, com um bosque de pinheiros cobertos de neve ao fundo.
Equipe de cães de trenó em Anchorage, no Alasca, em foto recente. Imagem ilustrativa: não mostra a corrida de 1925. Imagem: Yuhan Du, via Unsplash · Licença Unsplash

No total, foram 20 condutores e mais de 150 cães. O museu de Cleveland e a Universidade do Alasca falam em 674 milhas, cerca de 1.085 km; o comitê da Iditarod fala em "quase 700". O tempo é o mesmo nas duas fontes que o informam: 127 horas. Cleveland traduz isso como cerca de cinco dias e meio; a Iditarod, como cerca de seis. As temperaturas chegaram a 60 graus Fahrenheit negativos, cerca de 51 °C abaixo de zero, segundo o museu.

A corrida do soro e o que veio depois

  1. 20 de janeiro de 1925Curtis Welch diagnostica difteria num menino de 3 anos em Nome.
  2. 27 de janeiroÀ noite, Wild Bill Shannon parte de Nenana com o soro e nove cães.
  3. 28 de janeiroLeonhard Seppala e Togo saem de Nome rumo a Nulato, para encontrar o revezamento no meio do caminho.
  4. 31 de janeiroSem visibilidade, Henry Ivanoff e Seppala quase se desencontram. Ivanoff entrega o soro.
  5. 1º de fevereiroDe madrugada, Seppala passa o soro adiante. No mesmo dia, ele chega às mãos de Gunnar Kaasen.
  6. 2 de fevereiroPor volta das 5h30, Kaasen chega a Nome com Balto à frente da equipe.
  7. Dezembro de 1925Estátua de Balto é inaugurada no Central Park, com o cão e Kaasen presentes.
  8. 19 de março de 1927Balto e seis companheiros chegam a Cleveland, comprados com doações.
  9. 5 de dezembro de 1929Togo morre no Maine, aos 16 anos.
  10. 1933Balto morre em Cleveland.

O trecho de Togo

Leonhard Seppala, norueguês, era considerado um dos melhores condutores do Alasca. Togo, seu cão-guia, tinha nascido em 17 de outubro de 1913, segundo o NPS, e pesava cerca de 48 libras, uns 22 kg. Pela data de nascimento, tinha 11 anos em janeiro de 1925; o próprio texto do NPS diz 12.

Em 28 de janeiro, Seppala e Togo saíram de Nome no sentido contrário ao do soro, para encontrá-lo no meio do caminho. Segundo o museu de Cleveland, já tinham percorrido 150 milhas quando cruzaram com a equipe de Henry Ivanoff, em 31 de janeiro. Ivanoff, conta a Smithsonian, gritou: "O soro! O soro! Está aqui comigo!" (tradução nossa). Seppala deu meia-volta.

O caminho de volta passava pelo gelo do Norton Sound, uma enseada da costa do Alasca. Para a Iditarod, foi o "trecho crítico", de Shaktoolik a Golovin. A Smithsonian descreve que, num ponto de água aberta, Seppala amarrou uma corda longa ao arreio de Togo e o arremessou por cima do canal. A corda arrebentou, e o cão mergulhou na água gelada para pegá-la. Segundo o museu de Cleveland, a equipe cruzou o gelo três horas antes de ele se partir.

Quanto o trecho de Togo mediu depende do que se conta:

  • 261 milhas no total, ida e volta, segundo o NPS e a Smithsonian;
  • 135 milhas carregando o soro, segundo a Smithsonian, que diz ser mais de duas vezes e meia a distância de qualquer outro condutor;
  • 91 milhas, o maior trecho do revezamento, segundo o museu de Cleveland.

Em qualquer das contas, foi o trecho mais longo. Para o NPS, foi também o mais perigoso.

O trecho de Balto

Balto também era um dos cães de Seppala. O museu de Cleveland o descreve como um dos cães reserva: inexperiente, de corpo mais atarracado, que Seppala achava mais útil para carga do que para corrida. A Smithsonian é mais direta: "Seppala não considerava Balto um cão-guia e nunca o tinha usado como tal" (tradução nossa). Kaasen, por sua vez, alternava os cães da frente, e Balto ocupou a posição "em algumas ocasiões".

Isso não quer dizer que o último trecho tenha sido um passeio. Segundo o museu de Cleveland, uma rajada de vento virou o trenó e jogou o soro na neve, e Kaasen cavou com as mãos nuas até achá-lo. Pelo relato do próprio Kaasen, citado pelo museu, Balto parou a equipe ao pisar em gelo fino sobre o rio Topkok. O comitê da Iditarod registra ventos de 80 milhas por hora, cerca de 130 km/h, na nevasca.

No dia seguinte à chegada, a manchete do New York Times, reproduzida pela Universidade do Alasca, dizia: "Arrancada final leva antitoxina a Nome, mas ela está congelada. Acredita-se que o soro ainda esteja bom" (tradução nossa). A Smithsonian contabiliza pelo menos cinco mortos na epidemia e observa que muitas mortes entre nativos provavelmente nunca foram registradas.

Foto em preto e branco do condutor Gunnar Kaasen ao lado do cão Balto, em Seattle.
Gunnar Kaasen e Balto ao desembarcar em Seattle, em 21 de março de 1925, a caminho das filmagens de Balto's Race to Nome. A foto saiu no Seattle Post-Intelligencer no dia seguinte. Imagem: Staff photographer, Seattle Post-Intelligencer, via Wikimedia Commons · Domínio público

Como o reserva virou o herói

Balto era o cão que estava na frente quando a corrida terminou, e a imprensa acompanhava a corrida por telégrafo. Segundo a Smithsonian, alguns jornais atribuíram a ele feitos de Togo. Ainda em 1925, ele estrelou um filme mudo, Balto's Race to Nome.

Um grupo de artistas de Nova York liderado por Cecilia Beaux arrecadou dinheiro para a estátua, feita pelo escultor Frederick Roth. A data da inauguração diverge: 17 de dezembro de 1925, segundo a Central Park Conservancy, ou 15 de dezembro, na cena que abre o texto da Smithsonian. Balto e Kaasen estavam lá.

Seppala nunca engoliu. Num livro de memórias de 1930, citado pela Smithsonian, escreveu: "Eu me ressenti da estátua para Balto, porque, se algum cão merecia menção especial, era Togo" (tradução nossa).

Balto e Togo: o que se conta e o que as fontes mostram

Em cada item, primeiro: o que se conta. Depois: o que as fontes mostram.

Balto salvou Nome.
Vinte condutores e mais de 150 cães levaram o soro por cerca de 674 milhas. Balto guiou o último trecho, de 53 ou 55 milhas.
Balto era o grande cão-guia de Seppala.
Era um cão reserva do canil. Seppala nunca o usou na frente; Kaasen o pôs lá em algumas ocasiões.
O trecho final foi o decisivo.
O mais longo e perigoso foi o de Togo, com a travessia do gelo do Norton Sound.
A corrida foi feita por dois condutores famosos.
Condutores nativos do Alasca cobriram quase dois terços do percurso, segundo a Smithsonian.

Do palco ao museu

A fama durou pouco. Kaasen vendeu a equipe a um promotor de turnês, e os cães acabaram expostos num cômodo em Los Angeles, a 10 centavos o ingresso, segundo a Universidade do Alasca. O museu de Cleveland diz que Balto e seis companheiros estavam doentes e maltratados quando o empresário George Kimble os viu.

Kimble tinha duas semanas para juntar US$ 1.500. A campanha, feita por rádio e pelo jornal The Plain Dealer, levantou o dinheiro em dez dias. Em 19 de março de 1927, Balto, Fox, Billy, Tillie, Sye, Old Moctoc e Alaska Slim desfilaram pela Public Square de Cleveland e foram viver no zoológico de Brookside. Balto morreu em 1933, e o corpo empalhado está até hoje no Museu de História Natural de Cleveland.

O reconhecimento tardio

Togo se aposentou em Poland Spring, no Maine, onde foi sacrificado aos 16 anos, segundo o NPS. Seppala mandou empalhá-lo. A pele montada passou pelo Museu Shelburne, em Vermont, e hoje está no museu da sede da corrida Iditarod, em Wasilla, no Alasca. O esqueleto está no Museu Peabody, da Universidade Yale.

Em 1960, segundo o NPS, Seppala resumiu: "Nunca tive um cão melhor que Togo. Sua resistência, sua lealdade e sua inteligência não poderiam ser melhoradas. Togo foi o melhor cão que já percorreu a trilha do Alasca" (tradução nossa).

O reconhecimento veio aos poucos. Em 1995, Balto ganhou um filme de animação. Em 2011, a revista Time elegeu Togo o animal mais heroico de todos os tempos, e em 2019 a Disney lançou um filme com o nome dele, com Willem Dafoe no papel de Seppala, segundo a Smithsonian.

Há ainda quem continue fora da foto. Os condutores nativos do Alasca, que segundo a Smithsonian cobriram quase dois terços do percurso, receberam pouco reconhecimento até os anos 1970.

Balto não roubou nada de ninguém: correu no frio, na nevasca, e chegou. O que a história fez foi transformar o último trecho no único. É o mesmo atalho que transformou um cão que esperava na estação na lenda de Hachiko, cuja cena mais famosa provavelmente nunca existiu, e que levou um filme da Disney a jogar lemingues de um penhasco para filmar um suicídio em massa.

Fontes

  1. Togo (biografia), National Park Service, Departamento do Interior dos EUA
  2. This Heroic Dog Raced Across the Frozen Alaskan Wilderness to Deliver Life-Saving Medicine, but His Contributions Were Long Overlooked (2025), David Kindy, Smithsonian Magazine
  3. 100 Years After the Great Serum Run, Balto’s Legacy Endures (2025), Cleveland Museum of Natural History
  4. Booms and Busts: Iditarod Trail History, Iditarod Trail Committee
  5. Long after run to glory, Balto lives on (2023), Ned Rozell, Geophysical Institute, Universidade do Alasca em Fairbanks
  6. From Alaska to Central Park: Balto the Siberian Husky, Central Park Conservancy

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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre Balto e Togo?
Os dois eram huskies siberianos que guiaram equipes na corrida do soro para Nome, em 1925. Balto foi o cão da frente da equipe de Gunnar Kaasen no último trecho, de 53 milhas segundo o Museu de História Natural de Cleveland ou 55 segundo o Serviço Nacional de Parques dos EUA. Togo guiou a equipe de Leonhard Seppala por 261 milhas, no trecho mais longo e perigoso, que incluiu a travessia do gelo do Norton Sound.
Balto salvou Nome sozinho?
Não. A antitoxina foi levada de trem até Nenana e dali por um revezamento de 20 condutores e mais de 150 cães, ao longo de cerca de 674 milhas. Balto chegou com o soro a Nome na madrugada de 2 de fevereiro de 1925 e ficou com a fama. Segundo a Smithsonian Magazine, condutores nativos do Alasca cobriram quase dois terços do percurso.
Onde estão Balto e Togo hoje?
Balto morreu em 1933 em Cleveland, e o corpo empalhado está exposto no Museu de História Natural da cidade. Togo foi sacrificado em 1929, aos 16 anos, no Maine; a pele montada está no museu da sede da corrida Iditarod, em Wasilla, no Alasca, e o esqueleto pertence ao Museu Peabody da Universidade Yale.
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