Os lemingues suicidas do filme da Disney não pularam: foram jogados pela equipe de filmagem. O filme ganhou o Oscar de documentário
A cena de White Wilderness, de 1958, foi montada em Alberta com algumas dezenas de animais trazidos de Manitoba, uma plataforma giratória coberta de neve e um rio no papel de mar. A lenda, porém, é séculos mais velha que o filme.

Em 30 segundos
- Lemingues não cometem suicídio em massa. Em anos de população alta, eles se dispersam, atravessam água a nado e às vezes se afogam.
- A cena de White Wilderness (1958) foi encenada em Alberta, uma província sem saída para o mar: os lemingues foram jogados de um barranco num rio.
- A crença é bem anterior ao filme: em 1532 já se escrevia que lemingues caíam das nuvens, e havia quem dissesse que nadavam para o mar atrás de uma Atlântida submersa.
- Um estudo na Science de 2003 mostrou que o ciclo de quatro anos dos lemingues na Groenlândia é movido por quatro predadores, sem sinal de falta de comida ou de espaço.
Em 1958, a Disney lançou White Wilderness, um documentário sobre a fauna do Ártico. Numa das cenas mais famosas, uma massa de lemingues corre pela neve, chega a um penhasco e se atira no mar.
Os lemingues foram jogados. A cena foi montada em Alberta, no Canadá, uma província sem saída para o mar, e o "mar" era um rio. O filme ganhou o Oscar de melhor documentário de longa-metragem.
Lemingues não se suicidam. Em anos de população alta, eles se dispersam, atravessam água a nado e muitos se afogam. Mas nada disso é decisão de morrer. "É uma lenda urbana completa", disse o biólogo Thomas McDonough, do Departamento de Pesca e Caça do Alasca, em 2003 (tradução nossa).
O que o filme mostra
White Wilderness estreou em 12 de agosto de 1958, dentro da série True-Life Adventures, com direção e roteiro de James Algar e narração de Winston Hibler. O verbete oficial da Disney diz que cerca de uma dúzia de fotógrafos passaram "quase três anos no Ártico" filmando os animais "em seu habitat natural" (tradução nossa). O texto cita ursos-polares, lobos, morsas e baleias-belugas. Não menciona lemingues.
A sequência dos roedores é narrada em tom de tragédia. Segundo a transcrição publicada pelo Departamento de Pesca e Caça do Alasca, o narrador diz que "uma espécie de compulsão toma conta de cada pequeno roedor" e que eles marcham, levados por "uma histeria irracional", para "um estranho destino". Na beira do barranco: "Esta é a última chance de voltar atrás. Ainda assim, lá vão eles, lançando-se de corpo inteiro no espaço" (tradução nossa).
Há uma divergência sobre o que a narração afirma. O crítico Sean Axmaker, da Turner Classic Movies, escreve que ela chega a dizer que não existe nos animais um impulso instintivo desse tipo. A explicação dada seria a superpopulação, e os lemingues se confundiriam diante do mar, tentando atravessá-lo como se fosse um lago. Já o texto do Alasca diz que a locução sugere que eles "dão o mergulho" a cada sete a dez anos para aliviar a superpopulação. Seja qual for a leitura, as imagens mostram animais caindo de um penhasco por conta própria. E isso não aconteceu.
Como a cena foi feita
A encenação veio a público pela televisão canadense. Segundo o Departamento de Pesca e Caça do Alasca, uma investigação de 1983 do produtor Brian Vallee, da CBC, concluiu que as cenas eram falsas. A Turner Classic Movies data o programa Cruel Camera, da série The Fifth Estate, em 5 de maio de 1982. As fontes divergem no ano.
O que a investigação descreveu, segundo o texto do Alasca:
- os lemingues que pareciam se jogar no oceano foram atirados de um barranco pela equipe de filmagem;
- a grande "migração" foi feita com edição cuidadosa, enquadramentos fechados e algumas dezenas de lemingues correndo sobre uma plataforma giratória coberta de neve;
- o filme foi rodado em Alberta, fora da área natural da espécie, e o "mar" era um rio, disfarçado pelo corte apertado da imagem;
- os animais foram comprados de crianças inuítes em Manitoba, a duas províncias de distância.
Há cerca de 20 espécies de lemingues no norte circumpolar, segundo o mesmo texto, mas nenhuma naquela região de Alberta. A Turner Classic Movies registra que o filme foi fotografado ao longo de três anos no Alasca, em Alberta e em Manitoba.
A cena de White Wilderness e o que se apurou depois
Em cada item, primeiro: o que o filme mostra. Depois: o que as fontes mostram.
- Uma multidão de lemingues em migração pela tundra
- Algumas dezenas de animais filmados numa plataforma giratória coberta de neve, com edição e enquadramentos fechados
- Filmagem no Ártico, no habitat natural
- Filmagem em Alberta, província sem saída para o mar e sem lemingues naquela região; animais trazidos de Manitoba
- Os lemingues se atiram no mar por conta própria
- Foram jogados de um barranco pela equipe, segundo a investigação da CBC
- O oceano Ártico ao pé do penhasco
- Um rio, disfarçado pelo corte da imagem
Walt Disney sabia? Jim Korkis, num texto publicado pelo Walt Disney Family Museum, escreve que a equipe agiu "supostamente" "sem o conhecimento ou a aprovação de Walt e do estúdio" (tradução nossa). O mesmo texto reconhece que nenhum comportamento desse tipo jamais tinha sido documentado em lemingues. Axmaker, da Turner Classic Movies, considera "improvável" que os cinegrafistas tivessem autorização de Walt Disney.
Nada disso tirou o prêmio do filme. White Wilderness ganhou o Oscar de melhor documentário de longa-metragem na cerimônia de 1959.
A lenda é séculos mais velha que a Disney
O filme não inventou a ideia. Deu imagem a ela.
Em Voles, Mice and Lemmings, de 1942, o ecólogo Charles Elton, de Oxford, reconstitui a história. Em 1532, o alemão Jacob Ziegler registrou a crença de que os lemingues caíam das nuvens nas tempestades. Ele soube disso por dois arcebispos de Trondheim que estavam em Roma em 1522. Em 1555, Olaus Magnus repetiu a história, com uma xilogravura de lemingues despencando do céu junto com a chuva.
Elton também registra uma teoria que chama de "indestrutível" e "ainda mantida com tenacidade por muitos": a de que os lemingues deixavam as montanhas da Noruega e nadavam mar adentro em busca de um continente submerso, uma Atlântida da qual a Grã-Bretanha seria um fragmento (tradução nossa).

O que os lemingues fazem de verdade
O fenômeno por trás da lenda existe. Elton descreve as grandes migrações do lemingue-da-noruega: nos anos de pico, os animais descem as montanhas, atravessam campos, lagos, rios e cidades, e os que sobrevivem chegam ao litoral. "Ali eles nadam e muitas vezes alcançam ilhas a vários quilômetros de distância", escreve. "Embora muitos se afoguem", acrescenta (tradução nossa).
Mas nem a marcha é a coluna disciplinada do cinema. Elton cita o naturalista norueguês Robert Collett, para quem os lemingues "raramente, se é que alguma vez, avançam em fileiras cerradas, como geralmente aparecem nos desenhos", porque cada um parece seguir o próprio caminho (tradução nossa).
O zoólogo Gordon Jarrell, especialista em pequenos mamíferos da Universidade do Alasca em Fairbanks, chama o fenômeno de "dispersão em massa". "Eles chegam a um corpo d'água e ficam temporariamente parados, e acabam se acumulando na margem de forma tão densa que atravessam a nado. Se ficam encharcados até a pele, estão praticamente mortos", disse ao Departamento de Pesca e Caça do Alasca (tradução nossa).
Ele ouve a pergunta com frequência. E responde: "A resposta é inequívoca: não, eles não se matam" (tradução nossa).
Quem controla os números são os predadores
Se os lemingues não se eliminam, o que derruba as populações depois de cada pico? Um estudo publicado na Science em 2003, de Olivier Gilg, Ilkka Hanski e Benoît Sittler, olhou para o lemingue-de-colar no alto Ártico da Groenlândia.
A espécie é caçada por quatro predadores: o arminho, a raposa-do-ártico, a coruja-das-neves e o mandrião-de-cauda-longa, uma ave marinha. Um modelo baseado nas respostas desses predadores, medidas em campo, reproduziu a periodicidade de quatro anos que os dados de longo prazo mostravam.
Os autores escrevem que não há indicação, no campo, de que a falta de comida ou de espaço limite o crescimento da população. O ciclo é movido pelo atraso de um ano na resposta do arminho, que demora a se multiplicar, e estabilizado pelos outros três predadores. Nem fome generalizada, nem multidão desesperada à beira do abismo.
Da chuva de lemingues ao filme da Disney
- 1532Jacob Ziegler registra a crença de que os lemingues caem das nuvens durante as tempestades.
- 1555Olaus Magnus repete a história, com uma xilogravura de lemingues caindo do céu.
- 1579Um tratado anônimo publicado em Hamburgo registra a primeira migração datada, perto de Bergen, na Noruega.
- 1942Charles Elton descreve como ainda persistente a teoria dos lemingues que nadam para o mar atrás de um continente submerso.
- 12 de agosto de 1958Estreia White Wilderness, com a cena dos lemingues se atirando do penhasco.
- 1959O filme ganha o Oscar de melhor documentário de longa-metragem.
- 1982 ou 1983A CBC expõe a encenação; as fontes divergem sobre o ano.
- 2003A Science publica o estudo que atribui o ciclo dos lemingues da Groenlândia aos predadores.
A frase que ficou
A lenda também sobrevive como metáfora. Chamar alguém de lemingue é dizer que segue a multidão sem pensar, até o precipício.

A ironia é que, na cena mais famosa de lemingues marchando para a morte, quem empurrava estava atrás da câmera.
Se mitos sobre animais te interessam, vale conferir de onde veio a ideia de que o avestruz enterra a cabeça na areia. E, para outra história em que a imagem mais famosa não resistiu às fontes, veja o que aconteceu de fato com o pânico da Guerra dos Mundos em 1938.
E, para outro animal cercado de números exagerados, há a jararaca-ilhoa da Ilha da Queimada Grande.
Fontes
- Lemming Suicide Myth: Disney Film Faked Bogus Behavior (2003), Riley Woodford, Alaska Fish & Wildlife News, Departamento de Pesca e Caça do Alasca
- White Wilderness (1958), Sean Axmaker, Turner Classic Movies
- White Wilderness (film), Disney A to Z, D23 — Walt Disney Archives
- Walt and the True-Life Adventures (2012), Jim Korkis, The Walt Disney Family Museum
- Voles, Mice and Lemmings: Problems in Population Dynamics (1942), Charles Elton, Clarendon Press, Oxford — obra digitalizada
- Cyclic dynamics in a simple vertebrate predator-prey community (2003), Gilg, Hanski e Sittler, Science 302(5646), 866–868
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Perguntas frequentes
- Os lemingues se suicidam de verdade?
- Não. Em anos de população muito alta, os lemingues se dispersam em grande número, chegam a rios, lagos ou ao litoral e atravessam a nado; muitos se afogam. É morte acidental durante a dispersão, não um comportamento suicida. O zoólogo Gordon Jarrell, da Universidade do Alasca em Fairbanks, resumiu ao Departamento de Pesca e Caça do Alasca: a resposta é inequivocamente não.
- A cena dos lemingues no filme da Disney foi encenada?
- Sim. Segundo uma investigação do produtor Brian Vallee, da rede canadense CBC, relatada pelo Departamento de Pesca e Caça do Alasca, os lemingues de White Wilderness (1958) foram jogados de um barranco pela equipe de filmagem. A migração foi montada com edição, enquadramentos fechados e algumas dezenas de animais correndo numa plataforma giratória coberta de neve. As filmagens foram em Alberta, uma província sem saída para o mar, e o mar da cena era um rio.
- De onde veio a ideia de que os lemingues se matam?
- É anterior à Disney. Em 1532, o alemão Jacob Ziegler registrou a crença de que lemingues caíam das nuvens nas tempestades. Em 1942, o ecólogo Charles Elton descrevia como ainda persistente a teoria de que os lemingues da Noruega nadavam mar adentro em busca de um continente submerso. O filme de 1958, premiado com o Oscar de documentário, deu imagem à lenda e a levou ao grande público.
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